191 - McCARTHY

Terá sido a sua brilhante participação no Mundial de S-20 em 1997, a juntar aos muitos golos que desde tenra idade ia somando por clubes da Cidade do Cabo, que fez com que os responsáveis do Ajax apostassem nele para atacar a "Eredivisie", que no ano anterior tinha fugido para o PSV. Corria então a temporada de 1997/98 a meio e Benny mudava-se para Amesterdão. O clube holandês haveria de recuperar o título, mas a falta de constância do avançado no onze titular e talvez alguma impaciência do mesmo face à falta da titularidade, -lo querer, ao fim de ano e meio, mudar-se para a "La Liga". No Celta de Vigo, apesar de, inicialmente, ser utilizado com muita frequência, os golos teimavam em aparecer. Os 8 tentos em 31 partidas não eram, nem de perto nem de longe, suficientes para o manter como prioritário no escalonamento da sua equipa. A confiança nele depositada era cada vez menor e as épocas seguintes reflectiriam isso mesmo, com o atleta raramente a ser chamado. A solução encontrada foi o empréstimo ao FC Porto, que, já sob o comando de José Mourinho, procurava recuperar o estatuto de campeões, perdido há já uns anos. A apresentação de McCarthy seria feita com o jogador a exibir a camisola número 77, uma pequena provocação em alusão à pesada derrota, 7-0, sofrida pelo Benfica nas competições europeias, frente ao seu antigo emblema em Espanha. Para compor melhor o ramalhete, a sua estreia na Liga portuguesa aconteceria, passados uns dias, frente às "Águias", com o jogador, mais uma vez, a levar a dele avante, ajudando agora o seu novo clube na vitória por 3-2. Na "Invicta" McCarthy reencontrar-se-ia com a baliza. Os golos sucediam-se com o avançar das jornadas e no final da temporada, o rácio de 12 golos em 11 encontros, haveria de levar os dirigentes portistas a tentar a sua contratação em definitivo. No entanto, as exigências feitas pelo clube galego, por aquele que agora era um jogador novamente valorizado, não estavam alinhadas com o intuito de um FC Porto com pouco desafogo financeiro. Com o regresso contrariado aos Balaídos, o ponta-de-lança haveria de falhar aquele que seria o primeiro capítulo da nova senda vitoriosa dos "Dragões" na Europa, a conquista da Taça UEFA. Contudo, a sua vontade de voltar a vestir de "Azul e branco" não esmorecia, e o selar de tal "matrimónio" viria ainda a tempo do sul-africano conquistar a "Champions" e, já depois da despedida do "Special One", a Intercontinental.
Havia, no entanto, um sonho de menino que lhe faltava concretizar, o de jogar na "Premier League". Já o FC Porto, apesar da constante exigência do jogador em sair, só haveria de permitir que tal acontecesse em 2006/07. Finalmente, ainda que um pouco ressentido pela demora, a oportunidade aparecia, contava ele já com 29 anos - "Eu preferia ter vindo para aqui quando tinha 24 ou 25, quando eu estava fresco, quando sentia que eu era mesmo bom naquilo que fazia". Mas se as suas primeiras épocas em Inglaterra serviram para confirmar que a aposta do Blackburn não tinha sido em vão, as que se seguiram, principalmente aquelas em que, já a jogar pelo West Ham, negligenciou, notoriamente, a sua forma física, foram bem penosas para ele. Mas o pior castigo viria com o Mundial de 2010, com o avançado, à custa do seu excesso de peso e de mais algumas polémicas, a ser preterido na convocatória para o certame disputado no seu país natal.
Com os quilos a mais perdidos, e depois de já o ano passado ter visto gorada a hipótese de se mudar para o Sporting - "Costinha (...) falou comigo e estivemos perto de um entendimento, mas a transferência falhou" - McCarthy regressou à África do Sul e representa, hoje em dia, o Orlando Pirates.

190 - FARY

Quando chegou a Montemor-o-Novo, juntamente com o guarda-redes Khadim - que haveria de, anos mais tarde, voltar a ser seu parceiro de balneário no Boavista - por certo, Fary não pensou que ali saciaria o seu sonho de jogar na Europa. Não é que o Grupo União Sport não seja um clube honrado e até ambicioso, é o com certeza, mas, sejamos realistas, o avançado senegalês, que acabava de deixar o seu país natal e o ASC Diaraf, almejava, logicamente, um pouco mais do que disputar o Campeonato da 2ª divisão B de Portugal. Rapidamente essa vontade veio ao de cima, e as suas boas prestações no clube alentejano cativariam os clubes dos escalões profissionais. O salto daria-o, passadas duas temporadas, para Aveiro, e logo para jogar no primodivisionário Beira-Mar.
Abnegado, como todos os que o têm visto jogar o reconhecem, facilmente foi conquistando um lugar no coração dos adeptos. Está claro que os golos, e tantos que foram, ajudaram, e de que maneira, a estreitar essa relação entre o atleta e a sua massa associativa, mas a maneira esforçada, a vontade que, vezes e vezes sem conta, o empurrava para as balizas adversárias, essa sim, essa foi a força que ainda hoje faz dele um dos símbolos do emblema aveirense.
Desportivamente, a sua atitude positiva só o poderia recompensar. Primeiro, e logo no ano de estreia com os "Auri-Negros", 1998/99, Fary haveria de fazer parte do onze inicial que entraria em campo no Estádio Nacional, para a conquista da Taça de Portugal. Depois, no ano seguinte, e apesar de militarem na Divisão de Honra, a estreia nas competições europeias. Por fim, aquele momento que premiou toda a sua essência como jogador - o título de Melhor Marcador do Campeonato de 2002/03.
O passo seguinte na sua carreira levaria-o um pouco mais a Norte, à cidade do Porto. No Boavista, não é que a vida lhe corresse mal de todo, mas é um facto que o ponta-de-lança se afastou um pouco dos golos. No entanto a sua postura mantinha-se. A seriedade com que trabalhava e o sorriso que sempre tinha para com quem ele se cruzava, levaram-no, com o passar dos anos, a assumir um papel de relevo no seio do plantel "axadrezado". Tal era a sua importância, que, no último ano de "pantera" ao peito, haveria de envergar a braçadeira de capitão. Mas o Boavista começava agora a mergulhar na crise que ainda hoje o mantém numa situação deveras tremida, e Fary, que já passara há alguns anos dos 30, decide voltar a Aveiro e à casa onde, talvez, tenha sido mais feliz. Passados 3 anos desse regresso, depois de ver gorada a hipótese de terminar a sua carreira na terra dos Moliceiros, e também de uma curta passagem pelo Desp. Aves, Fary apresentou-se, esta época, aos 36 anos, novamente no Bessa e com a mesma atitude que sempre o caracterizou, um querer enorme em ajudar.

189 - HASSAN

Depois de vencer vários Campeonatos e Taças e, igualmente ao serviço do WAC de Casablanca, ter conquistado, por 3 vezes, o título de melhor marcador do seu país, Hassan decide que estava preparado para outras aventuras. A viagem, apesar de não muito longa, levaria-o para um universo desportivo um pouco mais distante daquele a que estava habituado em Marrocos. Do outro lado do Mediterrâneo, nas Baleares, vestindo agora o vermelho do RCD Mallorca, o avançado experimentava o fulgor competitivo da "La Liga". Contudo, à excepção da chegada à final da Taça do Rei, a qual perderia frente ao Atlético de Madrid de Futre, a aventura espanhola não lhe correria de feição, e após, no final da segunda temporada, o seu emblema ser relegado para o escalão abaixo, o atacante, vendo também a sua situação agravada pelo desentendimento com o técnico Lorenzo Ferrer, tenta a sua sorte do lado de cá da fronteira. No Farense foi outra a história. Estava agora junto a um plantel ambicioso. Um grupo que se orgulhava de fazer do Estádio São Luís um dos campos mais difíceis do campeonato, e que, acima de tudo, aos "mordiscar" constantemente as posições europeias, ocupava sempre um lugar na metade superior da tabela. Muita culpa teve Hassan nessas lutas. Está bem, poderá haver aqueles que o apontam como tecnicamente desajeitado, até trapalhão!!! Mas que dizer da força que impelia às suas ofensivas, da velocidade, da capacidade excepcional em se desmarcar frente aos guardiões adversários... dos golos???!!! E foram muitos, tantos que ainda hoje é o melhor marcador da história do clube algarvio. Tantos que, já depois de o levarem ao Mundial de 1994 nos E.U.A., e logo no ano em que, finalmente, os "Leões de Faro" conseguiriam a tão almejada qualificação para as provas da UEFA, haveriam de o tornar no Melhor Marcador do Campeonato português de 1994/95.
Com tais metas alcançadas, o sonho de progredir na carreira começa a ganhar forma. O Benfica parecia agora materializar-se como o clube certo para esse seu novo passo. E até certo ponto, foi. Foi, pelo menos, durante os primeiros tempos em que aí jogou. Foi pelas vitórias que os seus golos iam conseguindo, como naquela embate frente ao Roda, onde dois tentos por si concretizados nos derradeiros minutos da partida, dariam a volta à eliminatória. Mas a instabilidade vivida para o lados da "Luz", cobria tudo de uma injusta impaciência. E quando uma lesão o afastou dos relvados e o insucesso da equipa regressou, havia que apontar alguém como culpado.
Hassan regressava, dois anos volvidos, ao seu Farense. Depois de assobiado em Lisboa, alvo da ira de alguns adeptos que não entendiam que o mal do seu clube ia muito para além dos jogadores, o ponta-de-lança voltava a ser acarinhado. Voltava a recuperar aquele laço, que para além do jogo, do que pudesse alcançar nele, o ligava umbilicalmente aos fãs. E foi assim que continuou, lado-a-lado, com o seu o coração a bater por baixo da camisola que sempre honrou. Mesmo nos tempos difíceis, mesmo quando as dificuldades financeiras empurraram os algarvios para as divisões inferiores, ele manteve-se irredutível, sinónimo inequívoco de uma grande e nutrida paixão.

188 - YEKINI

Ao contrário de tantas outras estrelas do futebol dos países africanos, que por norma até surgem, muitas vezes ainda nos escalões de formação, bem novas nos campeonatos europeus, a aventura de Yekini fora do seu continente, só começou já este contava com muitos anos de tarimba na profissão. Depois de competir na sua natal Nigéria e na Costa do Marfim, foi já com 27 anos feitos, corria o campeonato de 1990/91 a meio, que o avançado fez a sua estreia pelo Vitória de Setúbal. As referências eram inequívocas. Tratava-se de um jogador fisicamente possante, contudo veloz. Dizia-se dele ser poderoso no jogo aéreo e, apesar da maneira um pouco inestética de atacar os lances, contava-se que tinha um instinto capaz de devastar as melhores defensivas!!! E era bem verdade. No entanto, apesar da sua boa contribuição e, principalmente, dos 13 golos (nada mau para quem só começou à 14ª jornada!!!), a sua equipa não conseguiria, nessa temporada, evitar a despromoção para o escalão secundário. O regresso dos "Sadinos" ao convívio dos grandes só aconteceria passados dois anos, e mesmo tendo em conta que, por essa altura, já o ponta-de-lança tinha conseguido um lugar cativo no coração dos seus adeptos, faltava-lhe ainda atingir mais algumas metas para que fosse exaltado como um dos grandes na sua posição. E que apoteótica seria a época que estava agora para começar!!! Seguindo-se ao título de Melhor Jogador Africano do Ano de 1993, o primeiro de sempre para um atleta do seu país, e de uma prestação na Taça de África das Nações de 1994, onde, para além de se consagrar como o goleador máximo, sairia, juntamente com os seus companheiros, vitorioso do torneio, Yekini conquistaria, igualmente, o lugar cimeiro da tabela dos Melhores Marcadores no Campeonato português. O presságio para o que aí vinha não poderia ser o melhor. É que a estreia da sua selecção num Mundial estava marcada para a Primavera de 1994, e claro, o atacante fazia parte dos eleitos para voar até aos Estados Unidos. O embate inicial era contra a Bulgária e a fortuna de ficar na memória do futebol da sua nação, ficaria à sua mercê, quando, na grande área adversária, surgiu, pela primeira vez na história das "Super Eagles", a oportunidade de marcar um golo no maior certame de futebol do planeta. Yekini não falharia e a imagem dos seus emocionados festejos, agarrado às redes da baliza búlgara, correu as televisões de todo o globo. Era óbvio que com todo este sucesso, seria muito difícil para o emblema setubalense, conseguir aguentar nas suas fileiras o goleador. Assim, no Verão de 1994, Yekini dá o passo esperado no evoluir da sua vida como futebolista e transfere-se para o Olympiakos. Contudo a sua carreira acabaria por não sofrer a progressão por si desejada. Muito pelo contrário!!! Tanto na Grécia, como já depois em Espanha, ao serviço do Sp. Gijon, fruto de uma notória inadaptação, as suas exibições nunca mais teriam a força de antigamente. Yekini, talvez na busca do brilho perdido, ainda volta a Setúbal, mas idade começava agora a sentir-se. continuou, reflexo de um temperamento indomável bem vincado, a jogar por esse Mundo fora. Aos 41 anos, já depois de ter regressado a África, decidiu pôr um ponto final na longa e bonita carreira daquele que ainda hoje é, pela equipa nacional da Nigéria, o recordista com o maior número de golos marcados.

187 - CADETE

Depois de em 1987 subir aos seniores e do empréstimo ao Vitória de Setúbal no ano seguinte, o regresso de Cadete a Alvalade, por razão das boas exibições na equipa do Sado, envolveu-se das melhores expectativas. O avançado depressa mostrou o que tinha a dar ao Sporting e ninguém se espantou quando, logo às primeiras jornadas, este se assumiu como um dos elementos a ter em conta no plantel. Contudo, apesar de mostrar inequívocas qualidades e da sua presença em campo ser regular, os golos teimavam em não aparecer. A sua primeira grande explosão estaria reservada apenas para a temporada de 1991/92. Finalmente, o atacante começava a mostrar a assertividade finalizadora que tanto dele se esperava. O mais engraçado disto é que os 25 tentos alcançados nesse campeonato, a melhor marca que conseguiu pelos "Leões", seriam, ante o endiabrado boavisteiro Ricky (cromo nº 186), insuficientes para vencer a corrida de melhor marcador do nacional. Essa meta atingiria-a no ano seguinte, mas ironicamente, desta feita, bastar-lhe-iam 18 golos para tal.
A época que se sucederia, com a substituição de Bobby Robson por Carlos Queiroz no comando técnico leonino, trouxe a Cadete alguns dissabores. Segundo o próprio, "Foi mais um mal-entendido. Eu era o capitão de equipa e dois companheiros meus estavam a discutir. Eu mandei-os calar e Queiroz pensou que eu tinha começado a discussão.". O equívoco fez com que, aos olhos do treinador, a sua importância no seio da equipa diminuísse. A sua utilização foi decrescendo e a solução encontrada para problema seria o empréstimo ao Brescia da Seria A italiana. Cadete entrava agora numa fase negativa da sua carreira. A saída para Itália resultaria num rotundo falhanço, e a volta não traria mais do que novos litígios com o clube.
Na Primavera de 1996 deixaria de novo Portugal. Rumava agora a Glasgow e quando tudo para ele parecia encaminhar-se, mais um obstáculo. O processo da inscrição pelo Celtic parecia não ter fim. Especulou-se que o atraso de seis semanas teria como propósito evitar que o avançado participasse na meia-final da Taça da Escócia, frente ao rivais do Rangers. Verdade ou não, o que é facto é que o Chefe Executivo da "Scottish Football Association", Jim Farry, na sequência da investigação que se seguiu e que deu o erro como grosseiro, haveria de ser demitido do seu cargo. Caso à parte, a sua estreia aconteceria num desafio contra o Aberdeen. O início foi no "banco", mas com o avolumar do "placard", que já ia nos 4-0 para o Celtic, o treinador decide que era a vez do ponta-de-lança. E não foi preciso muito para se mostrar! Bastou responder a uma desmarcação, e ao primeiro toque na bola, com um belo "chapéu" ao guardião, Cadete fez entrar a bola nas redes. O que se sucedeu foi ainda mais incrível. O público entrou em delírio e tal foi o barulho dos festejos, que os microfones da BBC, durante largos segundos, não conseguiram captar mais nada!!!
Os fãs ganhavam um novo ídolo e a cada golo seu eram entoados inspiradores cânticos:

“There’s only one Jorge Cadete,
he puts the ball in the netty,
He’s Portuguese and he scores with ease,
walking in Cadete wonderland.”

Estava ressuscitado o homem de área. A rapidez com que atacava os lances, a facilidade com que se movimentava no campo e o seu poder de elevação, faziam dele um atacante temível. A porta do sucesso estava de novo escancarada para si e a resposta daria-a na segunda temporada, com a conquista do título de goleador máximo, não só do campeonato escocês, como de toda a Grã-Bretanha. Agora, o que depois aconteceu é que ninguém estava à espera!!! Ao que parece, em rota de colisão com a direcção, supostamente por exigências contratuais negadas, Cadete, talvez na pior decisão da sua vida de futebolista, força a sua transferência e entra, definitivamente, em declínio. Seguem-se Celta de Vigo e Benfica. Em nenhum dos emblemas haveria de conseguir impor-se, e depois das passagens, sem fulgor, por Bradford e Estrela da Amadora, o atleta suspende a sua actividade desportiva, acabando, a convite de um canal de televisão português, por participar num "Reality Show". Ainda regressaria aos campos, mas de destaque só mesmo a sua derradeira "jogada" - a participação, a pedido do amigo e antigo colega Fernando Mendes, nos Distritais de Beja, ao serviço do São Marcos.
Hoje, depois da experiência como treinador na sua escola de formação, orienta pela primeira vez uma equipa de futebol, o RD Algueirão, equipa que milita nos Regionais da Associação de Futebol de Lisboa.

186 - RICKY

Ainda não tinha atingido a maioridade e já o jovem Richard Owubokiri espalhava o terror pelas grandes áreas contrárias. A sua natal Nigéria andava espantada com aquele novo talento, e era tal o seu sucesso que, com apenas 18 anos, estreia-se pela equipa nacional. Era ambicioso o trilho que se lhe adivinhava e, em jeito de grandes cavalgadas, este começava a ser percorrido a um ritmo alucinante. Com o salto seguinte conseguiria, pelo Sharks FC, sagrar-se o melhor marcador do Campeonato, e depois, convocado por um antigo conhecido do futebol português, Otto Glória, foi vê-lo, na Líbia, a participar na edição de 1982 da CAN.
Seria mesmo à custa do treinador brasileiro que o avançado africano teria a sua primeira experiência no estrangeiro. Do outro lado do Atlântico, no América do Rio de Janeiro encontraria os primeiros obstáculos na sua carreira. Desadaptado a uma realidade nova, e tapado por uma linha atacante que não lhe dava oportunidades, seria curta e discreta a sua aventura carioca. Restava-lhe agora nova sorte num Vitória que atravessava uma fase conturbada. Mas aqui a história seria outra. Logo na primeira partida, no fervoroso "derby" Vitória x Bahia, haveria de marcar um dos tentos da sua equipa e "Isso garantiu-me logo um lugar no coração dos adeptos". A velocidade voltava a ser a sua melhor aliada na obtenção dos golos, e no último ano ao serviço do emblema nordestino, 1985, o já apelidado de "Gazela Negra", juntaria ao Campeonato, a conquista do título de melhor marcador baiano.
As boas prestações aguçaram-lhe o apetite para outros voos e abririam-lhe as "portas" da Europa. Depois da França, Laval e Metz, chegava a hora de Portugal e do Benfica. Com a "Águia" ao peito, o agora, ao bom jeito dos nossos diminutivos, baptizado de Ricky, tocaria os extremos. Se por um lado, na pré-época, teria o azar de fracturar a perna, por outro, a sua primeira partida oficial pelos "encarnados" seria memorável. O encontro era para a Taça de Portugal, o adversário o modesto Riachense. O Benfica ganharia por 14-1 e, nada mais nada menos, com 6 golos do novo ídolo - "Cá fora, demorei mais de 30 minutos para sair do Estádio. Eram tantos os pedidos de autógrafos!". Mas a verdade é que a concorrência - Magnusson, Vata, César Brito - era enorme e não restou muito mais a Ricky do que se transferir, finda a época, para o Estrela da Amadora. Na Reboleira, para além dos 28 golos em duas temporadas, o nigeriano faria parte do conjunto que em 1990, depois de disputadas a Final e a Finalíssima, levantaria o único troféu do clube, a Taça de Portugal.
O brilho estava outra vez no seu caminho, mas seria a passagem para o Boavista que elevaria Ricky a um novo patamar. Não foi necessário esperar muito, e logo no primeiro ano com os "axadrezados", o ponta-de-lança deixaria a sua marca. Os 30 golos que marcaria em 1991/92, incluindo os 5, nos 5-0 ao Estoril, fazem-no vencer a lista dos goleadores em Portugal e ficar em 2º na corrida europeia. Se adicionarmos estes aos tentos que marcou na Taça, principalmente aquele que, na final, ajudaria as "Panteras" a vencer o troféu, então podemos entender porque ainda hoje é considerado como uma das estrelas daquele grupo. Mas o êxito não se resumia só às competições internas, e nessa mesma época, os boavisteiros eliminariam o Inter da Taça UEFA. Seria também na dita competição, dois anos passados e desta feita frente à Lazio, que Ricky recorda um dos momentos mais caricatos porque passou - "Era a segunda mão dos 16 avos de final da Taça UEFA, e tínhamos perdido 1-0 em Roma. Precisávamos de ganhar. E ele, o Major, apareceu no balneário antes do jogo e atirou um saco cheio de dinheiro ali para o meio. Disse-nos: "Isto é vosso se ganharem." Ganhámos 2-0 e eu marquei os dois golos ao Marchegiani." Por falar em caricato, estranho foi também aquilo que ocorreu no Mundial-94. Apesar de, inicialmente, até ter sido chamado durante a qualificação, para espanto de todos, o avançado acabaria por falhar a convocatória para a fase final. Ao que parece, Clemens Westerhof, "O seleccionador de então pedia dinheiro aos jogadores. Isto é, quem quisesse jogar, pagava-lhe. Ora eu sou titular da Nigéria porque mereço, trabalho e marco golos, não porque dou um saco de dinheiro a um treinador".
Apesar da desilusão de não marcar presença no torneio norte-americano, Ricky prosseguiu a sua vida. Já depois de abandonar o Bessa, e após um curto regresso ao Vitória e posterior passagem pelo Belenenses, decide-se pela Ásia do "petróleo". Mesmo sabendo que os seus derradeiros dias estavam para breve, foi incapaz de, nos relvados, pôr de parte a imagem de lutador. Assim, no Al-Arabi do Qatar chegaria, mais uma vez, ao lugar cimeiro dos melhores marcadores, e, para terminar, no Al Hilal da Arábia Saudita, tornar-se-ia no artilheiro maior do Médio Oriente.
Agora que "pendurou as botas", vive, com os filhos e a mulher, "Uma baiana de gema", no Brasil. Em Salvador criou uma escola de futebol, a "Ricky Soccer Academy", e é, igualmente, estimado pela organização de projectos sociais em bairros desfavorecidos.

185 - RUI ÁGUAS

Não deve ser nada fácil, para um jovem que procura singrar no mundo do futebol, carregar aos ombros um apelido como o de Águas. As comparações com o seu pai, José Águas, eram inevitáveis - "(...) era olhado como mais um e como o filho de uma grande estrela." - e a pressão causada por essa indissociação, acabariam por fazê-lo tropeçar logo aos primeiros passos. Assim, depois de não singrar nas camadas jovens benfiquistas e de igual destino no Sporting, Rui Águas, chegou mesmo a abandonar a modalidade para se dedicar apenas ao voleibol. Em boa hora se arrependeu, mas as portas dos "grandes" pareciam agora ter-se fechado, e o seu regresso seria feito no modesto Sesimbra. Depressa foi subindo degraus e depois de uma passagem por Alcântara, no Atlético, finalmente faria, com as cores do Portimonense, a sua estreia na divisão maior do Nacional. No Algarve começou a mostrar as qualidades que fariam dele uma das maiores estrelas do futebol português. Inteligente, capaz de, como ninguém, entender toda a dinâmica do desporto que praticava, percebeu, talvez pelas desilusões que viveu no início da sua carreira, que o esforço e a dedicação eram essenciais para o seu sucesso. O resto, foi deixar que tudo isso se entregasse, agora sim como o pai, a um poder de impulsão e a um jogo de cabeça invulgares, e os golos, naturalmente, começaram a surgir.
A sua estreia na Selecção aconteceria ainda durante a sua estadia a Sul. Nesse mesmo ano, o de 1985, caiu sobre ele o interesse de outros emblemas. Depois dos primeiros contactos feitos pelo FC Porto, o ponta-de-lança, rendido ao exalo e à mística, que nele nunca esmoreceu, decide retornar à "Luz". O primeiro ano de "Águia" ao peito, tapado pelo "gigante" Manniche, não começaria de feição. Contudo, o espaço e as oportunidades que foi ganhando no seio do plantel, para além de 11 golos, permitir-lhe-iam conseguir frente ao Desp. Chaves, o seu primeiro "hat-trick". A importância que tinha para o conjunto ia crescendo de jornada em jornada. Em 1986/87 torna-se num dos principais pilares da vitória "encarnada" no Campeonato, e na temporada seguinte, com 2 golos frente ao Steaua Bucareste, na Segunda Mão da Meia Final da Taça dos Campeões Europeus, abre as portas da Final ao seu clube.
No entanto, e apesar de realizado desportivamente, Rui Águas sentia-se injustiçado - "(...) nós no Benfica ganhávamos muito mal, mesmo em termos nacionais, muito mal mesmo". As negociações para a renovação do seu contrato estavam muito longe de conseguir consenso no que dizia respeito aos valores desejados pelo atleta, e uma proposta do FC Porto, oferecendo "11 vezes mais do que aquilo que ganhava no Benfica", levaria-o a rumar às "Antas". A verdade é que a vida na "Invicta" não lhe traria o conforto desejado. Se por um lado, uma certa hostilidade inicial, por parte de alguns colegas de balneário, não o ajudou, o sentimento de arrependimento, aliado à tristeza de ver seu pai tão desiludido, acabariam por, ao cabo de dois anos, fazê-lo regressar - "(...) sentia a mágoa do clube, do meu pai, enfim, houve um conjunto de coisas que me estimularam a voltar."
Tudo parecia agora, para mais com a conquista do título de melhor marcador em 1990/91, correr de feição para o avançado. Mas na época que se seguiu, na disputa daquela que foi a primeira edição da "Champions", Rui Águas, viveria uma das piores experiências da sua vida de futebolista. O jogo, em Kiev, era contra o Dínamo. O atacante, começaria logo por, num lance infeliz à meia hora de jogo, fazer a "assistência" para o golo de Salenko, que ditaria a derrota do Benfica. Como se não bastasse o castigo de se ver a perder, já no final da segunda parte, num dos momentos mais arrepiantes a que assisti, Rui Águas acaba por partir o pé, e em parte, para o que restava no seu caminho, algum do fulgor que o caracterizava. O fim da carreira estava reservado para 1995. Claro, não, sem antes, ajudar o Benfica a vencer o mítico campeonato de 1993/94, e depois, também, de dar uma "perninha" no estrangeiro, no Reggiana da Serie A italiana.

184 - VATA

Depois de, na agora RD Congo, ter representado o FC Ruwenzori, onde chegou a ser o melhor marcador do emblema de Kinshasa, Vata voltava a Angola pela mão do técnico Laurindo, que, em 1981, preparava, apoiando-se no regresso de jogadores espalhados pelo estrangeiro, uma renovação no plantel do Progresso de Sambizanga. Não foi preciso muito tempo para que o avançado se tornasse num dos novos heróis dos "Gregos de Sambila", os adeptos do emblema da capital. A responsabilidade era daquela sua maneira discreta de, sem que quase ninguém desse por ele, ir acrescentando, jogo após jogo, golos ao seu rol. Foi-se assim mantendo por Luanda até que, em 1984, não resistiu a novo apelo da diáspora e rumou, desta feita, a Portugal. Seguiram-se no seu percurso, Águeda e Varzim, e o seu jeito típico, aparentemente trapalhão, como quem entra aos tropeções pela grande-área dentro, ia ganhando cada vez mais fãs. Tantos, ao ponto de o Benfica o escolher como o homem certo para suprimir a saída de Rui Águas para o rival FC Porto. É verdade que a confiança que os associados "encarnados" depositaram no novo reforço, inicialmente, não foi a melhor. Mas o ponta-de-lança não se sairia nada mal. Logo na sua época de estreia, a de 88/89, a juntar ao Campeonato Nacional, acabaria por vencer também a tabela dos Melhores Marcadores, e o mais incrível disto tudo, é que o conseguiu sem nunca ser um dos titulares indiscutíveis!!! A sua segunda temporada, sem as conquistas da anterior, teve no entanto um dos momentos mais áureos da sua carreira. O jogo era o da 2ª Mão da Meia-final da Taça dos Campeões Europeus frente ao Marseille. O Estádio da "Luz", à pinha, aguardava, ansiosamente, que um golo benfiquista desfizesse a derrota, por 2-1, averbada no encontro, 15 dias antes, em França. Aproximava-se o final da partida e do campo nada! Das bancadas também só saía esse silêncio sepulcral que se eleva das desilusões. Então, na sequência de um canto marcado por Valdo, e depois de um primeiro desvio de Magnusson, Vata empurra a bola para o fundo das redes. E empurrar é mesmo o verbo certo, pois, o golo foi, sorrateiramente, marcado de forma irregular. O que interessava?!!! Nada!!! Finalmente acendia-se o "Inferno" e o Benfica, à custa dessa "Mão de Deus" africano, rumava pela 7ª vez na sua história à final da competição.
Seria difícil que o que estivesse para vir no que restava da sua carreira, fosse de idêntica emoção. Mesmo assim, após Estrela da Amadora e Torreense e uma, igualmente curta, passagem pelo Floriana de Malta, Vata decide arriscar-se em paragens mais exóticas. Na Indonésia, onde acabou por encontrar o seu antigo camarada da "Luz" e dos "Palancas Negros", Abel Campos, penduraria, ao fim de 5 anos, as chuteiras. Claro, não sem antes voltar a ganhar a corrida, ao serviço do Gelora Dewata, do melhor marcador do campeonato.
Hoje em dia, depois de ter experimentado o papel de treinador, dedica-se ao associativismo. É, desde Outubro passado, o Presidente da Associação Provincial de Futebol de Praia de Luanda!!!

183 - JACQUES

Foi no Algarve, mais concretamente no Lusitano de VRSA, que nasceu para o futebol. As sucessivas temporadas de boas prestações fizeram com que, progressivamente, fosse subindo degraus na sua carreira. Foi assim que, depois de representar na primeira divisão alguns clubes de menor monta, como Farense e Famalicão, chegou a Braga e ao Sporting local. Aí confirmou tudo o que dele se esperava. Provou que a sua astúcia e a maneira como, na grande área, parecia omnipresente, eram o que bastava para suprimir uma ou outra falta qualquer. Marcou, principalmente no seu segundo ano com os "Arsenalistas", golos que começaram a justificar outro salto, outro voo. Foi isso mesmo que o FC Porto viu nele, alguém com outros horizontes, um praticante com propósitos ganhadores. A Jacques cabia agora, vestido de "azul e branco", o papel de fazer esquecer Fernando Gomes, que deixara no Verão de 1981, um ano antes da sua chegada, o Estádio das Antas. O começo foi prometedor, com o avançado a sagrar-se o melhor marcador do campeonato com 27 tentos. Igualmente, nessa sua época de estreia, conseguiu atingir outros marcos. Chegou, pela primeira e única vez, à Selecção Nacional Portuguesa e fez, talvez, se não o seu jogo mais memorável, pelo menos aquele que nenhum adepto portista consegue esquecer. Os "Dragões" vinham da primeira mão da Supertaça Cândido Oliveira com uma derrota por 2-0 - dois golos de Nené. A vantagem parecia ser confortável o suficiente para que já poucos acreditassem numa reviravolta. Mas Jacques, conhecido pela sua perseverança, pela sua vontade, incansável, de querer lutar até aos derradeiros instantes, nunca pensou o mesmo. Um "hat-trick" depois e o atacante levantava o "caneco". Era ele agora o principal responsável pelo resultado de 4-1 que dava a vitória ao FC Porto, naquela que era a primeira edição oficial - organizada pela FPF - do troféu. Conquistara de vez o coração dos associados e só começou a perder o estatuto de predilecto quando, aquele que viria a ser, o "bi-bota d'ouro" decidiu voltar da sua, não muito proveitosa, aventura asturiana, no Sp. Gijon. Daí em diante o seu protagonismo foi-se desvanecendo. Contudo, ainda foi mantendo o sua importância, ao ponto de na campanha europeia de 1983/84, os seus golos terem sido cruciais para a chegada do emblema da "Invicta" à Final da Taça das Taças em Basileia.
A sua saída do FC Porto, já com 30 anos, marcaria o início da fase descendente da sua carreira. O regresso ao Sp.Braga e a posterior passagem pelo Sp. Covilhã sublinhariam isso mesmo, com Jacques a já não conseguir mostrar o fulgor de outrora, mas a prevalecer na lembrança como um dos bravos do futebol nacional.

182 - NENÉ

Quando em 1966, o seu pai endereçou ao irmão alguns recortes de jornais, onde, sobre Nené, se lia que acabava de ser eleito o melhor júnior do campeonato moçambicano, nunca supôs que acabava de dar o primeiro passo para o aparecimento de uma das grandes lendas do futebol português. A verdade é que, provavelmente, para além do normal orgulho em mostrar o feito do filho, essa dita carta, terá tido um outro propósito. É que o destinatário de tal correio, também ele antigo jogador, era o pai de Cavém, astro maior do futebol benfiquista. O que se seguiu é fácil de adivinhar. O jovem trocaria o Ferroviário da Manga pela "Luz". Aí terminaria a sua formação e em, 1968, pela mão de Otto Glória, chegava assim à equipa principal.
Apesar de, desde cedo, mostrar uma aptidão excepcional para o jogo, as suas duas primeiras temporadas entre os séniores, ainda na sombra de outros craques, seriam discretas. Contudo, a rapidez e a técnica que, durante as quais, foi aperfeiçoando, apontou-o logo como o sucessor natural de José Augusto. Sem nada ficar a dever ao bi-campeão europeu, o jovem extremo foi talhando o seu próprio caminho. O sucesso era tal, que, em 1972, haveria de ser sondado pelo Real Madrid, convite que, sem hesitar, recusaria - "Houve até reuniões entre os presidentes Borges Coutinho e Santiago Bernabéu. Ofereciam 25 milhões de pesetas ao Benfica pelo meu passe. Mas não. Sou do Benfica e pronto.". Nené não parava de crescer em direcção ao estrelato, e logo no ano seguinte, daria mais uma prova do seu valor, quando, ao juntar-se a nomes como o de Eusébio, Cruijff e outros, fez parte da selecção da Europa.
Pela banda direita do campo manter-se-ia até que Mário Wilson, ao aperceber-se da inteligência com que atacava as bolas, decidiu transformá-lo num ponta-de-lança. Em boa hora o fez, pois a adaptação pensada pelo "Velho Capitão" resultaria, daí em diante, e tirando raras excepções, em bem mais de 20 golos por ano. Foi assim em 1980/81, em que, a juntar ao "hat-trick" feito na vitória por 3-1, na final da Taça de Portugal frente ao FC Porto, conquistaria também, o lugar cimeiro da tabela dos melhores marcadores. Nessa temporada venceria ainda o Campeonato e a, à data não oficial, Supertaça. Seria nesse mesmo troféu, desta feita já organizado pela Federação e com o nome de Cândido Oliveira, que, passada uma época, Nené, e apesar da derrota, ficaria na história como o primeiro atleta a marcar na competição.
Apesar de todos os golos marcados o avançado nunca foi consensual para o "Terceiro Anel". Muitos foram os apupos e outras tantas as vezes em que seria apontado por não lutar o suficiente. Para o próprio, "havia uma minoria de adeptos que me assobiava porque eu não sujava os calções, porque eu evitava o choque, porque eu não fazia carrinhos despropositados, porque eu não me esforçava naquelas bolas longas e irremediavelmente perdidas. Com a quantidade de golos que marquei, chego à conclusão que, se calhar, era mais esperto que os outros, não? Alguém marca golos deitado? No chão? Não, é de pé. E eu lá estava sempre em pé, a empurrar a bola para a baliza." E foram muitas as vezes... tantas que ainda agora, e para juntar ao título de jogador com mais partidas, fazem dele, com os seus 359 tentos, o 3º melhor marcador da história das "Águias"!!!

GOLEADORES, parte II

Depois de muitos pedidos e, também por que temos que concordar que o capítulo ficou muito incompleto, decidimos acrescentar mais uns episódios àquela que é a história dos homens que fazem parte do rol dos melhores marcadores do nosso campeonato. Assim, para mais uma vez exaltarmos aquilo que de mais heróico tem o futebol, o golo, dedicamos este mês de Novembro aos incendiários das nossa almas, os "Goleadores"!!!