702 - ELPÍDIO SILVA

Com o arranque da carreira profissional feito no Atlético Mineiro, Silva, passados alguns anos, acabaria por tentar a sua sorte no Japão. No Kashiwa Reysol haveria de chamar a atenção de Vítor Oliveira, que aconselharia a sua contratação aos dirigentes do Sporting de Braga.
Seria desta maneira que o avançado natural de Campina Grande, a mesma cidade onde nasceu o internacional brasileiro Hulk (ex-FC Porto), chegaria a Portugal. Dono de um físico poderoso, a maneira como, no corpo a corpo, conseguia impor-se aos defesas adversários era uma ajuda preciosa no momento de chutar à baliza. Nesse sentido, seriam os seus remates, tantas vezes certeiros, que o levariam a afirmar-se como um dos melhores atacantes a jogar no campeonato português.
 Tendo chegado à cidade de Braga em 1998, os anos que passaria ao serviço dos “Arsenalistas”, torná-lo-iam num dos melhores marcadores da história do clube. Os registos conseguidos durante essas 2 temporadas, fariam com que de outros clubes começasse a surgir o interesse no seu concurso. Quem acabaria por ganhar essa corrida, haveria de ser o Boavista.
Ora, já no Bessa, a sua época de estreia coincidiria com o maior feito do clube. Vindo a ameaçar a hegemonia dos grandes fazia alguns anos, o Boavista de 2000/01 acabaria por surpreender quase todos, menos o recém-chegado ponta-de-lança – “Eu cheguei aqui em 2000, e foi muito engraçado porque quando assinei o contrato disse logo que era para ser campeão pelo Boavista. Toda a gente se riu de mim, mas eu acreditava mesmo que isso ia acontecer”*.
Num grupo que, ao longo da referida época, mostraria grande coesão, Elpídio Silva acabaria por ser a referência no ataque. Contudo, e muito mais do que um dos esteios na conquista do Campeonato Nacional, o atleta, nas épocas vindouras, ajudaria também os “Axadrezados” manter o nível competitivo. A sua presença na Liga dos Campeões, onde havia de marcar em Anfield Road, e a incrível campanha na Taça UEFA de 2002/03, serviriam para o confirmar como um jogador de topo. Tendo isso em conta, o Sporting acabaria por apostar na sua contratação. Em Alvalade, pouco, ou nada, correria de feição para Silva. Não conseguindo adaptar-se à realidade do novo emblema, os números que, até ali, o haviam caracterizado, acabariam por sofrer uma quebra considerável.
Sem conseguir, nem mesmo após um empréstimo ao Vitória de Guimarães, melhorar o seu nível exibicional, a ligação ao clube de Alvalade acabaria por terminar a meio da temporada de 2005/06. Livre de qualquer vínculo, o atleta acabaria por tentar a sua sorte no segundo escalão inglês. Já depois do Derby County, onde, tendo em conta a sua fraca forma física, ter-lhe-ão oferecido apenas contractos mensais, Silva entraria numa fase da carreira um pouco errante.
Coreia do Sul, já depois de um pequeno regresso ao Brasil, e Chipre, seriam os países que marcariam os derradeiros anos da sua carreira. Já depois de se retirar dos relvados, Silva haveria de dedicar-se aos seus projectos pessoais. De volta à sua cidade natal, o antigo avançado acabaria por abrir uma escola de futebol, onde acolhe os meninos mais desfavorecidos. Por outro lado, à beira do terreno onde construiria o necessário “campo da bola”, Silva e a sua esposa, nascida e criada no Minho, inaugurariam um restaurante de comida lusa, a “Adega da Portuguesa”.

 
*retirado da entrevista dada ao http://www.boavistafc.pt, a 14/07/2016

701 - RAFAEL CORREIA


Cerca de década e meia sempre ao serviço do Belenenses, seria razão mais do que suficiente para fazer de Rafael – maneira como era identificado na altura em que jogava – uma das principais personagens nas histórias do clube. No entanto, e muito mais do que um atleta com uma extensa ligação ao emblema lisboeta, o extremo esquerdo seria parte activa naquelas que foram as maiores glórias conseguidas pelo futebol da “Cruz de Cristo”.
Pode dizer-se dele que, durante as maiores conquistas do clube, teve a sorte de fazer parte da equipa do Belenenses. Pode também dizer-se o contrário e afirmar-se que as maiores vitórias na vida do emblema foram devidas à presença de futebolistas como Rafael Correia. Mas que interessa saber qual a equação mais correcta? Todos sabemos que numa soma, independentemente da ordem em que apresentemos as parcelas, o resultado toma sempre a mesma forma! Ora, nesta comutatividade, resta dizer-se então, que o antigo atleta conta na sua passagem pelas Salésias, com 2 Campeonatos de Lisboa, 1 Taça de Portugal e 1 Campeonato Nacional.
Mas se dos outros troféus o museu do Belenenses conta com mais alguns exemplares, já a conquista do Campeonato Nacional de 1945/46 afigura-se, até à data, como um acontecimento sem par. Nele, Rafael Correia, e um golo em particular, teriam um papel crucial. Corria o minuto 77 do jogo disputado frente ao SL e Elvas e, na cidade alentejana, o 1-1 do marcador deixava os de Belém fora do topo da tabela. É então que Vasco Oliveira, defesa com crer ofensivo, decide tomar conta da bola. Com ela na sua posse, avança pelo terreno fora e passa a Artur Quaresma. Já na área contrária, este último pontapeia o esférico. O remate, afortunadamente, encontraria, no desenho da sua trajectória, Rafael. Este, desviando-o, transforma o esquiço feito pelos colegas numa obra de arte. A bola entra nas redes adversárias e o 1-2 dessa última jornada, permitira os festejos “Azuis”.
Tendo que nisto do futebol, nem sempre um jogador tem um único amor, também a camisola das “quinas” haveria de marcar o coração de Rafael Correia. Por Portugal, na sua categoria principal, o avançado jogaria por 6 vezes. Contudo, essa meia dúzia de internacionalizações, iniciada em Novembro de 1938, nunca confundiria o atleta. A importância de ter representado o seu país, sem qualquer tipo de menosprezo, seria sempre esmagada pela ligação ao seu emblema – “Eu, no Belenenses, joguei sempre por gosto. Noutro clube, estou certo que depressa me aborrecia de um futebol jogado por obrigação e, então, teria de abandonar a actividade, porque não era do meu feitio saltitar de clube para clube”*.

 
*retirado do blog “belenensesilustrado.blogspot.com”, publicado a 26 de Março de 2016

700 - MARTELINHO

De seu verdadeiro nome Joaquim Pereira da Silva, ganharia a alcunha que o notabilizou no futebol, aquando dos seus primeiros treinos – “A família da minha mãe é conhecida como os Martelos. A do meu pai, como Marretas. Quando comecei no Feirense, o meu primeiro treinador perguntou-me o nome e eu, como não gostava de Joaquim, disse Martelinho. Serve de homenagem à família e ficou até hoje”*.
Apesar de ter começado em Santa Maria da Feira, as qualidades que desde logo haveria de mostrar, levariam os responsáveis do Boavista a levá-lo para as suas camadas jovens. Neste sentido, seria no Bessa que terminaria a sua formação. Contudo, e ao invés de permanecer no clube, o jovem extremo daria início à sua carreira sénior através de uma série de empréstimos. Intercalando as passagens por Marco (1993/94) e Desportivo das Aves (1995/96) com um curto regresso ao emblema de origem, Martelinho acabaria por ganhar o traquejo necessário para o que a sua inclusão no plantel “axadrezado” fosse definitiva.
Sendo bastante rápido e de uma garra inconfundível, seria natural a sua permanência na equipa boavisteira. No entanto, e apesar de ver reconhecida a sua valia, os primeiros anos após o seu regresso não fariam dele um dos inconfundíveis no “onze” inicial. Curiosamente, seria com o avançar do Boavista em direcção aos lugares cimeiros do futebol português, que o extremo começaria também a catapultar-se. Na ala direita do ataque, Martelinho passa a ser uma das principais armas na manobra de Jaime Pacheco. Com o avançar da temporada de 2000/01, aquela em que o Boavista conseguiria sagrar-se campeão nacional, o atleta começa a tornar-se num dos mais utilizados. A maneira como conseguia romper pelas defesas adversárias e os golos que haveria de marcar, fariam dele um dos mais influentes na conquista do já referido título. Sem nunca mostrar o mais pequeno receio, Martelinho teria nos “jogos grandes” os seus grandes momentos. Os golos marcados frente a FC Porto e Sporting pô-lo-iam, em definitivo, como um dos mais amados pela massa adepta do emblema portuense.
Faltou-lhe talvez uma coisa para completar uma carreira feita de conquistas importantes. Ele que chegaria a vestir a camisola de Portugal nas camadas jovens, muito por culpa da presença de jogadores como Luís Figo ou Nuno Capucho, terminaria o seu percurso de futebolista sem nunca ter a oportunidade de representar a principal selecção lusa. Ainda assim, nada no seu currículo mostra uma experiência despida de momentos marcantes. Com uma Taça de Portugal (1996/97) e uma Supertaça (1997/98) a embelezar o seu caminho, o antigo avançado tornar-se-ia, na transição do milénio, num dos mais respeitados praticantes da modalidade.
Já depois de deixar o Boavista no final de 2004/05, as passagens pelo Portonovo (Espanha) e Penafiel marcariam o final da sua ligação com o futebol de “11”. Todavia, a sua paixão pela bola continuaria a ser nutriada através da prática do futsal. Tendo fundado o Martelinho SC, entretanto rebaptizado como Cidade de Lourosa, Martelinho continua a manter a sua forma física (quase) intacta. Sendo Presidente e atleta da dita colectividade, paralelamente tem dado passos importantes para cimentar conhecimentos na área técnica. Como treinador na variante de “11” já conta com passagens pelas camadas jovens de Feirense e Boavista. Já nos seniores, daria início ao seu percurso onde um dia havia sido recusado como jogador. No Lusitânia de Lourosa, onde, ainda muito jovem, tinha reprovado nos treinos de captação, começou o seu trajecto como treinador sénior. Hoje em dia (2016/17) no Campeonato de Portugal (nível 3), está ao comando dos destinos do Cesarense.

 
*artigo de Vítor Hugo Alvarenga, em www.maisfutebol.iol.pt, a 28 de Março de 2013

699 - MARIANO AMARO

É difícil ler algo sobre Mariano Amaro onde não venha referida a sua imagem de “alfacinha” boémio. Curiosamente, esse seu lado, nunca negado pelo mesmo, jamais haveria de servir de desculpa para que, no treino do dia seguinte, o seu afinco fosse menor. Essa sua entrega, constante durante todos os seus anos como futebolista, acabaria por servir de modelo a todos os seus colegas. Já o seu carácter generoso e, em muitas outras facetas, exemplar, fariam dele capitão e dos um dos mais amados no Belenenses.
Tendo começado a prática do futebol na colectividade lisboeta, o Sport Adicense, Mariano Amaro apareceria nas Salésias já perto de completar os 20 anos de idade. Sendo um extremo-esquerdo de origem, Artur José Pereira, no intuito de conhecer melhor as suas habilidades, decide experimentá-lo nas mais diversas posições. Guarda-redes, defesa ou avançado, por todos os lugares do campo haveria de passar. No entanto, acabaria por ser no miolo do terreno que mais se destacaria e onde, durante quase década e meia, faria carreira.
Sendo um dos ícones da história belenense, a este seu estatuto não é indiferente o facto de ter jogado durante os “anos de ouro” do clube. Mariano Amaro, pelos títulos conquistados, fará sempre parte das memórias do emblema da “Cruz de Cristo”. Todavia, recordá-lo apenas pelo Campeonato Nacional de 1945/46, pela Taça de Portugal de 1941/42 ou, até, pelos 2 Campeonatos de Lisboa que ajudaria a vencer (1943/44; 1945/46) seria, no mínimo, redutor. Para fazer justiça às suas qualidades de Homem e desportista, há que contar muito mais. Há que relatar a fidelidade que sempre mostrou ao clube; há que contar a os gestos que, mesmo tendo em conta os riscos que corria, não deixou de ter.
É verdade, Mariano Amaro, resultado das suas qualidades com futebolista, poderia ter tido uma vida mais confortável. Ainda assim, o aspecto financeiro, na hora de tomar a decisão, seria o que menos haveria de pesar. Quando o FC Porto o assediou, quando o Sporting o quis juntar ao seu plantel, ou, aquando do convite de Scopelli para jogar na Argentina, a resposta haveria de ser sempre a mesma – “Devo muitos favores ao meu clube, favores, creia, que muito dificilmente se pagam!”*.
Na selecção também haveria de ser grande. A estreia aconteceria a 28 de Novembro de 1937. Esse Espanha – Portugal que, por via da guerra civil no país vizinho, não seria reconhecido pela FIFA, acabaria por ser a primeira das suas 19 internacionalizações. Contudo, e apesar da importância de tal marca, seria outro duelo ibérico que ficaria na memória de todos. Desta feita jogado em Lisboa, no estádio do seu Belenenses, a contenda haveria de começar com um protesto. Na altura da saudação olímpica, eufemismo para “de extrema-direita”, 3 jogadores recusar-se-iam a tal cumprimento. Artur Quaresma, José Simões e Mariano Amaro seriam os protagonistas do referido “incidente” protocolar. Quaresma haveria de manter as mão atrás das costas, enquanto que os outros dois, ainda mais afoitos, ergueriam o braço direito, mas de punho cerrado.
Talvez os excessos que cometeu, na grande parte do seu percurso, não o tenham importunado muito. No lado direito do meio-campo, a naturalidade com que abordava todos os lances, impressionava até os mais habilidosos. Já a mestria dos seus passes ou a maneira excepcional como lia todo o jogo, eram apenas a confirmação do seu talento. Mas a falta de moderação que levava fora dos estádios, acabaria mesmo por pôr um fim à sua carreira. Já depois de, uns anos antes, ter sido obrigado a parar por detectadas insuficiências cardíacas, em 1948, na sequência de um episódio de cariz pulmonar, ser-lhe-ia diagnosticada tuberculose.
Ainda prometeria a todos que voltaria a jogar. Todavia, o regresso que tanto desejava, acabaria por nunca acontecer. Ao futebol continuaria ligado, mas já nas funções de treinador. No desempenho de tais tarefas, ficaria longe dos sucessos alcançados como praticante. Passou por diversos emblemas. Ainda assim, o tempo despendido aos comandos de Belenenses, “O Elvas”, Torreense, Oriental, Ac. Viseu, Sp. Covilhã ou Vitória de Guimarães, seriam apenas modestos contributos, por parte de alguém que muito já tinha dado ao futebol português.

*retirado da entrevista à revista “Stadium”, em 22 de Junho de 1938

698 - LITOS

Com a formação, praticamente, toda feita no Boavista, Litos, como tantos jovens atletas, acabaria por ser emprestado. A cedência, que coincidiria com a sua estreia no escalão sénior, levá-lo-ia, entre o patamar máximo e a Divisão de Honra, a percorrer diferentes emblemas.
Campomaiorense (1992/93), Estoril-Praia (1993/94) e Rio Ave (1994/95) antecederiam e acabariam por preparar o defesa para o regresso ao Estádio do Bessa. O traquejo ganho durantes essas 3 temporadas, faria com que o atleta saltasse, quase de imediato, para a linha da frente. Vigoroso e incapaz de virar as costas à disputa de uma bola, Litos, em muitos aspectos, personificava aquela que foi a alma do Boavista de Manuel José e, mais tarde, de Jaime Pacheco. Nesse sentido, não foi de estranhar que, nas 6 épocas seguintes, o seu nome passasse a ser um dos mais inscritos nas fichas de jogo.
Como titular dos “Axadrezados”, Litos acabaria por tornar-se num dos mais importantes esteios nos êxitos do clube. A Taça de Portugal vencida em 1996/97 e a vitória na Supertaça da época seguinte, como que serviriam de prelúdio para as conquistas vindouras. Ora, é já com o defesa central como capitão que, passado um par de anos, o Boavista começa a escrever o mais brilhante capítulo da sua secular história. Depois da estreia na Liga dos Campeões em 1999/00, resultado do 2º lugar conseguido no ano anterior, eis que a temporada de 2000/01, sempre com a braçadeira entregue a si, dá a Litos o título de Campeão Nacional.
Ele que já contava com um bom percurso nas selecções jovens portuguesas, tendo, inclusive, sido chamado a disputar os Jogos Olímpicos de 1996, atingiria, reflexo do trajecto conseguido ao serviço do Boavista, a sua primeira chamada à principal “Equipa das Quinas”. O estatuto de internacional, engrossado por um currículo com conquistas importantes, levaria a que, de outras ligas, começassem a aparecer alguns interessados. Quem levaria a dianteira no seu concurso, acabariam por ser os espanhóis do Málaga. A ida de Litos para a “La Liga”, transformar-se-ia em mais um marco na história do Boavista, com a transferência a quebrar o recorde do montante máximo recebido pelo clube.
O seu trajecto na Andaluzia, com Edgar e Duda (e mais tarde Jorge Ribeiro) como companheiros de equipa, até começaria num bom ritmo. Com um lugar garantido no eixo da defesa, Litos começa por justificar o valor nele investido. Todavia, e se o rescaldo da primeira época pode ser visto como muito positivo, algumas lesões acabariam por assombrar uma boa parte da sua passagem por Espanha.
 Possivelmente, terão sido essas mesmas debilidades físicas que, no regresso a Portugal, o condicionaram. A sua passagem pela Académica, em consonância com o que já havia acontecido nos últimos anos de Málaga, acabaria por ficar aquém do seu historial. Mesmo tendo participado num número considerável de partidas, principalmente na temporada da sua chegada (2006/07), o central, até pela idade, já não mostrava as mesmas capacidades. A referida conjuntura terá levado clube e jogador a rescindir contrato no decorrer do seu segundo ano de contrato.
O que terá acontecido após a sua partida de Coimbra continua, para mim, um verdadeiro mistério! Apesar de muitas referências à sua ligação, ainda nessa temporada de 2007/08, com o Red Bull Salzburg, nunca cheguei a encontrar nenhuma prova, fidedigna, que Litos terá sido orientado por Giovanni Trapattoni… Nisto, haverá alguém que consiga confirmar-me a veracidade de tal informação???!!!
O que é verdade é que, desde então, o antigo internacional português tem andado afastado das “luzes da ribalta”. Vontade de voltar ao futebol, por certo, não faltará e, como o próprio já referiu na comunicação social, o regresso ao Boavista não está fora dos seus planos – “Voltar noutras funções? Gostava bastante. Há muitos clubes que têm na sua estrutura ex-jogadores"*. 

*retirado de jornal “O Jogo”, a 01 de Abril de 2014

697 - JOSÉ SÉRIO

Nascido e criado em Belém, seria no clube do seu bairro que José Sério faria a estreia no futebol. Com incontestáveis habilidades para a defesa das balizas, seria para essa posição que, no final dos anos 30, entraria para a equipa de juniores do Belenenses. No entanto, e apesar de completar a formação no clube da “Cruz de Cristo”, a sua estreia nas categorias principais dar-se-ia no Paço de Arcos. Já o retorno às Salésias, aconteceria um par de anos depois (1944/45).
De volta ao emblema de origem, o atleta iria encontrar a forte concorrência de Capela. A presença daquele que era o guarda-redes titular do Belenenses, leva-o, nesse retorno, a disputar jogos pelas categorias “secundárias”. Logo no ano seguinte à sua chegada, sem que tenha conseguido apurar qual o papel de José Sério na conquista, o Belenenses sagra-se Campeão de Lisboa. Curiosamente, e aqui com o guardião a ocupar um lugar no “onze” inicial, também as “reservas” haveriam de conseguir lograr do mesmo êxito.
Mantendo-se na condição de suplente, mas utilizado, seria ainda nessa temporada de 1945/46 que o atleta conquistaria o título mais importante da sua carreira. Tendo participado em 3 partidas, José Sério faria parte do grupo que, orientado por Augusto Silva, destronaria os principais candidatos à liderança e venceria o Campeonato Nacional. No regresso à capital, após a contenda em que tudo ficaria decidido – partida disputada frente ao SL e Elvas –, o jogador haveria de proferir alguns comentários à festa dos adeptos – “Os carros foram obrigados a parar e o trajecto até Belém foi lento, com muita gente nas ruas a agitar bandeiras"*.
Apesar das suas qualidades, só a partir da época de 1947/48, e com a saída de Capela para a Académica de Coimbra, é que José Sério passou a ter um lugar de destaque dentro do plantel do Belenenses. Logo nessa temporada, ele que já tinha sido chamado à selecção “b”, faz a sua estreia com principal “camisola das quinas”. No entanto, esse particular disputado em Madrid acabaria por ficar marcado por um episódio curioso. Conhecido como um homem calmo, o ambiente nesse jogo frente à Espanha tê-lo-á atemorizado. Arrasado pelos nervos, acabaria por pedir a substituição, vindo mais tarde a confessar – “Pois eu nem via a bola”**.
A sua ligação ao Belenenses manter-se-ia durante longos anos. Só com a chegada de José Pereira à titularidade, é que José Sério acaba por equacionar a sua saída. Todo esse período passado na defesa das redes “Azuis”, torná-lo-iam num dos históricos do clube. Nesse sentido, é, ainda hoje, um dos guarda-redes mais utilizados na história do emblema “alfacinha”, ficando apenas atrás do já referido “magriço” e de Marco Aurélio.
Depois de, no final da temporada de 1954/55, deixar o Belenenses, José Sério ainda daria continuidade ao seu percurso como futebolista. Sem que haja muitos registos sobre o mesmo, é certo que, durante esse período, terá também jogado pelo Coruchense.

696 - JAIME PACHECO

Depois de, durante alguns meses, treinar à experiência no FC Porto, Jaime Pacheco ficaria com a promessa de José Maria Pedroto que, após conseguir livrar-se do Serviço Militar Obrigatório, teria um lugar garantido no seio do plantel. Pacto feito e cumprido. Entretanto, outros convites chegariam às mãos do jogador. Ainda assim, nada demoveria o médio a retrair-se no primeiro acordo e, vindo dos Aliados do Lordelo, o médio chega às Antas na temporada de 1979/80.
Sendo um atleta lutador, Jaime Pacheco acabaria por ser uma das figuras que, na passagem para os anos 80, ajudariam a mudar o paradigma do FC Porto. Ora, numa altura em que os “Dragões” ainda lutavam para regressar aos lugares cimeiros do futebol português, o antigo futebolista acabaria por fazer parte das equipas que ajudariam nessa caminhada.
Curiosamente, o primeiro brilharete na sua carreira, viria com a participação nas competições europeias. Qualificado para a Taça dos Vencedores das Taças de 1983/84, e tendo, até então, apenas vencido 2 Supertaças (1981/82; 1983/84), Jaime Pacheco, e o FC Porto, seguiriam até à final da dita competição internacional. A partida, disputada em Basileia, oporia a equipa portuguesa aos italianos da Juventus. Platini e os seus companheiros acabariam por conseguir vencer o desafio e, desse modo, estragar o sonho do atleta portista.
O apuramento para o Euro 84 e a convocatória para a fase final da dita competição, cimentariam Jaime Pacheco como um “habitué” da selecção nacional. Seria logo após a participação ocorrida em França, que o impensável aconteceria. João Rocha, naquilo que ficou tido como a vingança pela saída de Paulo Futre, endereçaria um convite ao médio. Sendo uma das principais caras na dinâmica do FC Porto, poucos acreditaram que Jaime Pacheco acedesse ao assédio do Presidente leonino. A verdade, todavia, seria outra e, juntamente com António Sousa, Jaime Pacheco mudar-se-ia para o Sporting.
Em Alvalade nem tudo correria de feição. Sem qualquer título conquistado, e com uma grave lesão a assombrar-lhe a época de estreia, a passagem de Jaime Pacheco por Lisboa salvar-se-ia com a chamada ao Mundial de 1986. No regresso do México, e sem que o clube conseguisse renovar-lhe o contracto, o médio faz “inversão de marcha” e volta a vestir de “Azul e Branco”. Esta nova ligação ao FC Porto, traria ao atleta os melhores resultados da sua vida de jogador. A Taça dos Campeões Europeus de 1986/87 e a Supertaça e Taça Intercontinental da temporada seguinte, seriam, nessa lista de sucessos, os melhores exemplos. Depois, para completar um currículo já bem rico, viria, com a vitória na Taça e no Campeonato, a “dobradinha” de 1987/88.
No defeso de 1988, no rescaldo da saída de Rui Águas e Dito para as Antas, Jaime Pacheco recusa uma proposta do Benfica. A sua ligação com FC Porto, que poderia ter tido aí o seu fim, acabaria por conhecer o seu termo no Verão de 1989. O jogador, a entrar na fase final da carreira, acabaria por assinar contracto com o Vitória de Setúbal. Nos “Sadinos”, e mesmo estando a afastar-se dos melhores anos, o médio ainda voltaria a merecer a confiança do seleccionador nacional. Depois de mais de 4 anos de ausência, Jaime Pacheco voltaria a envergar a “camisola das quinas”, naquela que seria a sua derradeira internacionalização.
Paços de Ferreira, Sporting de Braga, Rio Ave e Paredes, muito mais do que marcar os últimos capítulos de uma longa carreira, serviriam de aprendizagem para o seu novo papel dentro do futebol. À excepção dos “Arsenalistas”, em todos os clubes acima citados, Jaime Pacheco haveria de ter uma experiência como treinador-jogador. Já “em exclusivo”, o início da sua caminhada como técnico ocorreria ao serviço do União de Lamas. Pouco mais de meia dúzia de partidas feitas na Divisão de Honra, e o Vitória de Guimarães leva-o à estreia na 1ª divisão. No entanto, o seu percurso no escalão máximo atingiria o pico ao serviço de outro clube. Os anos que passaria no Boavista, nomeadamente entre 1997 e 2002, fariam dele um dos melhores no cumprimento das funções de treinador. As participações na “Champions”, a chegada às meias-finais da Taça UEFA de 2002/03, mas, acima de tudo, a vitória no Campeonato de 2000/01, deixá-lo-iam no topo.
Não sendo, como o próprio já o disse, “um treinador do sistema”*, a carreira de Jaime Pacheco veio a afastar-se dos grandes palcos nacionais. Tendo, ainda ao serviço do Boavista, tido convites para orientar as equipas do Benfica e do Sporting, os sucessos conseguidos com os “Axadrezados”, e ao contrário do que seria normal, acabaria por afastá-lo-ia da ribalta – “(…) para se chegar a certos lugares é preciso ir a muitas capelas ou a muitos bruxos. Duvido muito que as grandes portas se abram sem que se faça isso. Posso chegar ao fim da vida com menos dinheiro e menos currículo mas tenho coluna (…). Depois de ter sido campeão é que se fecharam as grandes portas”*.
Já depois de uma curta passagem pelo Mallorca, e os regressos ao Estádio do Bessa e ao D. Afonso Henriques, Jaime Pacheco haveria de passar pelo comando do Belenenses. Desde 2009, nunca mais voltou a treinar em Portugal. Actualmente (2016/17) orienta os chineses do Tianjin Teda, tendo, ao longo destes anos, tido passagens pelo Al-Shabab (Arábia Saudita); Zamalek (Egipto) e Beijing Guoan  (China).


*retirado da entrevista de Alexandra Tavares-Teles, Diário de Notícias, 16 de Outubro de 2009

695 - ANTÓNIO FELICIANO

Nascido no seio de uma família modesta, e órfão de pai desde tenra idade, António Feliciano entraria para a Casa Pia, ainda criança. Aí, ganharia paixão pelo futebol. Começaria por jogar nas equipas escolares para, com apenas 17 anos, passar à categoria principal do Casa Pia Atlético Clube.
Ainda no decorrer da sua primeira temporada como sénior, Alejandro Scopelli endereça-lhe um convite. Após assistir a um jogo para a Taça de Portugal, onde o Casa Pia defrontaria o Benfica, o antigo internacional argentino e uma das estrelas do Belenenses, pede a António Feliciano para ir treinar às Salésias. Nisto, através de Siska, o defesa recebe um convite do FC Porto – “Cheguei a estar hospedado na Pensão Alegria uns 15 dias. Mas senti-me deslocado, muito pequenino ao pé de jogadores como Carlos Pereira, Pinga, Guilhar, Pocas, Novas e, por isso, sem dar cavaco, meti-me no comboio e voltei para Lisboa”*. O regresso à capital, leva Feliciano a aceitar a primeira proposta. Contracto assinado numa das mesas da “Brasileira” e a “Cruz de Cristo”, daí em diante, passaria a ser a seu emblema.
A ligação do atleta com o Belenenses acabaria por durar quase década e meia. Como é óbvio, em tão longa união, muitos seriam os momentos que Feliciano guardaria na sua memória. Incontornavelmente, teremos que falar dos troféus. Nesse rol, também cabem a Taça de Portugal de 1941/42, e o Campeonato “Alfacinha” de 1943/44. Todavia, a melhor temporada do defesa ainda estava para vir. Em 1945/46, e já depois de vencer o “Regional” de Lisboa, o Belenenses parte para a disputa do Campeonato Nacional. Numa equipa recheada de internacionais, o jogador era parte integrante do melhor sector defensivo da altura. As “Torres de Belém”, como ficariam conhecidos Feliciano, Vasco e Serafim, acabariam por ser a base do maior sucesso da história do clube. Afrontando a hegemonia dos habituais candidatos, o Belenenses conseguiria ultrapassar Benfica, Sporting e FC Porto, acabando por erguer o troféu de campeões.
Como uma das figuras dos êxitos do Belenenses, Feliciano acabaria também por tornar-se, a nível nacional, num dos futebolistas de maior destaque. As constantes chamadas à selecção portuguesa seriam, disso mesmo, a prova. No entanto, ainda mais extraordinário, seriam os convites que passaria a receber. O primeiro, acabaria por chegar pela mão do mítico Zamora. O guarda-redes espanhol, numa altura em que os jogadores “lusos” rareavam no estrangeiro, proporia a Feliciano a passagem para o Celta de Vigo. A proposta incluía um contracto bem apetecível. Ainda assim, a resposta seria negativa. Depois, ao que consta, seguir-se-ia a vez do Vasco da Gama e, mais uma vez, o atleta negar-se-ia a uma mudança
Feliciano e o Belenenses terminariam a sua ligação no final da época de 1953/54. Numa altura em que o atleta já entrava nos derradeiros anos da sua carreira, o convite do Desportivo de Chaves fá-lo-ia mudar-se para Trás-Os-Montes. No emblema flaviense, emprestaria os seus conhecimentos sobre a modalidade e desempenharia as funções de treinador-jogador.
Também nos “bancos” a carreira de António Feliciano seria recheada de bons momentos. Com ligação ao Desportivo de Chaves, por onde ainda passaria mais algumas vezes, seria no FC Porto que viveria grande parte dos seus anos como treinador. Com uma pequena presença, interina, no plantel principal dos “Dragões”, o seu papel na “formação” do clube seria de enorme importância. Tendo visto reconhecido o mérito do seu trabalho, há que destacar, na lista de jogadores que passaram pela sua alçada, os nomes de Fernando Gomes ou Rodolfo Reis.

 
*retirado de “100 figuras do futebol português”, Jornal “A Bola”

694 - FRECHAUT

O primeiro grande destaque na sua carreira, acabaria por acontecer com as cores do Vitória de Setúbal. Num grupo que também contava com Marco Tábuas, Sandro, Mário Loja ou Carlos Manuel, os “Sadinos” estiveram a beira de conquistar o Nacional de Juniores de 1994/95. Contudo, num campeonato que, nos seus momentos finais, ver-se-ia envolto em grande polémica, o Boavista, no golo “average”, acabaria por ganhar o título. Os responsáveis setubalenses ainda reclamaram da eventual utilização, por parte dos “axadrezados”, de dois jogadores castigados. No entanto, o protesto em nada daria e o troféu permaneceria no Bessa.
Ironicamente, seria com as cores do Boavista que Frechaut passaria os melhores anos do seu percurso como profissional. Depois da estreia pelos seniores do Vitória de Setúbal, as 4 temporadas que passaria na 1ª divisão, seriam suficientes para que os responsáveis do emblema nortenho vissem nele um bom reforço. A mudança do Bonfim para a cidade do Porto, numa altura em que o clube já há muito ameaçava a hegemonia dos denominados “grandes”, traria ao atleta o seu primeiro grande título.
Podendo actuar, tanto na direita da defesa, como no miolo do terreno, o jogador seria peça fulcral nas manobras do treinador Jaime Pacheco. A conquista do Campeonato Nacional de 2000/01, projectaria o atleta para a ribalta do desporto português. Nesse sentido, poucos estranharam a sua inclusão nos trabalhos da equipa nacional. Ele que até já tinha algum currículo nas selecções jovens portuguesas, passava a fazer parte do grupo que, em 2002, marcaria presença no Mundial organizado entre o Japão e a Coreia do Sul.
Com a sua cotação a subir em flecha, também por culpa das presenças na Liga dos Campeões, muitos foram os clubes que iriam no seu encalço. Numa altura em que o futebol russo começava a merecer a atenção dos multimilionários daquele país, o Dínamo de Moscovo decidiria investir em Portugal. Com esse propósito, e já depois de contratados uma série de outros futebolistas, Frechaut segue caminho para a Rússia. Todavia, a sua passagem pelas antigas “terras dos Czares” seria bem curta. Incapaz de se adaptar a uma realidade bem diferente, nem a presença de inúmeros compatriotas tornaria a experiência em algo positivo. Seis meses após a sua partida, Frechaut estava de regresso a Portugal e, desta feita, para vestir as cores do Sporting de Braga.
No Minho, Frechaut volta às boas exibições. Como um dos elementos mais importantes no plantel bracarense, o internacional luso contribuiria para a ascensão do clube aos lugares cimeiros da tabela classificativa. Com as boas épocas a sucederem-se, a presença do Sporting de Braga nas competições europeias, começaria a ser um hábito. Em 2008/09, sob o comando de Jorge Jesus, os “Arsenalistas” conseguem um feito inédito. Numa edição em que o vencedor era decidido por quem mais longe chegasse na Taça UEFA, Frechaut, ao ajudar à vitória na Taça Intertoto, adicionaria um troféu internacional à sua lista de conquistas.
Já numa fase descendente da sua carreira, Frechaut assume mais uma experiência no estrangeiro. A passagem pelos franceses do Metz, daria início a um périplo que o levaria a cirandar pelos escalões secundários dos campeonatos gauleses e do nosso país. Depois, vestiria a camisola da Naval 1º de Maio, para, no regresso ao Boavista, terminar a sua carreira de futebolista.
Seria também no Bessa que Frechaut faria a transição para os “bastidores”. Como treinador, passaria pelas camadas jovens dos “Axadrezados”. Já em 2014/15, ao serviço do Beira-Mar, teria então o seu primeiro teste como dirigente, quando, com as cores do Beira-Mar, aceitaria o cargo de Director Desportivo.

DAVID E GOLIAS

Numa disputa, por norma, entregue aos ditos "3 grandes", há aqueles que conseguiram a ousadia de intrometer-se entre Benfica, Sporting e FC Porto. A esses que afrontaram as "regras" do futebol português, será dedicado todo o Setembro.
Numa altura em que o campeonato de 2016/17 dá os seus primeiros passos, é, então, altura de contar outras histórias de "David e Golias".


Ver também: Augusto Silva; Ricardo; William; Pedro Emanuel; Jorge Silva; Rui Óscar; Rui Bento; Petit; Gouveia.

693 - ANTÓNIO ROQUETE

Nascido em Salvaterra de Magos, no seio de uma família muito pobre, António Roquete entraria para a Casa Pia. Seria na dita instituição, que o antigo internacional português se revelaria um desportista de nomeada. Natação, basquetebol, pólo-aquático e até basebol, fariam parte da sua lista de modalidades praticadas. Contudo, e apesar de ser um atleta multifacetado, o futebol era a sua grande paixão. Tendo começado nas equipas “escolares” casapianas, António Roquete prosseguiria a sua carreira no denominado Casa Pia Atlético Clube. A destreza que demonstrava, a bravura, mas, principalmente, as técnicas próprias de um bom guarda-redes, rapidamente fariam dele um dos melhores a actuar na sua posição.
Mesmo sem pertencer a um dos mais carismáticos emblemas nacionais, o seu nome, a partir de 1926, começa a fazer parte dos convocados para as partidas da selecção nacional. Com as cores de Portugal, num particular contra a França, faz a sua estreia em Toulouse. Esse jogo, já incluído na caminhada para os Jogos Olímpicos de 1928, era o reconhecimento, e merecido prémio, para a sua habilidade na defesa das balizas. A essa primeira internacionalização seguir-se-iam outras e, nessa senda, a sua presença no certame realizado em Amesterdão estava garantida.
Levado às olimpíadas pela mão do seleccionador nacional Cândido de Oliveira, António Roquete seria titular em todas as partidas disputadas. Portugal chegaria aos quartos-de-final e, mesmo a falta de uma medalha, não inibiria o povo de sair à rua para festejar o regresso dos seus heróis. Nisto, e como é fácil de compreender, a popularidade do guardião subiria em flecha. Alto e espadaúdo, e reflexo daquilo que o futebol já representava nessa altura, até a imagem de António Roquete seria alvo de cobiça e comparada com a dos mais afamados galãs do cinema. 

Também no campo desportivo, o futebolista continuaria a gozar dos maiores louvores. Apesar de apenas ter representado o Casa Pia, por diversas vezes seria cedido a outros emblemas, como o Vitória de Setúbal, o Sporting ou o Benfica, para a disputa de particulares ou como integrante nas digressões realizadas no estrangeiro.
Deste modo, foi com grande surpresa que, no início da década de 30, António Roquete desaparece da cena desportiva. Sem ainda ter completado 30 anos de idade, aquele que era tido como um dos melhores atletas da modalidade, retirava-se dos campos sem, ao que dava a entender, deixar grande rasto!

A verdade, no entanto, era outra. António Roquete abandonaria o futebol para ingressar na Polícia Internacional Portuguesa! Destacado no Minho, aquele que era um ídolo para as massas, tornar-se-ia num temido agente. Reconhecido pela sua faceta violenta e impiedosa, a sua imagem, passados alguns anos, ficaria ainda mais denegrida. É já como elemento da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), onde chegaria a subinspector, que António Roquete se envolve em dois casos muito badalados. Na morte do Dr. António Ferreira Soares, contam alguns relatos que terá tido parte activa na cilada perpetrada ao militante do Partido Comunista Português. Nela, e no mesmo consultório onde tantas vezes terá ajudado os mais desfavorecidos, o conhecido “médico dos pobres” terá sido interpelado por uma brigada e atingido a rajadas de metralhadora. Ainda vivo, mas já inanimado, seria arrastado para o interior de um carro da polícia, vindo a morrer pouco depois.
Já no caso da prisão de Cândido de Oliveira, também muito se especulou sobre o seu envolvimento. Pelo que se sabe, o treinador teria tido um papel proeminente no decorrer da 2ª Guerra Mundial, ao ajudar os Serviços Secretos Britânicos em acções de espionagem. Por essa razão haveria de ser levado para o forte de Caxias, onde seria sujeito às mais diversas torturas e privações, para depois ser deportado para o campo de concentração do Tarrafal. Dir-se-ia que o próprio Roquete havia participado nos espancamentos a que Cândido de Oliveira teria sido sujeito. Todavia, esta versão seria posteriormente desmentida pela sobrinha do antigo seleccionador nacional – “Era um rapaz muito pobre, o Roquete, o meu tio protegeu-o, garantiu-lhe refeições, ajudou-o a vestir-se, enfim fez com ele o que fazia com todos os casapianos que precisavam do que fosse... É verdade, que apesar disso, não se portou bem quando Cândido foi preso. Mas bater-lhe parece que não bateu. De qualquer forma, posteriormente, Roquete tentou uma aproximação, mas o Cândido recusou”*.

 
*retirado de  http://oindefectivel.blogspot.co.uk/

692- JOÃO DOS SANTOS


Na temporada de 1923/24, aquando do primeiro triunfo no “regional alfacinha”, já João dos Santos era um dos mais afamados futebolistas “Sadinos”. Interior-esquerdo, o jogador do Vitória de Setúbal sobressaía por ter uma técnica aprimorada e bem acima do que, para a época, era normal. O controlo da bola e a maneira como conseguia construir as jogadas, eram as suas melhores virtudes. Essas suas características, por altura de uma digressão realizada em Espanha, haveriam de merecer o louvor da imprensa local. João dos Santos, para surpresa de “nuestros hermanos”, seria eleito como um dos melhores atletas da comitiva setubalense e acabaria como o grande destaque dos periódicos desportivos – “João dos Santos e Casaca conduziram três ou quatro avançadas que foram um primor de execução. A bola em suave zig-zag ia de um para o outro, sem que ao fazer a passagem perdessem a elegância das suas figuras”*.
Dois anos passados sobre o primeiro brilharete e o Vitória de Setúbal consegue novo triunfo no Campeonato de Lisboa. Para João dos Santos, um dos pilares de tão importante conquista, a época de 1925/26, também no plano pessoal, haveria de ser de consagração. O merecido reconhecimento chegaria com a primeira chamada à selecção nacional. O particular contra a antiga Checoslováquia, onde também faria a estreia o seu colega Armando Martins, muito mais do que o primeiro jogo com a “Camisola das Quinas”, introduziria o atacante no grupo que acabaria por estar presente nos Jogos Olímpicos de Amesterdão.
Todavia, João dos Santos não era apenas um bom atleta. Era, igualmente, um modelo de integridade e cavalheirismo. Como bom exemplo, a rondar os 20 anos de idade, já envergava a braçadeira de capitão do clube para, alguns anos mais tarde, também de ostentar a da selecção nacional. Depois, e já após ter-se retirado dos campos, seria nomeado para treinar a equipa principal do Vitória de Setúbal. Ora, é por todas essas razões que o antigo internacional português é apontado com um dos grandes símbolos da história do clube. Se mais provas fossem necessárias, então a inauguração do Estádio do Bonfim poria um fim a qualquer dúvida mesquinha. É que, a 16 de Setembro de 1962 haveria de ser ele o chamado para, nas festas de abertura do recém-construído recinto, ter a honra de transportar o estandarte do clube.

 
*retirado de http://viiiexercito.com/, citando o “El Mundo Desportivo”

691 - BETO

A terminar a formação no Sporting, o trajecto que também já levava nas selecções jovens, deixava a entender que Beto era um jogador com o futuro assegurado. Se mais provas fossem necessárias, então, a vitória no Euro sub-18, título conquistado por Portugal em 1994, serviria para aferir que o defesa fazia parte de um núcleo de atletas com inquestionáveis dotes.
Já depois da vitória no Europeu, Beto é cedido ao União de Lamas. A época passada na Divisão de Honra, a sua primeira como sénior, sublinharia tudo aquilo que se conhecia do jogador. Seguro a defender, também na construção de jogadas, o atleta mostrava ter alguma habilidade. Ainda assim, e apesar das provas dadas, o seu regresso a Alvalade acabaria por não acontecer e um novo empréstimo, desta feita ao Campomaiorense, seguir-se-ia.
O traquejo conseguido ao serviço do emblema alentejano, daria um sinal precioso aos responsáveis leoninos. Esse ano de 1ª divisão, e com a experiência aí adquirida, faria com que Beto, para a temporada de 1996/97, fosse integrado no plantel principal do Sporting. Ora, e já depois de ter participado nos Jogos Olímpicos de Atlanta, é às ordens do belga Robert Waseige que o defesa, bem depressa, haveria de conseguir conquistar um lugar no sector mais recuado dos “Leões”.
A caminhada de “verde e branco”, que duraria cerca de uma década, cimentaria o atleta como um dos melhores centrais a actuar em Portugal. O reflexo disso mesmo, acabaria por ser a constância com que o seu nome apareceria nas convocatórias para a selecção. Com a estreia a acontecer ainda na fase de qualificação para o Mundial de 1998, Beto mereceria por estar presente em 3 grandes torneios.
Tendo feito parte das comitivas nacionais que disputaram o Mundial de 2002 e os Euros de 2000 e 2004, Beto, também no seu clube, viveria momentos de grande glória. Pelo Sporting, faria parte do grupo que, ao fim de 18 anos de jejum, voltaria a vencer o Campeonato Nacional. 2 anos depois, novas conquistas. Desta feita seria a “dobradinha” de 2001/02 a colorir o seu currículo.
Mesmo tendo conseguido uma boa série de títulos, onde ainda deverão ser incluídas 2 Supertaças (2000/01; 2002/2003), à carreira do jogador faltaria um troféu europeu. A dita oportunidade, acabaria por ser desperdiçada na final da Taça UEFA de 2004/05. Como o próprio já afirmou, essa “falha”, que haveria de transformar-se numa das maiores frustrações da sua carreira, aconteceria em Lisboa. Na final disputada em pleno Estádio de Alvalade, onde Beto faria parte do “onze” inicial, o Sporting, que até inauguraria o marcador, acabaria por não conseguir derrotar o CSKA de Moscovo. Ao golo do brasileiro Rogério, os russos responderiam com mais 3 remates certeiros e o título acabaria por escapar à equipa portuguesa.
Com a chegada de Paulo Bento, Beto, que já era o “capitão” de equipa, acabaria por perder alguma preponderância. Esse afastamento faria com que o jogador pensasse em prosseguir a sua carreira noutro campeonato. O convite acabaria por surgir de França e o atleta assinaria pelo Bordeaux. No entanto, a sua passagem pelos “girondinos” haveria de ser bem curta. Depois de ter chegado a meio da época 2005/06, e sem que nunca ter conseguido afirmar-se como titular, Beto, passados alguns meses, mudar-se-ia para Espanha.
No Recreativo de Huelva, onde voltaria a encontrar-se com Silvestre Varela e Carlos Martins, o defesa acabaria por passar 3 temporadas. Tendo tido, nos dois primeiros anos, exibições de bom nível, alguns problemas físicos levariam ao seu afastamento dos relvados. Essas mesmas lesões marcariam o que restaria da sua carreira e a passagem pelo Belenenses (2009/10) acabaria por, de igual modo, ficar condicionada.
Seria após uma incursão pelos escalões secundários espanhóis, que Beto, depois de vestir as cores do UD Alzira (2010/11), poria um ponto final na sua carreira de futebolista. Contudo, o antigo jogador manteria a sua ligação à modalidade. Primeiro, regressaria ao Sporting para, durante o mandato de Godinho Lopes, desempenhar o cargo de “Director de Relações Públicas e Internacionais”. Depois, daria seguimento a um sonho antigo e, nas camadas jovens do Cova da Piedade (2016/17), é o actual treinador da equipa de Juniores.

690 - ARMANDO MARTINS

Tendo, nos meados da década de 20, surgido na equipa principal do Vitória de Setúbal, Armando Martins, cumpridos apenas alguns meses na dita categoria, faria por merecer a chamada à selecção nacional portuguesa. O jogo com a antiga Checoslováquia, de carácter particular, como que marcaria o ponto de partida para uma carreira que, desde o seu começo, alcançaria enorme realce.
É já depois do primeiro jogo por Portugal, disputado em Janeiro de 1926, que o extremo direito conseguiria um dos mais importantes títulos da sua vida desportiva. Ora, como ainda não havia sido formada a Associação de Futebol de Setúbal, os “Sadinos”, à altura, estavam incluídos nas provas sediadas na capital. Nesse sentido, a temporada de 1926/27 haveria de ter, para o Vitória, uma primeira metade de excelência. Conseguindo sobrepor-se aos favoritos Benfica, Sporting e Belenenses, e com Armando Martins a auferir de um grande destaque, os setubalenses sagrar-se-iam vencedores do Campeonato Regional de Lisboa.
Também no Campeonato de Portugal, na já referida época, os de Setúbal embarcariam em mais uma campanha memorável. Armando Martins, como um dos mais chamados ao “onze” inicial, assumiria novamente um papel de grande importância. Ao lado de nomes como os de Octávio Cambalacho, João dos Santos, Francisco Silva ou Artur Camolas (todos eles chegariam a internacionais) o atleta ajudaria o clube, pela primeira vez na sua história, a chegar à final daquela que era a prova maior do calendário nacional. Na derradeira partida, o Vitória acabaria por claudicar frente ao Belenenses, perdendo por 2-0.
Sensivelmente 1 ano após esta final, Armando Martins, que, de forma continuada, via o seu nome a ser incluído nas convocatórias da selecção portuguesa, é mais uma vez chamado por Cândido de Oliveira. Desta a feita, ao invés dos habituais particulares, a ocasião levaria o jogador a vestir a “camisola das quinas” naquele que era, à altura, o certame de maior importância no universo do futebol. Nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, o atleta, com entrada em duas das partidas disputadas, ajudaria Portugal a alcançar os quartos-de-final.
Não foi só como praticante que Armando Martins viveu a sua relação com o futebol. Também na função de técnico, o internacional “luso” haveria de deixar o seu legado. Aos comandos do Vitória de Setúbal, levaria os seus pupilos à primeira final da Taça de Portugal, na história do clube. Mesmo tendo perdido essa edição de 1943/44 para o Benfica, o seu nome é um dos que mais estima merece a estima por parte dos adeptos “sadinos”. No percurso do emblema setubalense, o valor da sua figura é incalculável. Tendo sido um dos melhores futebolistas nas primeiras décadas de vida do clube, também a ele se deve o lançamento de outros atletas. Como exemplo, pode referir-se o nome de um outro craque do futebol português, Emídio Graça.

689 - NUNO AFONSO

Se a ideia que temos de um defesa central, é a de alguém que nada mais faz do que destruir jogadas, então não vamos conseguir falar de Nuno Afonso!
Desde muito cedo, deu a entender que a sua técnica era bem superior à dos seus colegas de posição. Bom a jogar com os pés, o jovem defesa era incapaz de, sem nexo, pontapear uma bola. Esse seu trejeito, já depois de um longo percurso nas “escolas” do Benfica, valer-lhe-ia um lugar no plantel principal. No entanto, numa equipa que, em 1993/94, contava com Mozer, Hélder ou William, as chances para Nuno Afonso acabariam por não ser muitas.
Sem fugir a essa realidade, a verdade é que a sua oportunidade lá chegaria. É deste modo que aos 19 anos, e pela primeira vez, é chamado ao “onze” inicial das “Águias”. Se a situação, só por si, já seria motivo para alguns nervos, então, a derrota sofrida na jornada anterior, ainda poria mais pressão sobre o atleta. Todavia, já em campo, o jovem central em nada parecia amedrontado. Nuno Afonso faria uma exibição impar. Irrepreensível nas funções defensivas, o defesa teria ainda tempo para, numa jogada de impecável recorte técnico, centrar para a grande área adversária e assistir Mozer, para um dos golos da tarde.
Se essa vitória sobre o Belenenses, como muitos o reconheceriam, sublinhava um futuro brilhante para Nuno Afonso, o que haveria de acontecer seria um pouco diferente. Com uma carreira cimentada pelas presenças nas jovens selecções portuguesas, ao atleta eram reconhecidas qualidades suficientes para singrar no mundo do futebol. Contudo, no “defeso” de 1994, e com o título de campeão nacional a abrilhantar o seu currículo, a saída de Toni e a revolução perpetrada pela chegada de Artur Jorge, poriam o jogador na porta de saída.
Dispensado da “Luz”, as duas épocas que se seguiriam voltariam a mostrar Nuno Afonso como um jogador a ter em conta. Belenenses e Campomaiorense, sempre na 1ª divisão, seriam os emblemas que se seguiriam na sua carreira. As exibições que conseguiria, mormente ao serviço do clube alentejano, levá-lo-iam a ser chamado aos Jogos Olímpicos de 1996. Depois de, numa primeira listagem, ter ficado de fora, a lesão de Litos faz com o defesa, já com o torneio a decorrer, seja repescado na convocatória.
A participação de Portugal nas Olimpíadas, onde atingiria o 4º posto, faria com que a cotação dos atletas presentes em Atlanta, começasse a subir. Esse facto, levaria a que de Espanha, num Salamanca orientado por João Alves e recheado de nomes bem conhecidos do futebol português, surgisse uma nova proposta de contrato.
Contudo, a passagem pelo 2º escalão espanhol, muito para além de ajudar o atleta a catapultar-se, haveria de marcar uma mudança de paradigma. Sem conseguir um lugar seguro no plantel, Nuno Afonso, com o regresso a Portugal no ano seguinte, entraria numa fase menos produtiva. Jogando, ainda assim, quase sempre no escalão máximo, o defesa, excepção feita à passagem pela Vila das Aves, raramente atingiria o nível exibicional dos seus primeiros anos de sénior.
Vitória de Setúbal, Paços de Ferreira, Marítimo, o já referido Desportivo das Aves, Oliveirense e, ainda em Espanha, o modesto Díter Zafra, seriam os restantes clubes da sua carreira. Nisto, e talvez desapontado pelo rumo que o seu trajecto profissional estaria a tomar, Nuno Afonso, ainda longe de completar 30 anos de idade, decide abandonar os relvados. Hoje em dia, a residir em Salamanca, é instrutor e dono de dois clubes de padel. A modalidade, com origem no ténis, encontra-se em franca ascensão no país de “nuestros hermanos“, e tem no antigo futebolista um dos maiores fãs e impulsionadores!

688 - CIPRIANO SANTOS


Tendo entrado para as categorias inferiores do Sporting perto de atingir a maioridade, Cipriano Santos rapidamente começaria a demonstrar características que o destacariam dos demais. Sendo considerado um dos primeiros guarda-redes que, em Portugal, mostraria verdadeiras aptidões para a defesa da baliza, o jovem atleta saltaria directamente da 4º categoria e, sem passar por qualquer um dos restantes patamares, passaria para a equipa principal.
Coincidência, ou não, com a promoção do jovem atleta, o Sporting daria início a um ciclo de vitórias que, logo na sua temporada de estreia, culminaria com a vitória do clube tanto no Campeonato de Lisboa, como no Campeonato de Portugal. Essa época de 1922/23, num grupo onde pontuavam atletas como o mítico Francisco Stromp, seria o ponto de partida para uma carreira que elevaria Cipriano Santos a um dos grandes ídolos dos “verde e branco”.
Não conseguindo mais nenhum título nacional, mas acrescentando ao seu currículo mais 3 “regionais alfacinha”, também pela selecção nacional Cipriano Santos deixaria a sua marca. Numa altura em que o “rei e senhor” das redes portuguesas era o casapiano António Roquete, o guardião leonino era o segundo nas contas da equipa nacional. Ainda assim, o atleta natural de Almada, por duas vezes, conseguiria furar a hegemonia do seu colega. Tendo a sua estreia acontecido num particular frente à antiga Checoslováquia, a segunda dessas internacionalizações chegaria uns meses antes da presença de Portugal nos Jogos Olímpicos de 1928.
Na cidade holandesa de Amesterdão, Cipriano Santos, ao lado dos seus colegas de equipa Jorge Vieira e José Manuel Martins, acabaria por não participar em qualquer uma das partidas que levariam a “Equipa das Quinas” a atingir os quartos-de-final da competição. Mesmo sem conseguir qualquer presença em campo, nessas que seriam as primeiras Olimpíadas para o futebol do nosso país, nada na sua reputação sairia beliscado.
No que restaria da sua carreira, o guarda-redes dos “Leões”, manter-se-ia no topo do futebol português. Para além da consideração que conseguiria entre adversários e tantos outros amantes da modalidade, seria entre os associados sportinguistas que lograria os maiores louvores. Ora, já depois de deixar o clube e de, após representar Académica de Coimbra e Boavista, ter posto um ponto final na sua carreira de desportista, os préstimos do antigo guardião continuariam a ser reconhecidos no seu antigo clube. A prova de toda essa gratidão, passados alguns anos, viria aquando das bodas de ouro do clube, com a agraciação pela Medalha de Mérito e Dedicação.

687 - CÉSAR DE MATOS

Foi, sem sombra de dúvida, um dos grandes ídolos do futebol “luso”, entre os anos 20 e os anos 30. Já no Belenenses, a sua história é ainda de maior importância, sendo, ainda nos dias que correm, um dos jogadores com mais internacionalizações, na história do clube.
Ora, depois deste pequeno parágrafo introdutório, que mais haverá para dizer sobre César de Matos? Bem, nesse bastante, e naquelas que viriam a ser as décadas seguintes à fundação do clube da “Cruz de Cristo”, o antigo médio constituir-se-ia como um dos pilares do sucesso do Belenenses. Nesse sentido, e tendo os de “Azul” vencido o Campeonato de Portugal nas temporadas de 1926/27, 1928/29 e 1932/33, se houve, entre outras coisas, algo de comum a esses três títulos, então, o nome de César de Matos foi uma delas.
Sendo um jogador aguerrido, ágil e atlético, características que o levariam a ser apelidado como o “médio voador”, César de Matos era um dos esteios nas manobras de Artur José Pereira. A rapidez com que haveria de conseguir impor-se no plantel principal, levá-lo-iam, logo no primeiro ano a trabalhar com a dita categoria, a ser visto como um bom elemento para integrar os planos da selecção.
A sua estreia com a “Camisola das Quinas”, pela mão do seleccionador Ribeiro dos Reis, aconteceria a 17 de Maio de 1925. Essa partida frente à Espanha, acabaria por marcar o início de uma relação que, muito mais rica do que o normal para a época, traduzir-se-ia em 8 anos de ligação e 17 internacionalizações. Por entre essas chamadas, grande maioria para contendas “amigáveis”, a presença naquela que era a maior competição para selecções.
Sem Mundial ou Europeu para disputar, os Jogos Olímpicos afiguravam-se como o grande certame para as equipas nacionais. Tendo isto em mente, e na hora de organizar a lista dos que haveriam de marcar presença no certame disputado em Amesterdão, a mão de Cândido de Oliveira, por certo, não terá tremido no momento de inscrever o nome de César de Matos. A presença do atleta acabaria por ficar registada, traduzindo a sua importância no seio do grupo, em todos os jogos do nosso país. Portugal apenas chegaria aos quartos-de-final da competição. Ainda assim, e nesse longínquo ano de 1928, a comitiva, já no seu regresso, seria recebida com grandes louvores. César de Matos seria um dos mais acarinhados, momento que serviria, ainda mais, para elevar o seu estatuto de estrela do desporto português.
A primeira época do Campeonato da Liga (1934/35) marcaria o fim da carreira de César de Matos. Numa vida de futebolista, antagónica àquilo que hoje temos como certa, o centrocampista haveria de conciliar aquele que era um mero entretém, com a sua profissão de Torneiro Mecânico. Ainda assim, nesses tempos de “amadorismo”, o jogador conseguiu, fruto da sua paixão pela modalidade, acumular um incrível rol de conquistas. Para além do que aqui já foi referido, ainda falta listar 4 Campeonatos de Lisboa e várias presenças com a camisola da selecção regional “alfacinha”.

686 - ANDRADE

Produto das escolas leoninas, Andrade, tal como tantos outros jovens, faria a sua estreia nos seniores, numa equipa de menor monta. Ora, terminada a sua formação no Sporting, o atleta, na temporada de 1992/93, acabaria por rumar ao Estoril-Praia. Sem lugar em Alvalade, os anos que passaria com os da “Linha de Cascais”, serviriam para provar que as suas qualidades eram um valor que não estava perdido.
Com presenças nos diversos escalões jovens da selecção portuguesa, pela qual disputaria os mais importantes certames desportivos, o médio defensivo continuaria nos planos daqueles que o tinham acompanhado até aí. Em 1996, no mesmo Verão em que faria a transição do Estrela da Amadora para o Belenenses, Andrade é chamado a disputar os Jogos Olímpicos de Atlanta. Sendo um dos principais peões na manobra do seleccionador Nelo Vingada, o atleta haveria de marcar presença na maioria das partidas. Titular em 4 desses jogos, Andrade ajudaria, e muito, na caminhada até ao 4º posto.
Não só a presença nas Olimpíadas, mas, principalmente, as 2 temporadas que, de seguida, faria no Restelo, encaminhariam Andrade para a linha-da-frente do futebol nacional. Mais uma vez cobiçado pelos emblemas maiores em Portugal, o jogador, na época de 1998/99, acabaria por mudar-se para o Benfica.
Numa altura em que o futebol “encarnado” vivia com bastantes problemas, a atitude que Andrade mostrava no relvado, era tida como o tónico para melhores desempenhos colectivos. Podendo, tanto na defesa, como no centro do terreno, actuar em diversas posições, o atleta era conhecido pela maneira aguerrida como disputava cada lance. Todavia, essa sua bravura acabaria por nunca ser entendida como suficiente. Com algumas expulsões a atrapalhar a sua afirmação no seio do plantel, o jogador não seria capaz de, em definitivo, segurar um lugar no “onze” inicial. Ainda assim, com um empréstimo ao Sporting de Braga pelo meio, o atleta passaria 4 temporadas ao serviço das “Águias”.
Tenerife, no segundo escalão espanhol, a Académica de Coimbra e uma curta passagem pelos cipriotas do AEP, serviriam para antecipar aquela que viria a ser a sua derradeira etapa como futebolista. Já de regresso a Portugal, Andrade encetaria um périplo considerável e que o levaria a cirandar por clubes dos escalões ditos amadores.
Já bem à vista dos 40 anos de idade, e a jogar nos “regionais” de Lisboa, Andrade decide que era a hora certa para “pendurar as chuteiras”. Tendo, ainda nos últimos anos como futebolista, dado os primeiros passos nas funções de técnico, foi com naturalidade que, após retirar-se dos relvados, o antigo jogador deu continuidade à nova carreira. Nesse sentido, e aos comandos do Damaiense, teria na época transacta (2015/16), isto numa equipa sénior, a sua primeira experiência como treinador principal.

685 - RAÚL FIGUEIREDO

Por vezes, dada a distância que nos separa dos anos em que determinado jogador marcou presença nos campos de futebol, não é fácil construir uma imagem daquilo que a sua carreira terá sido. No caso de Raúl Figueiredo, essa tarefa também não foi fácil. No entanto, o que se afigurou bem claro é que o antigo internacional português foi, à altura, um dos grandes craques da modalidade.
Havendo alguma discussão quanto à sua naturalidade, variando o local do seu nascimento, segundo diferentes autores, entre as cidades de Setúbal e Lisboa, o que é quase certo é que as origens de Raúl Figueiredo estarão na grande região da capital. Nesse sentido, não é de estranhar que os primeiros pontapés na bola tenham sido dados nas já referidas localidades. Vitória de Setúbal, Sporting e Carcavelinhos, parecem constar, sem grande certeza na cronologia, como os emblemas da sua adolescência. Já o Avenida FC, emblema sediado na cidade sadina, aparenta constar como o primeiro clube sénior da sua carreira.
No meio de tantas dúvidas, o que é certo é que Raúl Figueiredo chegaria à ribalta do desporto português, envergando as cores do Olhanense. Também conhecido como “Tamanqueiro”, alcunha dada por razão das artes do seu pai, o atleta era dado a funções mais defensivas. Ora como defesa, ora no centro do terreno, a segurança que dava à equipa, permitia aos companheiros mais avançados outras veleidades. Seria esta certeza que permitiria aos de Olhão a maior façanha da sua história. Para a temporada de 1923/24, o Olhanense, num plantel onde também constava o internacional José Delfim, consegue bater todos os adversários que, nas eliminatórias do Campeonato de Portugal, foram aparecendo pela frente. Na final disputada com o FC Porto, mais uma vitória e a conquista daquela que, à altura, era a prova de maior importância disputada no nosso país.
Depois deste êxito, não faltou muito para que da Selecção Nacional recebesse a sua primeira chamada. Ribeiro dos Reis, o seleccionador de então, convocaria o jogador para um particular frente a Espanha. A 17 de Maio de 1925, dando início a uma ligação que duraria cerca de 5 anos, Raúl Figueiredo daria o primeiro passo para averbar um total de 17 internacionalizações.
Quem, igualmente, não deixaria escapar o futebolista, seria o Benfica. Afastados dos títulos havia alguns anos, os “Encarnados” veriam no atleta uma boa oportunidade para atacar tanto os troféus regionais, como os de âmbito nacional. Regressado a Lisboa, e, numa altura em que o futebol não era suficiente para subsistir, Raúl Figueiredo também trocaria a venda de peixe pela condução de um Táxi. Já no que às conquistas pertence, a aposta acabaria por não ser de grande proveito. No entanto, mesmo sem grandes vitórias, as suas exibições no Benfica valer-lhe-iam um valente acréscimo de fama.
Ora, para toda essa reputação, também haveria de contribuir, e muito, a presença naquela que, por esses tempos, era a maior competição mundial para selecções. Em 1928, na cidade holandesa de Amesterdão, Raúl Figueiredo, desta feita comandado por Cândido de Oliveira, faria parte da comitiva que, no que ao futebol diz respeito, pela primeira vez disputaria os Jogos Olímpicos.
 Pouco tempo passado sobre a participação nas Olimpíadas, Raúl Figueiredo desvincula-se do Benfica. Alternado o Olhanense com o Recreativo de Huelva, onde desempenharia a função de treinador/jogador, o internacional “luso” encetaria um périplo que o levaria a representar ainda mais alguns clubes. Que se conheça, também passaria pelo Académico do Porto e, voltando a cumprir tarefas tanto de técnico, como dentro do campo, o Sporting de Braga, União de Coimbra e Recreio Desportivo de Braga.
Na vida, teria um fim muito precoce. Faleceria, vítima de doença oncológica, com apenas 38 anos. Como herança, brindaria a memória dos que o viram em campo, com a imagem de alguém atlético e batalhador. Àqueles de quem era mais próximo, mais precisamente na ideia do seu filho, deixaria a vontade de prosseguir um legado. É desta maneira que, Raúl Figueiredo e o homónimo, seu descendente, originariam a primeira dupla pai/filho a vestir as cores de Portugal.

OLÍMPICOS, parte II

Com os Jogos Olímpicos de 2016 a começar dentro de dias, que melhor oportunidade para recordar aqueles que fizeram história nesta competição? Com o futebol português, agora na cidade do Rio de Janeiro, a averbar a sua 4ª participação, o mês de Agosto será dedicado àqueles que, noutras edições, também ajudaram a carregar o estandarte nacional.