Não sou um grande fã de comparações e, por certo, também não o serão aqueles que são alvo das mesmas. Ainda assim, há algumas similaridades que têm o condão de deixar-nos orgulhosos. Nesse sentido, para um defesa-central conseguir ostentar o epiteto de "Beckenbauer Português" é, sem sombra de dúvidas, um desses bons exemplos. A alcunha é pertença de Humberto Coelho e, só por si, dá logo para aferir a qualidade da sua carreira.
Começou bem novo e, desde cedo, mostrou características de um atleta imponente, daqueles que, só pelo nome, faz tremer qualquer adversário. Aos 18 anos já fazia a estreia com a camisola principal das "Águias". Incrivelmente, num plantel que apresentava a maioria dos jogadores que haviam disputado as 5 finais europeias pelo Benfica, o jovem Humberto Coelho conseguia impor-se como titular. Ainda nessa temporada de 1968/69, o brilhante desempenho conseguido nas provas nacionais valeu-lhe a primeira chamada à selecção nacional. Os sucessos como profissional sucediam-se-lhe. A cada partida, o atleta crescia mais, tornava-se maior. O seu jogo aéreo era impressionante; o seu sentido posicional era um estrondo; a maneira como tomava consciência de tudo o que corria à sua volta era só para os predestinados. Para além de tudo isso, tinha outras coisas que faltavam à maioria dos praticantes da sua posição: sabia jogar com os pés e marcava muitos golos.
Todos esses predicados deram ao Benfica a segurança necessária para a conquista de muitos títulos. Pelos "Encarnados" venceu, no cômputo de duas passagens a perfazerem 14 temporadas, 14 títulos: 8 Campeonatos Nacionais, 5 Taças de Portugal e 1 Supertaça. Já em 1975 viu surgir a proposta do Paris Saint-Germain. Para a capital gaulesa, abalava da "Luz" aquele que, no distante Verão de 1968, numa tournée pelo Brasil, Otto Glória tinha incumbido de "anular" Pelé – "Eu marquei-o e ele não marcou nenhum golo"*. Contudo, em França, o desempenho da equipa a jogar em casa no Parc des Princes acabou por não ser condizente com a sua qualidade. A somar ao desaire colectivo, uma grave lesão num joelho já no decorrer da segunda época, pôs Humberto Coelho à margem das escolhas para o "onze". Pensou em sair. Em sentido contrário aos seus intentos, a direcção do clube parisiense tentou vendê-lo para o Internacional de Porto Alegre. No entanto, para o defesa-central a ideia de tal transferência estava longe do conceito de idílico. Ainda assim viajou para o Brasil. Na bagagem levava o intuito de arruinar as negociações. Conseguiu-o, exigindo um salário astronómico.
Regressou a Lisboa, mas pelo meio fez ainda, habitual naqueles tempos, uma passagem pelos Estudos Unidos da América, ao serviço dos Las Vegas Quicksilver. Voltava, para a temporada de 1977/78, um dos grandes símbolos do Benfica. Humberto Coelho era grande. Ainda assim, não o era somente pelas capacidades futebolísticas. Quem com ele partilhou os relvados, sabe, melhor do que ninguém, que o antigo defesa era um líder, era a voz de comando, o indivíduo certo para lidar fosse que grupo fosse. Por essa razão exibiu a braçadeira de capitão, tanto no Benfica, como por Portugal. Com a "camisola das quinas" conseguiu ainda outro feito: o de igualar Eusébio no recorde de jogos internacionais. Todavia, se o orgulho em representar o seu país foi sempre inegável, foi também com as cores lusas que veio a precipitar o fim da carreira e essa malfadada partida entre Portugal e a Finlândia não só resultou numa grave lesão, como fez com que o jogador perdesse a oportunidade de disputar um grande certame de selecções, o Euro 84.
Já depois de "penduradas as chuteiras", Humberto Coelho passou à condição de treinador. Começou no Sporting de Braga, passou pelo Salgueiros, mas o grande momento nessas funções viveu-o por Portugal. Apurou a selecção para o Euro 2000 e no torneio organizado entre a Holanda e a Bélgica conseguiu o brilharete de, no "Grupo da Morte", composto igualmente por Inglaterra, Alemanha e Roménia, passar para a fase seguinte, em primeiro lugar. De seguida, conduziu o conjunto luso até às meias-finais e só não chegou à derradeira partida do certame por causa, como temos na memória, de um controverso penalty.
*retirado de “101 Cromos da Bola”, Lua de Papel, Rui Miguel Tovar, Março de 2012
Começou bem novo e, desde cedo, mostrou características de um atleta imponente, daqueles que, só pelo nome, faz tremer qualquer adversário. Aos 18 anos já fazia a estreia com a camisola principal das "Águias". Incrivelmente, num plantel que apresentava a maioria dos jogadores que haviam disputado as 5 finais europeias pelo Benfica, o jovem Humberto Coelho conseguia impor-se como titular. Ainda nessa temporada de 1968/69, o brilhante desempenho conseguido nas provas nacionais valeu-lhe a primeira chamada à selecção nacional. Os sucessos como profissional sucediam-se-lhe. A cada partida, o atleta crescia mais, tornava-se maior. O seu jogo aéreo era impressionante; o seu sentido posicional era um estrondo; a maneira como tomava consciência de tudo o que corria à sua volta era só para os predestinados. Para além de tudo isso, tinha outras coisas que faltavam à maioria dos praticantes da sua posição: sabia jogar com os pés e marcava muitos golos.
Todos esses predicados deram ao Benfica a segurança necessária para a conquista de muitos títulos. Pelos "Encarnados" venceu, no cômputo de duas passagens a perfazerem 14 temporadas, 14 títulos: 8 Campeonatos Nacionais, 5 Taças de Portugal e 1 Supertaça. Já em 1975 viu surgir a proposta do Paris Saint-Germain. Para a capital gaulesa, abalava da "Luz" aquele que, no distante Verão de 1968, numa tournée pelo Brasil, Otto Glória tinha incumbido de "anular" Pelé – "Eu marquei-o e ele não marcou nenhum golo"*. Contudo, em França, o desempenho da equipa a jogar em casa no Parc des Princes acabou por não ser condizente com a sua qualidade. A somar ao desaire colectivo, uma grave lesão num joelho já no decorrer da segunda época, pôs Humberto Coelho à margem das escolhas para o "onze". Pensou em sair. Em sentido contrário aos seus intentos, a direcção do clube parisiense tentou vendê-lo para o Internacional de Porto Alegre. No entanto, para o defesa-central a ideia de tal transferência estava longe do conceito de idílico. Ainda assim viajou para o Brasil. Na bagagem levava o intuito de arruinar as negociações. Conseguiu-o, exigindo um salário astronómico.
Regressou a Lisboa, mas pelo meio fez ainda, habitual naqueles tempos, uma passagem pelos Estudos Unidos da América, ao serviço dos Las Vegas Quicksilver. Voltava, para a temporada de 1977/78, um dos grandes símbolos do Benfica. Humberto Coelho era grande. Ainda assim, não o era somente pelas capacidades futebolísticas. Quem com ele partilhou os relvados, sabe, melhor do que ninguém, que o antigo defesa era um líder, era a voz de comando, o indivíduo certo para lidar fosse que grupo fosse. Por essa razão exibiu a braçadeira de capitão, tanto no Benfica, como por Portugal. Com a "camisola das quinas" conseguiu ainda outro feito: o de igualar Eusébio no recorde de jogos internacionais. Todavia, se o orgulho em representar o seu país foi sempre inegável, foi também com as cores lusas que veio a precipitar o fim da carreira e essa malfadada partida entre Portugal e a Finlândia não só resultou numa grave lesão, como fez com que o jogador perdesse a oportunidade de disputar um grande certame de selecções, o Euro 84.
Já depois de "penduradas as chuteiras", Humberto Coelho passou à condição de treinador. Começou no Sporting de Braga, passou pelo Salgueiros, mas o grande momento nessas funções viveu-o por Portugal. Apurou a selecção para o Euro 2000 e no torneio organizado entre a Holanda e a Bélgica conseguiu o brilharete de, no "Grupo da Morte", composto igualmente por Inglaterra, Alemanha e Roménia, passar para a fase seguinte, em primeiro lugar. De seguida, conduziu o conjunto luso até às meias-finais e só não chegou à derradeira partida do certame por causa, como temos na memória, de um controverso penalty.
*retirado de “101 Cromos da Bola”, Lua de Papel, Rui Miguel Tovar, Março de 2012
Sem comentários:
Enviar um comentário