957 - FAIA

Armindo Antenor dos Santos Carvalho, com nome de guerra Faia, atingiria o pico da sua carreira no início dos anos 80. Porém, ainda antes dessas temporadas vividas na 1ª divisão, já o avançado tinha no seu currículo uma longa caminhada pelos escalões secundários.
Nascido em Trás-os-Montes e Alto Douro, seria no União de Leiria que começaria a destacar-se. A disputar a 2ª divisão, o extremo esquerdo integraria a equipa do “Liz” durante a primeira metade da década de 70. Sem que o conjunto beirão conseguisse a tão almejada promoção, situação que esteve mais perto de acontecer aquando do 3º posto alcançado na Zonal Sul da temporada de 1971/72, a sua aposta cairia num regresso à sua cidade natal.
De volta a Vila Real, e ao clube com o mesmo nome, Faia seria um dos intérpretes da promoção da agremiação transmontana da 3ª para a 2ª divisão. No entanto, e apesar do sucesso do conjunto, para o atacante seria somente um regresso a um patamar com o qual já estava bem familiarizado. Todavia, a subida conseguida no final da campanha de 1975/76, permitir-lhe-ia almejar uma maior visibilidade. A preponderância que conseguiria conquistar nos desempenhos do clube não passaria despercebida. Nesse sentido, a oportunidade que há muito perseguia acabaria por chegar e do principal escalão português chegaria um novo desafio.
Orientado pelo treinador Mário Imbelloni, seria o Famalicão de 1978/79 que daria azo ao ensejo de Faia para jogar na 1ª divisão nacional. Contudo, aquela que parecia ser a temporada de estreia nos palcos principais do nosso futebol acabaria por tornar-se numa enorme desilusão para o atleta. Sem conseguir que o técnico argentino cedesse às suas habilidades, o atacante acabaria por não conquistar presença alguma em campo. A dita chance surgiria apenas após nova mudança. Com a sua transferência para o Penafiel, o extremo apresentar-se-ia, finalmente, em terrenos primodivisionários. Depois de ajudar os durienses a conseguir a promoção no final da campanha de 1979/80, é já na época seguinte que encetaria a sua caminhada entre “os grandes”.
Sendo utilizado com bastante regularidade durante a sua passagem de 2 temporadas pela 1ª divisão, a sua permanência no escalão máximo parecia estar assegurada. Puro engano! Mesmo com a manutenção do Penafiel confirmada, Faia, que estava próximo de completar 32 anos, acabaria transferido. Talvez pela sua idade, a verdade é que o avançado não mais voltaria ao patamar principal. Desportivo de Chaves, Régua e o regresso ao Vila Real completariam um percurso que terminaria, em 1986, no emblema transmontano.

956 - COELHO

Sem ter um físico impressionante, ainda mais tendo em conta que jogava a avançado-centro, era na velocidade que Coelho tinha a maior arma. Essa característica, ainda durante a sua formação como futebolista, permitir-lhe-ia vingar tanto no FC Porto, como com as cores das jovens selecções portuguesas.
Tendo, com as “quinas” ao peito, passado por diversos escalões, a transição das “escolas” para sénior parecia estar assegurada com sucesso. Depois do título de juniores conquistado pelos “Dragões” na época de 1979/80, a convocação, por parte de Jesualdo Ferreira, para que disputasse o Europeu sub-18 de 1980, serviria, mais uma vez, para aferir o êxito do seu futuro. No entanto, a primeira temporada no plantel principal “Azul e Branco” desmentiria as projecções feitas. Sem grandes oportunidades concedidas pelo austríaco Herman Stessl, o atacante acabaria por ser dispensado no final da campanha de 1980/81.
Tapado nas Antas pelo internacional irlandês Mike Walsh, a ida para o Boavista acabaria por ser a solução encontrada para assegurar a sua evolução. Podendo a mudança ter sido vista como um passo atrás, a verdade é que a sua ida para o Bessa provaria ser o oposto. Mantendo-se nas convocatórias para a selecção nacional, pela qual disputaria o afamado Torneio de Toulon, aos poucos começaria a tornar-se mais preponderante nas estratégias dos seus treinadores. A participação nas competições europeias e a luta pelos lugares cimeiros da tabela classificativa, seriam pontos favoráveis ao seu desenvolvimento como atleta. Tanto com Mário Lino, como no reencontro com Herman Stessl, o atacante mereceria a aposta nele feita e, com grande regularidade, seria chamado a jogo.
Durante as 7 temporadas com os “Axadrezados”, o seu melhor período vivê-lo-ia nos últimos 2 anos. Ao conseguir assegurar-se como um dos titulares do ataque boavisteiro, também o seu nome passaria a ser equacionado para representar a selecção principal. Com Portugal a viver o rescaldo do tão badalado “Caso Saltillo”, a renovação perpetrada nos anos a seguir ao Mundial de 1986, poria o avançado na linha-da-frente. A viver uma temporada de sucesso no clube, Ruy Seabra convocá-lo-ia para a fase de qualificação do Euro 88. Essa partida de estreia, disputada frente à Suécia a 12 de Outubro de 1986, acabaria por ser de bom prenúncio. Tendo entrado para o lugar de Shéu aos 62 minutos, Coelho, à imagem do que tantas vezes já tinha acontecido no Boavista, tornar-se-ia na arma secreta do conjunto “luso”.
O golo marcado frente à selecção escandinava seria um ponto a seu favor. Esse tento, como serviria de tónico para mais uma serie de mais 7 convocatórias. Todavia, talvez pelo falhanço na qualificação para fase final do Europeu ou pela saída do Boavista em 1988, Coelho não voltaria a vestir a camisola de Portugal. Ainda que perdido o estatuto de internacional, a verdade é que o atacante conseguiria manter-se como um atleta de valor primodivisionário. Estrela da Amadora, Penafiel, Desportivo de Chaves e o regresso ao Bessa mantê-lo-iam no patamar principal do nosso futebol nas 4 épocas seguinte. Da temporada de 1991/92 em diante, a sua carreira prosseguiria pelos escalões secundários. Excepção para a primeira metade da campanha de 1995/96, na qual, ao serviço do Felgueiras, o avançado voltaria a participar na 1ª divisão.

955 - PEDRO

Tendo entrado para os infantis do Paços de Ferreira em meados da década de 80, seria no clube da sua terra natal que Pedro completaria toda a carreira de futebolista. Já em 1993/94, pela mão do técnico Vítor Urbano, Pedro é integrado no plantel principal. No entanto, essa época de estreia nos seniores, ainda que feita na 1ª divisão, acabaria por fadar o jovem guarda-redes à condição de escolha secundária. Tapado por atletas mais experientes, demoraria ainda um par de anos para que o guardião conseguisse conquistar um lugar no “onze” inicial.
O seu momento de estreia aconteceria já António Jesus, antigo guardião internacional português, havia tomado as rédeas do clube. Com o emblema na Divisão de Honra, Pedro acabaria por merecer as oportunidades que, até então, ainda não tinha conseguido conquistar. Essa passagem pelo, à altura, 2º escalão nacional, mesmo permitindo ao jovem atleta ganhar a estaleca que necessitava para a sua evolução, acabaria por prolongar-se por diversos anos. O regresso ao patamar máximo dar-se-ia em 2000/01. Já com José Mota, nome mítico na história dos “Castores”, a assumir o papel de treinador, o guardião manteria o lugar de titular. Esse estatuto preservá-lo-ia nos anos seguintes. Nesse sentido, acabaria por tornar-se num dos pilares da campanha de 2002/03, na qual os pacenses atingiriam as meias-finais da Taça de Portugal e terminariam o Campeonato no 6º posto da tabela classificativa.
Outros marcos na sua carreira aconteceriam já nos últimos anos desse percurso. Sem a preponderância de outrora, Pedro ainda ajudaria o grupo a atingir metas nunca antes alcançadas pelo clube. Em 2006/07 faria parte do plantel que, mais uma vez, alcançaria o 6º lugar na classificação da Liga. Na temporada seguinte veria o Paços de Ferreira defrontar os holandeses do AZ Alkmaar, na estreia do emblema duriense nas competições europeias. Por fim, naquela que seria a sua derradeira convocatória, assistira do banco de suplentes, à final da Taça de Portugal de 2008/09.
Após terminar o seu trajecto como futebolista, Pedro enveredaria pela carreira de técnico. Como treinador de guarda-redes começaria a sua caminhada pelo Paços de Ferreira. Ainda nessas funções, e como adjunto de Jorge Costa, o antigo atleta passaria pela selecção do Gabão e pelos tunisinos do CS Sfaxien.

954 - COSTACURTA

Seria após um empréstimo de 1 ano ao Monza que Alessandro Costacurta conseguiria, em definitivo, fixar-se no plantel do AC Milan. O que ninguém estaria à espera, nem mesmo o jogador, é que esse regresso na temporada de 1987/88 significasse um total de mais de duas décadas a defender os “Rossoneri”.
De volta a San Siro, Arrigo Sacchi, que, antes da referida cedência, já tinha chamado o defesa aos trabalhos da equipa principal, consideraria Costacurta como apto para fazer parte do grupo de trabalho. Ainda que com um começo discreto, aos poucos o defesa começaria por merecer mais oportunidades. Tacticamente a roçar a perfeição, era também na sua rápida reacção e numa cirúrgica capacidade de desarme que o central tinha as suas melhores armas. A juntar a tudo isso, e apesar de não ser um fora-de-série com a bola nos pés, o rigor com que sempre entrava em campo permitir-lhe-ia, como lateral ou “trinco”, jogar em outras posições.
Mesmo tendo em conta todas as habilidades aqui arroladas, a transição da década de 80 para a de 90 coincidiria com uma das melhores épocas da história do clube. Por tal razão, a conquista de um lugar como titular era sempre um pouco mais suada. Porém e a aferir toda a sua qualidade, logo na temporada de 1988/89 já o central era um dos nomes mais vezes inscritos nas fichas de jogo. Paralelamente à sua ascensão, também os títulos passariam a surgir no seu quotidiano. Depois da conquista na Serie A de 1987/88, a campanha seguinte traria ao currículo do atleta o primeiro troféu europeu. Na final da Taça dos Campeões Europeus, disputada frente aos romenos do Steaua Bucaresti, Costacurta entraria de início para ajudar na vitória por 4-0.
Os 7 “Scudettos”, 1 Coppa de Itália, 5 Supercoppas, 5 “Champions” (com a de 1990 ganha frente ao Benfica), 4 Supertaças da UEFA e 2 Taças Intercontinentais são os resultados do seu sucesso. Todavia, e pertencendo esses números à sua trajectória clubística, faltou ao jogador uma conquista com as cores da selecção. Curiosamente, as cores da equipa principal italiana só entrariam na sua carreira já o jogador contava com 25 anos de idade. Depois de ter participado em 2 Europeus sub-21, só em 1991 é que Costacurta conseguiria a primeira internacionalização pelo conjunto “A”. Numa partida frente à Noruega, a contar para a fase de qualificação do Euro 92, o seu velho conhecido Arrigo Sacchi, chamá-lo-ia ao “onze” da “Squadra Azurra”. Daí em diante passaria a ser um nome habitual nas convocatórias. Pelo seu país, o defesa disputaria 3 grandes torneios. Da passagem por 2 Mundiais e 1 Europeu, destaque para a sua participação no Campeonato do Mundo organizado nos Estados Unidos da América e para a final aí perdida com o Brasil.
Como já aqui foi referido, a longevidade da sua carreira transformar-se-ia num dos grandes marcos desse seu percurso. Sem nunca perder a preponderância nos êxitos do AC Milan, a última campanha disputada pelo clube traria ainda mais uma curiosidade. Na 37ª jornada da temporada de 2006/07, na conversão de uma grande penalidade, Costacurta concretizaria o derradeiro golo como futebolista profissional. Esse último tento, que não evitaria a derrota frente à Udinese, transformaria o central no mais velho da história do “Calcio” a marcar na “Serie A”.

953 - PAULO FERREIRA

Após ter passado pelas “escolas” do Sporting e, ainda, pelas do Damaiense, a sua chegada ao Estrela da Amadora faria com que novos olhares nele poisassem. Os responsáveis técnicos da Federação Portuguesa de Futebol, tendo reparado nas qualidades técnicas do extremo, começariam a chamá-lo aos trabalhos das jovens selecções lusas. As esperanças nele depositadas começariam a tomar corpo no começo dos anos 90, com as primeiras convocatórias aos sub-18. Dando resposta à boa evolução do atleta seguir-se-iam novas chamadas. Em 1993, pela mão de Agostinho Oliveira, é então que Paulo Ferreira participa num dos principais torneios organizados pela FIFA. Na Austrália, ao lado de jogadores como Costinha, Porfírio, Litos ou Andrade, participa em 2 partidas do Mundial sub-20.
Por altura do certame disputado na Oceânia, já o avançado, na campanha de 1991/92, tinha feito a estreia pelos seniores do Estrela da Amadora. Na Reboleira, com o emblema ainda a militar na Divisão de Honra, o extremo acabaria por ter que trabalhar muito para conseguir algumas oportunidades. Após essas primeiras temporadas, vividas na sombra dos seus colegas de balneário, seria com o regresso do clube ao escalão maior que Paulo Ferreira começaria a merecer mais chamadas à ficha de jogo. No entanto, a grande mudança na sua carreira chegaria com a contratação de um novo treinador. Com Fernando Santos, o esquerdino passaria a merecer mais oportunidades. A partir de 1994/95, ainda sem conseguir ser um dos titulares indiscutíveis, a regularidade com aparecia em campo começaria a cimentá-lo como um dos bons futebolistas presentes no Estádio José Gomes.
A relevância que tinha para a estratégia montada cresceria a cada época passada. A admiração que o técnico tinha pelos seus atributos, baseada nas suas exibições, tornar-se-ia inegável. De tal forma era a certeza nas capacidades do atleta que, já Fernando Santos estava há um ano à frente dos destinos do FC Porto, e o seu nome é sugerido como novo reforço dos “Dragões”. Contudo, e contrariamente àquilo que a aposta do treinador faria acreditar, Paulo Ferreira não conseguiria impor-se de “Azul e Branco”. Essa temporada de 1999/00 tornar-se-ia numa enorme desilusão para o atacante. Com apenas algumas partidas disputadas pela equipa “B”, a meio da referida campanha o jogador seguiria para Sul e, por empréstimo, passaria o resto da época a defender as cores do Farense.
Na sequência dessa primeira cedência e, posteriormente, após a rescisão que o ligava ao FC Porto, Paulo Ferreira entra numa fase mais errática da sua carreira profissional. As duas passagens por Faro, o regresso ao Estrela da Amadora e ainda o Varzim marcariam a última parte da sua caminhada como atleta de alta competição. Destaque, ainda antes de um adeus definitivo, para o tempo passado nos “regionais” lisboetas e ao serviço do 9 Abril Trajouce.
Depois do final da sua carreira, ainda que longe dos palcos de outrora, Paulo Ferreira tem mantido a sua ligação à modalidade. Tendo sido internacional pelas camadas jovens de Portugal, é na área da formação que tem trabalhado. Como treinador, tem estado vinculado a colectividades de cariz amador.

952 - LUIZ CLÁUDIO

Dividida a sua formação entre o Bangu e o Vasco da Gama, seria no emblema fundado por portugueses que Luiz Cláudio, na segunda metade da década de 90, faria a passagem para o patamar sénior. Todavia, e num clube onde é tão habitual a presença de grandes craques, o avançado, nessa transição, teria que contentar-se com um papel mais secundário.
Mesmo tido pelo técnico Antônio Lopes como um amuleto, tais eram os golos por si concretizados quando, vindo do banco, entrava em campo, a sua pouca utilização levaria os responsáveis da colectividade carioca a equacionar um empréstimo. A primeira cedência ocorreria em 1999. No entanto, na passagem pelo Esporte Bahia, uma lesão atrasaria a sua evolução. Já no regresso ao Rio de Janeiro, a presença de nomes como Romário, Edmundo, Donizete ou Viola acabariam por, mais uma vez, destinar o atleta a outras paragens.
Seria depois da temporada no Palmeiras, passada sob o comando de Luiz Felipe Scolari, que o regresso ao Vasco da Gama aconteceria. Ao contrário do que seria espectável, principalmente pela boa campanha feita na cidade de São Paulo, a sua integração não teria o sucesso esperado. Nisto, o “passe” do avançado seria vendido. Com o seu currículo enriquecido pelas vitórias de 1 Campeonato Carioca, de 1 “Brasileirão”, de 1 Copa dos Libertadores e 1 Copa Mercosul, Luiz Cláudio daria continuidade à sua carreira no Internacional de Porto Alegre e, de seguida, no Sport Recife.
É então que, por essa altura, surgiria o interesse do Boavista. O sucesso da sua passagem pelas “Panteras”, numa altura em que ainda era vivida a ressaca do Campeonato conquistado em 2001, seria relativo. Com a temporada de 2002/03 colorida por alguns golos, a época seguinte já não seria tão prolífera. Ora, tais números ditariam o seu regresso ao Brasil e a um novo pragmatismo na sua carreira. A nova realidade ditaria que o atacante passaria a ser um “globetrotter”. Vários seriam os emblemas que, no seu país natal, enriqueceriam o seu trajecto. Depois viriam novas aventuras no estrangeiro, curiosamente em destinos pouco prováveis – “(…) fui jogar no Líbano. Eu olhava do meu prédio e só avistava tanques de guerra e soldados armados (…), depois fui para a Síria (fui na intenção do contrato ser maravilhoso), cheguei lá fiquei com muito medo pois havia toque de recolher”*.
Pouco tempo após o regresso do Médio Oriente, o avançado decidiria pôr um ponto final na sua caminhada como futebolista. Tendo ficado ligado à modalidade que, durante mais de duas décadas preencheria a sua vida, Luiz Cláudio passaria a dedicar-se à gestão da carreira de outros atletas.

*adaptado da entrevista conduzida por Luiz Otávio Abrantes de Oliveira, publica a 13/01/2017, em https://www.lance.com.br

951 - WILSON


Filho de João Estrela, futebolista, e Ana Maria Estrela, basquetebolista, pouco parecia restar ao futuro de Wilson do que ficar ligado ao desporto. Nisso de fados também os seus irmãos acabariam arrastados para a prática desportiva e, tal como antigo internacional angolano, Walter e Wagner Estrela conseguiriam trilhar uma carreira profissional no futebol.
Já com a sua família a viver em Portugal, seria entre as camadas jovens do Ginásio de Alcobaça e as do Caldas que Wilson dividiria a sua formação. Após a promoção a sénior, e durante diversos anos, o defesa disputaria com as cores do emblema caldense os patamares secundários do nosso futebol. Ainda com curtas passagens pelo Olhanense e pelo “O Elvas”, as campanhas passadas longe do escalão maior estender-se-iam até por volta dos seus 25 anos de idade. Esse tempo, demasiado para a qualidade que ia demonstrando, terminaria com a intervenção de um antigo internacional português – “Foi através do Francisco Vital, treinador do Caldas, que me indicou ao então treinador do Gil Vicente, Vítor Oliveira. Fui à experiência e ao fim de três dias assinei um contrato de dois anos (…). O Sr. Vital veio ter comigo dizendo que eu tinha condições para almejar a voos mais altos e que havia um clube da I Divisão interessado em mim. Pensei que era brincadeira”*.
Curiosamente, seria o treinador que o haveria de receber no patamar máximo que, alguns anos após a sua chegada ao emblema de Barcelos, acabaria também por ajudá-lo no seu próximo passo. Após 5 anos com o Gil Vicente, entre os quais 3 na 1ª divisão, Wilson passaria a ser visto como um atleta cuja tremenda regularidade exibicional nunca o deixava mal. Sendo um defesa rijo, é também certo que o seu poder de desarme fazia dele um dos melhores a actuar em Portugal na sua posição. Nesse sentido, Vítor Oliveira, que já conhecia as capacidades do líbero durante a passagem de ambos pelo Minho, acabaria por sugerir a sua contratação para reforçar o plantel de 1999/00 do Belenenses.
Por altura da sua chegada ao Restelo, já o atleta usufruía do estatuto de internacional. Convocado por Carlos Alhinho, Wilson, ao lado do seu irmão Walter, partiria para a África do Sul para disputar a edição de 1996 da CAN. Com as cores de Angola o defesa participaria num total de 4 partidas. Seria, contudo, com a camisola do Belenenses que viveria os melhores momentos da sua carreira. Com mais de centena e meia de jogos no Campeonato e 6 temporadas com a “Cruz de Cristo” ao peito, o central transformar-se-ia num dos históricos do clube lisboeta. Esses números acabariam por ser o reflexo daquilo que era dentro de campo. Com grande sentido posicional e uma excelente capacidade para ler o jogo, também a sua rapidez era uma grande ajuda no momento de desempenhar as suas tarefas.
Após deixar o Restelo em 2005, Wilson, por mais alguns anos, ainda haveria de vogar pelas divisões secundárias. Após deixar os relvados, o antigo defesa passaria a dedicar-se às funções de treinador. Tendo, como técnico principal, passado pelos Nazarenos, voltou este ano (2018/19) ao Belenenses SAD para, como adjunto, trabalhar com os sub-23.

*retirado do artigo publicado em www.record.pt, a 19/10/2001

950 - DOMINGOS LOPES


Domingos Lopes, alentejano de nascença, haveria de surgir para o futebol um pouco mais a Sul. No Algarve, com as cores do Lusitano de Vila Real de Santo António, o extremo emergiria das camadas jovens para, na transição da década de 20 para a de 30, brilhar na categoria principal dos do Sotavento. Pela delegação do Sport Lisboa Benfica, daria um enorme contributo para alguns dos títulos conquistados por essa altura. Tendo vestido a camisola do clube por diversas temporadas, o apogeu da sua passagem pelos “Diabos Algarvios” viria com as conquistas de 3 Campeonatos regionais.
Apesar do sucesso alcançado nas competições algarvias, seria a participação no Campeonato de Portugal que viria a sublinhar a sua qualidade. Não podendo mostrar-se indiferente a tão categórica demonstração de classe, o Benfica decide chamá-lo para a “casa mãe”. Tendo chegado a Lisboa na temporada de 1933/34, o atacante depressa conseguiria afirmar-se como um dos bons jogadores do plantel sénior. Podendo colocar-se à esquerda ou na direita do ataque, a sua contribuição para os êxitos das “Águias” ficaria nos anais do clube lisboeta. Apesar de não ter entrado em campo na campanha que levaria à conquista do Campeonato de Portugal de 1934/35, a vitória como que serviria de tónico para a sua participação no primeiro “tri” do futebol português.
Com a criação do Campeonato da Liga da 1ª divisão na temporada de 1934/35, a 2ª edição da prova daria início a um ciclo glorioso, até então inalcançado por qualquer um dos emblemas nacionais. Com Domingos Lopes a assumir-se como uma das estrelas das referidas campanhas, o Benfica venceria 3 provas consecutivas. Sendo, muito à custa das suas assistências, um dos mais utilizados pelo treinador húngaro Lippo Hertzka e também por Vítor Gonçalves, o extremo tornar-se-ia num dos pilares de tais conquistas. Curiosamente, seria ainda antes dos troféus alcançados com a camisola encarnada que Domingos Lopes vestiria as cores da selecção nacional. Em Março de 1934, com ambas as partidas a contar para a Fase de Qualificação do Mundial, Ribeiro dos Reis haveria de eleger o avançado benfiquista como um dos titulares no duplo confronto com a congénere espanhola.

949 - JABURÚ

Com as escolas do Fluminense a servirem de casa da partida, seria no América Mineiro que, após uma curta passagem pelo Olaria, Jaburú acabaria por merecer um maior destaque. No clube de Belo Horizonte, os golos por si concretizados torná-lo-iam numa das estrelas da massa adepta. Mais importante do que toda essa paixão, o trabalho mostrado em campo, lado-a-lado com uma faceta afoita, acabariam por fazer dele uma das prioridades nas convocatórias de Dorival Yustrich.
A admiração do técnico tornar-se-ia de tal ordem que, após ser contratado pelo FC Porto, haveria de sugerir o nome do ponta-de-lança como um dos reforços a adquirir. Com a chegada às Antas de Yustrich e do avançado, a temporada de 1955/56 acabaria por transformar-se num enorme sucesso. Para tão grande êxito muito contribuiria a disciplina imposta pelo treinador brasileiro. Porém, a ajuda do jogador, senão mais importante, passaria a ser vista como de igual relevância. Alto e possante, o físico do atleta era apenas o móbil para um exímio jogo aéreo e de pés. Tanto de cabeça, como a rematar com a direita ou com esquerda, Jaburú tornar-se-ia numa enorme dor de cabeça para todos os defesas adversários. Essa superioridade seria uma das maiores armas no quebrar do jejum que durava há 16 anos. As quase três dezenas de golos concretizados nessa época, conseguiriam transformar-se na base das vitórias do FC Porto e da conquista do Campeonato e da Taça de Portugal.
O pior para o avançado é que o brilho que tinha dentro de campo também o acompanhava na sua faceta boémia. Com a saída de Yustrich no início da época seguinte, o rendimento do jogador começaria a diminuir. Ainda mantendo o estatuto de estrela maior do conjunto portista, a falta da disciplina imposta pelo treinador brasileiro acabaria por desregrar também a produtividade do ponta-de-lança. Havia também outro problema – a sua característica fleumática. Por razão dessa faceta, por diversas ocasiões seria expulso e severamente castigado. Ora, com tantos aborrecimentos causados, a solução passaria pela sua transferência. Nada difícil. Com a fama dentro dos relvados a precedê-lo, não tardou muito a que viessem outros emblemas no seu encalço. Em Outubro de 1958 a mudança concretizar-se-ia e Espanha tornar-se-ia na sua nova morada.
Já no Celta de Vigo as polémicas não largariam o atleta. Logo nos primeiros tempos sairia dos treinos queixando-se das costas. Testes feitos e o diagnóstico dava-o com uma bronquite e uma lesão na coluna. Nisto, e com o intuito de anular a transferência, o clube galego haveria de apresentar na Federação Espanhola uma declaração assinada pelo jogador, que afirmava já estar lesionado por altura da sua venda. Jaburú viria a público e afirmaria que tal testemunho não tinha passado de um equívoco. Para alimentar a polémica seguir-se-iam mais exames médicos e queixas do jogador contra a sua entidade patronal. Em Janeiro de 1959 o clube acabaria por suspendê-lo de todas as actividade e em Abril, para terminar com toda a história, a Federação acabaria por desvincular o avançado das suas obrigações contratuais.
Sem ter participado em um único jogo com a camisola do Celta de Vigo, Jaburú regressaria a Portugal. Dessa feita com a camisola do Leixões, o avançado contribuiria para uma das mais bonitas páginas do emblema de Matosinhos. Orientado por José Valle, que como interino já tinha treinado o atacante no FC Porto, a sua primeira época ainda correria de feição. O pior seria a seguinte. Sem conseguir deixar de lado o seu lado boémio, os problemas com o álcool começariam a revelar-se bastante problemáticos para o seu desempenho desportivo. Ainda assim, e já com o argentino Filipo Nuñez como treinador, o brasileiro ainda daria a sua ajuda na conquista da Taça de Portugal de 1960/61.
Ainda começaria a temporada seguinte ao serviço do Leixões. No entanto, inebriado pelas suas adições, o atleta acabaria por ser tido como um indigente e deportado para o Brasil. De volta ao Rio de Janeiro acabaria a viver na rua. Ao tentar ganhar a vida como engraxador, era na sua caixa que trazia as melhores recordações. Com fotos suas no FC Porto a embelezarem o equipamento de trabalho, era nas imediações do Maracanã que mais vezes era visto. Acabaria por falecer de formar trágica. Embriagado, viria a morrer vítima de um atropelamento.

948 - ROSADO

É certo que das escolas do Alferrarede para os juniores do Sporting vai uma grande diferença! Espantados com tamanho salto?! Sim! No entanto, a justificação chegaria pouco tempo depois da sua entrada em Alvalade. A convocatória para os sub-18 portugueses acabaria por dar razão a quem de tal aposta. Com tão rápida evolução, essas 2 internacionalizações pareciam alicerçar um bom futuro para o jovem atleta. Porém, as chamadas à selecção acabariam por ser insuficientes para que, no ano seguinte ao da sua chegada, Rosado conseguisse permanecer de “Verde e Branco”.
Com a subida a sénior, e a falta de espaço no plantel leonino, a passagem pelo Benfica de Castelo Branco daria continuidade ao seu percurso desportivo.Com a estreia na categoria principal dos albicastrenses a acontecer na temporada de 1978/79, as 2 campanhas passadas no 3º escalão abrir-lhe-iam as portas para um dos históricos emblemas nacionais e, acima de tudo, as da estreia na 1ª divisão. Todavia, a experiência na Académica de Coimbra, ainda que bastante enriquecedora, empurraria o jogador de novo para os escalões secundários. No final da primeira campanha pela “Briosa”, e com a despromoção do clube, seguir-se-iam na sua carreira uma meia dúzia de temporadas longe dos palcos principais do futebol português.
Entre o Verão de 1981 e o de 1987, Rosado ficaria vetado à 2ª divisão. Académica, Ginásio de Alcobaça e Vizela tornar-se-iam nos tons desse trajecto. Depois surgiria o Penafiel e novamente a 1ª divisão. Contudo, e para mal dos seus pecados, o atleta ficaria novamente entregue ao destino de anos antes. Com os resultados dessa campanha de 1987/88 a serem registados em números modestos, pouco mais restou ao futebolista do que render-se à ideia de nova separação. Todavia, o afastamento daqueles que são os grandes palcos da modalidade em Portugal, empurrá-lo-ia para a união mais importante do seu percurso profissional.
Com cerca de metade da carreira já cumprida, a sua contratação pelo Gil Vicente em 1988/89 concluir-se-ia de maneira bastante diferente. O traquejo ganho ao longo de vários anos permitiria ao atleta, que podia colocar-se no centro da defesa ou na posição de “trinco”, chamar para si um lugar no “onze” inicial dos “Galos”. Como titular, Rosado acabaria por ser peça fulcral numa das páginas históricas do emblema minhoto. Com Rodolfo Reis no comando técnico do grupo, os gilistas, em 1990/91, conseguiriam estrear-se na 1ª divisão. Ao contrário de testemunhos anteriores, os números apresentados pelo jogador dá-lo-iam como um dos mais importantes dentro do balneário. Assim sendo, não foi estranho constatar que, daí em diante e sempre no escalão máximo, continuasse a ser visto como um pilar de todas as manobras tácticas da equipa.
O fim da ligação de Rosado ao Gil Vicente surgiria em 1994. Com a sua caminhada a aproximar-se do fim, Famalicão e um ovacionado regresso ao Alferrarede preencheriam esses derradeiros anos. No entanto, o regresso ao emblema que o havia lançado no futebol acabaria também por ter outro significado. Tendo, nesses dois anos, desempenhado a tarefa de treinador-jogador, daí em diante o antigo futebolista abraçaria as funções de técnico. Nessas tarefas, já com o vasto currículo, tem conseguido destacar-se ao comando de diversas equipas dos patamares amadores.