852 - DAÚTO FAQUIRÁ

Com uma carreira que, nos escalões de formação, também passaria pelo Mem Martins SC, seria no Sintrense que Daúto Faquirá faria a transição para o patamar sénior. No emblema da histórica vila de Sintra, sem nunca deixar as divisões inferiores do futebol nacional, o médio construiria uma carreira discreta. Durante esse tempo, mesmo tendo na modalidade a sua maior paixão, manteria bem acesa uma serie de outros sonhos. Nunca tendo descurado os estudos, o ensino superior acabaria por ser o seu destino. Licenciar-se-ia em Educação Física e Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana, para, já uns anos mais tarde, completar uma segunda licenciatura em Educação Física e Desporto, na Universidade Lusófona.
Numa altura em que já era Professor de Educação Física, tomaria a decisão de deixar os campos para abraçar as tarefas de técnico. Tendo começado como adjunto, Daúto Faquirá chegaria a trabalhar sob alçada do conceituado Manuel de Oliveira. Já no decorrer da temporada de 1994/95, é convidado para assumir o cargo de treinador principal. Aceita e, mantendo-se no Sintrense, inicia uma caminhada que o levaria até à 1ª divisão.
Antes de chegar ao patamar máximo do futebol português, o percurso que tomaria após deixar o Sintrense, levá-lo-ia a orientar outros emblemas de divisões inferiores. O trabalho realizado nessas colectividades pô-lo-ia na mira de clubes de maior monta. No Odivelas, para onde entraria em 1999/00, conseguiria, no espaço de 2 temporadas, levar o clube dos “regionais” à 2ª divisão “B”. Já ao serviço do Barreirense alcançaria um feito idêntico e, em 2004/05, orienta o clube da “Margem Sul” rumo à divisão de honra.
Com tamanha prova, o salto para os campeonatos profissionais era o que ainda faltava na sua carreira. Após uma curta passagem, ainda na divisão de honra, pelo Estoril-Praia, acabaria por receber a primeira proposta vinda de um emblema primodivisionário. A sua estreia nos “grandes palcos” aconteceria na época de 2006/07 e com as cores do Estrela da Amadora. Depois, surgiria a oportunidade de liderar o Vitória de Setúbal. Nos “Sadinos”, resultado da qualificação conseguida por Carlos Carvalhal, Daúto Faquirá teria a oportunidade de disputar a Taça UEFA. Contudo, essa campanha de 2008/09 não correria como planeado e, antes de atingir o meio da temporada, o treinador seria dispensado.
Após o referido despedimento, Daúto Faquirá só voltaria ao activo cerca de ano e meio depois. No Olhanense, numa primeira temporada tranquila, consegue cumprir os objectivos delineados pela direcção e terminar o Campeonato a meio da tabela classificativa. Todavia, a época de 2011/12 voltaria a pôr no seu caminho a terrível “chicotada psicológica”. Sem se entender o motivo concreto, e com o conjunto a ocupar a 10ª posição, o treinador é afastado do comando do emblema algarvio.
Tendo, entre 2013 e 2014, passado pelos angolanos do 1º de Agosto, Daúto Faquirá tem estado afastado da competição. Esse distanciamento, ainda assim, não tem esmorecido a sua vontade de regressar. Paralelamente ao interregno, o técnico tem-se dedicado mais aos seus passatempos, caso da pintura, ou ao comentário desportivo. Nessas funções, destaque para a sua presença habitual em programas do canal televisivo SIC.

851 - SIMÃO SABROSA

Nascido em Trás-os-Montes, seria na Diogo Cão, pequeno clube sediado na escola com o mesmo nome, que daria os primeiros passos na modalidade. Em Vila Real, sendo um dos melhores atletas da referida colectividade, chamaria a atenção dos responsáveis do Sporting, que acabariam por convencê-lo a vir para Lisboa.
Ainda muito novo, a mudança para a capital não seria fácil para Simão. Apesar de, por várias vezes, ter pensado em desistir, a verdade é que a paixão pela modalidade superaria as dificuldades de estar longe de casa. Tão precoce era o seu talento que, ainda em idade júnior, conseguiria estrear-se pelos seniores. Na temporada de 1996/97, o atacante faria a primeira partida pela equipa principal “leonina”. Nesse jogo frente ao Salgueiros marca um golo e sela a qualificação do clube para a “Champions”. Daí em diante, transforma-se numa das principais estrelas dos “Leões”, acabando por ser chamado à selecção nacional.
Simão Sabrosa, que até já tinha sido campeão europeu s-17 por Portugal (1996), é convocado por Humberto Coelho para um particular. Nesse encontro disputado em Novembro de 1998, e tal como tinha acontecido na estreia pelo Sporting, o atacante consegue marcar um golo frente a Israel. Todavia, e apesar de um início auspicioso, o jogador só começa a ser presença habitual com a camisola de Portugal a partir de 2000.
Resultado de uma lesão, e numa altura em que já tinha passado pelo Barcelona e defendia as cores do Benfica, o extremo falha a presença no Mundial de 2002. Devido ao tal infortúnio, a primeira grande competição de selecções em que participaria seria o Euro 2004. No torneio organizado em Portugal, Simão dá a sua ajuda em 3 partidas. Acaba por não entrar em campo na final e, do banco de suplentes, vê a sua equipa perder frente à congénere grega. 
Nisto de grandes certames, Simão também contribuiria para o 4º lugar alcançado no Mundial de 2006 e para as participações no Europeu de 2008 e Campeonato do Mundo de 2010. Claro está que estas suas participações com a “camisola das quinas”, estão relacionadas, na sua grande maioria, com as temporadas passadas ao serviço do Benfica. Pelas “Águias”, muito mais do que ser um dos prediletos da massa adepta, o extremo conseguiria conquistar títulos importantes. Venceria a Taça de Portugal de 2003/04, a Supertaça de 2005/06 e, com Giovanni Trapattoni como treinador, sagrar-se-ia campeão nacional em 2004/05.
No que diz respeito a conquistas, a sua mudança para o Atlético de Madrid ira também enriquecer-lhe o currículo. Já despois de ouvir falar-se da sua transferência para o Liverpool e Chelsea, em 2007/08 Simão Sabrosa assina contrato com os “Colchoneros”. Na capital espanhola encontra-se com inúmeros atletas conhecidos do futebol português. Tendo, ao longo de 3 temporadas e meia, partilhado o balneário com Seitaridis, Zé Castro, Costinha, Maniche, Salvio, Pongolle, Reyes, Paulo Assunção, Roberto, Elias e Diego Costa, a quantidade de troféus no seu palmarés iria crescer em qualidade. 
Mesmo sem vencer qualquer competição interna pelo Atlético de Madrid, o extremo iria conseguir erguer a Liga Europa de 2009/10 e a Supertaça Europeia da época seguinte. Surpreendentemente, alguns meses após a conquista desse último troféu, Simão deixaria a “La Liga” para ir até Istambul. Na Turquia acabaria por vencer uma Taça, mas viveria alguns momentos complicados – “(…) houve uma grande confusão, no início da época seguinte, em que o presidente e o vice-presidente foram presos [por suspeitas de corrupção], e então os jogadores que tinham sido levados por eles, como foi o meu caso, acabaram por sofrer as consequências. Como tínhamos ordenados elevadíssimos, tivemos de sair, eu mudei-me para o Espanhol, para Barcelona. Mas a Turquia é o sítio onde as pessoas são mais fanáticas por futebol. E eu adoro Istambul”*.
O regresso a Espanha para a campanha de 2012/13, coincidiria com a entrada na última fase da sua carreira como futebolista. Após dois anos a jogar pelo emblema da Catalunha, Simão, sem conseguir vincular-se com outro clube, ver-se-ia forçado a um “ano sabático”. Em 2015/16 acabaria por voltar à actividade ao serviço do NorthEast United. Na Índia, e ao lado dos portugueses Miguel Garcia e Silas, disputaria a derradeira temporada como jogador profissional.
Após “pendurar as chuteiras” o antigo “capitão” “encarnado” haveria de conseguir destacar-se como comentador desportivo. Na SporTv tem participado em diversos programas e, inclusive, apresenta o seu próprio projecto - os “Amigos do Simão”.

*retirado da entrevista de Carlos Torres, publicada em www.sabado.pt, a 19/09/2003

850 - RUI FERREIRA

Vindo do Sporting de Espinho, Rui Ferreira chegaria ao Benfica ainda em idade juvenil. A sua adaptação ao clube seria tão boa que, poucos meses após a sua chegada, o médio haveria de ser chamado às jovens selecções de Portugal. Sob a alçada de Carlos Queiroz, e ao lado de jogadores como Luís Figo, o atleta também daria a seu contributo para alicerçar aquela que ficou conhecida como a “geração de ouro”. Com as “quinas” ao peito, seria convocado para participar no Mundial s-17 de 1989. Na Escócia, apesar de não ter chegado a entrar em campo, faria parte do grupo que conquistaria a medalha de bronze.
Apesar de todos os sinais darem a indicação que Rui Ferreira estaria talhado para uma carreira de sucesso, a verdade é que, na transição para a categoria principal, a realidade mostrar-se-ia bastante diferente. Sem lugar no plantel “encarnado”, a solução passaria por jogar noutro emblema. Em 1991/92, já longe de Lisboa, assina pelo Mirense e inicia a sua caminhada pelo patamar sénior.
Tendo começado na colectividade do distrito de Leiria, os anos seguintes manteriam Rui Ferreira nos escalões secundários do futebol nacional. Ao contrário do que muitos teriam previsto, o jogador ficaria bastante tempo sem experimentar a 1ª divisão. Com passagens por diferentes clubes, casos da Oliveirense, o regresso ao Sporting de Espinho, Lusitânia de Lourosa, União de Lamas e Gil Vicente, só 8 temporadas volvidas após deixar as “escolas” do Benfica, é que o trinco teria a oportunidade de jogar a principal competição portuguesa.
Depois de ter brilhado pela formação de Barcelos, onde conquistaria o título da Divisão de Honra (1998/99), seria pelo Salgueiros que, na temporada seguinte, faria a estreia no patamar maior dos nossos Campeonatos. Os 3 anos passados ao serviço do emblema de Paranhos, ainda que a lutar pela permanência, mostrariam que a carreira do “trinco” tinha, até então, ficado aquém das suas capacidades. Com a descida do clube portuense em 2002, mesmo tendo o jogador ultrapassado a “barreira dos 30”, logo apareceriam outros emblemas decididos em apostar na sua contratação. Seguir-se-ia o Vitória de Guimarães e, na “Cidade Berço”, as exibições de Rui Ferreira sublinhá-lo-iam, ainda mais, como um futebolista primodivisionário.
Após as campanhas disputadas pelo Belenenses, a carreira do médio entraria na fase descendente. Seguir-se-iam, já longe das grandes disputas, Portimonense e, mais uma vez, o Sporting de Espinho. Em 2008/09, depois de findada a temporada ao serviço do Santa Clara, o atleta decide ser a altura certa para retirar-se dos relvados. Tendo terminado o seu percurso como jogador, Rui Ferreira ainda daria os primeiros passos como treinador. Estando, por esta altura, afastado da modalidade, o antigo internacional português, tem-se dedicado mais à televisão. Como comentador desportivo, é habitual a sua presença em programas do Porto Canal.

849 - SOUSA

Sobrinho de António Sousa, antigo internacional português, e primo de Ricardo Sousa, José Sousa também encontraria no “jogo da bola” a sua paixão. Tal como os familiares, seria na Sanjoanense, emblema da sua terra natal, que o atleta daria os primeiros passos na modalidade. Mostrando-se bastante assertivo na maneira como abordava os lances, essa característica faria com que um dos “grandes” começasse a prestar mais atenção ao seu evoluir. É nesse sentido que, ainda em idade juvenil, o defesa acabaria por mudar-se para Lisboa, passando a vestir as cores do Benfica.
Relativamente à sua contratação por parte de “Águias”, não podemos ficar indiferente ao facto de que, por altura da sua chegada à “Luz”, o jogador já ter conseguido estrear-se com as cores da selecção nacional s-15. Pelo novo clube, tal como por Portugal, as suas exibições eram suficientes para que fosse possível aferir as suas boas qualidades. Sem ser um futebolista virtuoso ou com características físicas excepcionais, era no rigor táctico que Sousa tinha a sua maior força.
A sua estreia nos seniores do Alverca, à altura “satélite” do Benfica, viria sublinhar tudo aquilo que aqui já foi escrito sobre o jogador. A temporada que passaria a disputar a Divisão de Honra, faria com que os “Encarnados”, logo no ano a seguir à sua passagem pelo emblema ribatejano, o quisessem de volta ao plantel. Estreia-se na “Luz” na época de 1997/98 e, numa parceria com o extremo checo Karel Poborsky, ajuda a dinamizar a ala direita do clube “alfacinha”.
Com o Benfica a atravessar uma das mais conturbadas fases da sua história, os primeiros tempos de Sousa com a camisola encarnada seriam auspiciosos. Numa temporada em que passariam pelo banco diversos treinadores, o defesa conseguiria manter-se como um dos mais utilizados do plantel. O início da campanha seguinte, com o lateral a ser escolhido para jogar a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, dava sinais igualmente positivos. Contudo, a continuação de Graeme Souness no comando técnico da equipa, e a contratação de inúmeros britânicos, fariam com que o jogador perdesse algum espaço.
Incompreensivelmente, o começo de nova época “devolveria” Sousa ao Alverca. Possivelmente afectado por tal decisão, o final da temporada de 1999/00 leva o jogador rubricar um contrato com o FC Porto. Todavia, a sua sorte na “Invicta” seria ainda pior do que a vivida em Lisboa e, sem nunca ter jogado qualquer partida oficial pelos “Dragões”, o lateral começa a ser emprestado a outros clubes. Nessa senda de cedências acabaria por vestir, de Norte a Sul do país, uma série de diferentes camisolas. Sempre a disputar a 1ª divisão, o atleta passaria por Sporting de Braga, Farense e Belenenses.
É com a passagem pelo Restelo, primeiro por empréstimo e depois a título definitivo, que viveria a melhor fase da sua carreira. Com os da “Cruz de Cristo”, pela regularidade apresentada, Sousa torna-se num dos jogadores do Campeonato Nacional a melhor actuar na sua posição. Depois, 5 anos após a chegada ao Belenenses, a primeira experiência no estrangeiro. Nos cipriotas do Olympiakos de Nicosia, o jogador entra em definitivo na derradeira fase do seu percurso como futebolista. O fim, tendo por essa altura representado Beira-Mar e Arouca, chegaria com o terminar da temporada de 2009/10.
Com saída dos relvados, Sousa daria os primeiros passos como treinador. Nessas funções passaria pelas camadas jovens do Belenenses e, em 2016/17, pela equipa principal do Vilafranquense. Em paralelo com as suas tarefas de técnico, o antigo jogador tem-se destacado como comentador televisivo, em especial no canal Sportv.

COMENTADORES, parte II

Cada vez mais, com um crescendo de espectadores, os programas desportivos estão na berra. Neles, muito para além do futebol jogado no campo, vive-se da opinião e experiências de antigos craques. É para falar desses ex-atletas que, durante o mês de Fevereiro, vamos falar dos "Comentadores"!

848 - YASHIN

Com o rebentar da 2ª Guerra Mundial, e para ajudar no esforço comum do país, o jovem Lev Yashin ver-se-ia obrigado a trabalhar na indústria militar. Numa dessas fábricas, dá conta da existência de uma equipa de futebol e decide juntar-se ao grupo. Anos mais tarde, e sempre a guarda-redes, as exibições do jovem atleta chamariam a atenção de um “olheiro” do Dynamo de Moscovo. Tendo agradado ao funcionário do clube, é então convidado a treinar-se com o plantel. Estreia-se em 1950 e, logo nesse amigável, haveria de dar um enorme “frango”.
Mesmo não tendo impressionado no primeiro jogo, as qualidades que já apresentava assegurar-lhe-iam um lugar no clube. Integrando as “reservas”, decide também dar o seu contributo à equipa de hóquei no gelo. Em ambas as modalidades, Yashin encontraria a mesma paixão. Tanto no ringue de patinagem, como no campo de futebol, a baliza era o seu lugar!
Nisto do eclectismo, dir-se-ia que a passagem pelo hóquei teria ajudado, e de que maneira, na sua evolução como futebolista. A verdade é que a agilidade que mostrava era surpreendente. Essa característica terá sido o principal motivo para a sua contratação. Contudo, e ao longo dos anos em que defenderia a baliza do Dynamo e da URSS, Yashin desenvolveria muitas outras qualidades. A maneira como entendia a função de alguém na sua posição, acabaria também por revolucionar o futebol. Muito para além do que era habitual naquele tempo, onde ao guarda-redes era pedido que ficasse entre os postes, o guardião soviético gostava de andar por outras paragens. A intercepção de bolas altas nos cruzamentos, as saídas aos pés dos adversários ou a maneira como guiava os colegas do sector defensivo, acabariam por ser o seu contributo para o evoluir da modalidade.
A visão que tinha do jogo catapultaria o clube, tal como ajudaria ao sucesso da selecção. Com o Dynamo de Moscovo, única colectividade na sua carreira, conseguiria preencher o currículo com diversos títulos. Esses 5 Campeonatos e 3 Taças conquistadas, seriam adornadas pelos desafios enfrentados com as cores do seu país. Pela União Soviética, Yashin participaria em diversos certames além-fronteiras. A medalha de ouro ganha nos Jogos Olímpicos de 1956, numa altura em que ainda não era muito conhecido, seria o ponto de partida para outras aventuras. A seguir viria o Campeonato do Mundo de 1958 e o reconhecimento internacional. Já a vitória no Europeu de 1960 serviria para confirmar o guardião como um pilar no sucesso soviético.
Em questão de Mundiais, e talvez por ter sido nele que a União Soviética conseguiria a melhor classificação de sempre, há que destacar a presença de Yashin em Inglaterra. O guardião, que estaria presente em 4 fases finais, seria em 1966 a grande figura da União Soviética. O 4º lugar alcançado pelo conjunto de Leste, daria mais um número ao percurso do guarda-redes. Nessa caminhada, que terminaria em 1971, não posso deixar de fazer referência aos cerca de 150 “penaltys” defendidos e às 270 partidas sem qualquer golo sofrido.
Para terminar, uma das maiores consagrações individuais no universo do futebol. Lev Yashin, ao ganhar o “Ballon d’Or de 1963, ficaria na história da modalidade como o primeiro, e único guarda-redes a merecer tamanha distinção.

847 - ALF RAMSEY

A paixão pelo desporto começaria quando ainda era um garoto. Como estudante, haveria de praticar uma série de diferentes modalidades. Desde o cricket ao boxe, passando por várias disciplinas do atletismo, Alf Ramsey haveria de experimentar quase tudo. No entanto, a sua grande paixão era o futebol. A representar a equipa da escola, o jovem jogador conseguiria destacar-se dos demais. Mesmo tendo uma idade bem inferior à de alguns companheiros e adversários, o valor que mostrava em campo disfarçava as suas fragilidades físicas. Apesar do aspecto franzino, as qualidades técnicas faziam dele um excelente futebolista. Muito bom a interpretar as movimentações em campo, era também no passe que tinha outra das suas armas.
Já depois de ter representado a equipa amadora do Five Elms, a chamada ao exército empurrá-lo-ia para uma carreira profissional. Incorporado durante a 2ª Guerra Mundial, Alf Ramsey começaria a jogar pelo seu batalhão. Mesmo tendo como camaradas alguns atletas profissionais, casos de Len Townsend e Cyril Hodges, as suas exibições eram merecedoras de rasgados elogios. Tanto assim era que após uns amigáveis contra o Southampton, o médio recebe uma proposta do clube do Sul de Inglaterra. Impressionados, os responsáveis pelos “The Saints” decidem lançar-lhe um repto. Desafiado a acompanhar a equipa principal numa deslocação ao campo do Luton Town, o jogador decide aceitar o convite. A partida, a contar para a temporada de 1943/44, haveria de correr bem e, mesmo tendo falhado uma grande penalidade, a sua continuidade no grupo ficaria assegurada.
Durante a primeira época seriam poucos os jogos em que participaria. Apesar de continuar ligado ao clube, os afazeres com o exército mantinham-no afastado dos estádios. Nas campanhas seguintes, mesmo estando mais envolvido nos desafios desportivos, continuaria a intercalar a vida militar com o futebol. Só na temporada de 1946/47 é que tudo começaria a mudar. Tendo passado a dedicar-se em exclusivo à modalidade, Alf Ramsey seria integrado nas “Reservas” do Southampton. Relegado para a 2ª equipa, seriam necessários apenas algumas partidas para que o seu destino voltasse a mudar. Depois de, em anos anteriores, já ter experimentado as tarefas de avançado, médio-centro, interior-esquerdo e defesa-central, a mudança para lateral-direito abrir-lhe-ia as portas da categoria principal.
Ainda que titular da equipa, Alf Ramsey continuava sem nunca ter experimentado o principal patamar inglês. Após uma grave lesão e o posterior afastamento do “onze”, desentendimentos com o treinador e com alguns colegas de equipa, levariam a que o atleta exigisse a sua transferência. A mudança acabaria por mesmo por acontecer e, a partir temporada de 1949/50, o lateral passaria a vestir as cores do Tottenham.
A ida para White Hart Lane acabaria por empurrá-lo para os melhores anos da sua carreira. Logo para começar, e com a titularidade asseverada, Alf Ramsey ajuda os “Spurs” a vencer a 2ª divisão inglesa e a assegurar um lugar no patamar superior. Ainda assim, essa temporada de 1949/50 conseguiria garantir ao jogador mais algumas felicidades. Tendo feito a estreia pela selecção principal ao serviço do Southampton, as prestações do lateral ao longo dessa época devolvê-lo-iam às convocatórias dos “3 Lions”. O regresso ao conjunto inglês seria coroado com a chamada ao Mundial. No entanto, a prestação da equipa ficaria aquém do esperado e a Inglaterra claudicaria na 1ª fase do torneio.
Depois do desaire vivido no Brasil ao serviço da selecção, o regresso ao Tottenham garantiria ao atleta o primeiro grande troféu da sua carreira profissional. Com a promoção conseguida na campanha anterior, Alf Ramsey enceta assim o seu trajecto na “First division”. Sendo apenas um estreante nessas andanças, o lateral continuaria a destacar-se como um dos melhores jogadores do conjunto londrino. Ora, essa sua ajuda seria preciosa para o sucesso do grupo. Catapultados pelas suas exibições, os “Spurs”, longe do escalão maior há cerca de 15 anos, acabariam por surpreender mesmo os mais optimistas e sagrar-se-iam campeões.
Sucessos como os que referi apenas voltaria a vivê-los como técnico. Nessas funções, o primeiro clube a dar-lhe uma oportunidade seria o Ipswich. Aliás, o emblema de Suffolk, que para a época de 1955/56 preparava-se para disputar a 3ª divisão, haveria de sugerir ao internacional algo um pouco diferente. A proposta de um contrato como treinador-jogador seria recusada por Alf Ramsey, abraçando apenas o comando da equipa.
O trabalho realizado no Ipswich excederia todas as expectativas. Em poucos anos conseguiria transformar uma equipa sem brilho, num conjunto capaz de enfrentar os maiores desafios. Em 5 temporadas apenas haveria de levar o clube à “First Division”. Após conseguir a promoção, e tal como já tinha acontecido durante o seu percurso de jogador, a estreia no patamar maior seria brilhante. Mais uma vez, e contra todas as probabilidades, o seu clube surpreenderia o mundo do desporto e conseguiria vencer o campeonato inglês de 1961/62.
Menos de um ano após a conquista do referido título, o treinador começaria a trabalhar na federação. Como seleccionador inglês, o momento mais alto vivê-lo-ia no Campeonato do Mundo de 1966. Para o certame disputado no seu país, conseguiria juntar um grupo onde pontuariam alguns dos melhores atletas do futebol britânico. Com Booby Moore como “capitão” e com craques como os irmãos Charlton, Gordon Banks ou Geoff Hurst, a Inglaterra conseguiria bater os principais adversários e, tal como Alf Ramsey tinha previsto aquando da sua chegada aos comandos da equipa nacional, venceria o torneio.

846 - FESTA

Mesmo com o Tirsense nas divisões inferiores, Alberto Festa conseguiria chamar a atenção do FC Porto. Andando os responsáveis técnicos dos “Dragões” à procura de alguém que pudesse substituir o internacional Virgílio Mendes, encontrariam no lateral-direito as qualidades necessárias para tamanha tarefa.
Sem grande experiência competitiva na alta-roda do futebol português, a contratação do jovem defesa era um risco. Tendo chegado na temporada de 1959/60, e ainda longe da 1ª categoria, Festa começa logo a dar sinais de que a sua qualidade ia de encontro às necessidades do clube. No início da época seguinte é, então, chamado pela primeira vez a um jogo da equipa principal. Frente ao Olhanense faz a sua estreia e, desde esse momento, passaria a ser uma figura habitual nas fichas de jogo.
A partir da temporada de 1962/63, a titularidade assumida no FC Porto, faria com que da selecção chegasse a sua primeira internacionalização. Após essa partida de apuramento para o Europeu de 1964, o seu nome voltaria, com enorme regularidade, a ser chamado aos trabalhos da equipa nacional. Seria também com a “camisola das quinas” que o atleta viveria o momento mais alto da sua carreira. No Mundial de 1966, e tendo como concorrente a um lugar no “onze” o sportinguista Morais, Festa entraria em campo em metade dos jogos. No certame organizado em Inglaterra, o defesa disputaria as partidas frente à Bulgária, Inglaterra e União Soviética, ajudando Portugal a chegar ao 3º posto.
Após o Mundial, e para surpresa de muitos, o lateral perde algum espaço no escalonamento da equipa portista. Ainda assim, é nos últimos anos a jogar nas Antas que Festa vence o troféu mais importante de toda a sua carreira. Com vitórias em 5 edições da Taça de Honra da Associação de Futebol do Porto, a verdade é que no seu palmarés consta apenas uma conquista naquelas que são as grandes provas nacionais. A Taça de Portugal de 1967/68, onde o defesa participaria em duas partidas, acabaria por ser o ponto mais alto da sua passagem pelos “Azuis e Brancos”.
Depois do FC Porto, Festa regressaria ao Tirsense. Ainda ajudaria à promoção e do emblema à 1ª divisão, para, no final da campanha de 1971/72, pôr um ponto final no seu percurso como futebolista.

845 - HELMUT HALLER

Ainda em idade adolescente, Helmut Haller entra para o emblema da sua terra natal. No Augsburg termina a formação e, já na segunda metade da década de 50, chega à equipa principal. Apesar de exibir uma forma física pouco condizente com o padronizado para um atleta de alta competição, o atacante impressionava pelas suas capacidades técnicas. Ainda que apontado pelo excesso de peso, era também inegável que a suas habilidades faziam dele um jogador excepcional.
Bom de “drible” e com uma capacidade de passe bem acima da média, Haller rapidamente chamaria a atenção dos responsáveis máximos pelo futebol germânico. Com apenas 19 anos, num jogo disputado a 24 de Setembro de 1958, estreia-se pela principal selecção da antiga República Federal Alemã. A partir desse particular frente à Dinamarca, o atleta começa a ser um dos nomes habituais na convocatória da “Mannschaft”. Tal era a sua importância para o grupo que, em 1962, é chamado ao Mundial. No Chile reforça o estatuto de titular e joga 3 das 4 partidas disputadas pelo seu país.
Como resultado da participação no Campeonato do Mundo, Haller vê o seu valor subir em flecha. Com a liga alemã ainda em tempos de semiprofissionalismo, e com a sua cotação em alta, o interior-direito não resiste à chamada vinda do “Calcio”. Atraído por um salário substancialmente maior, factor que levaria alguns directores do futebol germânico a apelidarem-no como mercenário, o atleta segue para Itália. No Bologna, logo à 2ª temporada, vence o “Scudetto” e é eleito o jogador do ano. Todavia, e mesmo com o título de 1963/64 a embelezar-lhe o currículo, a federação continuaria a apontar-lhe a sua “traição” e a mantê-lo arredado da equipa. Mais de 2 anos após o afastamento, o jogador vê a sua “pena” revogada e começa a participar na qualificação para o Mundial de 1966.
Com a presença da sua selecção em Inglaterra, o atleta começa a merecer a atenção dos que acompanhavam o certame. Sem ser um avançado puro, o interior começa a destacar-se pelos golos conseguidos. À conta dos seus remates certeiros, e da ajuda dada nas manobras ofensivas, o conjunto germânico avança no torneio. Já depois de eliminar a União Soviética nas meias-finais, a Alemanha Ocidental enfrentaria a equipa da casa. Em Wembley, logo aos 12 minutos, Helmut Haller inaugura o marcador. Embora insuficiente para arrecadar o título de campeão, o tento conseguido na final contribuiria para que o jogador conseguisse alcançar o 2º posto na tabela dos melhores marcadores.
A sua 3ª participação em Campeonatos do Mundo viria numa altura em que Haller já representava a Juventus. Ao contrário do que se passaria no México 70, durante o qual haveria de ser afectado por uma grave lesão, a sua contribuição para o sucesso da “Vecchia Signora” seria notável. Pelo emblema da cidade de Torino, o internacional alemão venceria mais 2 “Scudettos” (1971/72; 1972/73). Nas competições da UEFA chegaria à final da Taça das Cidades com Feira de 1970/71 e à final Taça dos Campeões Europeus de 1972/73. Tendo sido derrotado, respectivamente por Leeds United e Ajax, a falta de um título continental tornar-se-ia numa das brechas da sua carreira.
Mesmo tendo já ultrapassado a barreira dos 30 anos de idade, Haller continuaria em Itália por mais algumas temporadas. É já com mais de uma década de “Calcio” que o alemão decide voltar ao país natal. De regresso ao clube que o tinha lançado no desporto, o atleta permaneceria aí até ao fim da sua carreira. Mesmo a disputar os escalões secundários, o jogador continuaria a atrair multidões. A sua popularidade era enorme e, na temporada de 1973/74, uma partida frente ao TSV 1860 München chamaria uma imensidão de adeptos ao Olímpico de Munique. A procura de um lugar nas bancadas foi tal ordem que, ainda hoje, a venda de bilhetes para esse jogo é tida como recorde mundial num jogo de 2ª divisão.

844 - PAK DOO-IK

Não podemos dizer que o futebol da Coreia do Norte tenha dado muitas estrelas ao desporto mundial. No entanto, há momentos em que a fortuna resgata alguns desses atletas do anonimato. Pak Doo-Ik é um desses nomes. Todavia, como em tantas outras coisas no regime norte-coreano, as informações sobre a sua carreira, ou vida pessoal do médio, não são fáceis de deslindar.
Parte integrante do exército, aquando do Mundial de 1966 Pak Doo-Ik tinha o posto de Cabo. Paralelamente representava o Pyongyang City Sports Club, popular emblema da capital. Dito isto, é fácil entender que, por essa altura, o jogador não passava de um desconhecido para o resto do planeta. A sua chegada a Inglaterra, após o apuramento da sua selecção ficar garantido num “play-off” frente à Austrália, em nada alteraria esse discreto estatuto. Apesar de tudo, o conjunto que representava, até pelas recentes contendas político-militares na península de onde era natural, despertava a curiosidade de muita gente. Sediados em Middlesbrough, os treinos da equipa seriam muito concorridos. Alguns relatos contam a surpresa do público relativamente à qualidade técnica mostrada pelo grupo. No entanto, nem os mais atentos seguidores do conjunto conseguiriam adivinhar o que estava para acontecer.
Tendo a Coreia do Norte calhado no Grupo 4, os adversários eram a União Soviética, Itália e Chile. Nesse contexto, foram poucos os que apostaram na passagem dos asiáticos à fase seguinte. Ora, com as duas primeiras partidas a resultar numa derrota e num empate, a sorte da equipa estava praticamente traçada. Quase arredada dos quartos-de-final, só uma vitória na 3ª jornada poderia alterar tal destino. O pior é que o desafio era contra a “Squadra Azzurra”. No entanto, os coreanos não deixariam atemorizar-se pelo poderio do adversário. Dentro decampo  nunca baixariam os braços e, já bem perto do intervalo, um atraso para o guarda-redes deixaria a bola nos pés de Pak Do-Ik. O centrocampista, com toda a calma do mundo, mete o esférico por baixo do corpo de Albertosi e faz o 1-0. O “placard” manter-se-ia inalterado até ao esgotar do tempo regulamentar. Com o apito final, viria a confirmação de uma das maiores surpresas na história dos Mundiais: a Itália ficava pelo caminho e a Coreia do Norte marcava encontro com Portugal.
O jogo dos quartos-de-final tornar-se-ia também num momento inesquecível. A mítica vitória de Portugal por 5-3, depois de ter estado a perder por 3-0, faria com que Pak Do-Ik regressasse a casa. Diz-se que na sequência dessa derrota, todos os jogadores norte-coreanos teriam sido castigados pelo regime. Em sentido contrário, conta-se também que o atleta terá sido recebido como um herói, sendo, inclusive, promovido a Sargento. Ao que parece, e já depois de ter abandonado o exército, o antigo internacional passou a dedicar-se apenas ao desporto. Terá sido professor de ginástica e, num regresso ao futebol, orientaria o Lee Myong Soo FC e a equipa olímpica de 1976.
Já em 2008, uma no âmbito dos Jogos de Pequim, Pak Do-Ik seria homenageado. Como um dos escolhidos para carregar a tocha olímpica na sua passagem pelas ruas de Pyongyang, o antigo internacional seria recordado como um dos símbolos máximos do desporto da Coreia do Norte.

843 - VICENTE

Vicente ou, se preferirem, Vicente Lucas nasceu como o irmão mais novo de Matateu. No seu sangue também corria o gosto pelo futebol e, tal como o avançado, seria o 1º de Maio que o lançaria para o estrelato. Da moçambicana Lourenço Marques, hoje Maputo, sairia igualmente em direcção a Lisboa. Chegava como uma estrela e a multidão que o esperava à saída do barco assim o afiançava. Os adeptos do Belenenses, ajudados pela imprensa portuguesa, apelidaram-no de “Matateu II”. Todavia, o jovem atleta tratou logo de sublinhar as diferenças. E assim era: tanto na privacidade das suas casas, como em campo, os dois eram homens bem distintos.
Posicionava-se, preferencialmente, em tarefas defensivas. Contudo, e contrariamente a tantos colegas de posição, Vicente não era desprovido de técnica. Apesar de ser enorme nos desarmes, gigante nas marcações, a bola, uma vez a seus pés, era bem tratada. Era também evidente a sua inteligência. O posicionamento em campo denunciava-o como alguém entendedor da dinâmica de jogo. O momento exacto em que atacava os lances era um corolário dessa sua sabedoria. Ainda assim, havia mais! Esse mais, essa modéstia, essa abnegação posta em tudo o que fazia, tornaram-no num bom exemplo. Por tudo isso vingou no seu clube; por tudo isso vingou desde que pôs os pés nas Salésias até à sua despedida, já em pleno Estádio do Restelo.
Com o Belenenses venceria a Taça de Portugal de 1959/60 e 2 Taças de Honra da AF Lisboa. No entanto, seria de “quinas ao peito” que o médio defensivo alcançaria maior sucesso. A sua estreia pela principal selecção portuguesa, ele que também vestiu as cores da equipa “militar” e “B”, dar-se-ia em Junho de 1959. Depois desse particular frente à Escócia, vitória por 1-0 com um golo do irmão, o seu nome passaria a ser presença habitual nas convocatórias. As 20 internacionalizações que, durante 7 anos, conseguiria alcançar, confirmá-lo-iam como um dos melhores intérpretes do futebol luso.
Ainda nessas caminhadas com Portugal disputaria o Mundial de 1966. Em Inglaterra, muito mais do que ajudar a equipa a atingir o 3º posto, Vicente transformar-se-ia numa das estrelas do certame. Frente ao Brasil, ainda na fase de grupos, caber-lhe-ia a ingrata tarefa de marcar Pelé. Não ficou intimidado. Aliás, já noutras ocasiões tinha sido entregue ao médio a mesma responsabilidade. Em todas elas a empreitada seria cumprida com excelsa competência – “Ele tinha qualquer coisa comigo que não me podia ver, o que sucedeu desde a primeira da meia dúzia de vezes em que nos defrontámos. A verdade é que mesmo com a bola dominada eu chegava e desarmava-o sem lhe tocar. Não sei como, não sei explicar. Era assim (…). Eu tinha um jeito especial para antecipar as coisas que ele fazia. Nas primeiras vezes, a malta dizia-me. «Vicente, o Pelé vai dar cabo de ti». Eu respondia que isso não me interessava e jogava apenas o que sabia”*.
Apesar de ter pouco mais de 30 anos de idade, após o Campeonato do Mundo a carreira de Vicente precipitar-se-ia para o fim. Em Outubro de 1966 vê-se envolvido num acidente de viação, onde perderia uma vista. A mazela deixada pelo desastre, impediria o jogador de prosseguir a sua vida como futebolista profissional. Depois de abandonar os relvados, o antigo internacional manter-se-ia ligado à modalidade. Como treinador principal o seu percurso ficaria marcado pela discrição. As suas experiências nessas funções quedar-se-iam por emblemas mais modestos. Nessa caminhada, também ficaria ligado aos quadros técnicos do Belenenses. Tanto nas camadas jovens, como nas tarefas de adjunto ou, como aconteceria na temporada de 1981/82, como interino, o seu trabalho seria marcado pela seriedade com que sempre enfrentou todos os desafios.

*adaptado da entrevista publicada em www.record.pt, a 26.11.2015

842 - GEOFF HURST

Filho do antigo profissional Charlie Hurst, que representou clubes como Bristol Rovers, Oldham Athletic e Rochdale, foi também com entusiasmo que Geoff deu os primeiros passos no “jogo da bola”. Já depois das partidas de rua, a modalidade entraria no seu quotidiano através do Chipstead. Seria a jogar pela modesta colectividade que o jovem atleta viria a ser descoberto por um dos históricos do futebol inglês. Ainda adolescente entraria nos escalões de formação do West Ham para, ainda em idade menor, conseguir estrear-se na 1ª categoria.
Depois dessa primeira chamada em Dezembro de 1958, a sua integração no plantel principal aconteceria no decorrer da temporada de 1959/60. Apesar de tão precoce estreia, a verdade é que ao avançado não seriam dadas tantas oportunidades quanto ele estaria à espera. Essa falta de chamadas à equipa levaria a que Geoff Hurst pensasse em dedicar-se à sua outra paixão. Em simultâneo com o futebol, também o cricket já fazia parte da sua vida. Atleta do Essex County, o futebolista ponderaria abandonar os “Hammers” para dedicar-se em exclusivo à outra modalidade. Felizmente, a chegada de um novo treinador ao emblema londrino fá-lo-ia mudar de ideias e seria o futebol que passaria a merecer toda a sua atenção.
A chegada de Ron Greenwood ao comando do West Ham não só mudaria a sua opinião quanto ao seu futuro na modalidade, como alteraria a sua posição de campo. Tendo começado a jogar no meio-campo, o novo treinador mudá-lo-ia para funções mais avançadas no terreno de jogo. Entendendo que, defensivamente, o jogador estava muito aquém daquilo que era pedido a um centrocampista, o técnico passa a pô-lo como atacante e os bons resultados depressa apareceriam.
Foi então como avançado-centro que Geoff Hurst conseguiria destacar-se. Já nessa posição auxiliaria o clube a alcançar importantes vitórias. Na temporada de 1963/64, numa final frente ao Preston North End, um golo do ponta-de-lança ajudaria a conquistar a FA Cup (3-2). Já a época seguinte ficaria imortalizada pela campanha na Taça dos Vencedores das Taças. Depois do emblema britânico ter eliminado os espanhóis do Real Zaragoza nas meias-finais (2-1; 1-1), o embate com o TSV 1860 München (2-0) daria ao atleta o único troféu nas competições europeias.
Claro que aquilo que mais popularizou a sua carreira foi o Mundial de 1966. No torneio organizado em Inglaterra, o avançado seria um dos mais importantes membros do grupo orientado por Alf Ramsey. É verdade que dos seis desafios disputados pelos “3 Lions”, Geoff Hurst apenas participaria em metade. No entanto, os golos que marcaria seriam essenciais para a sua selecção. Mesmo só tendo entrado em campo na fase de eliminatórias, o jogador começaria logo por marcar no jogo referente aos quartos-de-final. Mas se o tento conseguido frente à Argentina seria fulcral no progredir da sua equipa, o que dizer da sua actuação no derradeiro embate do certame? Frente à República Federal Alemã, o atacante estabeleceria um novo recorde. Com um “hat-trick”, feito até hoje não repetido numa final, daria, em direcção à vitória, um importante empurrão ao conjunto inglês. Essa partida, que terminaria com o “placard” em 4-3, ficaria também marcada por um dos momentos mais controversos na história dos Campeonatos do Mundo. Aquele que seria o 3º remate certeiro para os britânicos, 2º para Hurst, ficaria envolto em enorme polémica. Depois de um chuto violento do ponta-de-lança, a bola iria acertar na trave para, de seguida, embater no chão. Wolfgang Weber ainda cabeçaria o esférico para trás da baliza. Contudo, com o aumentar dos protestos, o arbitro decide consultar o fiscal-de-linha e um golo acabaria por ser validado.
Após deixar o West Ham em direcção ao Stoke City, e naquilo que seriam os últimos anos da sua caminhada como futebolista, Geoff Hurst passaria por diversos emblemas e campeonatos. Ainda nas Midlands, o avançado vestira as cores do West Bromwich Albion. Pelo estrangeiro, primeiro por empréstimo dos “Potters”, jogaria pelos sul-africanos do Cape Town City. Também vestiria as cores dos Cork Celtic e, na liga norte-americana, dos Seattle Sounders. Depois de se retirar dos relvados, o antigo internacional ainda daria início a uma carreira como treinador. Nessas funções destaque para o seu desempenho à frente do Chelsea ou do Kuwait Sporting Club.

841 - JOSÉ PEREIRA

Com a carreira dedicada quase em exclusivo ao Belenenses, o seu percurso conheceria duas excepções. A primeira aconteceria logo após os seus anos de formação. Na altura, com José Sério como o titular absoluto da baliza “azul”, os responsáveis técnicos da equipa decidir-se-iam pela sua cedência. Nos Pescadores da Costa da Caparica faria a sua estreia como sénior para, no final dessa temporada de 1951/52, voltar ao Restelo.
O regresso a Lisboa não seria fácil para o jovem atleta. A presença no plantel do já referido guardião, faria com que José Pereira não conseguisse ser chamado à equipa principal com a frequência que, naturalmente, desejaria. Ainda assim, as qualidades que já demonstrava fariam com que a sua presença no grupo fosse importante. A colocação entre os postes e a enorme agilidade – que daria origem à sua alcunha “Pássaro Azul” – eram armas imprescindíveis para o sucesso da equipa. Tanto isso era verdade que, passados apenas um par de anos após a sua integração na primeira categoria, já o guarda-redes era um dos principais nomes no alinhamento do Belenenses.
Pelos da “Cruz de Cristo” José Pereira enfrentaria os mais diferentes desafios. Nessas demandas colectivas, os títulos estariam sempre no horizonte do atleta. Apesar de nunca ter conseguido conquistar um Campeonato Nacional, facto que esteve perto de acontecer em 1954/55, fazem parte do seu currículo alguns troféus. Às 2 Taças de Honra da Associação de Futebol de Lisboa, vencidas em 1959/60 e 1960/61, juntaria a vitória na Taça de Portugal de 1959/60. Também nas competições europeias o guardião deixaria a sua marca na história do clube. Fez parte das campanhas na Taça das Cidades com Feira e defenderia as redes do Belenenses na Taça Latina.
Apesar de um percurso notável com a camisola do clube, o apogeu da sua caminhada como profissional aconteceria com as cores de Portugal. Com as “quinas” ao peito, e tendo já jogado pelos “b”, o guardião faria a estreia pela equipa “a” na campanha de apuramento para o Mundial de 1966. Já com a qualificação garantida, o seu nome, sem surpresa alguma, faria parte da lista elaborada pelo seleccionador Manuel da Luz Afonso. Em Inglaterra, José Pereira ainda começaria o torneio como suplente do sportinguista Carvalho. Contudo, logo após esse embate com a Hungria, Otto Glória daria o lugar a José Pereira e o guarda-redes manter-se-ia como o número 1 dos “Magriços”, ajudando à chegada ao 3º lugar.
Curiosamente, seria pouco tempo depois da presença no Campeonato do Mundo que a sua ligação ao Belenenses terminaria. No final da campanha de 1966/67, José Pereira deixaria o Restelo para rumar a Norte. No Beira-Mar prosseguiria a sua carreira, a qual conheceria o seu fim no início da década de 70. Depois de ter “guardado as luvas”, o antigo internacional luso abandonaria o futebol, mudar-se-ia para Barcelona e dedicar-se-ia aos negócios que na cidade catalã haveria de abrir.

840 - ENGLAND 66

O Campeonato do Mundo de 1966, desde os seus estágios preliminares, haveria de ser tema para grandes conversas. Com um número de equipas nunca antes visto, as 70 selecções com lugar no torneio de qualificação transformar-se-iam num recorde para a história do futebol. Ainda assim, a caminhada inicial não ocorreria sem uma boa polémica. Indignados pela falta de um lugar com passagem directa à fase final, os países africanos decidem não participar. A dita contenda agravar-se-ia pela integração da África do Sul, à altura regida pelas leis do “Apartheid”, na zona da Ásia/Oceânia. Com o crescer dos protestos, o país acabaria mesmo por ser afastado pela FIFA. No entanto, e face à intransigência revelada pela entidade organizadora, que continuaria a defender o modelo de acesso, a posição das referidas nações manter-se-ia e o seu boicote também.
O torneio final jogar-se-ia em Inglaterra. Sendo o dito país o berço da modalidade, a enorme adesão por parte dos fãs seria encarada sem grande espanto. Aliás, os ingressos vendidos acabariam também por tornar-se num recorde. Para assistir aos embates proporcionados pelas 16 selecções, o número de adeptos presentes nos estádios ultrapassaria um total de milhão e meio.
Na primeira fase, seriam quatro os agregados compostos pelas equipas qualificadas. Portugal acabaria por ficar posicionada no Grupo 3. Ora, como um dos conjuntos estreantes, e ainda por cima a disputar um lugar nos quartos-de-final com Brasil e Hungria, as hipóteses dadas ao conjunto luso acabariam por ser pouco favoráveis. Contra tudo o que seria lógico, os “Magriços” até estavam ali para disputar o título. Logo nessa primeira etapa, ajudariam a eliminar o Brasil de Pelé e Garrincha. Contudo, esse não seria o único motivo de espanto. A Itália e Espanha, esta última campeã da Europa 2 anos antes, também ficariam de fora. Em sentido contrário, a surpresa chamada Coreia do Norte.
Seria a congénere coreana que Portugal enfrentaria na fase seguinte. A nossa selecção, em grande maioria composta pelos benfiquistas bicampeões europeus de clubes de 1961 e 1962 e pelos sportinguistas vencedores da Taça das Taças de 1964, era a grande favorita a passar a eliminatória. Todavia, aquilo que à partida era um jogo relativamente fácil tornar-se-ia num enorme susto para o conjunto português e num dos grandes momentos do torneio. Para tal muito contribuíram a entrada de rompante da equipa asiática que, aos 25 minutos, já vencia por 3-0. Depois o impensável e, com 4 golos de Eusébio e 1 de José Augusto, a reviravolta no marcador.
A faltar apenas uma ronda para atingir o derradeiro jogo do Campeonato do Mundo, as hipóteses de Portugal, e a força que os seus jogadores mostravam dentro de campo, pareciam também apontar para o troféu. Nada aparentava atemorizar os elementos das “quinas” e nem a contenda frente à Inglaterra tirava a esperança a jogadores e corpo técnico. É então que algo surpreendente acontece. Essa partida das meias-finais, inicialmente calendarizada para o Goodison Park, é, à última da hora, marcada para Wembley. A razão para tal alteração do programa, segundo a organização do torneio, dever-se-ia à maior capacidade do estádio londrino. O resultado: Portugal, ao invés de se manter a jogar em Liverpool, viu-se, no dia anterior ao embate, forçada a uma longa viagem até à capital britânica; já a selecção “da casa”, mantendo-se na cidade que, desde o começo do certame a acolhia, pode repousar e recuperar para o embate que se avizinhava.
À margem desse episódio ficariam os resultados da ronda. Por um lado, Portugal cairia frente à Inglaterra. Por outro, a República Federal Alemã, levaria de vencida a URSS. Perante tais desfechos, a final seria entregue a alemães e ingleses, enquanto que o 3º lugar seria disputado por soviéticos e portugueses.
Na partida de acesso ao último lugar do pódio, o “Pantera Negra” voltaria a marcar. Esse golo, num total de 9 remates certeiros, não só faria do avançado o Melhor Marcador do torneio, como ajudaria na conquista da medalha de bronze. Já no derradeiro jogo, aquele que revelaria o próximo campeão do mundo, mais uma polémica a juntar a tantas outras. Após o tempo regulamentar, com o “placard” a assinalar 2-2, a partida prossegue para prolongamento. Geoff Hurst, com 8 minutos decorridos após o reatamento, chuta à baliza adversária. A bola, com grande estrondo, acerta na barra. Depois vai ao chão e bate, algures perto da linha. O remate, mesmo tento em conta a enorme contestação, seria validado. A Inglaterra passava mais uma vez para a frente do marcador e com mais um golo de Hurst (faria um hat-trick) selaria a conquista da “Jules Rimet Cup”.

ENGLAND 66

Em ano de mais um Campeonato do Mundo de selecções, que tal recordarmos aquela que foi a primeira presença de Portugal no certame? Claro está que o Mundial de 1966 teve muito mais do que a estreia de Portugal. Nele participaram algumas das melhores equipas da altura; nele brilharam muitos craques de renome; nele ficaram para a história alguns episódios irrepetíveis. Ora, é por tudo isso que, durante o mês de Janeiro, o “Cromo sem caderneta” será dedicado ao “England 66”!

839 - ZÉ ANTÓNIO


Tendo terminado a sua formação em meados da década de 90, o jovem central haveria de transitar para o plantel principal do Torreense. Não conseguindo, imediatamente, afirmar-se como titular indiscutível, o defesa logo havia de dar sinais que a sua qualidade era elevada. Tanto assim foi que, logo na sua segunda temporada como sénior, já Zé António era um dos nomes com mais presenças nas fichas de jogo do emblema do Oeste.
A partir dessa data o jogador afirmar-se-ia como um dos pilares do grupo. A importância que assumiria no seio do plantel levaria os responsáveis técnicos da Federação Portuguesa de Futebol a ver nele um elemento capaz de acrescentar valor às equipas nacionais. Em Dezembro de 1997, o defesa faria a sua estreia com a “camisola das quinas”. Integrado nos S-20, e com a dupla Jesualdo Ferreira e Rui Caçador a orientar o conjunto luso, Zé António participaria em diversos torneios internacionais.
Visto como uma promessa do futebol português, rapidamente surgiram interessados na sua contratação. O FC Porto conseguiria convencer o atleta a mudar-se para o Norte do país. No entanto, a falta de espaço no plantel “Azul e Branco” levaria o jogador a vestir outras camisolas. Leça e Alverca, por empréstimo dos “Dragões”, tornar-se-iam no destino do jogador nas épocas seguintes. Todavia, as referidas cedências acabariam por não abrir as portas ao regresso ao Estádio das Antas. Gorada essa hipótese, aquilo que sobrou não foi de todo negativo. Tendo conseguido afirmar-se no principal escalão do nosso futebol, o central, daí em diante, manter-se-ia a disputar a 1ª divisão.
Varzim e Académica de Coimbra também fariam parte desse seu percurso primodivisionário. Apesar das boas prestações em todos os emblemas por onde, até então, tinha passado, seria ao serviço dos “Estudantes” que conseguiria provar que estava pronto para aspirações maiores. No Verão de 2005, acabaria por dar o “salto” que já há muito prometia. Com diversos emblemas no seu encalço, acabaria por preferir o Borussia de Mönchengladbach e mudar-se-ia para a Bundesliga.
Foi a jogar no emblema alemão que Zé António viveu a melhor fase da carreira. Atento às suas qualidades estava também o seleccionador nacional. Luíz Felipe Scolari acabaria por chamar o jogador às partidas de qualificação para o Euro 2008. Apesar da convocatória para os encontros frente ao Azerbaijão e Polónia, o central não chegaria a entrar em campo, não conseguindo, por essa razão, a tão almejada internacionalização pela principal equipa portuguesa.
Também nesse ano de 2007, acabaria por viver a amargura da despromoção. Com o Borussia de Mönchengladbach a disputar o segundo escalão da Alemanha, o defesa, por empréstimo dos germânicos, mudar-se-ia para a Turquia. Já depois dessa temporada de 2007/08 com as cores do Manisaspor, o atleta veria o emblema a alemão a chegar a um acordo para a venda do seu passe. Contudo, na transferência para o Racing de Sanatander a sorte não o acompanharia. Diversos problemas fariam com que não chegasse a jogar na “La Liga”. As divergências com o emblema da Cantábria acabariam do pior modo, com o atleta a acusar a colectividade espanhola de incumprimento contratual e consequente rescisão.
A última parte da carreira de Zé António traria o atleta de volta a Portugal. Primeiro estaria ao serviço do União de Leira. De seguida, e após um ano de interregno, o defesa acabaria por aceitar novo convite do FC Porto. Com o ressurgimento das equipas “B”, o experiente futebolista acabaria por ser contratado com o intuito de servir de exemplo e transmitir os seus conhecimentos aos jovens craques do clube.
Já depois de, em 2015, ter posto um ponto final na sua carreira como atleta, muito tem vindo à baila sobre o seu futuro na modalidade. Tendo sido veiculada uma possível ligação às “escolas” portistas, também viria a público algumas notícias sobre uma eventual entrada na equipa técnica de Jupp Heynckes, aquando da contratação deste pelo Bayern Munique (2017/18).

838 - JANITA

Janita é o reflexo do trabalho feito pelas “escolas” do Torreense. Durante alguns anos, o extremo conseguiria mostrar as suas habilidades no escalão máximo português. Curiosamente, acabaria por nunca o fazer ao serviço do emblema que o formou.
Seria pelos do Oeste, na transição da década de 70 para os anos 80, que Janita faria a estreia no patamar sénior. Manter-se-ia no clube por diversas épocas. No entanto, e durante esse período, acabaria por nunca abandonar os escalões secundários. Ainda assim, e na incapacidade do grupo alcançar a subida à 1ª divisão, as boas exibições que conseguiria rubricar haveriam de catapultar a sua carreira.
Foi então no Salgueiros que o extremo-direito conseguiria estrear-se nos palcos maiores do nosso futebol. A sua contratação por parte do emblema da cidade do Porto, apresentá-lo-ia ao convívio dos “grandes” na temporada de 1983/84. Numa época conturbada, em que os de Paranhos haveriam de contar com 3 treinadores, as prestações do atleta acabariam, de algum modo, por cooperar para o apaziguamento da instabilidade vivida durante essa campanha.
No sentido daquilo que foi o seu contributo para as prestações colectivas, e não sendo o jogador aquilo que possa designar-se como um “titular absoluto”, Janita faria parte da lista daqueles que mais presenças em campo haveriam de contar. O seu estatuto manter-se-ia inalterado nas épocas seguintes. Curiosamente, seria no ano em que mais presenças conseguiria alcançar no Campeonato Nacional que a sua ligação ao clube acabaria por conhecer o fim.
À procura de uma nova direcção, Janita voltaria ao Torreense. Todavia, e ao contrário do que seria espectável, o regresso ao clube não traria à sua carreira a estabilidade que necessitava para o seu futuro como futebolista. A partir dessa temporada de 1986/87 o atleta entraria numa senda errante. Com constantes mudanças de clubes, o atacante, daí em diante, envergaria um incontável número de diferentes camisolas. Com as cores do União da Madeira, ainda conseguiria inscrever o seu nome num plantel primodivisionário. Contudo, a sua passagem pelo Funchal pouco acrescentaria à sua caminhada e, no final da temporada de 1989/90, já estava de volta à rota habitual.
Vilafranquense, Moreirense, Mirense, Marinhense, Rio Maior e Peniche também fazem parte do seu trajecto como futebolista. O fim desse percurso aconteceria já na temporada de 1997/98 e ao serviço do Ponterrolense.

837 - NUNO DAMAS

Não sendo um atleta muito conhecido do público, a verdade é que Nuno Damas chegou a vestir a camisola de dois dos “grandes” de Portugal. O primeiro desses emblemas seria o Sporting, onde, no início dos anos 80, terminaria a sua formação. Seguir-se-ia no seu percurso, por falta de espaço em Alvalade, o Juventude de Évora. A mudança para o Alentejo, ainda que a disputar a 2ª divisão, dar-lhe-ia a oportunidade de fazer a estreia no patamar sénior. Infelizmente para o jogador, que até já tinha sido internacional s-16, pouco mais resultaria dessa experiência. Durante os anos seguintes, com passagens por Ginásio de Alcobaça e Torreense, o defesa manter-se-ia pelos patamares secundários.
Curiosamente, e depois dessa passagem pela colectividade de Torres Vedras, é noutro “grande” que Nuno Damas volta a ter uma chance no escalão máximo nacional. Após uma boa temporada na lateral direita do emblema do Oeste, o Benfica decide contratá-lo. Com Veloso como titular, as oportunidades que o jogador haveria de ter seriam poucas. Ebbe Skovdhal haveria de o usar no meio-campo. Posteriormente à estreia frente ao Vitória de Setúbal, e mesmo com a saída do treinador dinamarquês, Nuno Damas manter-se-ia como uma segunda escolha. Já com Toni ao comando dos “encarnados”, o atleta faria o seu derradeiro jogo de “Águia” ao peito.
Com a saída da “Luz” no Verão de 1988, Nuno Damas ver-se-ia afastado do escalão principal por 3 anos. O regresso seria com as cores daquele que acabaria por tornar-se no emblema mais representativo do seu percurso profissional. De volta também ao Torreense, depois de uma curta passagem pelo Varzim, o defesa consegue para o seu palmarés mais uma temporada na 1ª divisão. Mesmo com a despromoção do clube no final dessa campanha de 1991/92, a ligação manter-se-ia por mais uma época, ao fim da qual o jogador começaria um périplo por diferentes clubes nos escalões secundários. Nacional da Madeira, Peniche e Rio Maior fariam também parte dessa caminhada que, em 1999, conheceria o seu final em nova passagem pelo Ginásio de Alcobaça.

836 - JUAN FORNERI

Tendo o jogador aparecido por cá em meados dos anos 50, seria certo pensar-se que os registos sobre o seu percurso desportivo fossem mais conclusivos. No entanto, tudo aquilo que consegui apurar levou-me a uma série de dúvidas ainda maiores! A primeira: de onde surgiu Forneri? Há quem diga que, antes da sua viagem para a Europa, o médio já tinha jogado pelo Quilmes. Outros, contudo, referem-no numa senda curiosa. Nela, sem ligação a qualquer colectividade, terá andado pelo nosso país a bater de porta em porta, à procura de um novo clube. A verdade, a única que consegui confirmar, é que a primeira aparição deste argentino em Portugal remonta à temporada de 1953/54.
Foi, então, ao serviço do Juventude de Évora que Forneri disputou as primeiras partidas nos nossos campeonatos. Aqui, mais uma dúvida. Há quem o apresente como vindo de um empréstimo do FC Porto. Todavia, a fraca consistência da dita informação faz-me pensar que tal não passa de mais um erro no universo cibernauta.
Continuando… Já após cumprir essa época inicial, outros pretendentes começaram a aparecer. Sendo um atleta de excepcionais qualidades, e com os alentejanos a claudicarem nas derradeiras etapas da luta pela promoção, novo convite haveria de surgir. Com Oscar Tellechea no lugar de treinador, e havendo no balneário outros conterrâneos seus, foi fácil para os responsáveis do Torreense convencer o atleta a mudar-se para o Oeste. Em Torres Vedras assumiria um papel de tremenda importância naqueles que foram os melhores anos da colectividade. Tendo a seu lado Américo Belen e José Maria Pellejero, também eles argentinos, Forneri destacar-se-ia como um dos melhores centrocampistas a actuar em Portugal.
Bom a defender e a atacar, o atleta conseguia ocupar várias posições dentro do terreno de jogo. Essa polivalência, que o levava a ser médio interior ou médio defensivo, seria uma das grandes armas para as boas campanhas do seu clube. Muito para além de ser um titular indiscutível, seriam as suas prestações que ajudariam o Torreense a atingir a final da Taça de Portugal de 1955/56. No entanto, e depois de já ter marcado o golo que, nessa caminhada, ajudaria a eliminar o Sporting, Forneri não evitaria a derrota na derradeira partida da prova. Frente ao FC Porto, o emblema saloio não conseguiria sair do Jamor com a vitória. Dois golos de Hernâni, sem qualquer tento em resposta, fariam com os de “Azul e Branco” levassem o troféu para a “Cidade Invicta”.
Após mais algumas temporadas ao serviço do Torreense, é a partir de 1959 que o seu nome deixa de aparecer nas fichas de jogo dos nossos campeonatos. É também a partir dessa data que em Espanha surge um atleta que, mesmo com algumas diferenças no nome e ano de nascimento, muitos relatam como sendo a mesma pessoa. Contudo, Forneris Ocampo, também conhecido como Juancho Forneri, tem muitas coisas em comum com o jogador que passou em Portugal. Ambos, para além da similaridade do apelido, partilham Juan Carlos como os primeiros nomes; a posição de campo também era a mesma; e, para concluir, há ainda a muito relatada camaradagem que tinha com o antigo atleta do emblema do Oeste, José Maria Pellejero.
Ora, partindo do princípio que Forneri e Forneris Ocampo são o mesmo, então, e já depois de deixar Portugal, pode dizer-se que a carreira do médio terá continuado no sul de Espanha. No Granada, e com o referido Pellejero como companheiro no centro do terreno, o atleta abrilhantaria os campos do escalão máximo espanhol. Tendo, ainda na mesma divisão, representado o Elche, seria no Mallorca que a sua importância seria mais notada. Já um veterano, é nas Baleares que faz a transição dos relvados para o corpo técnico. Durante anos a fio ficaria ligado ao clube. Desempenharia as funções de treinador em todas as camadas; seria chamado a observar jogadores; e, inclusive, faria de roupeiro. A tamanha devoção ao emblema levá-lo-ia a figurar nos anais como um dos seus históricos. Por altura do seu falecimento em 1995, uma partida frente ao Atlético de Madrid seria disputada em sua homenagem.

835 - ANDRADE

Com uma carreira repartida por diversos emblemas, Andrade assumiria um papel de grande importância na história de algumas dessas colectividades.
Tendo, no encetar dos anos 80, terminado a formação no Sporting, a sua transição para o patamar sénior dar-se-ia distante de Alvalade. Possivelmente sem lugar no clube lisboeta, o defesa, mesmo já tendo conseguido algumas internacionalizações pelas jovens selecções portuguesas, acabaria por ir parar ao Alentejo. No Juventude de Évora daria início a um percurso que, durante algumas temporadas, o manteria a disputar a 2ª divisão. Ginásio de Alcobaça, Peniche e a primeira passagem pelo Torreense completariam a etapa inicial do seu percurso profissional.
A estadia na cidade deTorres Vedras como que daria azo à sua estreia no patamar máximo do nosso futebol. Os bons desempenhos conseguidos ao serviço do clube do Oeste levariam a que o Farense decidisse apostar na sua contratação. A temporada passada no Algarve (1986/87), mesmo tendo em conta os resultados do colectivo, reforçaria a ideia de Andrade como um atleta primodivisionário. Com os “Leões de Faro” a não conseguirem a permanência, seria então no Marítimo que o esquerdino asseguraria a continuidade na 1ª divisão.
Os 3 anos vividos no Funchal, somando-os à já referida passagem pelo emblema do Sul do país, dariam ao jogador o período mais longo passado no patamar máximo. Ainda assim, no Verão de 1990, o lateral esquerdo decide regressar ao Torreense. Ainda que de volta ao escalão secundário, Andrade acabaria por ser um dos elementos mais utilizados na campanha seguinte e, desse modo, um dos pilares da promoção à 1ª divisão. Na dita caminhada, o treinador Manuel Cajuda, entendo a importância que tinha no seio do plantel, faria dele o líder da equipa. Com a braçadeira de “capitão”, o defesa ainda acompanharia o grupo em nova descida ao escalão secundário. Já a última época disputada entre os “grandes” aconteceria bem perto do final da sua carreira. Em 1994/95, já após vestir as cores do Sporting de Espinho, é no Sporting de Braga que faz a derradeira campanha pelos palcos maiores do futebol nacional. O fim viria um par de anos depois e com a camisola do Lourinhanense.