684 - BALTAZAR

Com o início de carreira feito no clube da sua cidade natal, o Atlético Goianense, Baltazar destacar-se-ia quando, em 1978, e com apenas 19 anos de idade, consegue sagrar-se o Melhor Marcador do Campeonato Goiano.
Tal feito, levaria a que o Grêmio tratasse da sua mudança para o Rio Grande do Sul. Já na cidade de Porto Alegre, o papel que o atacante teria na ascensão do clube seria bastante importante. Com muitos golos da sua “conta pessoal”, Baltazar acabaria por ser fulcral na conquista dos “estaduais” de 1979 e 1980. Conseguindo, por duas vezes, ser o melhor marcador da referida prova, as suas prestações no “Brasileirão” acabariam por ser, igualmente, relevantes. O grande momento acabaria por acontecer na final de 1981. Nessa derradeira etapa, jogada em duas partidas, Baltazar acabaria por ficar na história. Tendo falhado uma grande penalidade na primeira mão, o golo que haveria de concretizar na visita à casa do São Paulo, daria o primeiro título nacional ao Grêmio – “Eu fico admirado com quantas pessoas eu encontro na rua e se lembram desse gol. Realmente ele foi muito marcante, pelas circunstâncias, pelo estádio do Morumbi, por estar jogando contra o São Paulo”*.
Durante esses anos, mais especificamente em 1980, Baltazar faria a sua estreia pela selecção brasileira. Curiosamente, e apesar de tido como um dos melhores avançados “canarinhos”, o atacante passaria mais de 8 anos sem receber uma única convocatória. Seria necessário conquistar um “Pichichi”, nome do troféu atribuído ao melhor marcador da “La Liga”, para este que voltasse a merecer tal chamada!
Ora, seria já como jogador do Atlético de Madrid, que voltaria a vestir a camisola do seu país. Tendo, desde a sua saída do Grêmio, representado clubes como Flamengo (campeão brasileiro em 1983), Palmeiras e Botafogo, Baltazar chega a Espanha na temporada de 1985/86. No Celta de Vigo, e mesmo com uma despromoção pelo meio, o ponta-de-lança brasileiro confirma a sua habilidade goleadora. Esse trajecto acaba por levá-lo aos “Colchoneros” e à companhia de um dos grandes astros do futebol “luso” – “Acusavam o Futre de ser egoísta. Mentira. Marquei 35 golos às custas dele”**. Ora, esses 35 remates certeiros, dariam a Baltazar, muito mais do que o título de Melhor Marcador de 1988/89, o empurrão necessário para o pôr de volta à selecção brasileira. Com o “Escrete”, participaria e acabaria por vencer a Copa América de 1989.
Com a chegada de Bernd Schuster ao emblema madrileno, e com as vagas para estrangeiros todas ocupadas, Baltazar acabaria por ser o preterido. É então que, seguindo a sugestão de Paulo Futre, o atleta decide mudar de rumo e viaja para Portugal. Tendo chegado já numa fase tardia, o avançado, para além do normal período de adaptação, seria confrontado com a concorrência de atletas como Kostadinov, Madjer ou Domingos. Com tudo isso, a experiência no FC Porto (1990/91) acabaria por não ser a melhor. Um ano passado após a sua chegada e o internacional brasileiro estava de partida e com algumas más memórias do treinador – “O Artur Jorge era distante, sisudo, muito rigoroso. Um disciplinador. Não quero exagerar, mas acho que nunca falou comigo. Isso também contribuiu para o meu desconforto”***.
Tendo ainda envergado as cores dos franceses do Rennes, Baltazar regressaria ao Brasil, já na fase descendente da sua carreira. Depois de uma passagem pelo Goiás, o fim da sua actividade como futebolista acabaria por acontecer no Japão e ao serviço do Kyoto Purple Sanga.


*retirado da reportagem feita para o programa “Jogos para Sempre”, em www.globosporte.com, a 12/08/2012
**retirado da reportagem de Pedro Jorge da Cunha, em www.maisfutebol.iol.pt, a 30/09/2013
*** retirado da reportagem de Pedro Jorge da Cunha, em www.maisfutebol.iol.pt, a 01/10/2013

683 - CANIGGIA

Apesar de todos o reconhecermos como um afamado futebolista, a verdade é que a primeira paixão de Caniggia haveria de ser o atletismo. A prática de várias disciplinas, principalmente as de velocidade, dariam ao jovem desportista algumas das qualidades que o fariam destacar-se nos relvados. Nesse sentido, ele que entraria para as escolas do River Plate a meio da adolescência, a rapidez com que conseguia movimentar-se era a sua principal arma. À custa dessa característica haveria de ganhar o epíteto de “Hijo del Viento” (Filho do Vento). Contudo, essa não era a sua única habilidade e a maneira como trabalhava a bola com os pés, haveria de, igualmente, contribuir para o seu sucesso.
Na senda dos êxitos, também a subida aos seniores haveria de ser abençoada. Promovido em 1985, os primeiros anos que passaria na equipa principal, dariam um verdadeiro impulso à sua imberbe carreira. Campeão argentino, vencedor da Copa dos Libertadores e da Taça Intercontinental, isto tudo em 1986, os troféus ganhos pelo River Plate ajudá-lo-iam a lançar-se do outro lado do Atlântico.
Ora, é já com o estatuto de internacional que o avançado chega a Itália. No Verona, ainda na ressaca do título conseguido pelo clube uns anos antes, Caniggia apruma-se como uma das grandes estrelas. No entanto, essa sua época de estreia no “Calcio”, acabaria por ficar marcada por uma grave lesão e o jogador ficaria aquém das espectativas criadas.
Na temporada de 1989/90, sensivelmente um ano após a sua chegada a Itália, o atleta muda de emblema. No Atalanta, ainda que longe dos títulos, acabaria por viver o seu melhor período em termos clubísticos. Apesar de não ser um avançado com tendência para ocupar a grande-área, a sua capacidade de distribuir jogo, mormente, a habilidade de fazer o último passe, fortaleceriam, em muito, toda a equipa. Essa sua valia, só equiparada à de Glenn Strömberg (ex-Benfica), sustentariam o grupo de uma tal forma que, durante esses anos, os de Bérgamo passariam a marcar presença na luta pelos “lugares europeus”.
Todavia, a camisola que o haveria de tornar num dos jogadores mais mediáticos dos anos 90, acabaria por ser a “alvi-celeste”. Pela Argentina haveria de ser convocado para 3 Mundiais, tendo ficado afastado de um 4º (França 1998), pela recusa em cumprir as ordens de Daniel Passarela, o seleccionar que rejeitava convocar atletas com o cabelo comprido!!!
O mais engraçado é que também naqueles em que participaria, a sua presença acabaria por originar, ou estar envolta, nalgumas histórias curiosas. Tudo começa no Itália 90, quando o seu nome parecia não estar nos planos do técnico Carlos Bilardo. É então que Maradona entra em cena. Ao que consta, “El Pibe” terá dito ao seleccionador argentino que, ou incluía Caniggia na convocatória, ou, então, também ele não estaria presente no torneio. O “aviso” parece ter surtido efeito. Caniggia, não só seria chamado, como seria uma das principais figuras da equipa na caminhada até à final de Roma.
Nos Estados Unidos, quatro anos depois, é o castigo por consumo de cocaína que iria pôr em discussão a validade da sua presença. Tendo, ao serviço da Roma, acusado positivo num controlo anti-doping, o atleta acabaria por ficar suspenso durante toda a temporada de 1993/94. Contudo, com o aproximar de mais um Campeonato do Mundo, o seu nome volta a ser cogitado nos planos da selecção. Muitas vozes se levantariam contra a sua presença. No entanto, Caniggia provaria a todos o erro da sua avaliação e, mais uma vez, encheria os campos com brilhantes exibições.
Em 2002, já na fase descendente da sua carreira, Caniggia é convocado para disputar o certame organizado pelo Japão e Coreia do Sul. Tendo do seleccionador, como o próprio jogador haveria de afirmar, a garantia de ocupar um lugar no “onze” inicial, o atacante, devido a uma lesão sofrida na final da Taça da Escócia, acaba por nunca entrar em campo. O pior é que, para além de ter passado todos os jogos na condição de suplente, e de ter visto a sua equipa a ser eliminada na fase de grupos, Caniggia conseguiria ainda a proeza de, mesmo estando no “banco”, ter averbado um cartão vermelho.
Claro está que, nisto da “Equipa das Pampas”, nem só de Mundiais viveu a carreira de Caniggia. Aliás, seria noutras provas que o jogador conseguiria os maiores títulos do seu currículo. Na Copa América, igualmente com 3 participações, o atacante, numa equipa em que faziam parte Batistuta ou Simeone, venceria a edição de 1991. Também a Taça das Confederações faria parte do seu rol de triunfos e a edição de 1992, a primeira da história, contaria com a vitória da Argentina.
Voltando ao seu percurso clubístico, há ainda algumas coisas para contar. Logo a seguir ao Mundial de 1994, com a ajuda financeira da Parmalat, à altura o patrocinador do Benfica, Caniggia tem uma curta passagem pelo Estádio da “Luz”. Depois vem o regresso à Argentina, a camisola do Boca Juniors e o famoso beijo na boca de Maradona. É durante esse tempo que a desgraça se abate na sua vida. O suicídio da sua mãe, leva-o a um longo luto e a um afastamento das actividades desportivas, que o faria retirar-se durante um ano.
Em 1999 regressa à Europa e começa aí um périplo que o levaria a passar por alguns campeonatos. Depois de ajudar o Atalanta a regressar à Serie A (1999/00), ingressa na Liga escocesa, onde começa por vestir as cores de Dundee FC. As boas prestações conseguidas nessa temporada de 2000/01, fazem com que o Rangers aposte na sua contratação. A mudança para Glasgow acabaria por ser prolífera, com o jogador a acumular uma série de troféus.
Se depois de ter jogado no Qatar SC, muitos pensariam que de Caniggia nada mais se veria, então erraram. Em 2012, já com 45 anos de idade, o argentino ingressa nos amadores do Wembley FC. Numa jogada de promoção, financiada por um dos patrocinadores da Taça de Inglaterra – a cervejeira Budweiser –, o pequeno clube contrata antigas estrelas do futebol. Ao lado de Daniel Dichio, Martin Keown, Ray Parlour, Graeme Le Saux, Jaime Moreno ou Brian McBride, Caniggia faz a sua última aparição, participando nas primeiras rondas da já referida prova.

682 - DI STÉFANO

Curiosamente, aquele que hoje é visto com um dos maiores jogadores da história, nem sempre quis ser futebolista. Com o sonho de seguir a vida de aviador, o antigo avançado apenas começaria a sua carreira aos 17 anos. Instigado por um amigo da família, Di Stéfano lá se deixaria convencer e acabaria por ir treinar ao River Plate. De imediato, apercebendo-se das suas qualidades excepcionais, os responsáveis pelo emblema de Buenos Aires tratariam de tudo para que o jovem continuasse ao serviço do clube. Começando na 4ª categoria, o atacante, rapidamente, foi subindo de escalão. Contudo, a sua chegada à equipa principal (1945) coincidiria com a existência de uma das linhas avançadas mais poderosas da história do clube. A presença de José Manuel Moreno, Félix Loustau, Adolfo Pedernera, Juan Carlos Muñoz e Ángel Labruna faria com que o recém-promovido avançado ficasse sem lugar no “onze” inicial.
A falta de espaço resultaria num empréstimo ao Huracán. A cedência, que duraria um ano, daria oportunidade a Di Stéfano para melhorar as suas qualidades, e, acima de tudo, para provar aos detentores do seu “passe” que o lugar dele era no alinhamento titular. Ora, de regresso ao River Plate, Di Stéfano deparar-se-ia com um cenário, em certa medida, diferente. Com Pedernera transferido para Itália e com alguns dos seus colegas afastados por decisão médica, “O Flecha Loura”, alcunha que havia ganho ao serviço do Huracán, tinha o caminho livre para entrar de início. Veloz, com uma capacidade de passe e remate irrepreensíveis, Di Stéfano adicionava às capacidades físicas e técnicas uma postura muito combativa. A influência que mostrava dentro de campo, estando presente em quase todas as situações de jogo, faria com que, bem depressa, conseguisse impor-se. Tornando-se indispensável no escalonamento da equipa, o atleta dava assim os primeiros passos para se tornar num dos grandes mitos do séc. XX.
Como uma das principais figuras do River Plate, também não demorou muito tempo para que da selecção argentina recebesse a sua primeira chamada. Logo nesse ano de estreia pela “Alvi-Celeste”, Di Stéfano é convocado para participar no “Sul-Americano de Selecções” de 1947. Na competição que agora conhecemos como Copa América, o atacante seria o pilar dessa caminhada vitoriosa. Numa altura em que o torneio era disputado em formato de liga, os golos de Di Stéfano acabariam por ser fulcrais para que a “Equipa das Pampas” terminasse na dianteira da tabela classificativa.
Até nisto das selecções, Di Stéfano conseguiria trilhar uma caminhada peculiar. Tendo representado a equipa nacional do seu país natal, o jogador ainda vestiria a camisola de mais duas nações. Já depois de se mudar para a Colômbia, resultado de um período conturbado no futebol argentino e que culminaria com uma greve geral por parte dos atletas, o atacante decide transferir-se para o Millonarios. A jogar em Bogotá, e à luz de regulamentos que não impediam os futebolistas de representar diferentes países, Di Stéfano, participando em 3 partidas de cariz particular, aceitaria jogar pela equipa colombiana.
Seria já durante o período passado na Colômbia que o assédio de alguns dos melhores clubes europeus começaria. O Barcelona, depois de, durante uma “tournée” com passagem por Espanha, ter conferido as suas boas qualidades, decide encetar algumas negociações. Ora, é aqui que começa toda uma grande “novela”. Estando a jogar numa liga que não era reconhecida pela FIFA, a sua ida para a Colômbia, à revelia do River Plate, também tinha sido julgada como ilegal. Considerando o Barcelona que quem detinha os direitos do jogador eram os de Buenos Aires, desdenha da pretensão do Millonarios em ser tido nos acordos de transferência. A mudança dá-se e Di Stéfano, em disputas amigáveis, chega a vestir a camisola “blau-grana”. Nisto, entra em cena o Real Madrid, que chega a um acordo com os colombianos. No meio de tamanha confusão, dá-se a intervenção do General Moscardo, Ministro dos Desportos, decidindo que, nos 4 anos vindouros, alternado nas temporadas, o atleta representaria, ora o clube catalão, ora os da capital espanhola. Não agradado com a decisão, e acusando o governo do General Franco de tomar decisões tendenciosas, os responsáveis pelo Barcelona decidem “rasgar” o contrato que ligava clube e atleta.
Com a posição tomada pelo Barcelona, Di Stéfano acaba por mudar-se, em definitivo, para Madrid. No clube dirigido por Santiago Barnabéu, o “astro” personificaria uma época que, com o início da Taça dos Campeões Europeus, firmaria o Real Madrid na história do futebol mundial. Tendo o clube conseguido vencer as 5 primeiras edições da recém-criada prova, o atacante catapultar-se-ia como uma das maiores estrelas da modalidade. Ao lado de Puskás, Gento, Kopa e tantos outros craques, o futebolista inscreve a sua imagem como a do ídolo maior de uma geração. Os títulos ganhos internamente, com destaque para os 8 campeonatos, só ajudariam a sublinhar esse seu figurino. Mesmo não tendo participado em nenhum Mundial – seria afastado da convocatória espanhola em 1962, por razão de uma lesão – a sua carreira sairia sem um único belisco. Nesse percurso, que duraria até perto dos 40 anos, Di Stefáno tornar-se-ia numa das personagens que, para sempre, perdurará nas memórias e lendas do futebol.
Já depois de, com as cores do Espanyol, ter posto um ponto final numa longa vida como futebolista, Di Stéfano enceta as suas funções como técnico. Nessa nova actividade, quase impossibilitado de atingir o sucesso que havia conseguido dentro das “quatro linhas”, escreve um currículo que em nada o envergonharia. Numa caminhada que, mormente, o levaria a alternar a morada entre a Argentina e Espanha, também ele haveria de conseguir importantes feitos. Campeão tanto no Boca Juniors, como no River Plate, Di Stéfano repetiria o feito ao serviço do Valencia. Também nos “Los Che”, haveria de vencer a Taça dos Vencedores das Taças de 1979/80 e, na época seguinte, a Supertaça da UEFA.
Com estes títulos europeus, o treinador lançar-se-ia para a linha da frente dos técnicos mundiais. É já com este estatuto que Di Stéfano chega ao Sporting. Contudo, a sua passagem por Lisboa, muito mais do que marcada pelo insucesso, haveria de ter contornos bem caricatos. Depois de numas férias passadas em Benidorm se ter cruzado com João Rocha, um acordo verbal é feito entre os dois. O pior é que a pré-época que se seguiria, muito longe de correr de feição, seria um total desastre. Pressionado pelos associados que, ainda há bem pouco tempo tinham visto o seu clube celebrar a “dobradinha” de 1973/74, o Presidente leonino acaba por dispensar o treinador. O curioso é que o contrato apalavrado, nunca havia sido passado para o papel. Ora, Di Stéfano acabaria por deixar Alvalade sem direito a qualquer indeminização e sem nunca ter orientado os de “verde e branco”, num só jogo oficial.

681 - ODVAN

Apesar de ter passado por Portugal, poucos terão alguma recordação deste internacional “canarinho”. No entanto, não se deixem enganar. É que Odvan, talvez por razões extra, é uma das lendas vivas do futebol brasileiro.
Ironia do destino, como que a adivinhar o que aí vinha, uma das primeiras páginas na sua vida acabaria por dar ainda mais ênfase à caricatura que dele resultou. Fã incondicional de Roberto Carlos, a mãe de Odvan haveria de escolher uma das suas faixas favoritas para se inspirar no baptismo do recém-nascido. Com uma letra, cuja selecção de palavras, poderia ter suscitado uma série de ideias, a Dª Vera Lúcia acabaria por procurar ajuda no título. Não sei se estes são os verdadeiros detalhes da história, mas o que é um facto é que a canção “O divã”, serviria, ainda mais, para alimentar todo um mito!
Naquilo que para Odvan foi o futebol, a sua carreira teria os primeiros episódios no Americano FC. No clube da sua cidade natal, Campos dos Goytacazes, o defesa terminaria a sua formação para, no início dos anos 90, ser promovido ao escalão sénior. Entre alguns empréstimos, o atleta lá foi desenvolvendo as características que o iriam marcar para o resto da vida profissional. Com uma técnica bastante limitada, o seu forte físico e a maneira pragmática como abordava cada um dos lances, fá-lo-iam, pouco a pouco, conquistar o seu lugar.
Foi já com a fama de ser um opositor bem duro, que o Vasco da Gama, em 1997, o contrata. A fazer dupla no eixo da defesa com o experiente Mauro Galvão, a segurança dada por Odvan, muito à custa de pontapés para a frente e “carrinhos” de aterrorizar qualquer adversário, dariam o necessário apoio para que o emblema da “Cruz de Malta” conseguisse alcançar uma “mão cheia” de sucessos. Os Campeonatos Brasileiros de 1997 e 2000 e o “Estadual Carioca” de 1998, haveriam de embelezar um currículo que contaria ainda com a Libertadores da América de 1998 e a Copa Mercosul de 2000.
Com tantos êxitos acumulados, foi com normalidade que o seu nome começou a surgir nas chamadas à equipa nacional brasileira. Rotulado por Vanderlei Luxemburgo, o seleccionador de então, como um “zagueiro zagueiro”, referindo-se este à maneira pouco polida, mas eficaz, com que Odvan se apresentava em campo, o defesa faria parte do grupo que, em 1999, venceria a Copa América.
Mas se dentro de campo, Odvan era temido pelas jogadas bem rijas, lances que, entre tantas alcunhas, valeriam ao jogador o nome de “Caveirão” (blindado usado pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais, da Polícia Militar do Rio de Janeiro), fora dos relvados a história era bem diferente. Pessoa simples e bem-humorada, a simpatia que recebia dos seus colegas, levá-lo-iam, por diversas vezes, a ser o alvo de diabruras. Numa dessas partidas, Edmundo, enquanto comentava um jogo de futebol, haveria de afirmar como verdade um episódio bem caricato! Segundo o avançado, Odvan, questionado sobre um comprovativo de morada, terá abandonado o local para, momentos mais tarde, regressar. Na mão trazia uma fotografia, na qual posava em frente à porta de um edifício, apontando para o mesmo!!!  Verdade, ou não, o que é certo é que o defesa sempre desmentiu tal suposta história. Apontá-la-ia à matreirice do antigo colega de equipa e dir-se-ia vítima de mais uma travessura!!!
As brincadeiras à volta do jogador tomariam uma proporção tal que, pela “internet” fora, é fácil encontrar referências. Bem ao jeito de Chuck Norris, também Odvan haveria de merecer uma lista de “factos”!!! Aqui vos ficam alguns:
 
•    “O verbo matar não vem do latim. Vem de Odvan”;
•    “Odvan ensinou Materazzi a jogar futebol”;
•    “Odvan, quando criança, não ganhava carrinhos, ele dava”;
•    “A parte preferida de Odvan no futebol é o mata-mata”;
•    “Quando Odvan entra no treino, os cones saem correndo”;
•    “O cartão vermelho é o cartão de visitas de Odvan”;
•    “O Saci tinha duas pernas, isso antes de jogar futebol com Odvan”;
•    “Em um dia de sol, Odvan estava com calor e resolveu entrar no mar. Surgiu o Mar Morto”.
 
No meio de tanto folclore, Odvan continuaria a sua vida nos relvados. Tendo deixado para trás os anos em que defendeu as cores do Vasco da Gama, o jogador entraria num périplo que o levaria aos mais diversos clubes. Essa sua caminhada, que duraria até aos 40 anos de idade, e que, feitas as contas, o levaria a jogar por cerca de 20 emblemas diferentes, fá-lo-ia, também, representar alguns clubes estrangeiros. Nesse sentido, para além do DC United, o Estrela da Amadora, na época de 2005/06, acabaria por ser a sua única, e bem curta, experiência na Europa.

680 - MARCOS PAULO

Tendo terminado a sua formação com as cores do Cruzeiro, seria também no emblema de Belo Horizonte que o médio daria os primeiros passos nas categorias seniores. A sua integração, pelas qualidades que, desde muito cedo, havia mostrado, acabaria por ser feita com relativa facilidade. É certo que progressivamente, mas Marcos Paulo lá foi conseguindo trilhar o seu caminho até ao “onze” inicial. Em 1998, sendo já um dos nomes mais sonantes dentro do balneário, os títulos começam a chegar. O Campeonato Mineiro e a Recopa Sul-Americana de 1998, abririam caminho para que, nos anos vindouros, o Cruzeiro conseguisse mais troféus. Nesta senda, seguir-se-iam a Copa dos Campeões Mineiros de 1999 e o reconhecimento nacional, com a vitória na Copa do Brasil de 2000.
É fácil de reconhecer, até pelas conquistas conseguidas nesses 3 anos, que o médio viveria bons – e porque não dizê-lo? – os melhores momentos da sua carreira. Se mais justificações fossem necessárias para, durante o referido período, aferir da qualidade do seu jogo, então as chamadas à “Canarinha” seriam prova suficiente para dissipar qualquer dúvida. Nesse sentido, é em 1999, sob a orientação de Vanderlei Luxemburgo, que o médio faz a sua estreia com a principal camisola do Brasil. Nesse mesmo ano participa nos primeiros torneios com as cores do seu país. Primeiro, é convocado para disputar a Copa América e, mesmo sem ter sido chamado a participar em qualquer partida, acaba por fazer parte do lote de atletas campeões. Depois, chega a vez de jogar a Taça das Confederações mas, desta feita, o Brasil não vai além do 2º lugar.
Seria já depois de disputar os Jogos Olímpicos de Sydney (2000), que, como tantos outros atletas, Marcos Paulo tenta a sua sorte na Europa. O destino levá-lo-ia a Itália e à Udinese. Contudo, aquilo que já havia demonstrado no Brasil, parecia ter sido deixado para trás. Tanto no “Calcio”, como, logo de seguida, no Sporting, o centrocampista andaria bem longe daquilo que o tinha consagrado como um futebolista acima da média. À sua chegada a Portugal, o jogador mostraria toda a sua ambição. No entanto, a sua passagem pelos “Verde e Branco” traduzir-se-ia em pouco mais de uma dúzia de partidas, divididas entre a equipa principal e os “BB” leoninos – “Fico contente por poder estar a contribuir para o Sporting. É uma grande equipa (…).Espero que dê tudo certo. Vou fazer os exames, espero poder assinar contrato e poder trabalhar com o Sporting. Fico feliz por trabalhar num novo clube”*.
Talvez pela forte concorrência existente num plantel que, no ano anterior, tinha conseguido sagrar-se campeão, Marcos Paulo jamais conseguiria impor o seu futebol em Alvalade. Consequência disso mesmo, seria o seu regresso ao Brasil e, desta feita, ao Grêmio de Porto Alegre. Ora, é por esta altura que a sua carreira entra numa fase em que as constantes mudanças de emblema começam a ser habituais. Novas passagens pela Europa, onde, pelo Maccabi Haifa, conseguiria sagrar-se campeão israelita (2003/04), seriam intercaladas com presenças nos Campeonatos brasileiros e Liga Japonesa. Depois de ter ainda representado o Metalist Kharkiv (Ucrânia), Portuguesa, Yokohama FC e Shimizu S-Pulse (ambos no Japão), o antigo internacional brasileiro, já ao serviço do Fortaleza (2011), decide pôr um ponto final no seu percurso profissional.

 
*retirado da reportagem de Magda Magalhães, em TVI 24, a 06/08/2002

679 - ALDAIR

A habilidade que desde miúdo haveria de mostrar com a bola, faria com que o seu pai, entusiasmado pela ideia de ter um filho jogador, decidisse pagar os custos da sua ida até ao Rio de Janeiro. O objectivo de tal viagem estava, desde a sua partida, bem traçado. Seguindo o desejo do seu progenitor, Aldair deveria ir treinar com o Vasco da Gama, para aí fazer carreira. Contudo, aquele que era sonho do “Seu” Carmerindo, fervoroso adepto do emblema “carioca”, acabaria por se tornar numa grande decepção para o jovem futebolista. Agastado pela maneira como era tratado, Aldair regressa a casa e, para não aborrecer o seu pai, mente, e diz que o haviam dispensado.
Falhada a primeira tentativa para encetar uma carreira, não tardou muito até que nova oportunidade surgisse. Desta feita, seria a antiga estrela do Flamengo, Juarez dos Santos, que tento observado Aldair, decide apontá-lo ao seu velho clube. No “Mengão”, Aldair começa a apurar aquelas que haveriam de tornar-se as suas melhores características. Ora, com uma técnica acima da média para um defesa, a maneira como sabia controlar a bola, era bem condizente com a sua postura tranquila. Incapaz de, sem sentido algum, chutar o esférico para frente, o central aprimorava-se pela maneira como colocava o mesmo. No entanto, estas suas características, tão comum entre os melhores médios, não deixavam com que, nos trabalhos defensivos, o atleta fosse negligente. Muito pelo contrário. Também nessas tarefas, Aldair era exímio. Fosse pelo ar, fosse com a bola nos pés dos adversários, a maneira como sabia colocar-se no terreno de jogo, era meio caminho para um desarme bem sucedido.
Foi com base nestes predicados que Aldair começaria a singrar com o listado rubro-negro. Na Gávea, a sua integração na equipa principal acabaria por ocorrer em 1985. Sem mostrar grande nervosismo, a maneira pragmática como ia ultrapassando todas as dificuldades de uma normal adaptação, levá-lo-iam a conquistar, pouco mais de um ano após a dita promoção, um lugar como titular.
Coincidência, ou não, nesse mesmo ano de 1986, o Flamengo vence o Campeonato Carioca. No ano seguinte continua a senda de bons resultados e Aldair, como um dos esteios da equipa, dá a sua ajuda em mais uma importante conquista. Essa vitória no “Brasileirão” de 1987, catapultaria Aldair para outros voos. Ainda assim, a sua chamada à principal selecção brasileira apenas ocorreria em 1989. Mais uma vez, a sua inclusão tornar-se-ia sinónimo de sucesso e, ao lado de outros craques como Valdo, Ricardo Gomes, Paulo Silas ou Branco, o jovem defesa dá a sua contribuição para, meses depois, o Brasil vencer a Copa América.
Com tudo isto, não tardou muito para que da Europa começasse a surgir algum interesse no seu concurso. Nesse sentido, quem haveria de ganhar a corrida pelos seus préstimos seria o Benfica. Em Portugal, Aldair, ao estilo de uma pequena transição, apenas passaria uma temporada. Contudo, seria um ano cheio de emoções. Primeiro, a final da Taça do Campeões Europeus de 1990, infelizmente perdida para o AC Milan; depois, viria a viagem para Itália e a presença no seu primeiro Mundial.
Seria mesmo no “Calcio” que Aldair daria seguimento à sua carreira. Contratado pela Roma, o defesa jogaria 13 anos pelo emblema da capital italiana. Num percurso tão longo, tempo suficiente para fazer dele um dos maiores ídolos do clube, Aldair serviria de alento para muitos dos futuros craques. É verdade que os títulos, na maioria dessas temporadas, acabariam por ser entregues aos adversários. Ainda assim, a dedicação com que sempre entrou em campo, valer-lhe-ia, durante largas épocas, a posse da braçadeira de capitão. Nisto de bons exemplos, porque não referi-lo como uma das inspirações para a conquista da “Coppa” de Itália de 1990/91, do “Scudetto” de 2000/01 ou, no ano seguinte, da “Supercoppa” italiana? Faltou-lhe, mais uma vez, a conquista de um troféu internacional. Desta feita frente ao Inter de Milão, Aldair, fatidicamente, perderia a oportunidade de erguer a Taça UEFA de 1991/92.
Os anos como titular na defesa romana, fariam dele, igualmente, um dos donos do último reduto brasileiro. Com a “Canarinha”, Aldair viveria os sucessos que, em certa medida, acabaria por ver negados ao serviço do seu clube. O triunfo no Mundial de 1994, seguido da final perdida no França 98, serviriam para abrilhantar o seu percurso profissional. Nisto de conquistas, não poderemos esquecer a medalha de bronze, conquistada frente a Portugal, nos Jogos Olímpicos de Atalanta (1996). Há ainda que lembrar a sua segunda vitória na Copa América (1997) e, ainda nesse ano, o troféu erguido na Taça das Confederações.
Os últimos anos da sua carreira passá-los-ia em curtas passagens por diversos clubes. Genoa, já na Serie B italiana, ou o regresso ao Brasil, para aí fazer um par de jogos pelo Rio Branco, serviriam para anunciar o terminar de uma longa vida nos relvados. O fim aconteceria com as cores do Murata, onde voltaria a sagrar-se campeão nacional, desta feita, de São Marino!

678 - CUBILLAS

A sua ascensão dentro do Alianza Lima, emblema que o haveria de lançar para o estrelato, acabaria por ser tão excepcional, quanto toda a sua qualidade. Para começar, logo no início do seu percurso profissional, Cubillas sagra-se o Melhor Marcador do Campeonato peruano de 1966. Esses 19 golos acabariam por ser uma pequena amostra daquilo que o jogador conseguiria daí em diante. Ainda assim, talvez pelo seu clube andar um pouco afastado da rota dos títulos, a sua primeira chamada à selecção aconteceria apenas em 1968.
Seria com a equipa do Peru que, em 1970, no México, Cubillas disputaria o Mundial de futebol.  Orientado por Didi, antigo internacional brasileiro, o craque tornar-se-ia na peça fulcral de todas as manobras ofensivas. Tendo velocidade e força, a sua técnica, compreensão do jogo e remate colocadíssimo, faziam dele um futebolista completo. Ora jogando na transição do meio campo para o ataque, ora mais encostado aos defesas contrários, Cubillas era um perigo constante. Os 5 golos que aí haveria de marcar, mas, acima de tudo, as suas grandes exibições, ajudariam a equipa a chegar aos quartos-de-final.
Como resultado desse seu primeiro Campeonato do Mundo, presenças que haveria de repetir em 1978 e 1982, Cubillas lança-se no estrelato. A prova de tal vem em 1972, quando, sem ter conquistado qualquer troféu relevante, é eleito o Melhor Jogador da América do Sul. Este seu estatuto sairia reforçado anos mais tarde, com a chamada a uma selecção do resto do Mundo. A partida, organizada em favor da UNICEF, disputava-se na Suiça. Do outro lado, uma equipa composta por estrelas europeias, acabaria por não conseguir impor-se à classe do peruano que, marcando 2 golos, acabaria por ser o principal obreiro da vitória por 3-1.
Essa viagem até à Europa, faz com o FC Basel insista na sua transferência. Aliciado pela perspectiva de disputar outro contexto competitivo, o jogador assina pelo clube helvético. Contudo, o clima frio do país e as dificuldades em dominar a língua, tornariam a sua permanência num completo martírio. Ora, é na sequência desta inadaptação que, 6 meses após a sua chegada, aparece o FC Porto. Com o objectivo de pôr termo a um jejum de títulos que já durava há imensos anos, os dirigentes do clube “azul e branco” predispõem-se a contratar aquele que era visto como um dos melhores jogadores do mundo.
É neste cenário que, em Janeiro de 1974, entra no Estádio das Antas. Os adeptos recebem-no como um verdadeiro herói e este jamais os desapontaria. As suas exibições voltariam a pôr o “Dragão” na disputa pelos títulos. Mais uma vez, os seus golos e a construção de toda uma série de ofensivas, empurrariam os seus companheiros a conseguir importantes vitórias. É certo que, na cidade do Porto, faltou um título para legitimar toda essa sua importância. No entanto, muito mais do que troféus, o jogador conquistaria companheiros, adeptos e adversários. Neste sentido, é conhecida a sua amizade com Eusébio; é sabido do seu peso no balneário portista, tendo sido eleito pelos seus colegas como capitão de equipa. Mais importante ainda, é que Cubillas será para sempre recordado pela sua gentileza e simpatia. Essa sua qualidade faria com que, numa longa carreira, e que o levaria a passar por diversos países, nunca fosse expulso num único jogo.
Nisto de troféus, é sabido que o currículo de Cubillas não faz jus às suas qualidades como jogador. Ainda assim, e durante o período em que passou por Portugal, o peruano conta com uma das maiores proezas da sua vida de desportista. Em 1975, com a equipa nacional, o atleta participaria na Copa América. Numa edição disputada de uma forma diferente daquela que já estamos habituados, as eliminatórias, muito ao jeito das competições de clubes, seriam disputadas a duas mãos, com as selecções a jogar a uma partida em cada país. Na final, já depois de ter eliminado o Brasil na ronda anterior, o Peru defrontaria a Colômbia. Após uma finalíssima, Cubillas, sendo também eleito o Melhor Jogador do torneio, finalmente conseguiria erguer a tão merecida taça.
É após deixar o FC Porto em 1977, que Cubillas entra naquilo que podemos chamar a segunda metade da sua carreira. Numa fase que, ainda assim, duraria por mais de uma década, o internacional dividiria a sua vida entre os Estados Unidos da América e o seu país natal. No Peru conseguiria conquistar os seus primeiros títulos de campeão nacional quando, ao serviço do Alianza Lima, vence os Campeonatos de 1977 e 1978. Já na NASL (North American Soccer League) haveria de tornar-se numa das estrelas do Fort Lauderdale Strikers e brilhar numa liga onde pontuavam nomes como os de George Best, Gerd Müller, entre tantos outros.

677 - ACOSTA

Depois de ter passado por alguns emblemas durante o período de formação, eis que, com cerca de 15 anos, Acosta entra para o Unión de Santa Fé. É no seu novo clube que termina o percurso como aprendiz e, em 1986, dá os primeiros passos na categoria principal. Com a estreia feita na divisão maior, aliás, patamar onde, tirando uma pequena excepção, sempre jogaria, os golos do atacante começaram logo a merecer destaque.
Sem ser um jogador, um pouco ao invés da imagem que temos do atleta sul-americano, dotado de uma excepcional capacidade técnica, Acosta imponha-se por outro tipo de características. Garra, força física, remate e a maneira como sabia posicionar-se no centro do ataque, faziam dele um verdadeiro “matador”. Seriam essas mesmas habilidades que os responsáveis do San Lorenzo acabariam por ver nele. A transferência concluir-se-ia em 1988 e o atacante começaria aí uma relação que o marcaria para o resto da sua vida – “No San Lorenzo passei quatro em quatro alturas diferentes. Já disse que é o clube que levo no coração, ainda mais porque não era adepto. Mas também digo que foi muito complicada a minha relação com os adeptos (…). Nunca esquecerei quando viemos com a Católica do Chile, a jogar um amigável com o San Lorenzo, que inaugurava um dos cantos [bancada] no Nuevo Gasómetro. Nesse dia, as pessoas insultaram-me durante toda a partida (…). A reacção das pessoas, de certa maneira compreensível, fizeram-me pôr um ponto de interrogação sobre o regresso. Voltei um ano depois, em 98, quando o técnico era o Castelli (…) e Pipo Gorosito, a figura. Aos dois disse que não ia ser fácil esta nova incursão e, ainda por cima, teria que jogar ao lado de Pampa Biaggio, flor de goleador, e as pessoas comparavam-me com ele, para mal (…). A força de fazer golos transformaram os insultos em aplausos e os adeptos começaram a compreender que eu gostava muitíssimo da camisola “azulgrana””*.
Entre as referidas passagens pelo San Lorenzo, Beto Acosta haveria de representar uma série de outros clubes. Primeiro, e ao serviço do Toulouse, uma passagem pela Europa. Em França, o atacante acabaria por não corresponder ao que, até ali, já havia demonstrado. Talvez inadaptado a uma realidade futebolística bem diferente, a verdade é que os golos pouco apareceram. Nisto, dá-se o regresso ao San Lorenzo e, depois, a transferência para o “gigante” Boca Juniors. Nesses anos volta a mostrar os predicados que o tinham posto na “linha da frente” do futebol argentino. As suas prestações, mormente com as cores do emblema do bairro de Almagro, levam-no a fixar-se na “Equipa das Pampas”. Com a Argentina, em 1992, Acosta venceria a Taça das Confederações, para, no ano seguinte, conquistar a Copa América.
O período que passaria no Chile, no qual haveria de intercalar uma passagem pelo Japão (Yokohama Marinos), terá sido, em termos de metas pessoais, um dos mais prolíferos da sua carreira. Aí, consagrar-se-ia como um dos grandes atacantes da América do Sul. Aliás, Acosta haveria de conquistar esse referido título em 1994, quando, com 33 golos, consegue sagrar-se no Melhor Marcador do continente.
É já depois de vários títulos conquistados pela Universidad Católica, e de uma nova passagem pelo San Lorenzo, que Acosta, apontado por Mirko Jozic, chega ao Sporting. Por essa altura, a meio da temporada de 1998/99, já o atleta havia passado a barreira dos 30. Sem grande currículo na Europa e com os 32 anos a pesar na folha de serviço, a desconfiança sobre a sua utilidade instalou-se facilmente. Os críticos de tal contratação haveriam de ver a razão do seu lado, já que o atacante, durante esses primeiros meses, pouco mais haveria de mostrar do que uma grande apatia.
A sua segunda época seria completamente diferente. Ainda que praticamente afastado dos planos de Giuseppe Materazzi, a chegada de Augusto Inácio aos comandos do “Leão”, mudaria todo esse paradigma. A partir dessa altura, o avançado começou, quase em catadupa, a fazer golos. O crescendo de produtividade do jogador era acompanhado pelo maior rendimento de toda a equipa. Nessa época de 1999/00, muito à custa dos tentos conseguidos pelo internacional argentino, o Sporting haveria de pôr cobro a um jejum de 18 anos. O Campeonato conquistado nesse ano, a Supertaça que daí adveio e, porque não dizê-lo, a cotovelada dada a Paulinho Santos na final da Taça de Portugal de 1999/00, haveriam de pôr Beto Acosta na lista de notáveis do emblema “leonino” – “Para os festejos dos 100 anos da instituição, havia uma partida pré-“Champions” e convidaram-me (…). Não sabia do que se tratava, mas eles mantinham a imagem do título que conseguimos 18 anos depois e tinham-me em grande consideração, mas nunca acreditei que fosse tanto. Nessa noite, apagaram as luzes do estádio; focaram-nas em mim; entregaram-me presentes e tive que falar para todos e quase não conseguia articular palavras, pela emoção. Além disso, havia no estádio uma projecção gigante minha; e figuro na galeria dos 50 ídolos máximos do Sporting, lugar que ocupa, com maior privilégio, o “Chirola” Yazalde, que é uma figura inesquecível”*.
Mais uma vez, Acosta regressaria ao San Lorenzo e ainda a tempo de, frente aos brasileiros do Flamengo, vencer a Copa Mercosul (2001). Repetiria o feito internacional, ao conquistar a Copa Sudamericana de 2002. Nisto, o vínculo com o emblema argentino duraria mais uns quantos anos. Poderia ter-se dito que este havia sido o último emblema da carreira de Acosta. Em certa medida, e se considerarmos os anos como profissional, até o podemos afirmar como verdade. No entanto, em 2008, o avançado, desta feita como treinador/jogador, faria uma nova aparição. Com as cores do Atlético Fénix, emblema das divisões inferiores, Acosta daria resposta ao pedido de ajuda de um amigo e dirigente da colectividade, acabando por jogar ao lado do seu filho, Mickael.

 
*retirado de artigo em www.elgrafico.com.ar, a 04/10/2010

676 - VALDO

Tendo começado a praticar futebol ao serviço do Figueirense, Valdo acabaria por revelar-se com a camisola do Grêmio. Já em Porto Alegre, onde chegaria em 1984, o jogador começa a destacar-se. Apesar de franzino, a maneira como actuava dentro de campo, permitia ao médio fugir às eventuais fragilidades físicas. A sua visão de jogo fazia com que, para ele, a construção das manobras ofensivas parecesse fácil. Claro, também ajudava a maneira como Valdo, preferencialmente com o pé canhoto, conseguia tratar a bola. Essa mesma habilidade faria também com que, ao longo da sua carreira, o atleta acabasse por tornar-se num exímio marcador de bolas paradas.
Quem não deixaria de reparar na sua evolução, seria Têle Santana. O antigo seleccionador brasileiro, responsável pela “Canarinha” no Mundial de 1986, e até para surpresa do próprio atleta, haveria de juntar o seu nome a craques como Zico, Falcão ou Alemão. No torneio realizado no México, Valdo, perante tamanha concorrência, acabaria por não participar em qualquer encontro. No entanto, este seria só o ponto de partida para tornar o seu nome num dos habituais na equipa brasileira.
Depois dessa primeira participação, o médio acabaria também por marcar presença no Campeonato do Mundo de 1990. O Brasil, sempre com Valdo a comandar o sector intermediário, apresentava-se em Itália como o vencedor da Copa América de 1989. Esse título dava ao “Escrete” a responsabilidade de, ainda mais, ter de lutar pelo triunfo. Contudo, a equipa brasileira não iria além dos oitavos-de-final. Esse jogo, disputado frente à Argentina, muito mais do que a eliminação do Brasil, ficaria marcado pela polémica – “Eu sou assim, raramente eu tomo água nos jogos. Até hoje eu sei que é um erro, mas até hoje eu não bebo água. Meu negócio nos jogos era tomar um cafezinho no intervalo e estava tudo certo. Anos depois fiquei sabendo que o Maradona queria que eu bebesse a água. Ele me chamava de “Baldo”. Ele me chamava «Baldo, Baldo», só que eu não era de beber água (…).Teve essa água baptizada e realmente os brasileiros beberam. Foi uma ingenuidade, sobretudo vindo dos nossos “hermanos”. E o Maradona disse ainda depois que a água estava baptizada mesmo e que não era para o Branco, e sim para o «Baldo»”*.
É entre os dois já referidos Mundiais que Valdo assina pelo Benfica. No Verão de 1988, a chegada do internacional brasileiro dá uma nova dinâmica ao meio-campo “encarnado”. Comandado pelo sueco Sven-Goran Eriksson, a energia que a equipa ganharia com a sua contratação, permitiria ao Benfica sagrar-se campeão logo nessa sua época de estreia. Depois, viria a Taça dos Campeões Europeus de 1989/90, a “mão de Vata” e a final disputada em Viena. Nesse derradeiro encontro, as “Águias” claudicariam frente a um Milan recheado de estrelas. Baresi, Gullit, Donadoni, Van Basten, entre outros, ajudariam Rijkaard a marcar o golo que daria a vitória à equipa transalpina – “Naqueles jogos tudo se decide pelos detalhes. Eles tinham uma grande equipa... Nós também, mas eles... Jogámos de igual para igual, mas o Hernâni, que chamávamos de Mano, ouviu um apito da bancada, hesitou, parou e o Rijkaard furou e marcou”**.
No seguimento desta primeira passagem pela “Luz”, onde ainda venceria mais um Campeonato (1990/91) e uma Supertaça (1989/90), Valdo começa a receber convites de outras ligas. O Milan posiciona-se como um dos mais fortes candidatos à sua contratação, mas a transferência, um pouco surpreendentemente, acaba por ir noutro sentido – “Eu tinha recebido uma proposta fabulosa, fantástica, do AC Milan, onde um dirigente foi em minha casa. Eu disse a ele que não queria; ele disse que eu era louco, com o dinheiro que estava em cima da mesa; E eu perguntei a ele – «Tudo bem eu vou para o Milan, o senhor irá colocar-me a jogar em que posição? O Ancellotti? Eu não sou trinco! O Rijkaard eu não vou tirar do time; o Gullit também não vou; Donadoni , que eu poderia jogar pelo lado direito, capitão da selecção da Itália ou o Evani, a mesma coisa; o Van Basten, avançado?!» Eu falei – «Eu vou jogar onde?». Eu disse para ele –  «Meu senhor, eu quero é voar. Tenho 27 anos, quero jogar, correr! E então ele começou a rir e falou «Bravo»”***.
No Paris Saint-Germain iria partilhar o balneário com nomes conhecidos do futebol português. Ao lado de Ricardo Gomes, também seu companheiro no Benfica, e Geraldão (ex-FC Porto), Valdo seria orientado por Artur Jorge. Durante essas 4 temporadas no Parc des Princes, a última das quais já com Luiz Fernandez como treinador, a equipa da capital francesa chegaria ao topo do futebol gaulês. O Campeonato ganho em 1993/94, as duas Taças de França (1992/93; 1994/95) e uma Supertaça (1994/95), seriam ainda mais abrilhantados pelas campanhas europeias, que, por duas vezes, permitiriam ao clube chegar às meias-finais.
Contudo, as querelas com o técnico francês, acabariam por apressar Valdo no regresso a Portugal. Mais uma vez a vestir de encarnado, o médio ofensivo acabaria por reencontrar-se com Artur Jorge. Todavia, e numa altura em qua o clube lisboeta encetaria uma série de anos sem conseguir vencer o campeonato, o brasileiro viria o técnico português partir rapidamente. O saldo dessa sua passagem pelo Benfica, numa altura em que Mário Wilson já tinha tomado conta da equipa, acabaria por ficar reduzido à conquista da Taça de Portugal de 1995/96. Relativamente ao “Velho Capitão”, para além dessa partida disputada no Jamor, e que acabaria por ficar manchada pelo caso do “very light”, há um outro episódio que Valdo, com muito humor, gosta de recordar – “Um exercício do treino culminava com centros para a área e finalização, e num dos cruzamentos o Preud'homme socou a bola, ela passou por cima do Mário Wilson e apareceu o Ricardo Gomes, que rematou de primeira e acertou mesmo no cachaço do professor, que disse logo, com aquela voz característica. F... Quem fez este remate não joga domingo! Mas quando olhou para trás e viu o Ricardo Gomes mudou de ideias. Esse joga, esse joga!”**.
Se depois de sair do Benfica, já com 33 anos de idade, muitos pensariam que a carreira de Valdo estaria perto de terminar, então, o engano foi monumental! Com passagens pelo Nagoya Grampus (Japão), e o regresso ao Brasil, onde, quase sempre no primeiro escalão, representaria, Cruzeiro, Santos, Atlético Mineiro, Juventude, Grêmio e Botafogo, o atleta apenas se retiraria com a chegada dos 40!!!
Nisto, o início das suas actividades como treinador. As experiências no Brasil, em França (Lusitanos de Saint-Maur), ou, como adjunto de Artur Jorge, ao serviço dos argelinos do MC Alger, têm-no preparado para futuras aventuras. Tendo uma ligação muito forte a Portugal, o seu desejo é exercer essas funções num dos nossos emblemas e, quem sabe, dar seguimento a um grande sonho – “Espero voltar um dia, pelo que eu fiz e ainda represento. Segundo o que os dirigentes falam, talvez haja a hipótese de um dia integrar os quadros do Benfica, até pelo que já vivi e pela experiência que tenho como 27 anos de profissional. Gostaria de ser útil ao Benfica. Seja nos Iniciados, Juvenis, Juniores, acredito que poderia ser útil ao Benfica”***.


*retirado de artigo de José Ricardo Leite e Vanderlei Lima, em www.uol.com.br, a 17/12/2013
**retirado de “soubenfica2010.blogspot.pt”, citando o jornal “A Bola”, a 25/12/2010
***retirado da entrevista em www.avanteplobenfica.com, a 2 de Abril de 2011

COPA AMÉRICA, 100 ANOS DE VENCEDORES

Tendo, dia 26 do mês passado, terminado a edição comemorativa do Centenário da Copa América, no “Cromo sem caderneta” não poderíamos deixar de comemorar tal certame. Ora, para prestar homenagem àquela que é a competição de selecções mais antiga no mundo do futebol, todo o mês de Julho será dedicado aos seus campeões.