722 - LUSITANO FC

Nascido em meados da década de 10, o contexto político-social vivido na época, iria moldar, logo à sua fundação, todo o clube. Numa altura em que, por razão da Grande Guerra ou da recente Proclamação da República, a ideia de nação estava ao rubro, a escolha do nome estaria envolta num enorme sentimento patriótico.
Contando, ao que consta, com inspiração do romance histórico “Santa Pátria” de António de Campos Júnior, os primeiros membros da colectividade decidem baptizá-la de Lusitano Futebol Clube. Tendo o primeiro passo sido dado a 15 de Abril de 1916, o emblema de Vila Real de Santo António, como a lógica o haveria de ditar, começa por impor-se no Algarve. Já depois de Farense e Olhanense tomarem a dianteira no futebol da região, eis que na temporada de 1922/23, o clube, que era uma das principais delegações do Benfica, quebra a hegemonia dos seus mais directos adversários. Depois dessa primeira vitória no “regional” algarvio, o interregno de 4 épocas sem conseguir erguer o troféu, serviria de antecâmara para o feito que se seguiria. O Tricampeonato, conquistado entre 1927/28 e 1929/30, acabaria, sem qualquer dúvida, por lançar o clube na senda do sucesso e da afirmação nacional.
Já após conseguir, por mais duas vezes, levar de vencida a prova, é na temporada de 1934/35 que o Lusitano consegue apurar-se para o Campeonato da 2ª divisão. Contudo, e apesar de não disputar os “nacionais” com a regularidade esperada, o crescimento que o clube vinha a conquistar, faria com que, alguns anos mais tarde, conseguisse superar outra barreira. Seria já na época de 1946/47, que o Lusitano escreveria uma nova página na sua história. Depois de uma primeira fase imaculada, durante a qual não consentiria qualquer derrota, as “Águias Algarvias” enfrentariam a etapa final do Campeonato da 2ª divisão de uma forma intrépida. Batendo-se de forma gloriosa com os rivais mais próximos, a 2ª posição conquistada acabaria por levar o emblema à estreia no escalão máximo português.
Entre os “grandes”, o Lusitano conseguiria manter-se por 3 anos consecutivos. Mesmo sem conseguir resultados significativos, tendo como um 12º lugar (1947/48) a sua melhor classificação, a presença do emblema na alta-roda do futebol nacional teria as suas particularidades. Uma delas, talvez a maior, seria a passagem pelo Campo Francisco Gomes Socorro de grandes nomes da modalidade. Os internacionais José Maria Pedroto e Manuel Caldeira terão sido os que, fazendo parte desse grupo, mais brilharam no desporto português. No entanto, atletas como Germano ou Isaurindo, mesmo sem ter atingido a notoriedade dos já citados futebolistas, acabariam por mostrar toda a sua raça e elevar o emblema à condição de um dos históricos de Portugal.
A vida mais recente do Lusitano narra-nos algumas dificuldades. Sem condições financeiras para se manter no topo, o emblema algarvio tem alternado a presença nos “nacionais” com algumas despromoções aos “distritais”. Procurando, em termos financeiros e humanos, estabilizar o clube, o trabalho que os seus dirigentes têm feito é no sentido de o sustentar durante os anos vindouros. No campo desportivo, sem estar a prever qual será o futuro, há que relembrar a capacidade das suas “escolas”; há que relembrar que jogadores como Paulo Madeira, Jacques ou Cavém sairiam do sudeste português para abrilhantar o resto do país.

CENTENÁRIOS 2016

Como tem vindo a ser tradição no “Cromo sem caderneta”, Dezembro é dedicado a emblemas que, virando uma página importante na sua existência, chegam à brilhante idade dos 100. Durante o ano que agora chega ao fim, houve duas instituições que, tendo tido a sua passagem pelo escalão maior do nosso futebol, atingiram esta secular marca. Nesse sentido, este mês será dedicado aos “Centenários 2016”.

721 - FILIPE ANUNCIAÇÃO

Tendo sido um produto das escolas do Boavista, Filipe Anunciação só conseguiria integrar a primeira equipa “axadrezada”, uns bons anos após terminar a sua formação. Seria então, com as cores do Feirense, que o atleta acabaria por fazer a estreia na categoria principal. Depois, apareceria o Paços de Ferreira e, passadas duas temporadas sobre a sua estreia a sénior, os primeiros passos na 1ª divisão.
Apesar de 2000/01 ter marcado o início do seu percurso no escalão máximo, o caminho que, até aí, já tinha feito, contava com diversas presenças na selecção nacional. Pelas camadas jovens de Portugal, o médio tornar-se-ia numa presença habitual. Combativo, como um dos primeiros entraves às ofensivas adversárias, Filipe Anunciação era uma preciosa ajuda nas manobras defensivas. Nesse sentido, a sua integração no grupo que disputaria o Mundial s-20 de 1999, acabaria por não surpreender ninguém.
Já depois da curta passagem pelos principais palcos do futebol português, na qual não conseguiria grande destaque, seria o regresso à divisão de honra que devolveria o trinco às exibições de excelência. No Desportivos das Aves, o médio voltaria a demonstrar as suas qualidades de batalhador incansável. Os seus predicados, que haveriam de o manter em evidência durante esse ano e meio, acabariam por merecer a atenção do Boavista. À procura de alguém que, com características semelhantes, pudesse suprimir a ida de Petit para o Benfica, Jaime Pacheco decide apostar na contratação de um jogador acostumado à “filosofia da casa”.
Habitual presença no “onze” boavisteiro, foi confuso constatar que o final da temporada de 2003/04, levasse à sua saída do Bessa. A carreira do médio, sem que abandonasse o escalão principal, acabaria por prosseguir no Moreirense. Depois, mais uma vez, viria o emblema da Vila das Aves e, por fim, o início do capítulo mais marcante do seu percurso profissional.
Na verdade, esse virar de página, um pouco como no caminho até aí percorrido, não traria nada de muito novo à sua vida. A grande diferença, é que este novo ingresso no Paços de Ferreira conseguiria, em primeiro lugar, cimentá-lo como um dos bons futebolistas do nosso campeonato. A seguir, e reconhecidas as suas qualidades pelos responsáveis e adeptos do clube, viria a progressiva elevação a um dos históricos do emblema da “Capital do Móvel”.
As temporadas que se seguiriam, desde o seu começo em 2007/08, fariam de Filipe Anunciação numa das mais respeitáveis figuras do clube. Conseguindo, com todo o mérito, tornar-se num dos esteios, e figura de proa, dos pacenses, não tardou muito que a braçadeira de capitão fosse a si confiada. Seria nesse estatuto que, dentro de campo, comandaria os seus companheiros naqueles que seriam os melhores capítulos da história do Paços de Ferreira. Com o 3º lugar conquistado na classificação de 2012/13, a época seguinte traria à localidade nortenha as competições europeias. Depois de ter liderado a equipa no “Play-off” da Liga dos Campeões, a eliminação perante os russos do Zenit, levaria Filipe Anunciação, e os seus colegas, a disputar a Liga Europa. Num grupo que contava com Pandurii, Dnipro e Fiorentina, o Paços de Ferreira terminaria na 3ª posição.
O fim da carreira de Filipe Anunciação viria em 2014/15. Sem conseguir atingir o nível exibicional dos anos anteriores, o médio, já com a temporada a decorrer, decide mudar o rumo da sua vida. Aceitando o convite dos dirigentes do clube, o atleta acede em deixar os relvados, para, integrando a equipa técnica de Paulo Fonseca, dar início ao seu percurso como treinador. Nas funções de adjunto, tem, desde então, estado ao serviço dos “Castores”.

720 - ALFREDO

Tendo feito a sua formação no Rio Ave, Alfredo não demoraria muito a tornar-se num dos melhores guardiões do campeonato nacional. Já depois da estreia a sénior na temporada de 1981/82, o ano seguinte traria ao atleta a responsabilidade da titularidade. Tal cargo não haveria de fazer tremer o jovem jogador que, daí em diante, tomaria o lugar como seu.
Como parte do “onze” vila-condense, e integrando um plantel cheio de futebolistas feitos na casa, Alfredo tornar-se-ia num dos esteios das contendas do Rio Ave. Nessas caminhadas, o ano de 1984 haveria de ficar para história do emblema. Já depois de terem deixado para trás equipas como o Vitória de Guimarães, eis que chega o momento de disputar a final da Taça de Portugal. No Estádio Nacional, frente a um FC Porto que nesse mesmo ano haveria de atingir a final da Taça dos Vencedores das Taças, os vareiros acabariam por claudicar. Para a história ficariam os 4-1 que selaria a vitória “azul e branca”. No entanto, muito mais do que o resultado, a histórica partida serviria para catapultar a carreira de alguns dos futebolistas do Rio Ave.
No rescaldo da partida do “Jamor”, alguns dos jogadores vila-condenses começariam a ser cobiçados por outros emblemas. Tal como Quim, que sairia em direcção ao FC Porto, Alfredo (acompanhado por Casaca) veria o destino levá-lo ao Estádio do Bessa. Quase década e meia a defender as balizas axadrezadas, fariam dele, como é óbvio, uma das referências do clube. Todavia, muito mais do que a longevidade alcançada, a postura que sempre apresentou em campo foi o seu melhor legado. A bravura que mostraria entre os postes, uma pitada de loucura e estiradas memoráveis, fariam dele um exemplo a seguir. Depois, havia o resto. O resto era a sua voz, a voz que, desde lá de trás, ecoava pelo campo fora. Esses seus comandos torná-lo-iam num dos atletas mais respeitados dentro e fora do rectângulo de jogo; torná-lo-iam, durante muitos anos, no capitão de equipa.
Ao serviço do Boavista, Alfredo passaria os melhores anos da sua carreira. Tendo conquistado 2 Taças de Portugal (1991/92; 1996/97), o seu currículo ficaria ainda mais preenchido com a vitória das “Panteras” nas Supertaças de 1992/93 e 1997/98. Seria também durante os anos em que estaria ao serviço do emblema portuense, que o guarda-redes faria a sua estreia pela principal selecção portuguesa. Com a “camisola das quinas”, em Oslo, Alfredo jogaria a sua primeira partida, em Abril de 1994. No entanto, muito mais do que esse particular frente à Noruega, ou as duas internacionalizações que se sucederiam, a sua presença na fase final do Euro 96 seria o reconhecimento pela sua brilhante carreira.
Depois de estar presente no Campeonato Europeu disputado em Inglaterra, o seu trajecto profissional duraria apenas mais um par de anos. Tendo posto um ponto final na carreira com o terminar da época de 1997/98, o jogador voltaria à principal equipa boavisteira já depois da viragem do milénio. Fazendo parte da equipa técnica liderada por Jaime Pacheco, Alfredo seria umas das peças de um dos mais importantes episódios da história do clube. Como treinador de guarda-redes, o antigo atleta ajudaria na conquista do Campeonato Nacional de 2000/01.
É nas já referidas funções que Alfredo tem mantido a sua ligação com o futebol. Principalmente no Boavista, mas também com passagens pelo Rio Ave e pelos romenos do Pandurii, o seu trabalho tem sido reconhecido como valoroso. De volta ao Bessa desde 2012/13, tem, desde as divisões inferiores, ajudado na recuperação do emblema. Já nesta temporada de 2016/17, fez parte do “staff” de Erwin Sánchez. Já depois da saída deste último, Alfredo continuaria de “xadrez” e auxiliando o treinador Miguel Leal.

719 - HUMBERTO

Fez sua estreia pela equipa principal do Marítimo, numa temporada que haveria de ficar para a história do emblema madeirense. Em 1976/77, nesse que seria também o seu primeiro ano no escalão sénior, os do Funchal disputavam a 2ª divisão. Tentando voltar aos palcos maiores do futebol nacional, coisa inédita no formato de “liga”, o clube acabaria na 1ª posição da Zona Sul.
Com a promoção alcançada, veio também a estreia de Humberto no patamar máximo do nosso futebol. Preferencialmente ocupando posições defensivas, a vida de Humberto, por essa altura, não era das mais fáceis. Jogando tanto no meio campo, como na direita da defesa, o jovem futebolista estava tapado por outros atletas. A presença de colegas mais experientes, caso do histórico Olavo, faria com que Humberto tivesse algumas dificuldades em impor-se. Todavia, este cenário alterar-se-ia e na temporada de 1980/81, o jogador consegue alterar o seu estatuto no seio do plantel.
Já como elemento do “onze” inicial, Humberto acompanharia a equipa na descida de escalão e numa nova promoção. Contudo, por altura do regresso à primeira divisão (1982/83), o seu percurso com os “verde-rubro” estava para terminar. Na época seguinte, Humberto regressaria ao emblema no qual havia feito toda a sua formação. De volta ao União da Madeira, o jogador acabaria, mais uma vez, por fazer parte de um momento muito importante. Já depois de, durante 6 anos, disputar o campeonato da 2ª divisão, Humberto ajudaria o seu clube a estrear-se no convívio com os “grandes” do futebol português.
A derradeira parte da sua carreira passar-se-ia, também, ao serviço de colectividades da Ilha da Madeira. Já depois de vestir as cores de Machico e São Vicente, Humberto decide ser a altura certa para pôr um ponto final na sua vida como futebolista. Tendo, logo de seguida, dado início ao seu percurso como treinador, seria igualmente no São Vicente que surgiria a oportunidade de encetar novo caminho. Aos primeiros passos, suceder-se-iam passagens por diversos emblemas madeirenses. Esse caminho, encetado a meio da década de 90, levá-lo-ia a também ao Marítimo. Já esta temporada (2016/17), depois de, em anos anteriores, ter orientado as camadas jovens e a equipa “b”, Paulo César Gusmão escolhê-lo-ia para adjunto da sua equipa técnica.

718 - VITAL

Jogava hóquei em patins pelo Sporting de Tomar, quando recebe um pedido de ajuda. João Segorbe, guardião que por essa altura era atleta do GD Matrena, e que ao mesmo tempo aí treinava os iniciados, vê-se sem jogadores para ocupar a baliza. Sabendo que Vital estava habituado a funções semelhantes, lá consegue convencer o jovem a trocar os ringues pelos campos da bola.
Apesar da pequena estatura, a sua elasticidade, poder de elevação e segurança entre os postes, faziam de Vital um bom guarda-redes. Nesse sentido, não tardou muito que do União de Tomar chegasse o interesse na sua contratação. No emblema da “cidade templária”, criadas que estavam as condições para o surgimento dos escalões de formação, o jovem atleta é chamado a ocupar a baliza dos juniores. A aprendizagem demonstrada levaria a que, ainda em 1978/79, começasse a aparecer junto da equipa principal. No entanto, a sua integração definitiva apenas aconteceria na temporada seguinte.
É então, pelo União de Tomar que faz a sua estreia no nível sénior. Num plantel onde também estava João Segorbe, Vital acabaria por tornar-se numa enorme revelação. Mesmo sendo muito jovem, o lugar à baliza rapidamente é por si ocupado. Com tamanha evolução não foi de estranhar que, com a descida do União de Tomar à 3ª divisão, logo viessem outros emblemas no seu encalce. Rio Maior e, logo de seguida, o Lusitano de Évora acabariam por servir de trampolim para o escalão maior.
A sua estreia pelo Portimonense dá-se na temporada de 1984/85. Com Manuel José aos comandos da equipa, o clube consegue a melhor classificação na sua existência. Com o 5º lugar conquistado no ano da sua chegada, é Vital que, no ano seguinte, tem o dever de defender as redes algarvias nas provas europeias. Frente ao Partizan, o guardião é chamado ao “onze inicial”. Todavia, a sua prestação seria incapaz de evitar a passagem dos de Belgrado.
Mesmo sem nunca ter obtido uma internacionalização pela selecção principal portuguesa, Vital acabaria por integrar a lista de pré-convocados para o México 86. Ainda que sem conseguir um lugar no grupo que iria disputar a fase final do Campeonato do Mundo, as boas exibições levam a que o Sporting o vá buscar a Portimão. Em Alvalade, apesar de reconhecidas as suas qualidades, a concorrência de outros grandes futebolistas tornaria a sua afirmação muito difícil. Vítor Damas, Rui Correia e, mais tarde Rodolfo Rodriguez ou Ivkovic, acabariam por tornar a sua estadia em Lisboa em algo muito discreto.
Seriam necessários mais alguns anos, e passagens por Estrela da Amadora e Tirsense, para que Vital voltasse ao nível exibicional que havia atingido nos primeiros anos da sua carreira. No Gil Vicente, onde chegaria na temporada de 1993/94, o guardião volta a ser um atleta preponderante. Com os de Barcelos a disputar o patamar maior, o jogador acabaria por tornar-se numa das figuras do clube.
Depois de 4 anos em contendas primodivisionárias, os “gilistas” acabariam despromovidos. Essa descida coincidiria com a entrada de Vital na derradeira fase do seu percurso como atleta. A partir desse momento, o guarda-redes manter-se-ia nos escalões secundários. Já ao serviço do Esposende, quando estava bem perto de completar 40 anos de idade, o jogador decide ser altura certa para deixar os relvados. Logo de seguida, enceta as suas tarefas como treinador de guarda-redes. No cumprimento das mesmas, tirando uma curta passagem pelos “Leões”, tem defendido as cores do Sporting de Braga. Esta temporada (2016/17), coadjuvando José Peseiro, Vital continua a trabalhar em prol do sucesso dos minhotos.

717 - PEPA

Minuto 84 do jogo frente ao Rio Ave, Graeme Souness põe em campo, para o lugar de Nuno Gomes, um dos mais prometedores atletas das camadas jovens do Benfica. Pouco tempo passado após a sua entrada e o incrível acontece – “Foi um passe do João Pinto. Se tivesse apanhado um fiscal-de-linha que tivesse dormido pouco se calhar tinha assinalado fora-de-jogo, mas eu não estava. Recebi de pé direito, ajeitei com o esquerdo e depois rematei de bico, à Romário”*. Referente à 19ª jornada da temporada de 1999/00, essa partida poderia ter sido o começo de uma história brilhante… mas não foi!
Pepa, que por essa altura tinha apenas 17 anos, era um prodígio. Talvez não tão grande quanto o próprio terá sentido, ou tanto quanto os adeptos quereriam. O avançado haveria de ser traído pela sua imaturidade. A ansiedade, o deslumbramento e, a contenda entre o seu empresário e o Presidente Luís Filipe Vieira, terão destruído o resto.
E o que foi o resto? O resto seria apenas um pequeno resquício daquilo que o jogador poderia ter conseguido, daquilo que tanto havia prometido. Nessas sobras, naquilo que sobejaria do seu trajecto enquanto atleta, restam as passagens por diferentes emblemas, sem que, em nenhuma delas, nada de gratificante dali tirasse.
Primeiro, viria o empréstimo ao Lierse. Problemas burocráticos e dificuldades de adaptação a um contexto bem diferente, fariam com que a estadia do avançado na Bélgica fosse apenas tempo perdido. Depois, Pepa teria a passagem pela equipa “b” do Benfica, uns escassos minutos entre o plantel principal e, como foi referido, a zanga entre o seu representante e o clube “encarnado”. Na resolução desta equação, a saída do atacante seria o resultado. A caminho estaria o ingresso no Varzim e, como muito se especulou por essa altura, a promessa de um lugar nas Antas.
Na Póvoa, com o emblema a disputar o escalão máximo português, o avançado até conseguiria mostrar algumas das suas qualidades. Contudo, a despromoção a que o clube seria vetado no final dessa temporada de 2002/03, como que voltaria a despertar em si os piores momentos. A partir daí, a carreira de Pepa ficaria entregue aos patamares secundários e, já depois de vestir as cores de Paços de Ferreira e Olhanense, uma grave lesão acabaria por pôr um ponto final no seu curto caminho como futebolista.
O seu regresso ao futebol dar-se-ia já depois de uma sincera reflexão sobre os anos despendidos nos relvados. Arrependido pelo percurso escolhido, a atitude que, desde então, haveria de assumir, abrir-lhe-ia diversas portas. Tendo apostado na carreira de treinador, e sendo reconhecido como um árduo e idóneo profissional, as competências que foi ganhando, levá-lo-iam a progredir nessa nova tarefa. Os anos investidos nas camadas jovens de diversos clubes, as funções de adjunto no Tondela ou o papel como coordenador das escolas benfiquistas, prepará-lo-iam para os primeiros trabalhos com técnico principal. Nesse exercício registam-se as passagens pela Sanjoanense e Feirense, que, para o começo desta época de 2016/17, levariam os responsáveis do Moreirense a dar-lhe a primeira oportunidade no universo primodivisionário.

 
*retirado do artigo de Nuno Travassos, em http://www.maisfutebol.iol.pt, publicado a 31/12/2007

716 - JORGE COUTO

É já nos últimos anos da sua formação que Jorge Couto chega ao FC Porto. Veloz e com boa técnica, as movimentações que fazia no ataque possibilitavam que, muitas das vezes, aparecesse em boa posição para finalizar. Essas suas características, mesmo tendo em conta a sua entrada tardia para as escolas “Azul e Brancas”, permitiriam com que o atacante conseguisse afirmar-se com alguma facilidade.
A rapidez da sua evolução faria com que, para além do clube, também da selecção quisessem testar as suas qualidades. Nesse caminho, o extremo-direito acabaria por despertar a atenção de Carlos Queiroz, que o chamaria a vestir a camisola de Portugal. Integrando o primeiro lote daquela que ficaria conhecida como a “Geração d’Ouro”, seria convocado a participar no Mundial s-20 de 1989. Na Arábia Saudita, já no seu primeiro ano como sénior, o atleta seria de importância fulcral na conquista do referido troféu. Na final, onde a jovem equipa “lusa” defrontaria a congénere nigeriana, Jorge Couto marcaria um dos golos que permitiram a Portugal vencer por 2-0.
A sua estreia pela principal equipa do FC Porto, já depois de um ano emprestado ao Gil Vicente, aconteceria na época de 1989/90. O traquejo conseguido ao serviço dos de Barcelos, que por altura da sua cedência disputavam a Divisão de Honra, servira para simplificar a sua integração no plantel portista. Num grupo de gabarito, Jorge Couto, logo nesse primeiro ano, conseguiria a proeza de ver o seu nome, por diversas vezes, fazer parte da lista de titulares.
Mesmo sem chegar ao estatuto de “indiscutível”, a frequência com que era trazido a jogo, valer-lhe-ia, durante o decorrer da primeira temporada nas Antas, a chamada à selecção “A” portuguesa. Na Maia, o jogo com os Estados Unidos da América, marcaria um percurso que, apesar de ser feito apenas de amigáveis, contaria com 6 partidas disputadas.
Uma das razões que poderão justificar a falta de mais internacionalizações, prender-se-á com a perda de preponderância a que o jogador, depois dos dois primeiros anos de “Dragão” ao peito, ficou sujeito. Mais sentido a partir do tempo em que estava sob a alçada de Bobby Robson, o afastamento do atacante levá-lo-ia a alterar o rumo da sua vida profissional. A chance de mudar surgiria alguns anos depois, com a compra de Artur ao Boavista. No decorrer das negociações, o nome de Jorge Couto surgiria como “moeda de troca” e, desse modo, ser-lhe-ia dada a oportunidade de, no Estádio do Bessa, dar seguimento à carreira.
Já depois de vencer 5 Campeonatos, 2 Taças de Portugal e 3 Supertaças pelo FC Porto, Jorge Couto passa a integrar um Boavista que estava, cada vez mais, próximo dos ditos “grandes”. A sua contratação acabaria por ser de grande importância no reforço da equipa. Impondo-se como um dos homens mais importantes nas manobras do clube, também de “xadrez” haveria de conseguir amealhar alguns títulos. A vitória na Taça de 1996/97 e na Supertaça do ano seguinte, acabariam por servir de mote para que, ao que consta, o FC Porto tentasse o seu regresso. Contudo, o jogador continuaria a vestir as cores da “Pantera” e, já em 2000/01, nos derradeiros anos como futebolista, acabaria por auxiliar o Boavista a sagrar-se Campeão Nacional.
Depois de ter ajudado a escrever um dos mais belos episódios na história boavisteira, eis que o antigo jogador, outra vez ao serviço do clube, volta ao futebol. Como adjunto, primeiro de Sánchez e, já depois do despedimento deste, do treinador Miguel Leal, Jorge Couto é, por esta altura (2016/17), parte integrante da equipa técnica “axadrezada”.

715 - GAMA

Nascer no seio de uma família de futebolistas, como que obriga um indivíduo a ter uma postura de dever perante a modalidade. Mas se a obrigação para com a geração dos pais e tios é uma realidade, a responsabilidade de ser o irmão e o primo mais velho, é ainda maior. Augusto Gama, com grande sobriedade e muito trabalho, conseguiu ser sempre um bom exemplo no futebol.
Já depois do pai, os irmãos Augusto, Rui, José, Bruno, e Feliciano e, ainda, o primo Jorge, dariam continuidade ao legado dos Gama. Augusto começaria a destacar-se nas camadas jovens do Sporting de Braga e, por altura da sua transição para os seniores, perdido o primeiro nome não se sabe bem onde, já se apresentava apenas como Gama. Encargo acrescido, o de carregar o apelido sem o escudo de um nome próprio. Contudo, o atacante não deixava atormentar-se por tal e, no decorrer da temporada de 1987/88, apresenta-se com a equipa principal bracarense.
Como é sabido, a chegada à categoria sénior é um momento delicado para qualquer praticante. Neste campo, e apesar do valor já demonstrado, reforçado até por algumas chamadas às selecções jovens, para Gama nada estava garantido. A prova disso mesmo viria nos anos seguintes, e os esforços feitos nas primeiras temporadas, as exibições conseguidas durante o empréstimo ao Fafe e a passagem pelo Arsenal de Braga (equipa satélite), seriam insuficientes para convencer os responsáveis bracarenses.
Pouco utilizado, é então que o jogador decide mudar de ares. Deixa o seu Minho natal e, sem se afastar muito, viaja até Vila do Conde. Para o Rio Ave entra na época de 1992/93. O clube estava então na Divisão de Honra, patamar ideal para o atleta cimentar o já aprendido. Esses anos passados no nosso patamar secundário, voltariam a mostrar aquilo que já se sabia do atleta. Veloz e tecnicista, tinha na garra e no crer as suas maiores armas. Pelas alas do ataque, Gama começava a ser conhecido pela maneira como conseguia vencer as defesas contrárias. No transporte de jogo, no último passe ou, até, em inspirados momentos de finalização, Gama, rapidamente, tornar-se-ia num dos favoritos da massa adepta.
15 anos como jogador, muitos dos quais embelezados pelo uso da braçadeira de capitão, fariam dele o atleta com mais partidas disputadas na história do clube. A dedicação que sempre pôs ao serviço do emblema vila-condense foi, e para sempre será, reconhecida como exemplar. Os agradecimentos, ainda enquanto atleta, foram uma constante. Um desses momentos, que reflecte o apreço conseguido, ser-nos-ia relato pelo próprio – “Num jantar de aniversário do clube, um sócio ofereceu-me o seu emblema de prata que tinha acabado de receber. Recusei, mas ele insistiu e acabei por aceitar”*.
Seria em 2006/07, com o Rio Ave no segundo escalão nacional, que Gama poria um ponto final na sua carreira de futebolista. Todavia, a sua paixão pela modalidade impedi-lo-ia de estar muito tempo afastado do jogo. Já com alguns anos de experiência no cargo, Gama é um dos adjuntos de Nuno Capucho, no Rio Ave de 2016/17.

 
*retirado de http://reisdoave.blogspot.co.uk/, publicado a 17/03/2011

714 - ERWIN SÁNCHEZ

Conta-se que por altura de uma visita dos mais altos cargos do futebol à Bolívia, Michel Platini terá sido barrado por um segurança. Quem acompanhava o francês terá dito ao responsável pelo controlo qualquer coisa como: “Não há problema, este senhor é o Platini”. Como resposta teve: “O Platini conheço eu bem, e não é ele!”.
Foi desde muito novo que Erwin Sánchez, ou, para muitos, o “Platini da Bolívia”, começou a mostrar grande entusiasmo pelo futebol. Mas ao invés de tantos outros, à paixão pela modalidade também conseguia adicionar uma dose igual de aptidão. Esse seu jeito, levá-lo-ia, pouco depois de entrar na adolescência, a uma das mais categorizadas academias do seu país. Seria, então, na Tahuichi que o antigo médio começaria a jogar. Logo aí, todo esforço que punha em campo, a sua força e ímpeto, transformá-lo-iam num dos maiores craques da instituição. As chamadas à selecção não tardariam, e já depois de participar nos maiores certames para jovens, eis que chega a profissionalização.
O emblema que daria a primeira grande oportunidade a Sánchez seria o Destroyers. Mantendo a mesma atitude que havia caracterizado o seu percurso de formando, o jogador, rapidamente, passaria a estrela da equipa. Tanto assim foi que, não tardou muito tempo para que um dos gigantes da Bolívia fosse no seu encalço. Já a jogar na capital La Paz, e com as cores do Bolívar, o médio atingiria o topo do futebol no seu país. Por um lado viria o título de campeão nacional; por outro a chamada à selecção principal, a participação na Copa América de 1989 e a projecção além-fronteiras.
Foi já depois do referido torneio sul-americano, que o Benfica decide apostar no jovem jogador. Sven-Göran Eriksson, talvez impressionado pelas suas actuações no referido certame, inclui Sánchez no novo elenco das “Águias”. Contudo, a temporada de 1990/91 acabaria por ficar um pouco aquém do esperado. É certo que o Benfica conseguiria sagrar-se campeão nacional, mas, no plano individual, Sánchez, com algumas dificuldades em adaptar-se, pouco jogaria.
Já na temporada seguinte, o empréstimo ao Estoril-Praia serviria para uma mudança de paradigma. No “clube da linha” Sánchez voltaria a brilhar. Exibições pungentes, remates portentosos e alguns golos, seriam a receita para o seu sucesso. Contudo, e numa altura que o seu regresso à “Luz” seria o mais normal, tal acaba por não acontecer. Com a transferência de João Pinto do Boavista para o Benfica, o médio boliviano vê-se envolvido no negócio. João Pinto acabaria por vestir de “encarnado” e Sánchez marcharia no sentido inverso.
Não sei se esta mudança alguma vez terá sido vista como frustrante. A verdade é que sem a mesma, Sánchez passaria ao lado dos melhores anos da sua carreira. Com os “Axadrezados”, o médio cimentar-se-ia como um dos grandes futebolistas a jogar em Portugal. Num Boavista cada vez mais a beliscar a hegemonia dos ditos “grandes”, o atleta acabaria por ter um papel fulcral nesse crescimento. Como um dos grandes dínamos do meio-campo, o jogador, tanto a nível nacional, como nas competições europeias, ajudaria nas boas campanhas do emblema portuense. O momento mais alto dessa sua primeira passagem pelo clube, aconteceria na final da Taça de Portugal de 1996/97. Com 2 golos da sua autoria, o Boavista derrotaria o Benfica por 3-2 e, desse modo, Sánchez ajudaria a levar o troféu para o Estádio do Bessa.
Seria também durante este período que, com a camisola do seu país, Sánchez entraria para a história do futebol boliviano. Com uma espantosa campanha, que levaria a selecção sul-americana a superar congéneres bem mais poderosas, a Bolívia consegue o apuramento para o Mundial de 1994. Já nos Estados Unidos, e apesar de a sua equipa ter caído ainda na fase de grupos, Sánchez conseguiria um feito único. Com um golo frente à Espanha, o médio tornar-se-ia no primeiro jogador boliviano a marcar num Campeonato do Mundo.
Feitos como este, ou como a final da Copa América alcançada em 1997, fariam com que o valor do jogador subisse em flecha. Nesse sentido, e com a entrada de Manuel José para os “comandos” do Benfica, foi com alguma naturalidade que Sánchez foi apontado como reforço das “Águias”. Todavia, o regresso a Lisboa, mais uma vez, ficaria abaixo das espectativas. O reencontro com o seu antigo treinador no Boavista até que nem começou muito mal. O pior viria com a saída do mesmo e com a entrada de Souness e, já mais tarde, de Heynckes. Tanto o escocês, como o alemão, deixariam de apostar no médio e, entre um empréstimo ao Boavista e novo regresso à “Luz”, Sánchez acabaria a jogar pela equipa “b” do Benfica.
Após este período mais azarado, Sánchez volta novamente à “Invicta”. Mais uma vez no Boavista, o médio voltaria a fazer o que melhor sabia. Ainda que com a forte concorrência de Timofte, o boliviano, depois de uma fase inicial em que seria menos utilizado, volta a tornar-se num dos pilares do emblema nortenho. Com Jaime Pacheco como treinador, o Boavista volta aos anos de glória. Primeiro, vem a estreia na Liga dos Campeões; depois aquilo que há muito o grupo já prometia. Em 2000/01 as “Panteras” conseguiriam superar Benfica, FC Porto e Sporting. Com Sánchez em plano de destaque, o clube faz uma época única e sagra-se campeão nacional.
Com a saída de Jaime Pacheco para o Maiorca, e por razão de uma grave lesão, Sánchez passa para o “banco” boavisteiro. A sua primeira experiência como técnico seria, contudo, interrompida com o regresso do jogador à Bolívia. De volta à sua cidade natal, o internacional boliviano decide aceitar o convite do emblema da sua terra e volta a calçar as chuteiras. Durante dois anos ajudaria o Oriente Petrolero nas suas contendas. No entanto, este desafio conheceria um fim quando, após uma agressão a um árbitro, Sánchez acaba punido com uma suspensão de 18 meses.
O seu regresso ao futebol dar-se-ia, de uma forma lógica, com o retorno às funções de treinador. Com passagens pela selecção da Bolívia, Oriente Petrolero e Blooming, o currículo conseguido durante esse seu percurso leva o Boavista a apostar nos seus préstimos. Em 2015/16 consegue a proeza de salvar o clube de uma descida, por muitos, vaticinada. Depois da meta alcançada, eis que a nova temporada, que ainda decorre, acabaria por não trazer novos sucessos. Sem conseguir atingir o que estaria planeado, Sánchez, vítimas das famosas “chicotadas psicológicas”, acabaria substituído por Miguel Leal.

713 - CAPUCHO

Apesar de representar o Gil Vicente desde tenra idade, Capucho, como o próprio haveria de afirmar, só começaria a dar mais importância ao futebol no seu último ano como sénior. Todavia, e por essa altura, já o avançado era um dos nomes habituais nas convocatórias das jovens selecções portuguesas. Nesse sentido, seria com as “quinas” ao peito que, na sua primeira temporada como sénior, conseguiria consolidar-se como um dos craques da “geração d’ouro”.
Ora, seria pela mão do Prof. Carlos Queiroz que Capucho chegaria ao Mundial S-20 de 1991. Disputado em Portugal, a equipa nacional, que contava com nomes como os de Luís Figo, João Vieira Pinto ou Rui Costa, conseguiria, dando seguimento ao brilharete alcançado 2 anos antes, renovar o título de campeã. A conquista de tal troféu, faria com que os jogadores inseridos nesse grupo vissem o seu valor acrescido. Fazendo parte de um clube de menor monta, foi com alguma naturalidade que o atacante viu alguns dos emblemas de maior tradição irem no seu encalço. Quem ganharia a corrida seria o Sporting e, para a temporada de 1992/93, o atleta apresentar-se-ia em Alvalade.
Os 3 anos passados de “verde e branco”, primeiramente orientado por Bobby Robson e, mais tarde, pelo seu velho conhecido Carlos Queiroz, acabariam por não ser suficientes para confirmar tudo aquilo que já havia prometido. Actuando, mormente, pelo centro da zona ofensiva, as qualidades que Capucho possuía não eram, de alguma forma, condizentes com a posição escolhida para si. A temporada de 1994/95, mesmo tendo vencido a Taça de Portugal, acabaria por ser, no plano individual, a menos excitante. Excluído da maioria das partidas, o atacante vê-se envolvido no negócio de aquisição de Pedro Barbosa e Pedro Martins. Sem grandes chances no Sporting, Capucho, no final da referida época, acabaria mesmo transferido para o Vitória de Guimarães.
De regresso ao Minho, Capucho voltaria também às exibições de excelência. Já mais encostado ao flanco direito do ataque, o atleta acabaria por destacar-se como um dos melhores extremos a actuar no Campeonato português. Auferindo desse estatuto, foi sem surpresa alguma, que Capucho seria incluído nos trabalhos da Selecção “A”. Por Portugal, e no cômputo da sua carreira, o atleta conseguiria 34 internacionalizações. Destaque para as suas chamadas ao Euro 2000, Mundial de 2002 e, pela selecção olímpica, aos Jogos de 1996.
Nisto de metas e vitórias, os melhores capítulos da sua vida desportiva, talhar-se-iam a “azul e branco”. A mudança para o FC Porto, inscreveria no palmarés do jogador grande parte dos seus troféus. Tendo chegado às Antas na época de 1997/98, Capucho ainda entraria para a história do “Penta”. Curiosamente, a conquista desses 5 Campeonatos (Capucho só participaria nos 2 últimos), e que, sem sombra de dúvida, celebrariam a hegemonia dos “Dragões” nos anos 90, precederiam uma série de 3 anos pouco abonatórios para o clube. Conseguindo, ainda assim, amealhar 2 Taças e 2 Supertaças, só a chegada de um treinador “especial” é que poria um fim a esse período menos prolífero.
Com José Mourinho aos comandos do FC Porto, embora sem a preponderância dos tempos em que era um dos principais municiadores de Mário Jardel, Capucho consegue acrescentar ao seu rol de títulos a “dobradinha” de 2002/03. No entanto, o grande momento dessa temporada seria a conquista da Taça UEFA. Na final disputada em Sevilha, o atleta seria escalonado para o “onze” inicial e, dessa forma, ajudaria o seu clube a derrotar os escoceses do Celtic.
Curiosamente, no defeso seguinte, Capucho voltaria a cruzar-se com mais um emblema da cidade de Glasgow. Contudo, a passagem pelo Rangers acabaria por marcar os derradeiros passos de uma carreira que, na temporada seguinte, e ao serviço do Celta de Vigo, conheceria o seu fim.
Já depois de “penduradas as chuteiras”, e após um pequeno interregno no futebol, o antigo jogador voltaria ao clube do seu coração. Desta feita como treinador, Capucho passaria a integrar a estrutura técnica das “escolas” do FC Porto. É já depois de largos anos nestas funções que, em 2015, surge a sua primeira oportunidade como treinador principal, numa equipa sénior. A experiência de um ano ao serviço do Varzim, acabaria por servir de trampolim para o escalão máximo em Portugal. Seria com as cores do Rio Ave que Capucho, já este ano (2016/17), faria a sua estreia na 1ª divisão.

EQUIPAS TÉCNICAS 2016

Com o começo de mais uma temporada, eis que novas caras aparecem. Bem, na verdade nem todas são novidade, mas muitas delas aparecem agora em novas funções. Para vos dar a conhecer a história de alguns dos treinadores dos campeoantos nacionais, eis que, Novembro, será dedicado às "Equipas Técnicas".

712 - PANCEV

Nascido em Skopje, capital da Macedónia, seria no FK Vardar, emblema da já referida cidade, que Darko Pancev começaria a carreira como futebolista. A sua estreia pela equipa principal, quando apenas contava 17 anos, haveria de tornar-se muito badalada. Chamado a jogo no final da temporada de 1982/83, eis que, nessas últimas 4 partidas, o avançado consegue marcar 3 golos.
Já tido como um fenómeno, o atacante, nos anos seguintes, continuaria a cimentar-se como um dos melhores atletas nos campeonatos da antiga Jugoslávia. Veloz e com um bom entendimento do jogo, Pancev era especialmente talentoso na hora de se antecipar aos defesas contrários. Esses seus dotes, que tantos golos valeriam, rapidamente chamariam a atenção de Veselinovic e o seleccionador, em Março de 1984, acabaria por incluir Pancev nos trabalhos da equipa nacional.
Quem, em termos colectivos, também beneficiaria da sua capacidade goleadora, seria o FK Vardar. O emblema macedónio que, apesar da sua tradição na categoria principal, era apenas um modesto participante, veria a sua reputação subir em flecha. Pancev, que logo na sua segunda temporada, conseguiria sagrar-se no Melhor Marcador do Campeonato jugoslavo, ajudaria o clube a subir na tabela, conseguindo, inclusive, o apuramento para as provas europeias.
Por essa altura, já Pancev era um dos atletas mais cobiçados no seu país. Com os melhores clubes na corrida pelos seus préstimos, quem haveria de convencer o atleta, em detrimento do Partizan, seriam os adversários do Estrela Vermelha (Crvena Zvezda). Contudo, o primeiro ano de ligação ao clube de Belgrado, acabaria por ficar marcado por alguma polémica. Sendo o Partizan o clube do exército, eis que, logo após assinar contracto pelos rivais, Darko Pancev é chamado a cumprir o Serviço Militar Obrigatório. O alistamento no exército acabaria por afastar o avançado das disputas desportivas. Só passado um ano é que o atleta voltaria a entrar campo e, como se nada tivesse acontecido, regressaria em grande forma.
As 3 temporadas que se seguiram mostrariam o Estrela Vermelha no seu melhor. O clube acabaria por vencer esses 3 Campeonatos e a Taça de 1989/90. Todavia, os grandes brilharetes estariam reservados para as competições internacionais. A vitória na Taça dos Campeões Europeus de 1990/91, acabaria por ser adornada com mais uma conquista e, logo na época seguinte, o emblema jugoslavo venceria a Taça Intercontinental.
Também em termos individuais, Darko Pancev estaria irrepreensível. Nesses 3 anos, consegue sagrar-se 3 vezes o Melhor Marcador do Campeonato. Ainda nesse plano, a temporada de 1990/91 acabaria por ser a mais importante. Os 34 golos conseguidos durante essa época, acabariam por levá-lo ao topo da tabela dos goleadores europeus. A Bota d’Ouro, no entanto, não chegaria às suas mãos. Devido a um protesto da Federação cipriota, o prémio (oficialmente) ficaria suspenso por alguns anos e o troféu apenas seria entregue em 2006.
Já depois de ter disputado o Mundial de 1990, eis que a Jugoslávia é proibida de participar no Euro 92. Por razão da guerra que entretanto havia começado, as sanções impostas ao seu país impedem Pancev de estar presente na Suécia. Curiosamente, também nesse pedaço de história, o jogador haveria de ter a sua pequena participação. Aquando de uma eliminatória frente ao Panathinaikos, e no momento de completar a papelada necessária à sua entrada na Grécia, eis que o atleta decide preencher o campo “nacionalidade” com “macedónia”. A veleidade haveria de valer a Pancev um longo interrogatório. O jogo, esse, haveria de correr de feição, e os 2 golos marcados por si como que “apagariam” a afronta cometida.
Tendo atingido a melhor fase na carreira, foi com naturalidade que de Itália surgiu o interesse do Inter. A mudança, contudo, acabaria por fica muito aquém do esperado. Acusado de não participar nas acções defensivas da equipa milanesa, Darko Pancev acabaria por ser afastado do “onze” inicial. Com pouco tempo de jogo, a forma do avançado rapidamente decresceria e, ao invés de mostrar tudo o que sabia, a sua passagem pelo “calcio” tornar-se-ia numa enorme desilusão.
Coincidência, ou não, a sua saída do Estrela Vermelha como que alteraria todos os seus predicados. Os números começariam a castigar aquele que tinha sido um prolífero avançado e, nem os anos em Milão, nem as suas passagens pela “Bundesliga” (VfB Leipzig; Fortuna Düsseldorf) conseguiriam empurrar o jogador de volta aos golos.
O fim da sua carreira, aos 31 anos, aconteceria depois de uma temporada (1996/97) ao serviço dos suíços do FC Sion. Depois de afastado dos relvados, Darko Pancev continuaria ligado à modalidade, com passagens pela Federação de Futebol da Macedónia e como dirigente do FK Vardar.

711 - WIM KIEFT

Num grupo em que as grandes estrelas eram Johan Cruyff e Soren Lerby, uma nova geração de craques parecia querer emergir na principal equipa do Ajax. Por entre Marco van Basten, Frank Rijkaard, Gerald Vanenburg e outros, Wim Kieft, como o próprio o viria a afirmar, nem era dos futebolistas mais dotados. Todavia, aquilo que o diminuía em talento era compensado por uma entrega exemplar – “Eu era o fim da linha num bom ataque e, normalmente, tinha a tarefa mais fácil. Eu não podia correr pelo campo e saltar como uma superestrela. Isso não era eu (…). Eu não era prendado. Tinha o talento para marcar e precisava de trabalhar mesmo muito”*.
A modéstia que sempre demonstrou e, talvez, até um certo embaraço, acabariam por ser a sua grande característica. A maneira intrépida como acorria aos lances ou o esforço que fazia para estar no lugar certo, eram o reflexo desse seu anti vedetismo. A responder aos passes dos colegas ou, apenas, reagindo às “sobras” de outros remates, Wim Kieft, desde os seu primeiros tempos como sénior, mostraria que, como poucos, até sabia das “artes” de ponta-de-lança. Esse seu talento, que ainda hoje continua a negar, levá-lo-ia ao topo do futebol europeu e, logo na sua 3ª temporada na equipa de Amesterdão, fá-lo-ia marcar golos suficientes para vencer a Bota d’Ouro de 1981/82.
Mas nem só de metas individuais se fez a carreira do avançado. Como é lógico num desporto colectivo, muito daquilo que conseguiria alcançar seria resultado das boas equipas onde estava inserido. Com as cores do Ajax, que vestiria até 1982/83, Wim Kieft acabaria por vencer 3 campeonatos e 1 Taça da Holanda. Já no PSV, onde ingressaria depois de uma passagem menos conseguida por Itália, repetiria os êxitos e conquistaria outros 3 campeonatos, 3 Taças e 1 Taça dos Campeões Europeus.
Na equipa nacional, o seu trajecto também seria premiado pelo sucesso. Com a estreia a acontecer em Setembro de 1981, o seu caminho com a camisola da Holanda acabaria por levá-lo à disputa dos mais importantes certames para selecções. Tendo estado presente no Mundial de 1990 e no Europeu de 1992, seria, no entanto, no primeiro grande torneio por si disputado que conseguiria a maior conquista. No Europeu de 1988, apesar da sua condição de suplente, Wim Kieft acabaria por ser essencial na caminhada vitoriosa. Na derradeira partida da fase de grupos, e quando tudo apontava para um empate, é então que o avançado salta do banco. Com uma cabeçada certeira, haveria de desfazer o zero a zero e, com esse triunfo frente à Republica da Irlanda, conseguiria garantir a passagem do seu país às meias-finais do torneio.
1988 acabaria por ser um dos melhores anos da sua carreira. No mês anterior à vitória no Euro 88, também a Alemanha (ainda RFA) testemunharia mais uma das suas conquistas. Em Estugarda, frente a um Benfica comandado por Toni, o nome do atacante faria parte do alinhamento inicial do PSV. Tendo o tempo regulamentar, tal como o prolongamento, terminado com um nulo no marcador, o que se seguiria seria a “lotaria” dos penalties. Ao contrário do azarado Veloso, Kieft não falharia na concretização do castigo máximo e ajudaria a equipa de Eindhoven a vencer essa final da Taça dos Campeões Europeus.
Tendo as passagens pelo estrangeiro – Pisa (83-86), Torino (86-87) e Bordeaux (90-91) – como os piores momentos do seu percurso profissional, seria já depois de “penduradas as chuteiras” que a sua vida tomaria um rumo indesejado. Numa altura em que já era comentador de televisão, o vício das drogas levá-lo-ia a uma situação financeiramente desesperante. Num contexto em que a sua saúde não era muito abonatória e que a pobreza já acenava de perto, eis que o antigo futebolista decide que era tempo de procurar uma cura. Recuperado da adição, voltaria aos programas desportivos e, paralelamente, lançaria um livro biográfico onde contaria todas as peripécias da sua passagem pelos relvados, como os momentos menos bons na sua existência pessoal.

 
*retirado do artigo em “Bleed Orange” – http://dutchsoccersite.org/ – , a 2 Fevereiro de 2016

710 - HUGO SÁNCHEZ

Com um jeito inegável para o jogo da bola, desde muito cedo que as habilidades de Hugo Sánchez impressionariam tudo e todos. Nesta senda, seria já depois da sua participação nos Jogos Olímpicos de 1976, onde a sua irmã, ginasta, também estaria presente, que o atacante chega à principal categoria do Pumas UNAM. Pertencendo à equipa da Universidad Nacional Autónoma de México, o jovem jogador, para além da prática do futebol, apostaria na sua formação académica. Enquanto crescia como futebolista, Hugo Sánchez haveria também de terminar o curso em Medicina Dentária.
Sem tirar qualquer mérito ao seu sucesso universitário, onde Hugo Sánchez alcançaria o maior destaque seria, sem qualquer dúvida, dentro das “quatro linhas”. No futebol, a carreira do atacante, logo na época de estreia pelo Pumas, começaria com o título de campeão mexicano. Mesmo sem ainda conseguir grandes marcas pessoais, a qualidade que apresentava em jogo era reveladora de um futuro risonho. A confirmar essa previsão, os golos começariam a surgir naturalmente e ao terceiro ano como profissional, Hugo Sánchez sagra-se o melhor marcador do campeonato.
Ao contrário de muitos que, durante os anos 70, iam acabar as suas carreiras na liga dos Estados Unidos, Hugo Sánchez, ainda a dar os primeiros passos, intercalaria as temporadas mexicanas, com o “defeso” passado ao serviço do San Diego Sockers. Tendo sido essa a sua primeira experiência no estrangeiro, o grande salto na sua carreira ocorreria aquando da sua transferência para Espanha. No Atlético de Madrid, já depois de com o Pumas ter conquistado mais um campeonato e a Taça dos Campeões da CONCACAF, Hugo Sánchez faria a sua estreia no futebol europeu.

Os primeiros tempos na “La Liga”, com o avançado muitas vezes no banco de suplente, não seriam muito fáceis. Todavia, e com o passar do tempo, o atacante começaria a revelar todas as suas qualidades. Com um “timing” perfeito, a leitura que Hugo Sánchez fazia do jogo, permitia-lhe estar sempre no sítio certo. Melhor que a sua inteligência, só mesmo a maneira excêntrica como abordava muitos dos lances de ataque. Famoso pela quantidade de golos que marcaria durante o seu percurso profissional, só a mestria das suas “bicicletas”, e outras acrobacias, conseguiriam superar o sucesso dos seus números. 
Nisto de algarismos, o seu primeiro “Pichichi” chegaria na 4ª temporada com as cores dos “Colchoneros”. Mas numa altura em que o Atlético de Madrid andava afastado dos títulos, eis que o “namoro” vindo de outro clube da capital, acabaria por estragar uma relação quase perfeita. Seria então, no Verão de 1985, que Hugo Sánchez trocaria o Atlético pelo Real Madrid. A polémica que a transferência causaria, acabaria por ser esquecida com as exibições do craque. Dando continuidade ao bom trabalho que vinha fazendo, o atacante mexicano, nas 3 temporadas seguintes à mudança de clube, conseguiria sempre renovar o título de melhor marcador da liga espanhola. A este feito, não é alheia a qualidade da equipa “merengue”. Acompanhando o surgimento da famosa “Quinta del Buitre”, o avançado era o complemento ofensivo para o talento de jogadores como Míchel, Martin Vázquez ou Butragueño. O conjunto acabaria por dominar o futebol espanhol e Hugo Sánchez juntaria ao seu rol de títulos 5 Ligas (consecutivas), 1 Copa del Rey”, 3 Supertaças e a vitória na Taça UEFA de 1985/86.
Talvez a única coisa que tenha faltado ao currículo do avançado, e tendo em conta o contexto vitorioso que o Real Madrid atravessaria, seria a Taça dos Campeões Europeus. Ainda assim, e em jeito de compensação, Hugo Sánchez acabaria por conseguir uma das maiores distinções que um goleador pode almejar. Em 1989/90, coincidindo com a conquista do seu último “Pichchi”, os 38 golos por si concretizados levá-lo-iam a vencer a Bota d’Ouro.
Após ter terminado a sua ligação ao Real Madrid em 1992, Hugo Sánchez entra numa fase errática da sua carreira. Mesmo sem o brilho de outrora, a mística que o seu nome carregava levá-lo-ia a ser chamado ao Campeonato do Mundo de 1994. Depois de em 1978 ter feito a sua estreia em Mundiais, e de em 1986, no seu México natal, ter alcançado os quartos-de-final, eis que os Estado Unidos testemunhariam a última presença do goleador num grande certame desportivo.
América, Rayo Vallecano, Atlante, Linz, Dallas Burn e, finalmente, Atlético Celaya seriam os emblemas que ocupariam os seus últimos anos de futebolista. Retirando-se já bem perto dos 40 anos de idade, a sua ligação ao futebol manter-se-ia. Como treinador, e com realce para a passagem pela selecção do seu país, o maior destaque consegui-lo-ia ao comando do Pumas UNAM. Na equipa que o lançou no mundo do desporto, Hugo Sánchez, ambos em 2004, venceria os Torneios de “Apertura” e “Clausura”.

709 - MACHLAS

Produto das escolas do OFI Creta, Machlas faria a sua estreia pela equipa principal na temporada de 1990/91. Paciente e eficaz na hora de rematar à baliza, o atacante, aos poucos, começaria a ganhar espaço no seio da equipa. As boas exibições que ia rubricando, levá-lo-iam, na 3ª temporada como sénior, a ser chamado à estreia na selecção helénica. Esse primeiro encontro, um particular frente à Áustria, serviria para mostrar que, também no plano internacional, o jovem atleta poderia ser decisivo. Nessa partida a 10 de Março de 1993, Machlas estrear-se-ia a marcar pela equipa nacional. O dito golo faria com que o seu nome continuasse a aparecer nas convocatórias, e a sua importância cresceria de jogo para jogo. Como a confirmar esse seu peso, e no derradeiro jogo da fase de qualificação, seria do ponta-de-lança o golo que selaria a primeira presença da Grécia num Campeonato do Mundo (1994).
Mesmo com a Grécia a ter uma prestação paupérrima nos Estados Unidos da América, a passagem de Machlas pelo Mundial serviria para aumentar a sua cotação. Dois anos após o referido certame, o avançado deixa o seu país e ingressa no Vitesse. Na Holanda, aquele que seria o seu ano de estreia, ficaria muito aquém do esperado. Com poucos golos marcados durante a temporada de 1996/97, poucos esperariam que, logo na época seguinte, tudo mudasse. Certeiro como nunca ninguém o tinha visto até então, o atacante conseguiria a proeza de marcar 34 golos no campeonato. A marca, muito mais do que ter feito de Machlas o melhor marcador na Holanda, acabaria também por consagrá-lo com a conquista da Bota d’Ouro.
Tendo um papel decisivo nas boas prestações do emblema de Arnhem, onde, em 1998/99, seria treinado pelo português Artur Jorge, Machlas despertaria a cobiça de outros emblemas. Nisto, quem acabaria por despender a maquia que o Vitesse exigia, seria o Ajax. No novo emblema, depois de pago aquele que seria o montante recorde para o clube de Amesterdão, o atacante apresenta-se para a temporada de 1999/00. Como uma das estrelas do conjunto, o avançado acabaria por ter prioridade no escalonamento da equipa. Curiosamente, já uns anos mais tarde, uma das jovens promessas do clube, um tal de Zlatan Ibrahimovic, acabaria por mostrar alguma frustração pela preferência dada ao grego – “(…) durante maior parte do tempo eu sentava-me no banco e tinha, mais e mais, apupos dos nossos próprios adeptos. Enquanto aquecia e me preparava para entrar, eles rugiam «Nikos, Nikos! Machlas, Machlas!». Não interessa quão mau ele era, eles não me queriam ali. Eles queriam-no a ele, e eu pensei, «Merda, eu ainda não comecei a jogar e eles já estão contra mim»”*. A verdade é que, com a saída de Co Adriaanse e a chegada de Ronald Koeman (2001/02), esta tendência começaria a inverter-se. Machlas acabaria mesmo por ser preterido pelo novo técnico e, já depois de um empréstimo ao Sevilla, seria dispensado no final da temporada de 2002/03.
Com a rescisão do contracto acertada, ainda se ouviu falar que o atleta estaria de volta ao Vitesse. No entanto, Machlas não resistiria ao convite de um dos seus primeiros treinadores, o holandês Eugène Gerards, e retornaria ao seu país, desta feita, para representar o Iraklis. Nesse seu regresso à Grécia, com a barreira dos 30 anos já ultrapassada, o jogador acabaria por dar início à última fase da sua carreira. Já depois de uma nova passagem pelo OFI Creta, Machlas ainda viaja até ao Chipre. No APOEL, a juntar à “dobradinha” conseguida pelo Ajax (2001/02), o avançado enriqueceria o seu currículo, com as vitórias no campeonato de 2006/07 e na Taça da época seguinte.
Já depois de se retirar dos relvados, Nikos Machlas voltaria à senda do futebol, mas numa função completamente diferente. Ao serviço do clube que o tinha lançado no desporto profissional, o OFI Creta, o antigo internacional haveria de assumir o cargo de dirigente.

 
*retirado do livro “I am Zlatan Ibrahimovic”

708 - IAN RUSH


Sendo natural de uma pequena aldeia no Norte do País de Gales, Ian Rush tomaria a decisão de rumar até Inglaterra para, no futebol profissional, tentar a sua sorte. Não tendo viajado mais de 20 Km, seria no Chester City que o jovem aspirante a futebolista prestaria as necessárias provas.
Pouco tempo depois de ter dado os primeiros passos no seu novo clube, já Rush era um dos principais craques da equipa. Mesmo jogando a médio, a quantidade de golos que conseguia marcar punha-o em plano de destaque. Contudo, seria um jogo para a Taça de Inglaterra que iria mudar tudo na vida do jovem praticante. Nesse embate, ao modesto Chester City calharia em sorte o Newcastle. Contra todas as probabilidades, seria o grupo de Ian Rush a seguir em frente na prova e, com o golo apontado nessa eliminatória, o galês acabaria por chamar a atenção dos emblemas mais poderosos.
Com Manchester City e Everton – de quem Rush era fã – também no seu encalço, a escolha do jogador acabaria por incidir no Liverpool. Com o colosso inglês a querer apressar a sua contratação, a transferência, ainda assim, acabaria por atrasar-se. Com o mercado a fechar no final de Março, algumas complicações burocráticas levariam a que a mudança não fosse possível até à data limite. Ainda assim, e com a saída a ser adiada até o fim da temporada, Ian Rush, que já tinha chamado a si todos os focos, acabaria, em jeito de compensação, por ser chamado à estreia na selecção do seu país.
Seria então, para a época de 1980/81, que o novo reforço chegaria a Anfield Road. No Liverpool, a sua “veia goleadora” levaria a que os responsáveis técnicos do clube o adiantassem um pouco mais no terreno. Começando a jogar a avançado, a adaptação, de início, não correria de feição. Desabituado àquela zona do campo, Rush sentiria algumas dificuldades. Sem que os golos começassem a aparecer, é então que o seu técnico, o inglês Bob Paisley, decide ter uma conversa com o jogador. Apontando-lhe as falhas e as maneiras de corrigir tais erros, o treinador conseguiria mudar o rumo de Ian Rush, levando-o a tornar-se numa das maiores lendas do Liverpool.
Já depois de, nos primeiros tempos, ter alternado a sua presença no plantel principal com jogos pelas “reservas”, Ian Rush conseguiria, em definitivo, afirmar-se na primeira equipa. Na temporada de 1981/82, já o atacante galês era um dos nomes habituais nas convocatórias do Liverpool. A importância dos seus golos cresciam com o passar dos jogos e, nesse mesmo ano, com um tento na final frente ao Tottenham, Rush ajudaria o seu clube a conquistar a Taça da Liga.
Títulos foi coisa que não faltou ao internacional galês. Com o Liverpool, na década de 80, a dominar tanto o futebol inglês, como o cenário europeu, o currículo do jogador acabaria por ficar bem rico. 5 Ligas, 3 Taças de Inglaterra, 5 Taças da Liga, 3 “Charity Shields” e, sobretudo, 2 Taças dos Campeões Europeus, fazem de Ian Rush um dos jogadores mais laureados na história da modalidade. Também em termos pessoais, a hegemonia do seu clube, ajudaria a que o atleta conseguisse alcançar brilhantes distinções. Jogador do Ano, Melhor Marcador da Liga Inglesa e Bota d’Ouro Europeu, tudo conquistado em 1983/84, engrossam uma lista de prémios já por si bem recheada.
Os 15 anos em que vestiria as cores do Liverpool, seriam interrompidos por uma curta passagem pelo “Calcio”. Já depois da tragédia do Heysel Park, onde vários adeptos perderiam a vida, Liverpool e Juventus tentariam estreitar as suas relações com a transferência do ponta-de-lança. No entanto, a ida de Ian Rush para “Vecchia Signora” não correria de feição. As exibições poucos convincentes e, principalmente, a escassez de golos, acabariam por fazer com que o jogador deixasse Itália e regressasse ao futebol britânico.
De volta ao Liverpool em 1988/89, o avançado teria a concorrência de outros dois grandes jogadores. Com John Aldridge e Peter Beardsley a atrapalhar o seu caminho para a titularidade, Ian Rush, durante algum tempo, ainda passaria pelo banco de suplentes. Todavia, os bons registos que, sempre que a oportunidade aparecia, ia conseguindo, levá-lo-iam de volta ao “onze” inicial.
É certo que Ian Rush, nessa segunda passagem por Anfield, não conseguria ser tão prolífero quanto da primeira. Também não deixa de ser verdade que os números por ele apresentados, deixariam orgulhoso qualquer avançado de topo. Esses mesmos registos, acabariam por fazer dele uma das grandes lendas do emblema inglês. No Liverpool, os seus 346 remates certeiros em 660 partidas, transformá-lo-iam num dos atletas mais utilizados e no recordista de golos na longa existência do clube. Curiosamente, também ele detém o recorde de golos pela selecção do País de Gales. Pelos “Dragões”, os 28 golos conseguidos mantem-se como a marca máxima da equipa nacional.
É no defeso de 1996 que Ian Rush termina a sua longa relação com o Liverpool. Já distante dos seus melhores anos, é aí que o avançado começa um périplo que o levaria a jogar por uma série de outras equipas. O Leeds United seria o primeiro emblema de uma lista que o levaria também até ao Sheffield United e ao Wrexham. Finalmente, e marcando aí os seus derradeiros golos, uma passagem pela Austrália e pelo Sydney Olimpic.

707 - CAMATARU

Se há jogador com histórias para contar, um deles, por certo, é Rodion Camataru. Contudo, e ao invés daqueles que, como ele, também tiveram uma longa carreira, os episódios vividos por este antigo ponta-de-lança vestem-se de algumas particularidades bem curiosas.
Tendo começado a jogar nas camadas jovens do Progresul Strehaia, as boas exibições que conseguiria ao serviço do emblema da sua terra natal, serviriam para o fazer transitar para os juniores da Universitatea Craiova. Já a passagem para a equipa sénior, decorreria apenas umas temporadas depois e, desde logo, as suas qualidades de goleador começariam a fazer-se notar.
Alto e possante, Camataru era uma dor de cabeça para qualquer defesa contrário. O seu impressionante físico, aliado a uma capacidade finalizadora de excelsas qualidades, fariam dele um dos bons avançados a jogar na Europa. Impressionados com os seus atributos, não tardou muito para que os responsáveis pela principal selecção romena o chamassem à estreia. Tanto com a camisola do seu país, a qual vestiria entre 1978 e 1990, como com as cores do seu clube, Camataru era um dos nomes que despertava cobiça no lado ocidental do “Velho Continente”. Quem também não ficaria indiferente aos seus desempenhos, seria Sven-Göran Eriksson. O técnico, por altura da sua primeira passagem por Portugal, haveria de insistir muito na sua contratação. Todavia, só quando o sueco já se encontrava em Itália, é que o Benfica conseguiria que o avançado vestisse de “encarnado”.
É aqui que começa uma das suas histórias caricatas. Tendo chegado pouco tempo após o “fecho do 3º anel”, e por altura da inauguração da “obra”, a estrela romena, com toda a pompa e circunstância, é apresentada aos sócios. Na senda dos eventos que ocasião haveria de proporcionar, Camataru ainda disputa pelas “Águias” um “particular”. No entanto, depois desse “amigável” frente ao FC Porto, o atacante desaparece. Como constaria, a “surpresa” feita aos sócios benfiquista, acabaria, também ela, por ter a sua surpresa. Ao que parece, o regime ditatorial de Ceausescu não terá dado o aval à sua mudança e, cancelada a transferência, o futebolista regressaria de imediato à Universitatea Craiova.
Outro momento curioso, aconteceria cerca de 2 anos após a sua passagem pelo Benfica. Já no Dínamo de Bucareste, para onde se transferiria no começo dessa mesma época, Camataru liderava a lista de goleadores do Campeonato Romeno. A 6 jornadas do fim, os seus 26 golos jamais fariam pensar que o atacante conseguisse chegar à conquista da Bota d’Ouro. É então que o incrível acontece e, com 18 golos nessas últimas rondas, Camataru consegue ultrapassar os 39 golos do austríaco Toni Polster (Rapid Viena)! A verdadeira proeza levaria a muita especulação. Dir-se-ia que tudo tinha sido “fabricado” por uma manobra de propaganda do regime de Ceausescu. A Camataru, a quem nunca seria apontada nenhuma falha ou feita qualquer acusação, acabaria por ser atribuído o prémio de melhor marcador dos campeonatos europeus de 1986/87.
Finalmente, e já nos derradeiros anos da sua carreira, Camataru consegue a almejada mudança para o estrangeiro. Muito tempo depois de, ainda ao serviço do Universitatea Craiova, ter vencido 2 Campeonatos e 4 Taças da Roménia, o avançado continuava a despertar o interesse de alguns emblemas europeus. A transferência, para a temporada de 1989/90, ocorreria para o Charleroi. Enquanto na Bélgica, ele que já tinha marcado presença no Euro 84, é chamado a disputar a última grande competição da sua carreira. Já depois da participação no Mundial de 1990, Camataru ainda faz mais algumas épocas. É já na Holanda, e ao serviço do Heerenveen, que o antigo internacional decide pôr um ponto final na sua vida de futebolista.

706 - ALLY McCOIST

Diz-se que, ainda adolescente, terá ido treinar ao St. Mirren. Todavia, o seu físico não terá agradado ao treinador, um tal de Alex Ferguson, que acabaria por rejeitá-lo. Nisto, quem haveria de abrir as portas ao jovem avançado seria o St. Johnstone. Rápido, com uma leitura de jogo acima da média e um pontapé certeiro, as características do atacante não demorariam muito a pô-lo no caminho do “onze” inicial. No clube escocês, a facilidade com que conseguia marcar golos, rapidamente fariam dele um dos jogadores mais cobiçados na liga. Em 1980/81, depois de 3 temporadas como profissional, e quando um largo número de emblemas já andava atrás dele, eis que o Rangers também entra na corrida pela sua contratação. No entanto, a preferência de Ally McCoist acabaria por ser a Liga inglesa e o seu destino o Sunderland.
Com o montante pago pelo Sunderland a quebrar o recorde do clube, a esperança depositada no atleta seria enorme. Contudo, Ally McCoist decepcionaria responsáveis e adeptos. Nos 2 anos que permaneceria em Inglaterra, poucas seriam as vezes que, de forma certeira, conseguiria introduzir o esférico nas redes alheias. Este seu insucesso, acabaria por levá-lo de volta ao seu país e, finalmente, ao Rangers.
No emblema de Glasgow, a época de 1983/84 daria início a uma relação, a muitos níveis, perfeita. O começo, com McCoist a impor-se logo de início, até indicava isso mesmo, mas a chegada de Graeme Souness (como treinador-jogador) ao comando do Rangers haveria de alterar o seu estatuto de titular. Mesmo tendo conseguido sagrar-se o melhor marcador do campeonato em 1985/86, o avançado, na época que se seguiria, não haveria de convencer o novo responsável técnico dos “Gers”. Curiosamente, nesse mesmo defeso, o jogador, mais uma vez, veria Alex Ferguson a preterir os seus serviços, quando, na convocatória para o México 86, deixa o nome do atacante de fora do grupo de eleitos.
Mesmo com esses contratempos, a simpatia que Ally McCoist tinha por parte da massa adepta manter-se-ia inalterada. Já no escalonamento da equipa, o banco de suplentes continuaria a ser o seu lugar. Claro que esta opção, apesar de contestada por alguns, haveria de ser desculpada pelo sucesso que o Rangers haveria de alcançar nos anos vindouros. Sem conseguir sagrar-se- campeão há 8 anos, os de Ibrox, logo nessa temporada de 1986/87, quebrariam o longo jejum. Para McCoist seria a primeira de 10 de ligas conquistadas.
Só com a saída de Souness para o Liverpool, e com a chegada de Walter Smith ao clube, é que a história de Ally McCoist volta à normalidade. Ora, o treinador que, mesmo com seu estatuto de suplente, não haveria de ter dúvidas em convoca-lo para o Mundial de Itália (1990), devolveria o avançado ao “onze” inicial. Em boa hora o faria, pois McCoist, logo nas temporadas seguintes voltaria ao topo dos goleadores e, desta feita, vencendo também a corrida para o melhor marcador dos campeonatos europeus de 1991/92 e 1992/93*.
Os anos que se seguiriam a esta dupla “conquista”, serviriam para cimentar Ally McCoist como um dos grandes atletas da história do Rangers. Os números confirmariam tal estatuto e às, atrás referidas, 10 Ligas, no final da sua ligação com o clube, o avançado contaria também com vitórias em 9 Taças da Liga e 3 Taças da Escócia. Já no plano individual, os golos que conseguiria concretizar transformá-lo-iam, tanto na liga escocesa, como a nível das competições europeias, no melhor marcador do emblema.
Em 1998/99, Ally McCoist decide dar continuidade à sua carreira no Kilmarnock. Longe dos seus melhores anos, mas ainda com a capacidade de afrontar muitos dos defesas contrários, o atacante prosseguiria o seu percurso profissional durante mais umas quantas temporadas. Seria já no final de 2000/01, e bem perto de completar 39 anos de idade, que o internacional tomaria a decisão de pôr um ponto final à sua longa caminhada.
Já depois de experimentar uma passagem pelos “media”, o seu regresso ao futebol dar-se-ia através da selecção. Como adjunto da equipa nacional escocesa, Ally McCoist daria os primeiros passos como treinador. A oportunidade seguinte, ainda na mesma posição, surgiria pela mão de Walter Smith. Como “braço-direito” do treinador que o firmou no estrelato do futebol, a antiga estrela do Rangers voltaria ao seu clube. Já depois da saída do técnico, McCoist assumiria o papel de “Manager”. Infelizmente, como o próprio haveria de afirmar, o período que passaria ao “leme” do clube, coincidiria com a falência do histórico emblema e com a descida do mesmo ao 4º escalão. Ainda assim, McCoist não abandonaria o cargo e teria um papel crucial na promoção do clube até ao “Championship” (2ª divisão).

 
*entre 1991/92 e 1995/96, a Bota d’Ouro não seria, oficialmente, entregue.

705 - HENRIK LARSSON


Filho de pai cabo-verdiano e mãe sueca, o jovem Henrik haveria de encontrar no futebol uma grande paixão. A jogar pelo Högaborgs desde tenra idade, o que haveria de chamar a atenção dos responsáveis pelo clube, seria habilidade com ele tratava a bola. Ainda assim, e num país onde o físico é uma característica bem presente no desporto, o seu aspecto franzino haveria de travar a sua evolução. Preterido nesses primeiros tempos, só alguns anos mais tarde é que Henrik Larsson haveria de fazer com que a sua técnica conseguisse compensar algumas das suas lacunas físicas. Todavia, a maneira como o haveria de conseguir seria de tal maneira evidente que, com apenas 17 anos, o jovem avançado é chamado à equipa principal.
Mas se foi no Högaborgs que Henrik Larsson deu os primeiros passos no futebol, seria (espante-se!) o Benfica que mudaria a sua carreira. Numa altura em que na “Luz” moravam alguns nomes do futebol sueco, o jovem jogador seria convidado para treinar à experiência. Mesmo não tendo convencido Sven-Göran Eriksson a contratá-lo, o facto de ter conhecido Mats Magnusson haveria de alterar o seu rumo. Ora, quando o avançado deixou as “Águias” para ir jogar no Helsingborgs, este aconselharia o atleta aos responsáveis do seu novo clube. Larsson, que até aí era apenas semiprofissional, aceitaria o desafio. Já Magnusson acabaria por acertar na aposta, e o jovem atleta, que assim passaria a dedicar-se a tempo inteiro ao futebol, rapidamente conseguiria tornar-se numa das estrelas da equipa.
Dois anos no Helsingborgs, e a estreia pela selecção sueca, seriam mais do que suficientes para que outros clubes fossem no seu encalço. Nesse sentido, a época de 1993/94 veria Larsson transferir-se para o Feyenoord. Contudo, os anos que passaria na Holanda não seriam, de todo, os melhores para o jogador. Já depois de ultrapassar as dificuldades de uma normal adaptação, a instabilidade em que o clube andava mergulhado também não ajudaria na evolução do jogador. Por outro lado, a sua presença no Mundial de 1994, servira para confirmar que o atleta não tinha perdido as qualidades que o haviam projectado no futebol. Uma técnica superior, a maneira como se movimentava na frente do ataque e a facilidade com que conseguia marcar golos, faziam dele um dos bons avançados nos anos 90. Ainda assim, as suas prestações no campeonato holandês não serviam para sublinhar esses predicados. As constantes mudanças a que haveria de ser sujeito, tendo sido afastado do centro do ataque para jogar nas alas, ou, até, a maneira algo irregular com que seria chamado à equipa, acabariam por contribuir para o seu (relativo) insucesso.
É desta maneira que, no defeso de 1997, Henrik Larsson deixa o Feyenoord. Com apenas 2 Taças da Holanda no currículo, a sua ida para o Celtic proporcionaria ao jogador aumentar a sua lista de troféus. Contudo, muito mais do que as 4 Ligas, as 2 Taças e as 2 Taças da Liga, o maior feito do sueco seria a conquista da massa adepta. Nesse sentido, as coisas até nem começariam de feição. Logo no jogo de estreia, o atleta cometeria um terrível erro. Dessa sua falha, sairia o golo que haveria de permitir ao Hibernian terminar a dita contenta com uma vitória. Todavia, daí em diante tudo mudaria. Tendo tido um papel importante na quebra da hegemonia do Rangers, que chegou a vencer 9 ligas consecutivas, seria a sua entrega o principal tónico para a paixão dos adeptos. Também nas competições europeias, Larsson haveria de brilhar. O Celtic, em boa parte impulsionado pelos seus golos, conseguiria fazer algumas campanhas de destaque. Realce maior para a caminhada na Taça UEFA de 2002/03. Nessa edição, e já depois de ter eliminado o Boavista nas meias-finais, os de Glasgow encontram no derradeiro jogo o FC Porto. Nessa final de Sevilha, Henrik Larsson marcaria 2 golos. Contudo, a excelente exibição por parte do avançado seria insuficiente para conseguir uma vitória – “Eu preferia não ter marcado os dois golos e termos ganho o jogo. Não é uma memória feliz, mas eu já aprendi a viver com ela (…). Necessitei de muito tempo para ultrapassa-la. Estamos a falar de anos, porque nunca deveríamos ter perdido aquele jogo”*.
Seria já no final da temporada de 2003/04, que a ligação de Henrik Larsson com o Celtic conheceria um fim. 7 anos após a sua chegada e depois de uma interminável série de distinções e conquistas individuais, onde se inclui a Bota D’Ouro de 2000/01, o atacante sueco deixava o carismático emblema escocês. Envergando a braçadeira de capitão e com a face cheia de lágrimas, Larsson, recordista de golos da “Scotish Premier League”, poria um fim à longa relação com o clube. Ele que, durante anos a fio, havia recusado diferentes propostas, acabaria por reconhecer que tinha chegado o tempo de seguir outro caminho.
Surpreendentemente, e tendo em conta os seus 33 anos, o clube que se seguiria na sua carreira haveria de ser o Barcelona. Na Catalunha, mesmo sem ser titular, e com uma grave lesão a assombrar a sua época de estreia, Henrik Larsson acabaria por desempenhar um papel importante. Com um temperamento mais calmo, a sua presença no banco, para, nos momentos finais, entrar em jogo, valeria alguns sucessos ao clube “blau-grana”. Nesse sentido, e com 2 “La Ligas” à mistura, há sempre que destacar a vitória na Liga dos Campeões. Nessa edição de 2005/06, e mais uma vez no papel de suplente utilizado, Larsson acabaria por ser determinante na conquista do troféu. Na final, e já com o Arsenal a vencer, o atacante é chamado a entrar em campo. A rapidez que traria ao jogo seria decisiva e, estando nas duas jogadas dos golos, acabaria por transformar o desfavorável 1-0, num vitorioso 1-2.
Os últimos anos da sua carreira, muito mais do que o regresso à Suécia, trariam uma curiosidade preciosa. Já depois de em 2006 ter assinado pelo Helsingborgs, eis que um antigo “namoro” consegue ganhar corpo. Sem grandes soluções para o sector mais avançado, Alex Ferguson decide ir atrás daquele que tantas vezes tinha tentado contratar. Desta feita, Henrik Larsson não recusaria o convite e, vestindo a camisola do Manchester United apenas por alguns meses, ajudaria na conquista da “Premier League” de 2006/07.
Após os derradeiros capítulos de uma carreira que terminaria bem perto dos 40 anos de idade, Larsson, em 2009, dá início à sua actividade como técnico. Já com passagens pelo Landskrona e Falkenbergs, o antigo internacional, por achar que ainda não está preparado para tamanho desafio, acabaria por recusar a ideia de treinar o Celtic. Enquanto o momento certo não chega, eis que no Helsingborgs (2016), onde orienta o seu filho Jordan Larsson, Henrik dá continuidade à sua vida de treinador.


*retirado da entrevista de Tom English, a 14/08/2015, para a BBC Scotland