754 - FRANCIS LEE

Durante grande parte da adolescência, dividiria a sua paixão pelo desporto entre o futebol e o cricket. Com o avançar dos anos, preferiu a bola maior e dedicou-se a uma carreira que viria a revelar-se de grande sucesso.
Ainda nos tempos do Bolton Wanderers, o seu primeiro clube profissional, Francis Lee vê-se integrado na comitiva inglesa que, em Portugal, jogaria o Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Após o certame, disputado na Primavera de 1961, o jovem atacante regressa ao emblema da Grande Manchester. Estando o clube no escalão maior do futebol britânico, Lee encontrava-se no melhor contexto para o evoluir das suas habilidades. No entanto, o Bolton, que por norma lutava pela manutenção, acabaria mesmo por descer de patamar.
 Arrastado na despromoção, o avançado acabaria afastado dos grandes palcos. Ainda assim, o seu futebol continuava a surpreender. Não sendo um típico ponta-de-lança, o seu jogo, mais movimentado, levava-o a conduzir muitas das avançadas. Na verdade, era com a bola nos pés que Francis Lee conseguia destacar-se. Essa sua característica haveria de impressionar os responsáveis de outro histórico das ligas inglesas. O Manchester City acabaria por resgatá-lo do 2º escalão e, a troco daquela que seria a transferência recorde para o clube, o atleta estava de volta às grandes disputas.
Curiosamente, logo no ano de estreia pelos “Cityzens” (1967/68), o clube vence o primeiro campeonato desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Esse facto, como que catapultaria Francis Lee para os títulos. Logo na temporada seguinte, o seu percurso fica mais rico com as conquistas do “Charity Shield” e “FA Cup”. A vitória na Taça de Inglaterra dá ao conjunto a qualificação para a Taça dos Vencedores das Taças. Na edição de 1969/70 o Manchester City, já depois de eliminar a Académica de Coimbra nos quartos-de-final, chega ao derradeiro encontro da competição. Na final, frente aos polacos do Górnik Zabrze, Francis Lee marca um dos golos e ajuda o seu clube a conquistar o troféu.
Esse ano de 1970 haveria de tornar-se especial. Já depois do sucesso nas competições europeias, o seu nome faria parte do conjunto que, orientado pelo mítico Alf Ramsey, estaria presente no Mundial de 1970. Francis Lee, que pela principal selecção inglesa tinha feito a estreia em Dezembro de 1968, era, por essa altura, um dos nomes mais importantes na equipa nacional. No Campeonato do Mundo disputado no México, a Inglaterra, que defendia o título, acabaria por não conseguir passar dos quartos-de-final.  Ainda assim, o estatuto de Francis Lee não sairia beliscado e continuaria a representar o seu país durantes os anos vindouros.
No limiar do seu percurso profissional, e já depois de conseguir sagrar-se o melhor marcador da Liga (1971/72), Francis Lee muda-se para o Derby County. Nos “The Rams”, no ano da sua chegada, volta a vencer a “First Division”. A glória prolongar-se-ia por mais um ano e, no final da temporada de 1975/76, o avançado decide pôr um ponto final na sua carreira.
A despedida dos relvados não o afastaria do desporto. Em 1977 tem nova passagem pelos campos de cricket e, anos mais tarde, entra no mundo das corridas de cavalos. No entanto, o seu regresso ao futebol causaria ainda maior sensação. Em meados da década de 90, com o dinheiro e prática acumulados no negócio do papel higiénico, Francis Lee compra parte do Manchester City. Torna-se Presidente do clube. Contudo, a experiência não correria de feição e, após acumular alguns desaires desportivos, o antigo futebolista decide deixar a sua posição na direcção.

753 - PERES

Nascido entre adeptos do Belenenses, seria no emblema da “Cruz de Cristo” que Fernando Peres faria toda a formação. Em 1961, já com os 18 anos feitos, é chamado a disputar o Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Tendo jogado 3 partidas, inclusive a da final, o jovem atleta ajudaria Portugal a conquistar o seu primeiro troféu de selecções.
Este feito também ajudaria a sua afirmação no Belenenses. Passadas algumas semanas sobre o certame organizado no nosso país, o extremo-esquerdo seria chamado pelo argentino Enrique Vega, à categoria principal. Com os do Restelo, Fernando Peres começaria a ganhar a fama de futebolista habilidoso. Com uma boa visão de jogo e excelente em termos técnicos, a ajuda que dava à sua equipa era muito importante. Já depois da chegada de Fernando Vaz ao comando dos “Azuis”, a sua relevância cresceria. Tanto a nível nacional, como nas provas europeias, Peres tornar-se-ia numa das maiores estrelas do conjunto lisboeta.
Após a sua estreia pela principal selecção portuguesa, o “namoro” com os “grandes” começa a aumentar de tom. É então que chega a altura de deixar o Restelo, em direcção a outro emblema da capital. Já no Sporting, na temporada de 1965/66, a sua chegada coincidiria com mais um título para os “Leões”. Nessa conquista do Campeonato Nacional, Fernando Peres acabaria por ser fulcral. Ainda que contratado nessa época, as suas capacidades levá-lo-iam, de imediato, a conquistar um lugar no “onze”. A titularidade faria com que a sua cotação aumentasse ainda mais e, mesmo sem ter participado na qualificação, o seleccionador Manuel da Luz Afonso chamá-lo-ia a disputar o Mundial de 1966.
Sem nunca ter jogado no torneio disputado em Inglaterra, Fernando Peres teceria duras críticas aos responsáveis da selecção. Aliás, sendo dono de uma personalidade bem vincada, polémicas como esta suceder-se-iam durante o seu percurso desportivo. Passados alguns anos após o referido incidente, o jogador ver-se-ia envolvido noutra controvérsia. Desta feita, com a ligação ao Sporting prestes a terminar, o atleta exige uma melhoria no contrato. Recusadas as suas pretensões, os dirigentes do Sporting valem-se da infame “Lei da Opção”. A tal regra ditava que, independentemente da vontade do atleta em renovar, o clube podia impedi-lo de jogar com outra camisola. Poucos teriam outra escolha, mas Peres, que não tinha abandonado os estudos, acabaria por encontrar uma solução. Servindo-se da Lei Estudantil, que permitia aos jogadores- estudantes irem para a Académica, Peres muda-se para Coimbra.
Um ano com as cores da “Briosa” seriam suficientes para fazer “estalar o verniz”. Acusando os dirigentes do clube de não cumprirem o contrato assinado, Peres força a saída. A separação empurra o atleta, novamente, na direcção de Lisboa e do “verde e branco”. Tendo o Sporting contratado Fernando Vaz, aquele que foi o seu treinador predilecto acabaria por ajudar ao seu regresso. Mais uma vez, a sua chegada a Alvalade traz um Campeonato Nacional. Já na época seguinte, é vez de conquistar a sua primeira Taça de Portugal. Essa edição de 1970/71 ficaria ainda marcada pela goleada recorde na prova, onde, nos 21-0 frente ao Mindelense, Peres marcaria 7 golos.
Após ter jogado a Mini-Copa de 1972, torneio organizado pelo Brasil para comemorar os 150 anos da independência, mais uma polémica emergiria. Copiando o episódio passado uns anos antes, a direcção do Sporting recusa, nos termos que este pedia, renovar o seu contrato. Tendo sido ameaçado que se não assinasse nova ligação, não teria permissão para jogar em mais lado nenhum, Fernando Peres prefere a segunda opção. Impedido de prosseguir a carreira, o internacional “luso” viaja até ao Canadá, onde joga futebol de salão. Depois dessa experiência, volta a Portugal e, no Peniche, dá os primeiros passos como treinador.
Com o 25 de Abril de 1974 a “Lei de Opção” é posta de parte. Esta medida faria com que Fernando Peres decidisse voltar à competição. Desta feita vai até à América do Sul e, ao serviço do Vasco da Gama, torna-se no primeiro e, até aos dias de hoje, no único atleta português a sagar-se campeão nacional naquele país.
No Brasil ainda representaria mais dois clubes. Já depois de uma curta passagem pelo FC Porto, o atleta volta a atravessar o Atlântico. Queria, na verdade, voltar ao emblema da “Cruz de Malta”, mas o presidente do Vasco da Gama, decepcionado pela sua recusa em prolongar aquele que tinha sido o seu primeiro contrato, negar-lhe-ia essa pretensão. Acaba por vestir as cores do Sport Recife e, nos 3 anos que aí passou, ajudaria o emblema a conquistar o “estadual” de Pernambuco.
Após, ainda no Brasil, ter terminado a sua carreira ao serviço do Treze de Campina Grande, Peres decide voltar às tarefas de treinador. Nessas funções teria um percurso discreto, destacando-se as suas passagens pela 1ª divisão, à frente dos destinos de União de Leiria e Vitória de Guimarães.
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752 - JOHN JACKSON

Mesmo pertencendo às escolas dos Crystal Palace, clube que, no começo dos anos 60, militava nos patamares inferiores do futebol profissional inglês, John Jackson chamaria a si muita atenção. Com qualidades inegáveis, onde o jogo aéreo era uma das suas melhores características, o atleta começaria a ser chamado para as selecções jovens do seu país.
É nessa condição que, em 1961, disputaria o Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Depois de participar no certame organizado em Portugal, o guardião volta às tarefas no seu clube. Com o emblema londrino, já depois de ter atingido a idade sénior, a sua afirmação ainda demoraria alguns anos. Só a partir da temporada de 1964/65, com a partida de Bill Glazier, é que começaram a surgir as primeiras oportunidades.
Não tardou muito que, daí em diante, John Jackson passasse a ser o dono das balizas do Crystal Palace. A consistência das suas exibições era tal que, durante 222 partidas consecutivas, o seu nome estaria sempre presente na ficha de jogo. Como titular indiscutível, o guardião haveria de estar na base da chegada do clube ao patamar máximo do futebol inglês.
Sendo a promoção ao segundo escalão referente à época de 1963/64, seria no Verão de 1968 que, pela primeira vez, o clube do Sul de Londres começaria uma temporada a disputar a “First Division”. Nos palcos maiores do desporto britânico, os “Eagles” manter-se-iam até ao final de 1972/73. Orientado pelo nosso conhecido Malcolm Allison, o Crystal Palace seria despromovido. Com a descida de divisão, muitos dos atletas deixariam o clube e John Jackson seria um dos que procuraria nova morada.
Curiosamente, a sua mudança para o Leyton Orient também o afastaria da “First Division”. A esse escalão só voltaria muitos anos depois e ao serviço do Ipswich Town. Com tudo isso, e já na segunda metade dos anos 70, a sua carreira levá-lo-ia a atravessar o oceano. Do outro lado do Atlântico, numa altura em que muitos jogadores europeus iam atrás dos dólares da “North American Soccer League”, John Jackson também apostaria nessa aventura.
St. Louis Stars e California Surf foram os emblemas que, nos Estados Unidos da América, fariam o percurso do guarda-redes. Já o seu regresso a Inglaterra levá-lo-ia ao Millwall. No entanto, seria o seu, já aqui referido, ingresso no Ipswich Town que o levaria, mais uma vez, a merecer grandes elogios. Em 1981/82, com o clube de Suffolk a disputar os lugares cimeiros da tabela classificativa, John Jackson seria chamado para defender as redes frente ao Manchester United. Essa única presença em campo, transformar-se-ia numa exibição memorável. Com um incrível rol de defesas, o jogador conseguiria manter o placard em 2-1. Jackson seria o principal obreiro da difícil vitória e, para além de uma ovação de pé, mereceria rasgados elogios do treinador Bobby Robson.
Já depois de, ao serviço do Hereford United, ter deixado os relvados, John Jackson ainda voltaria ao “jogo da bola”. Como técnico de guarda-redes, treinaria os atletas do Brighton & Hove Albion e da Sussex FA School of Excellence. Extra desporto, o antigo atleta também assumiria funções na área do golf. Apaixonado por este desporto, trabalharia para a imprensa afecta à modalidade e na venda de material e equipamentos.

751 - CARRIÇO

Manuel Luís dos Santos, conhecido no mundo do futebol como Carriço, é um dos históricos jogadores do Vitória Futebol Clube. Tendo, no início dos anos 60, aparecido na categoria principal do emblema setubalense, seria também por essa altura que o jovem atleta participaria no primeiro grande êxito das selecções portuguesas. Escolhido por David Sequerra e orientado por José Maria Pedroto, Carriço marcaria presença em todos os jogos de Portugal no Torneio Internacional de Juniores de 1961. Como um dos indiscutíveis do “onze” luso, o jogador tornar-se-ia num dos pêndulos do grupo e extremamente importante na conquista do referido troféu.
Não foi só com as cores de Portugal que Carriço fez parte de uma excelsa geração. Ao lado de nomes como os de José Maria, Conceição, Jaime Graça ou Jacinto João o jogador ajudaria a construir uma das épocas áureas do Vitória de Setúbal. Podendo jogar a meio-campo, como em tarefas mais defensivas, era nas laterais que melhor desenvolvia o seu futebol. Tendo conseguido manter-se, ao longo da década de 60 e início da de 70, como um dos atletas mais utilizados no plantel sadino, o seu contributo para o sucesso do grupo seria decisivo.
Durante esse período, e sob a batuta de Fernando Vaz, o Vitória de Setúbal conseguiria a faceta de, por 4 vezes consecutivas, atingir o derradeiro jogo da Taça de Portugal. Desse rol de finais, do qual o clube sairia vitorioso por 2 vezes (1964/65; 1966/67), Carriço participaria em 3. Também no contexto das provas europeias, o seu currículo está bem preenchido. Resultado das boas campanhas conseguidas no Campeonato Nacional, as presenças na Taça das Cidades com Feira e, mais tarde, na Taça UEFA tornar-se-iam habituais. Durante essas campanhas, algumas das grandes potências do futebol cairiam a seus pés. Fiorentina, Inter de Milão, Leeds United, Olympique Lyonnais, Anderlecht ou Liverpool são alguns do clubes que claudicariam frente ao emblema da Foz do Sado.
Já a sua relação com a Selecção “A”, tendo em conta o valor que sempre mostrou em campo, acabaria por não ser tão estreita quanto o merecido. A estreia a 4 de Junho de 1969, num particular frente ao México, seria apenas o primeiro de 3 jogos feitos por Portugal. Essas internacionalizações acabariam por não reflectir o real valor da sua carreira. É certo que, durante o seu percurso como profissional, também Benfica e Sporting eram compostos por grupos de grandes jogadores. Ainda assim, e tendo sido essa a principal razão pela dificuldade em afirmar-se, fica-me a sensação que Carriço mereceria mais da “camisola das quinas”.

750 - SEPP MAIER

Amigo de infância de Franz Beckenbauer, diz-se que, certo dia, foi desafiado pelo antigo defesa para ir jogar à bola. Queria participar na partida como avançado, mas a falta de habilidade levaria os seus companheiros a fazer uma nova sugestão. Aceitou o convite e, daí em diante, passaria a ocupar um lugar à baliza!
Em que medida esta história é verdadeira, provavelmente nunca o saberemos. O que é certo é que Sepp Maier, que residia na área suburbana de Munique, terá entrado para o Bayern ainda em idade juvenil. Sendo um fervoroso adepto do clube bávaro, o guardião completaria aí a sua formação. Todavia, o emblema alemão, que hoje reconhecemos como um dos melhores do mundo, era, por essa altura, um clube sem grande palmarés. Ainda assim, Maier mostrava grande valor. A qualidade que patenteava, levá-lo-ia a ser chamado às selecções jovens da República Federal Alemã. Seria pela equipa do seu país que o guarda-redes, em 1961, participaria no Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Em Portugal, a jovem “Mannschaft”, ao bater a Espanha por 2-1, ficaria no 3º lugar. Melhor que o “bronze” alcançado, as prestações de Meier seriam muito elogiadas e testemunho inicial de uma carreira extraordinária.
Foi também no início dos anos 60 que Sepp Maier chegou à categoria principal do Bayern Munique. Curiosamente, seria com a presença do guarda-redes e, alguns anos mais tarde, com a promoção Beckenbauer que o espírito do clube começou a mudar. A partir da segunda metade dessa década, o pragmatismo em que o grupo até aí vivia altera-se. A conquista da Taça da Alemanha e as boas prestações nas competições europeias, serviriam de preâmbulo às vitórias na Liga germânica. Por fim, e a forma de coroar essa época dourada, chegaria o triunfo na Taça dos Campeões Europeus.
A todos esses brilharetes, nos quais estão incluídos 4 “DFB-Pokal”, 4 “Bundesliga”, 1 Taça dos Vencedores das Taças, 1 Taça Intercontinental e 3 Taça dos Campeões Europeus, é impossível subtrair a importância de Sepp Maier. O jogador que, entre 1967 e 1979, não falharia um único jogo para a Liga, tornar-se-ia num dos pilares dessa hegemonia. Também pela selecção, o seu percurso coincidiria com importantes conquistas. Tendo sido convocado para diferentes Mundiais e Europeus, seriam as edições do Euro 72 e do Campeonato do Mundo de 1974 que mais peso teriam no seu percurso profissional. As vitórias nos referidos certames serviriam para aclamar toda uma geração de futebolistas e, de igual modo, para certificar Maier como um dos melhores de sempre na sua posição.
Apesar de ser conhecido pela sua competência e profissionalismo inabalável, o atleta também tinha outras facetas. Tido como um dos mais corajosos dentro de campo, fora dele o carácter de Maier era igualmente estimado. Diz-se ser um homem muito alegre e que raramente perdia uma oportunidade para fazer umas partidas aos colegas. Um bom exemplo, terá acontecido na preparação para o Mundial de 1978. Antes da partida para a Argentina, durante uma conferência de imprensa realizada no Brasil, alguém terá perguntado ao avançado Klaus Fischer qualquer coisa parecida com: “Como é que um futebolista tão mau pode jogar pela Alemanha?!”. O atleta, visivelmente irritado, procura saber quem é o autor de tal desfaçatez. É então que, por entre grandes gargalhadas, Maier revela o disfarce que tinha permitido infiltrar-se como jornalista.
Outro episódio passado com o guarda-redes, também afere muito da sua personalidade. Na 1ª mão da Taça Intercontinental de 1976, estava a nevar muito. Apercebendo-se que o colega do Cruzeiro de Belo Horizonte não vinha preparado para aquelas condições, Maier tem um gesto de enorme bem-querer. A Raul Plassmann oferece um par das suas luvas, pois as que ele trazia seriam menos apropriadas para um bom desempenho naquele clima.
A sua carreira acabaria por ter um fim abrupto. Resultado de um acidente de viação, as mazelas sofridas pelo jogador levá-lo-iam, prematuramente, a deixar a defesa das balizas. Afastando-se do futebol, ao cobro de alguns anos o antigo internacional regressaria à modalidade. Começando pelo Bayern de Munique e, mais tarde, em simultâneo na selecção alemã, Maier aceitaria o cargo de treinador de guarda-redes. No desempenho dessas funções, passariam pelas suas mãos muitos dos futuros craques germânicos. Jogadores como Oliver Khan, Jens Lehmann ou Andreas Köpke muito têm a agradecer os ensinamentos daquele que ficaria conhecido como “Die Katze”.

749 - SERAFIM

A maneira como, aos diferentes patamares, chegava mais cedo do que a maioria dos praticantes da modalidade, torná-lo-ia numa das grandes apostas do FC Porto. Nesse seu evoluir, também as convocatórias para as jovens selecções portuguesas seriam importantes. Com a “camisola das quinas”, Serafim seria chamado a disputar o Torneio Internacional de Juniores de 1960. A boa prestação de Portugal no certame organizado pela Áustria, levaria à conquista do último lugar do pódio. Essa 3ª posição reflectia bem o crescimento do futebol “luso” e seria o prenúncio para o que estava prestes a acontecer.
No ano seguinte, a UEFA entrega a organização do Torneio Internacional de Juniores a Portugal. Serafim, que já jogava pela equipa principal do FC Porto, veria o seu nome surgir na lista dos atletas convocados. Já com a disputa do troféu a decorrer, o jovem futebolista confirma tudo o que dele se dizia. Nos 3 primeiros jogos, consegue 5 tentos. Todavia, é na final que merece o maior destaque. Frente à Polónia, o avançado marca todos os golos da partida. Com o “placard” a assinalar 4-0, Serafim torna-se num dos grandes obreiros da primeira vitória de Portugal no contexto internacional.
Também pelo FC Porto, Serafim fazia por merecer os maiores louvores. Tendo, a 11 de Dezembro de 1960, conseguido estrear-se na equipa principal, esse jogo no Estádio da Luz faria dele o mais jovem de sempre a envergar a camisola dos “Dragões”. A partir desse momento, o avançado torna-se num dos elementos mais importantes da manobra “Azul e Branca”. Mantem a titularidade e na disputa da Taça de Portugal torna-se preponderante. Com dois golos marcados nas meias-finais da prova, ajuda a eliminar o Sporting e empurra o seu clube para a final de 1960/61.
Mesmo com o FC Porto afastado dos títulos, as exibições de Serafim não passavam despercebidas. Veloz, possante e dono de um grande remate, cada desafio que disputava tornava-se mais evidente a sua aptidão atacante. A primeira recompensa viria com a chamada à Selecção “A”. A 6 de Maio de 1962, num particular frente ao Brasil, o jogador faria a sua estreia com as cores de Portugal. Depois, viriam mais 3 internacionalizações e, no final da temporada de 1962/63, o interesse do Benfica.
Numa altura em que as “Águias” eram uma das maiores sensações europeias, a mudança para o Estádio da “Luz” era algo de irrecusável. Tal era o poderio do emblema lisboeta, e tal era a qualidade de Serafim, que a transferência do jogador tornar-se-ia na mais cara de sempre do futebol português. Contudo, no plantel do Benfica moravam jogadores de gabarito mundial. Nomes como o de Eusébio, Santana, José Torres ou Iaúca tornariam a sua passagem pelo clube num caminho muito sinuoso. Ainda assim, seria no novo emblema que ganharia os seus primeiros troféus. Logo no ano da sua chegada, o Benfica faz a “dobradinha”. No cômputo das provas disputadas, incluindo as competições europeias, o jogador conseguira um saldo de 24 partidas e 13 golos. Na final da Taça de Portugal marcaria aos 71 minutos, ajudando o Benfica a derrotar o FC Porto por 6-2.
Mesmo tendo conseguido conquistar mais um Campeonato Nacional (1964/65), a falta de oportunidades levariam Serafim a mudar de emblema. Ao fim de 3 temporadas em Lisboa, o atleta decide mudar-se para Coimbra. Na “Cidade dos Estudantes” Serafim recuperaria o protagonismo de anos anteriores. A Académica tornar-se-ia no clube mais representativo da sua carreira e, durante essas 7 campanhas, o avançado faria parte daqueles que foram os melhores anos da história do clube. Logo na época da sua chegada (1966/67), a “Briosa” ficaria no 2º lugar do Campeonato e atingiria o derradeiro jogo daquela que é a nossa “Prova Rainha”. Para o jogador, o prémio viria com a sua 5ª e derradeira partida pela Selecção Nacional. Já no decorrer dos anos seguintes, Serafim disputaria mais uma final da Taça de Portugal (1968/69), famosa pelo protesto estudantil. No que diz respeito às competições europeias, durante a época de 1969/70, ajudaria o clube atingiria os quartos-de-final da Taça dos Vencedores das Taças.

TORNEIO INTERNACIONAL DE JUNIORES DA UEFA 1961

Consequência da vitória no Euro 2016, os recursos da selecção começam a estar apontados à estreia da equipa nacional na Taça das Confederações. Mas qual foi o primeiro grande triunfo de Portugal? Ora, é para relembrar esse grande feito que, durante o mês de Março, falaremos do “Torneio Internacional de Juniores da UEFA 1961”.

748 - JOÃO de OLIVEIRA

Sem que muita informação esteja disponível sobre o antigo jogador, há, no entanto, um episódio que, estando João de Oliveira envolvido, ficou na história do futebol português.
Para a temporada de 1929/30, numa altura em que o Benfica, por ordem de mais uma grave crise, há muito andava afastado dos títulos, as prestações no Campeonato de Lisboa renovavam as esperanças de jogadores e adeptos do clube. Apesar de terem perdido os embates com o Sporting, as duas vitórias frente ao Belenenses faziam com que as “Águias” ainda estivessem na corrida pelo título “alfacinha”. É então que, a 9 de Março de 1930, o sonho começa a desabar. Para a 12ª jornada, o Benfica visitava o Casa Pia. Com 18 minutos decorridos, já a equipa da casa conseguia adiantar-se no marcador. Os “Encarnados” ainda empatam o jogo. No entanto, alguns lances polémicos precipitam a partida para um desfecho pouco pacífico. Primeiro, há o golo mal anulado aos visitantes; depois, o choque entre dois adversários. É nisto que João de Oliveira acode o seu colega, envolvendo-se numa cena de pancadaria com o futebolista casapiano. A desordem rapidamente toma maiores proporções. Dentro e fora de campo, a polícia é chamada a intervir e, no meio de tamanha confusão, João de Oliveira agride o árbitro.
Pelo meio de uma série de diferentes castigos, a punição do atleta benfiquista é exemplar. Os 8 meses de suspensão fazem com que os protestos subam de tom. As diferentes manifestações e a ameaça de abandono de todas as competições surtem algum efeito. Sem que, no desfecho do “regional” de Lisboa, consigam alguma coisa alterar, os benfiquistas vêem a pena de João de Oliveira beneficiar de uma amnistia. O perdão faria com que o jogador ainda pudesse disputar o Campeonato de Portugal. Ironicamente, o regresso do atleta aconteceria frente ao Casa Pia. O encontro, a 2ª mão dos oitavos-de-final da prova, acabaria empatado. Ainda assim, o Benfica venceria a eliminatória e a presença de João de Oliveira seria um grande trunfo na caminhada do clube até à final da competição.
Após a vitória no referido Campeonato de Portugal, que marcaria o seu primeiro título, a carreira do jogador sofre um pequeno empurrão. A preponderância que João de Oliveira tinha no meio-campo benfiquista haveria de reflectir-se nas convocatórias para a Selecção Nacional. Por Portugal, numa altura em que os jogos internacionais escasseavam, um “amigável” frente à Itália, serviria para o atleta fazer a estreia com as cores do país. No Campo do Ameal, a 12 de Abril de 1931, a “Equipa das Quinas” perderia por 0-2. Mesmo assim, e apesar da derrota, o jogo embelezaria o currículo de João de Oliveira que, a partir daí, passava a envergar o estatuto de internacional.
O final dessa época acabaria por dar novo troféu ao Benfica. Com João de Oliveira em plano de destaque, o clube alcança, mais uma vez, a final do Campeonato de Portugal. Desta feita frente ao FC Porto, o clube lisboeta consegue mais uma vitória. O atleta benfiquista acabaria a temporada em plano de destaque, tendo sido o futebolista que, ao lado do seu colega Pedro Ferreira, mais partidas disputaria no cômputo das diferentes provas de 1930/31.

747 - BOULAHROUZ

Após, durante os anos de formação, deambular por uma série de diferentes clubes, foi no RKC Waalwijk que Kahlid Boulahrouz fez a sua estreia no nível sénior. Com a entrada no novo clube, a estabilidade que aí haveria de encontrar, permitir-lhe-ia desenvolver o seu futebol. Mesmo sem conseguir, de imediato, agarrar a titularidade, o atleta era visto como um jovem promissor. Destacando-se principalmente no centro, a sua habilidade fazia com que também fosse útil nas laterais da defesa. Essa polivalência ajudá-lo-ia na sua afirmação e, poucos anos após esse seu começo, o jogador começaria a tirar alguns dividendos da sua postura.
É em 2004/05 que acontece a sua mudança para o Hamburger SV. Quase em simultâneo, dá-se também a sua estreia com as cores da principal selecção holandesa. Esses dois momentos fariam com que Boulahrouz, em definitivo, saltasse para a dianteira do futebol europeu. Nesse seu evoluir, e ainda que tido como um jogador completo, havia outra característica que, em si, também merecia destaque. Sendo duríssimo nas disputas de bola, os adeptos do emblema alemão rapidamente haveriam de rebaptizar o jogador! O holandês passa a ser conhecido por "Khalid der Kannibale" (Khalid o canibal) e, nisto, estava traçado o seu perfil.
A sua imagem agressiva acabaria por sair reforçada aquando da sua participação no Mundial de 2006. No torneio disputado na Alemanha, por altura dos oitavos-de-final, o encontro entre Portugal e a Holanda haveria de ficar, pelas piores razões, nos anais do futebol. Tendo o jogo sido apelidado como a “Batalha de Nuremberga”, os 14 cartões mostrados tornariam o dito encontro no mais violento da história dos Campeonatos do Mundo. No meio de tanta “pancada”, houve um lance que ficaria como o exemplo de tudo o que tinha acontecido em campo. Nele, Boulahrouz atinge de forma arrepiante Cristiano Ronaldo. O atacante português, passados alguns minutos, acabaria por ser forçado a sair de campo. Já em relação ao defesa holandês, que apenas seria admoestado com um cartão amarelo, o que mais espantou foi as declarações que, anos volvidos, haveria de proferir – “Não voltei a falar com o Ronaldo acerca disso, mas o Edwin van der Sar disse-me que ele ainda tinha a cicatriz, passados ano e meio (…). Em 2012 vi-o no Euro. O Wesley Sneijder estava a falar com ele no corredor, enquanto tínhamos que esperar para ir para o aquecimento. O Sneijder chamou-me: «Hey Boula!». E depois «Hey Cris, olha o teu melhor amigo». A cara do Ronaldo disse tudo. Eu não pedi desculpas, eram «águas passadas» ”*.
Apesar do polémico lance, a sua imagem não ficaria assim tão denegrida. Logo após o fim da competição, o Chelsea lança-se na sua contratação. José Mourinho, partidário da sua polivalência, leva-o para Londres. Todavia, e mesmo assumindo o gosto pelas suas características, o “manager” português não daria muitas oportunidades ao defesa. Ao fim de um ano, em que as lesões também o perseguiriam, Boulahrouz é emprestado ao Sevilha. Volvida essa passagem por Espanha, o internacional holandês volta à “Bundesliga” e, nesse regresso, tenta dar um novo impulso à sua carreira.
Após 4 anos a vestir as cores do Stuttgart, sem nunca ter conseguido tornar-se num indiscutível, o clube anuncia que o seu contrato não iria ser renovado. A decisão daria ao Sporting, numa altura em que os seus responsáveis procuravam renovar o sector mais recuado, a oportunidade de juntar ao seu plantel um jogador com qualidade e experiência. Contudo, as constantes convulsões vividas em Alvalade levá-lo-iam a ser considerado um atleta que, na relação rendimento/preço, era excessivamente dispendioso para os cofres de “Verde e Brancos”. A sua saída de Alvalade acabaria mesmo por concretizar-se. Esse passo, apesar do atleta contar apenas com 31 anos de idade, como que precipitaria a entrada nos últimos anos da sua carreira. A decisão de abandonar os relvados, já após representar os dinamarqueses do Brondby e o Feyenoord, chegaria no final de 2014/15.

 

*adaptado do artigo de Liam Corless, publicado a 12 /02/2016, em “http://www.mirror.co.uk”

746 - MARCO MATERAZZI

Filho de Giuseppe Materazzi, treinador que teve uma curta passagem por Alvalade, a carreira juvenil de Marco acabaria por moldar-se um pouco ao percurso profissional do seu progenitor. Tendo jogado pelas escolas dos clubes onde o pai treinava, acabaria por ser sob a alçada deste que também daria os primeiros passos no patamar sénior. No Messina, no decorrer da temporada de 1990-91, Marco Materazzi faz então a sua estreia numa equipa principal. Depois, tendo abandonado a alçada do seu pai, o jovem central, que chegaria a jogar no lado esquerdo da defesa, começa um pequeno périplo que o levaria a passar por clubes das divisões inferiores do “calcio”.
A sua chegada ao Perugia, em 1995/96, iria alterar a essência da sua carreira. Tendo, a partir dessa altura, começado a fazer parte de um emblema com aspirações maiores, o seu percurso começa a encaminhar-se noutro sentido. Mesmo depois do empréstimo ao Capri e, mais tarde, após uma curta passagem pelo Everton, Marco Materazzi afirma-se como um dos bons elementos do conjunto do centro de Itália.
A disputar, quase sempre, a Serie A, as suas exibições começam a despertar a atenção de outros emblemas. Fortíssimo no jogo aéreo e impiedoso na hora de disputar a posse de bola, Marco Materazzi rapidamente ganha a fama de jogador agressivo. Paralelamente, e ao contrário daquilo que dava a entender, o atleta mostrava alguma habilidade perto da área adversária. Mormente na sequência da marcação de pontapés de canto, mas, também na execução de livres directos, o atleta tornar-se-ia num dos defesas que, na história do futebol italiano, mais golos haveria de conseguir concretizar.
Os bons índices competitivos haveriam de levá-lo à “Squadra Azzurra”. Tendo feito a estreia num particular frente à África do Sul, é ainda durante a sua ligação com o Perugia que Marco Materazzi é chamado à campanha de apuramento para o Mundial de 2002. Quase de seguida, concretiza-se a sua transferência para o Inter. Em Milão a sua vida profissional muda radicalmente e os troféus começam a fazer parte do seu currículo.
Mas se as vitórias, ainda que só mais tarde, começaram a tornar-se um hábito com a sua ida para Milão, rotinas houve que pareciam teimar em manter-se. Tal como no Perugia, ou até na sua estadia em Inglaterra, as advertências disciplinares continuariam uma constante. Entradas arrepiantes, pisadelas nas costas, marcas de pitons em todas as partes do corpo, murros, cotoveladas, hematomas e suturas eram uma pequena parte do rol de “serviços” com que Marco Materazzi presenteava muitos dos seus adversários. Ainda assim, e entendo a força que o jogador representava nas manobras defensivas, a sua presença no “onze” inicial manter-se-ia uma constante.
Tal como no Inter, com a camisola da selecção a sua presença tornar-se-ia indispensável. Já depois de Giovanni Trapattoni tê-lo chamado ao Mundial de 2002 e ao Euro 2004, é sob a batuta de Marcelo Lippi que Marco Materazzi faz parte do conjunto que sairia vitorioso do Mundial de 2006. Na final, muito mais do que o desempate por penalties, e que decidiria o desfecho do encontro, o jogo ficaria marcado por um momento insólito. Após provocar Zinedine Zidane, o defesa acabaria por provar do seu próprio veneno. Contrário à tradição, seria Materazzi a ser agredido. Depois de ouvir ofensas dirigidas à sua irmã, o francês responde com uma cabeçada no peito do italiano.
Voltando ao Inter, é com a chegada de Roberto Mancini (2004/05) e, mais tarde, com a substituição deste por José Mourinho, que o destino do clube embica na senda das vitórias. Já depois do desfecho do caso “Calciopoli”, e com os castigos aplicados a desviar do caminho alguns dos mais importantes rivais, os “Nerazzurri” tomam a dianteira no futebol italiano. Com tudo isso, Materazzi começa a colorir o seu currículo. 5 “Scudettos”, 4 “Coppas” de Itália, 4 “Supercoppas”, 1 “Champions League” e 1 Mundial de Clubes transformar-se-iam no sumário das suas vitórias pelo clube. Nisto de Inter, mais uma imagem em jeito de contraciclo. Na despedida do treinador português, Marco Materazzi não consegue controlar a sua tristeza. Incapazes de disfarçar os sentimentos, foi vê-los, nos braços um do outro, a chorar compulsivamente.
Em 2011, e depois de uma década ao serviço do emblema milanês, a sua ligação com o clube conheceria o fim. Contudo, aquele que seria o seu afastamento dos relvados sofreria um “volte-face”. Depois de ter anunciado o fim da sua carreira, Marco Materazzi decide aceitar novo desafio. Assinando contrato como “player-manager”, o antigo internacional viaja até à Ásia. Na Índia, ao serviço do Chennaiyin FC, assume as rédeas da equipa de futebol e vence a Superliga de 2014/15.

745 - GASPAR

É a 6ª jornada do Campeonato Nacional da 1ª divisão que, na temporada de 1995/96, marca a estreia de Gaspar no nosso escalão máximo. Contudo, esse desafio frente ao Felgueiras, não era o primeiro do jogador como sénior. Antes de envergar as cores do Tirsense, já o defesa tinha representado o Trofense. Aliás, seria pelo emblema da Trofa que o jogador terminaria a sua formação.
A temporada ao serviço do Tirsense acabaria por, em termos colectivos, não correr como esperado. Mesmo tendo um plantel forte, onde os internacionais Caetano (Portugal), Daoudi (Marrocos) e Siasia (Nigéria) eram as estrelas da companhia, o clube acabaria por não evitar a descida de divisão. Apesar desse desaire, as boas exibições do central permitir-lhe-iam captar a atenção de outros emblemas. O Vitória de Setúbal decide-se então pela sua contratação, fazendo com que o atleta continuasse a exibir-se nos principais campos nacionais.
Nisto do seu percurso profissional, a 1ª divisão acabaria por ser uma quase constante. Ainda que, durante a sua carreira, tenha representado quase uma dezena e meia de clubes, a firmeza com que se apresentava em campo torná-lo-ia num jogador muito apreciado. Conhecido pelo seu físico possante, Gaspar valia-se desses atributos para vingar no futebol. Duro nas disputas de bola, inabalável nas marcações e com um grande poder de impulsão, o atleta ganharia a fama de agressivo.
Apesar de ter sido sempre apontado pelos excessos de ímpeto, a verdade é que seria essa sua faceta que o manteria ao mais alto nível. Foi isso mesmo que viram os responsáveis do FC Porto quando, para a temporada de 1997/98, o contrataram. Nos “Azuis e Brancos”, ainda que pouco utilizado, Gaspar conseguiria as mais importantes vitórias da sua carreira. Todavia, nem a conquista da “dobradinha” haveria de conseguir manter o defesa no plantel. Tapado por Jorge Costa, Aloísio, Lula e ainda por João Manuel Pinto, as oportunidades para Gaspar eram poucas. Ao fim de 1 ano nas Antas, durante o qual contribuiria para o inesquecível “Penta”, Gaspar é preterido por Fernando Santos e, inicialmente, cedido a outros clubes.
Num percurso que caracterizado pela sua errância, Gaspar, nos anos que se seguiram à sua saída do FC Porto, representaria os mais diversos emblemas. Leça, Alverca, Paços de Ferreira e Gil Vicente acabariam por preencher essa parte do seu caminho. Nisto, reflexo dos bons desempenhos, surge a oportunidade de experimentar outro campeonato. Na Liga francesa, para a temporada de 2004/05, o jogador iria reforçar o sector mais recuado do Ajaccio. Todavia, essa passagem por terras gaulesas acabaria por não surtir os resultados esperados e, um ano após a sua partida, o central estava de volta a Portugal.
Naquela que seria a última metade da sua carreira desportiva, e, a todos os níveis, a mais estável, Gaspar, vestiria as camisolas do Belenenses e Rio Ave. Na equipa de Vila do Conde, ainda que sem conseguir perder o estigma de agressivo, o atleta consolida-se como um dos bons praticantes em Portugal. Esse estatuto, para o qual a sua entrega muito contribuiu, acabaria por fazer dele um exemplo. A prova disso mesmo viria com a época de 2010/11, durante a qual passaria a envergar a braçadeira de capitão dos vilacondenses.
Já depois de, nos escalões inferiores, ter representado Sp.Covilhã e Varzim, eis que Gaspar tenta a sua sorte em Espanha. A curta passagem pelo modesto Repilado acabaria por tornar-se na sua derradeira aparição nos rectângulos de jogo. O que veio a seguir tornar-se-ia numa surpresa para todos. Mesmo tendo tirado o curso de treinadores, o antigo internacional s-21 decidiria afastar-se do futebol. Abraçaria uma nova profissão e hoje é técnico especializado no ramo da metalo-mecânica de precisão.

744 - VINNIE JONES

Ao dar os primeiros passos como sénior no Wealdstone FC, emblema dos escalões amadores ingleses, Vinnie Jones haveria de conciliar o começo da sua carreira com o trabalho na construção civil.
É já após uma curiosa passagem pelos suecos do IFK Holmsund, que o seu percurso como futebolista sofre uma mudança significativa. Ainda com ligação ao Wealdstone FC, o médio vê o Wimbledon interessar-se pela sua contratação. Com o clube da zona de Londres a disputar o escalão máximo inglês, Vinnie Jones, mesmo sendo um estreante nesse contexto competitivo, consegue adaptar-se rapidamente. O seu estilo agressivo, imagem que o havia de acompanhar durante o seu trajecto profissional, encaixava perfeitamente na filosofia do grupo. O plantel, que contava com jogadores como Dennis Wise ou John Fashanu, acabaria por ficar conhecido pelo futebol (demasiado) musculado e apelidado de “Crazy Gang”.
Durante os anos em que vestiria as cores do Wimbledon, as contendas com outros jogadores seriam a imagem de marca não só de Vinnie Jones, mas também de muitos dos seus colegas de equipa. Momentos como os do médio a apertar os testículos do Paul Gascoine ou a entrada sofrida por Eric Cantona durante uma eliminatória da FA Cup de 1993/94, haveriam de correr mundo. Lances como esses, mesmo tendo em conta a extrema brutalidade, não eram casos excepcionais. Agressões sem bola e um sem-número de outro tipo de ataques e insultos transformar-se-iam em algo de cariz rotineiro. Nisto de “pancadaria”, e numa altura em que já jogava pelo Chelsea, não podemos esquecer aquele que é um dos seus recordes. Numa partida para a Taça de Inglaterra, disputada frente ao Sheffield United, o antigo futebolista haveria de ter uma entrada duríssima sobre um adversário. Até aqui, nada de extraordinário. O curioso é que o lance ocorreria aos 3 segundos de jogo e valeria a Vinnie Jones o cartão mais rápido da história do futebol.
O Wimbledon, durante os anos do já referido “Crazy Gang, até conseguiria classificações interessantes no campeonato inglês. Para além desse sucesso, a carreira de Vinnie Jones também seria marcada pelo alcançar de outras metas. As internacionalizações pelo País de Gales seria um desses êxitos. O outro, talvez o maior, acabaria por ser a vitória na edição de 1987/88 da Taça de Inglaterra. No decisivo encontro, ao Wimbledon calharia defrontar o poderoso Liverpool. Em Wembley, e contra todas as probabilidades, um golo de Lawrie Sanchez seria suficiente para vencer a referida final.
Num percurso que também passaria pelo Leeds United, Sheffield United, pelo já referido Chelsea e ainda pelo Queens Park Rangers, muitas polémicas haveriam de surgir. Extra-futebol, a sua participação como cicerone no documentário “Soccer’s Hard Men”, valer-lhe-ia uma valente suspensão. Acusado de desonrar o jogo, o jogador haveria de ser banido por 6 meses.
Já depois de, no final de 1998/99, ter posto um ponto final na sua carreira. Vinnie Jones notabilizar-se-ia numa actividade completamente diferente. Mormente escolhido para abraçar papéis de vilão, o antigo futebolista tem conseguido notabilizar-se pelos trabalhos como actor. Tendo feito parte de inúmeros elencos, a seu currículo no cinema conta com a presença em filme com “Snatch”, “Lock, Stock and Two Smoking Barrels” ou em “X-Men: The Last Stand”.

743 - FLÁVIO MEIRELES

Natural de Ribeira de Pena, distrito de Vila Real, seriam os encontros entre o clube local e o Vitória de Guimarães que acabariam por transformar a vida de Flávio Meireles. Agradados com as suas capacidades, os responsáveis vimaranenses remeter-lhe-iam um convite para treinar à experiência. Confirmados os seus atributos, o jovem desportista, de apenas 14 anos, muda-se para a “Cidade Berço” e junta-se às “escolas” vimaranenses.
Já depois de completar a formação, a sua entrada na equipa principal seria tudo menos consensual. Essa transição, sem que conseguisse conquistar um lugar, levá-lo-ia a cirandar por emblemas como o Moreirense e o Fafe. Após esses primeiros anos, sempre a disputar as divisões inferiores do nosso futebol, Flávio Meireles ainda mereceria nova oportunidade. Apesar da chance dada, o desfecho acabaria por ser o mesmo. O médio defensivo ver-se-ia afastado do Vitória de Guimarães e, mais uma vez, no trilho dos emblemas que o tinham acompanhado nos primeiros anos de sénior.
No final de 2002/03, e numa altura em que, a título definitivo, estava ligado ao Moreirense, ressuscita-se o interesse do seu antigo emblema. Com 26 anos, Flávio Meireles era, por essa altura, um dos pilares do conjunto de Moreira de Cónegos e um dos principais responsáveis pela caminhada do emblema até à 1ª divisão. É nesse contexto que surge então a proposta para regressar ao Vitória de Guimarães – “Volto com grande orgulho ao clube do meu coração, pois foi o Vitória que me formou como jogador e como homem. Estou muito feliz pelo regresso e determinado em triunfar num plantel de grande qualidade e num clube cujas ambições são sempre altas. Ainda por cima, esta é uma época especial, pois vamos jogar no renovado estádio, que é praticamente novo, devido ao Europeu de 2004”*.
Já depois de concretizada a transferência, o jogador, ao contrário do que, até então, tinha acontecido, consegue consolidar-se no plantel e acaba por transformar-se numa das lendas do clube. Abnegado, a sua faceta combativa faz com que, rapidamente, conquiste um lugar no “onze” principal. Todavia, e comum a muitos jogadores de apanágios semelhantes, as suas características passam a valer-lhe a fama de agressivo. Ainda assim, e mesmo tendo em conta as frequentes admoestações, Flávio Meireles cimenta-se como um elemento preponderante. Consequência desse estatuto, torna-se num símbolo para colegas e adeptos e, nos anos vindouros, acompanha o Vitória de Guimarães em todos os altos e baixos do seu percurso.
Nisto de sucessos e desaires, o trinco viveria de tudo. Como mero jogador ou já com a responsabilidade de capitão, Flávio Meireles ajudaria a escrever vários capítulos da história do clube. A descida de divisão, em 2006, terá sido o pior momento. Depois, logo no ano do regresso ao escalão máximo do futebol português, veio a 3ª posição e a conquista de um lugar na pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Finalmente, e naquela que viria a tornar-se na sua derradeira época como futebolista (2010/11), vem a presença na final da Taça de Portugal.
Depois da partida no Estádio Jamor, em que o FC Porto derrotaria os minhotos, Flávio Meireles decide “pendurar as chuteiras”. Contudo, a paixão que tinha pelo clube, não o deixa afastar-se. Logo no começo da temporada seguinte, o antigo jogador assume o cargo de treinador-adjunto. Nessas funções, não chegaria a estar nem um ano, pois, em Maio de 2012, seria nomeado como director-desportivo.Já no referido cargo, ajudaria o Vitória de Guimarães à conquista da Taça de Portugal de 2012/13.

 
*retirado do jornal "Record", artigo de 19/06/2003

742 - GATTUSO


Congregar no mesmo “onze” alguns jogadores é, na verdade, saber transformar meras partidas de futebol em momentos (e caneladas) inesquecíveis. Duplas como Dennis Wise e Vinnie Jones (Wimbledon), Jorge Costa e Paulinho Santos (FC Porto) só poderiam ser ultrapassadas, no que ao terror e pancada diz respeito, se conseguíssemos juntar na mesma equipa Marco Materezzi e Gennaro Gattuso. Pois bem, isso até já aconteceu!!!
Gattuso apareceu no futebol com as cores do Perugia. No emblema do centro de Itália, o médio cresceria ao lado de alguns nomes históricos do “Calcio”. Todavia, e como o próprio já o referiu, seria com o antigo central que acabaria por criar fortes laços de amizade – “O Marco foi o meu grande irmão dessa altura (…). Ele levava-me para todo o lado, no seu carro, porque eu ainda não tinha carta de condução, e até me ajudou com dinheiro”*.
Sem grandes oportunidades na Serie A, é no Verão de 1997 que o jogador decide tentar a sua sorte no estrangeiro. Tão novo era, que, com os seus 19 anos de idade, torna-se no atleta mais jovem de sempre a deixar o seu país. Já em Glasgow, vestiria as cores do Rangers e… encontrar-se-ia com Paul Gascoine!!! Ora, as praxes do antigo internacional inglês, tornar-se-iam recorrentes – “Uma vez, estou a equipar-me no balneário para um treino quando toco nos meus calções e noto-os mais pesados que nunca. E é aí que vejo que ele borrou-se no meio dos meus calções”*. Ainda assim, e ao contrário do que possa pensar-se, esta, tal como outras peripécias, acabariam por facilitar a integração de Gattuso.
No que seria o seu processo de adaptação, também a forma como jogava ajudá-lo-ia a afirmar-se na Escócia. Ríspido na disputa de qualquer bola, a sua agressividade adaptava-se bem à cultura futebolística daquele país. Walter Smith rapidamente entende essa mais-valia e, com bastante frequência, começa a incluí-lo no “onze” titular. No entanto, a mesma impetuosidade que o ajudava acabaria por trazer-lhe alguns dissabores. Um deles ocorreria no seu primeiro “Old Firm”. Nesse “derby” de Glasgow, tendo sido chamado ao alinhamento inicial, Gattuso consegue o impensável. Ainda durante os primeiros instantes de jogo, vê um amarelo. Depois, passados apenas 10 minutos, volta a incidir no disparate e, com mais uma cartolina, acaba por ser expulso.
O entendimento que Dick Advocaat, técnico que substituiria Walter Smith, tinha acerca da sua utilidade em campo, faria com que Gattuso, a meio da temporada de 1998/99, decidisse voltar para Itália. No Salernitana, e apesar da fraca prestação colectiva, as boas exibições individuais levariam a que o AC Milan, no final dessa mesma época, decida contratá-lo. Nos “Rossoneri” a sua carreira iria mudar radicalmente. Durante os 13 anos em que representaria o clube do seu coração, Gattuso partilharia o balneário com as mais diferentes estrelas do futebol mundial. Rui Costa, Maldini, Boban, Pirlo, Zlatan Ibrahimovic, Kaká e Shevchenko são apenas alguns dos nomes que ajudariam o médio a construir um currículo invejável. Para além de 2 “Scudettos”, 1 “Coppa” de Itália, 2 “Supercoppa”, também no plano internacional a sua carreira ficaria marcada pelo sucesso. Nesse campo, títulos como as 2 “Champions League”, 2 Supertaças da UEFA e 1 Mundial de clubes só seriam equiparados à conquista conseguida com a selecção italiana. No Mundial de 2006, torneio que ficaria marcado pelo desentendimento entre Zidane e o seu amigo Materazzi, essa mesma final daria a Gattuso o mais prestigiante troféu da sua vida como profissional.
É claro que, paralelamente ao sucesso desportivo, a sua carreira haveria de ser marcada pela excessiva agressividade. Querelas com colegas, adversários, treinadores e quem mais se atravessasse no seu caminho, seriam o alimento predilecto de todos os pasquins desportivos. Espantosamente, esse seu mau génio manter-se-ia mesmo depois de ter abraçado as funções de treinador. Já depois de no Sion, em 2012/13, ter feito a transição dos relvados para o “banco”, Gattuso passaria pelo comando do Palermo e OFI Creta. Seria, no entanto, já ao serviço do Pisa que novo episódio preencheria os cabeçalhos dos jornais. No final da época passada (2016/17) e no jogo que viria a decidir a subida do seu clube, o antigo internacional, exaltado com o desenrolar da partida acabaria por agredir o seu próprio adjunto!


*adaptado da entrevista de Rui Miguel Tovar, em www.observador.pt, a 08/12/2016

741 - TAHAR EL-KHALEJ

Tendo ganho fama ao serviço do Kawkab, clube pelo qual conseguiria sagrar-se campeão de Marrocos, Tahar cria a reputação de ser um dos melhores jogadores a actuar no seu país. Este facto, aliado às constantes convocatórias para a selecção, faz com que o seu prestígio comece a aumentar. As chamadas à CAN de 1992 e, posteriormente, ao Mundial de 1994, serviriam apenas para reavivar a ideia de que o jogador já merecia uma mudança na sua carreira.
A transferência acabaria mesmo por acontecer. É então, na União de Leiria que surge a “porta” que permitiria ao atleta fazer a sua estreia na Europa. Mesmo tratando-se de um emblema modesto – lembre-se que o clube, nesse ano 1994, tinha conseguido a promoção à 1ª divisão – a verdade é que para Tahar esta era a oportunidade de mostrar as suas habilidades num contexto competitivo de maior valor.
No campeonato português, Tahar afirma-se como um jogador determinado e muito aguerrido. Tendo até começado por posições mais avançadas, é nas estratégias defensivas que o jogador acaba por melhor conseguir expor as suas qualidades. Como “trinco”, mas podendo também ocupar um lugar no centro da defesa, o internacional marroquino seria peça fulcral nas boas campanhas do clube leiriense.
Duas temporadas após a sua chegada a Portugal, é então que o Benfica decide apostar na sua contratação. Com 28 anos de idade, Tahar daria o maior passo no seu percurso como profissional. Na “Luz”, com o clube a atravessar uma das piores fases da sua história, a vida do médio nem sempre foi fácil. Por razão da sua excessiva agressividade, as constantes expulsões acabam por fazê-lo desperdiçar muitas das chances conseguidas. Ainda assim, e durante os primeiros anos, o jogador acaba por cotar-se com um dos mais utilizados e merece a chamada ao Mundial de 1998. Todavia, a sua situação acabaria por alterar-se. Com a chegada de Jupp Heynckes, a sua impetuosidade começa a merecer algumas críticas. Após um empate caseiro frente ao Boavista, em que Tahar, com um duplo amarelo, é expulso cerca de 20 minutos após “saltar do banco”, o técnico alemão como que perde a paciência – “Como é óbvio, não apreciei a expulsão de El Khalej. É uma situação que não deve suceder a um profissional como ele. Por intermédio de Chano, avisei-o antes da expulsão para não efectuar faltas tontas. Isso não deve tornar a acontecer. Ele sabe-o, pois já falámos sobre o assunto”*.
O último jogo realizado com a camisola das “Águias” haveria de ser a derrota por 7-0, frente ao Celta de Vigo. Depois desse jogo no Estádio de Balaídos, Tahar enfrentaria um longo período sem ser chamado às opções de Jupp Heynckes. Em Março de 2000, vinda de Inglaterra, surge a opção para dar continuidade à sua carreira. Depois de alguns jogos à experiência, Tahar consegue convencer Glenn Hoddle e acaba por assinar pelo Southampton.
Já nos “Saints”, Tahar mantém toda a sua fogosidade. Mesmo num futebol conhecido pela sua dureza, a rispidez do jogador acaba por trazer alguns dissabores. Um dos episódios mais polémicos na sua passagem pela “Premier League”, acabaria por ser um lance com Kieron Dyer. Numa entrada duríssima, Tahar acaba por magoar o atleta do Newcastle. A lesão, bastante grave, haveria de pôr em dúvida a presença do internacional inglês no Mundial de 2002. Irritado com a situação, Dyer ainda ameaça processar o atleta marroquino – “Eu estava extremamente zangado porque pensei que a bola já estava longe e ele teve apenas uma intenção – deitar-me abaixo (…). Se as minhas chances de ir à fase final, forem roubadas por aquela entrada, vai ser muito difícil aceitá-lo (…). Se o perdoo-o? Se for à fase final do Mundial, então, sim. É tão simples quanto isso. Se vou tomar alguma acção legal? Não decidi e estou a deixar tudo em aberto, neste momento”**.
Já depois de, no decorrer da temporada de 2002/03, ter sido emprestado ao Charlton, Tahar decide terminar a sua carreira como desportista. O seu regresso a Marrocos e a Marraquexe, dar-lhe-ia a oportunidade para retomar a sua ligação ao futebol. Como Presidente do Kawkab, o antigo jogador acabaria por ajudar o clube que o lançou, a regressar ao patamar principal daquele país.

 
*retirado da reportagem de Nuno Pombo no jornal “Record”, a 31/10/1999
**retirado da reportagem do jornal “The Guardian”, a 20/05/2002

740 - ROY KEANE

Apesar de hoje reconhecermos o valor da sua carreira, a verdade é que o início da mesma seria tudo menos fácil. Com uma constituição física pouco impressionante, Roy Keane, ainda durante a adolescência, haveria de ser recusado pelos mais diversos treinadores. Chumbado nos testes para os “schoolboys” irlandeses, o passo seguinte seria tentar ser aceite por um clube em Inglaterra. Nessas tentativas, o tal entrave físico, mais uma vez, haveria de barrar aquele que era o seu grande sonho. Todavia, e como haveria de demonstrar nos anos vindouros, a sua tenacidade impedi-lo-ia de desistir.
Ao contrário do que é possível entender pelo parágrafo anterior, as tentativas de embicar a sua vida futebolística para um patamar profissional, nunca impediram Roy Keane de praticar a modalidade que tanto o apaixonava. Parte integrante das camadas jovens do Rockmount, o jovem jogador, curiosamente, até era tido como um dos grandes craques da equipa. No entanto, e ao invés de outros que acabariam por conquistar as suas oportunidades, o médio, na hora de mostrar o seu real valor, acabava sempre por claudicar.
Esta sina acabaria por mudar aquando do convite dos responsáveis do Cobh Ramblers. O emblema da zona de Cork, ainda que semi-profissional, tornar-se-ia na rampa de lançamento para um percurso memorável. Rapidamente, as suas exibições começariam a chamar a atenção de outros clubes. É na sequência desta evolução que, por convite de um dos “olheiros” do Nottingham Forest, Roy keane acaba a treinar-se às ordens de Brian Clough. Tendo agradado, o destino do médio acabaria por ser apontado, em primeiro lugar, à equipa dos s-21. Depois chegaria a oportunidade nas “reservas”, para, finalmente, conquistar um lugar no plantel principal.
A estreia na primeira equipa do Nottingham Forest ocorreria logo no ano da sua chegada. A temporada de 1990/91, muito mais do que proporcionar ao jogador algumas oportunidades, acabaria por revelá-lo com um elemento de enorme preponderância. Brian Clough, rendido às capacidades do “trinco”, acabaria por afiançar-lhe a titularidade. Não tendo decepcionado, Roy Keane, ao longo dessa época, conseguiria manter esse estatuto. Já com o ano desportivo quase a terminar, e a testemunhar todo o seu crescimento, é então que surge a primeira chamada à principal selecção irlandesa. Depois desse “amigável” frente ao Chile, o seu caminho fica traçado e o sucesso começa a avistar-se.
Muito mais do que qualquer outra camisola por si envergada, aquela que mais sublinharia as suas excelsas qualidades seria, sem sombra de dúvida, a do Manchester United. Após, nas 3 campanhas realizadas pelo emblema de Nottingham, ter convencido Alex Ferguson, o “internacional” irlandês mudar-se-ia para Old Trafford. Aí, e como parte influente num dos melhores períodos da história do emblema, Roy Keane transformar-se-ia num atleta de classe mundial.
Nem só os títulos fariam de Roy Keane um dos elementos de maior importância no percurso dos “Red Devils”. A sua entrega, incontestável, faria dele um exemplo para os demais colegas. Já como capitão de equipa, a motivação que mostrava em campo era a mesma que exigia dos outros elementos do plantel. É verdade que essa sua atitude, nem sempre trouxe os melhores resultados. Algum exagero na postura, talvez empolada pela visibilidade que o clube ainda hoje merece, acabaria por denegrir um pouco a sua imagem. Apesar de adorado pelos adeptos e de merecer a confiança do corpo técnico, foram comuns as suas altercações com colegas e adversários. Já numa fase mais adiantada da sua carreira, quando as mazelas físicas e o avançar da idade começaram a impedir o jogador de atingir as metas de outrora, essa faceta quezilenta tornar-se-ia ainda mais evidente. Como Alex Ferguson recordaria – “A energia que o Roy despendia nos jogos era verdadeiramente excepcional, mas quando tu entras nos teus trintas é difícil de compreenderes onde estás a errar (…). Ficou claro para nós que já não estávamos a lidar com o mesmo Roy Keane. (…) Tentámos alterar o seu papel, desencorajando-o de carregar pelo campo fora e de fazer tantas corridas para a frente (…). Acho que ele conseguia ver a verdade naquilo que lhe dizíamos, mas render-se a isso era uma grande afronta ao seu brio”*.
A sua relação com os colegas e responsáveis técnicos denegrir-se-ia até ao ponto de ruptura. Constantes discussões, exigências e posturas caprichosas atingiriam o seu ponto mais alto com uma polémica entrevista ao canal televisivo do clube. Na conversa com os jornalistas, Roy Keane criticaria tudo e todos. A sua intervenção seria tida como uma afronta imperdoável e, a meio dessa temporada de 2005-06, acabaria por levar à sua transferência para o Celtic.
Com o Manchester United, Roy Keane venceria 7 “Premier Leagues”, 4 “F.A. Cups”, 4 “Community Shields”, 1 Taça Intercontinental e 1 “Champions”. Já a mudança para a Escócia marcaria o fim da sua carreira. Em Glasgow, longe das exibições que o haviam delineado como um grande atleta, passaria os últimos meses daquela que seria a sua derradeira época como futebolista. Ajudaria a conquistar a “dobradinha” e, na transição para a temporada seguinte, passaria a assumir novas funções no futebol. Tendo começado como treinador principal, o antigo jogador tomaria as rédeas do Sunderland. Alguns anos mais tarde, acabaria também por passar pelo comando do Ipswich. Contudo, e ao que consta, o seu feitio eruptivo tem-no impedido de melhores resultados. Ainda assim, e após um interregno, durante o qual trabalharia como comentador televisivo, a Federação irlandesa endereçaria um convite a Roy Keane. Como adjunto, o antigo jogador tem continuado a dar o seu contributo no futebol. Como curiosidade, temos ainda a sua passagem pelo corpo técnico do Aston Villa, em simultâneo com o compromisso arcado com a selecção do seu país.


*adaptado do livro “Alex Ferguson, my autobiography”, por Sir Alex Ferguson

BAD BOYS

"Bad boys, bad boys
What'cha gonna do, what'cha gonna do
When they come for you?"*


 *retirado da música "Bad Boys", de Inner Circle, lançada em 1987

739 - RICARDO ROCHA

Depois de um período de formação onde passaria por diversos emblemas, é o regresso ao Famalicão que, em 1997/98, marca o começo da sua caminhada como sénior. Ainda a actuar na 2ª divisão “b”, as boas exibições do defesa levariam a que o Sporting de Braga apostasse na sua contratação. Ainda assim, e mesmo sendo tido como um bom investimento, Ricardo Rocha, ao invés de ser colocado no plantel principal, acabaria a trabalhar com os “bb” bracarenses.
Após a época de estreia na “Cidade dos Arcebispos”, e de uma segunda em que, na primeira equipa, começaria a aparecer com relativa frequência, é a temporada de 2001/02 que, em definitivo, o põe nas “bocas” do futebol nacional. Extremamente seguro na hora de defender, Ricardo Rocha mostrava qualidades que, ao contrário de muitos dos seus colegas de posição, também faziam com que a bola, sempre que na sua posse, fosse o mais “bem tratada” possível. Esses predicados, que haveriam de pô-lo na primeira linha de escolhas do Sporting de Braga, acabariam por ser os mesmos que atrairiam os responsáveis do Benfica. Sendo os “Encarnados”, como o próprio haveria confessar, o “clube do seu coração”, a mudança para a “Luz” como que tomaria contornos de inevitabilidade. A estreia acabaria por acontecer no Verão de 2002 e, desde logo, o central afirmar-se-ia como um dos principais elementos da equipa.
Incontornavelmente, terei de referir os títulos como os pontos mais altos da sua passagem pelo Benfica. Também é certo que houve outros momentos bem marcantes. Ora, sendo Ricardo Rocha um atleta que, pelas suas aptidões técnicas, podia ocupar diversas posições na defesa, um desses episódios acabaria por estar relacionado com uma adaptação – “Embora o ‘mister’ alternasse entre mim e o Anderson a central, com a lesão do Nélson, faltavam opções naquela posição e, embora com dúvidas, Koeman chamou-me ao gabinete e disse que ia apostar em mim a lateral-direito no jogo antes da Champions, para a Liga, precisamente com o Braga. Como a experiência correu bem, tive a oportunidade de defrontar o melhor jogador do mundo na altura, Ronaldinho Gaúcho. Lembro-me perfeitamente na altura de tanto adeptos, como comentadores dizerem que era um erro eu jogar, que ao fim de 10 minutos seria expulso. A verdade é que fiz um grande jogo, sem cartões e sem uma única falta feita”*.
Resultado dos troféus ganhos, presença na Liga dos Campeões e das chamadas à selecção nacional, Ricardo Rocha vê a sua cotação a aumentar. Nesse sentido, o assédio por parte de outros emblemas começa também a sentir-se. É já com 1 Taça de Portugal (2003/04), 1 Campeonato (2004/05) e 1 Supertaça (2005/06) que, a meio da temporada de 2006/07, o jogador deixa Lisboa para viajar até Londres. Ao serviço do Tottenham, muito por culpa das lesões, Ricardo Rocha vê-se posto de parte. Apesar das propostas de outros emblemas, inclusive de Portugal, os responsáveis do clube londrino teimariam em não deixar sair o atleta. Praticamente sem jogar durante os 2 anos e meio de vínculo, só mesmo no final do contrato é que o defesa conseguiria ir em busco de um novo rumo.
A solução apareceria vinda da Bélgica. Com László Bölöni aos comandos do Standard de Liège, a ida de Ricardo Rocha para aquele país tornar-se-ia fácil. Com o clube a atravessar uma boa fase, como comprova a presença na “Champions”, o atleta conseguiria projectar-se de tal modo que, após meio ano afastado de Inglaterra, volta a receber nova proposta de “Terras de Sua Majestade”. Desta feita, o convite apareceria do Portsmouth.
Mesmo estando à beira de uma crise financeira, ainda assim, o emblema do Sul do país, nessa temporada de 2009/10, conseguiria o feito de atingir a final da Taça de Inglaterra. Nessa caminhada, destaque para o embate nas meias-finais com o Tottenham, o antigo clube de Ricardo Rocha – “Graças a Deus, ganhámos o jogo por 2-0 e eu fui considerado o melhor jogador em campo, o que me deu uma satisfação do outro mundo!”*.
Com a queda do Portsmouth nos escalões secundários, também a carreira de Ricardo Rocha começou a entrar na fase descendente. Já depois de ter sido distinguido pelo clube com o prémio de Jogador do Ano, o atleta acabaria por deixar o Fratton Park no final desse 2011/12. Entretanto, sem conseguir arranjar novo clube, o jogador começaria a treinar à experiência noutros emblemas. Ipswich Town e Leeds United acabariam por ser testes falhados. Nisto dá-se o regresso ao Portsmouth e, com o terminar da temporada de 2012/13, o ponto final na sua vida como futebolista.


*retirado da entrevista em “grandecirculo.net”, a 24 de Outubro de 2014

738 - CARLOS CARNEIRO

Produto das escolas pacenses, Carlos Carneiro, durante os seus primeiros anos como sénior, iria alternar a sua presença na Mata Real com alguns empréstimos a outros clubes. Depois de uma primeira cedência ao Lousada (1994/95), eis que um par de anos a disputar um lugar no plantel do Paços de Ferreira, dava a entender que a sua continuidade no grupo era um dado adquirido. Contudo, a meio da temporada de 1997/98 mais um empréstimo na calha e, desta feita, o avançado partiria para o Sporting da Covilhã.
De volta da cidade beirã, Carlos Carneiro teria a oportunidade de aumentar a sua influência nas estratégias da equipa. Forte fisicamente e com um bom sentido posicional, o atacante acabaria por ser parte importante no assalto à 1ª divisão. O regresso dos “Castores” ao escalão máximo do futebol nacional (2000/01), permitiria ao ponta-de-lança fazer a sua estreia no referido patamar. Os anos que se seguiriam, com o atleta a jogar com bastante regularidade, fá-lo-iam cimentar-se como um dos bons avançados a actuar em Portugal. Nisto, o assédio de outros clubes fazem com que a sua cotação comece a aumentar. Ao Paços de Ferreira começa a ser difícil segurar o jogador e, no Verão de 2003, Carlos Carneiro acaba por partir em direcção a um novo desafio.
A sua ida para Guimarães acabaria por não correr como desejado. Tapado por outros colegas, casos de João Tomás ou Elpídio Silva, os espaços deixados no “onze” não seriam muitos. É então, a meio da temporada de 2004/05, que surge o convite do Gil Vicente. Em Barcelos, regressa às boas exibições. Carlos Carneiro volta a cotar-se como um bom ponta-de-lança, e esse facto relança-o no mercado das transferências.
Com muitos futebolistas a migrar para o campeonato helénico, a ida do jogador para a Grécia não foi, de todo, uma surpresa. Todavia, a sua passagem pelo Panionios, onde iria encontrar-se com o ex-sportinguista Luís Lourenço, acabaria por tornar-se numa espécie de mudança de paradigma. Mostrando, nos anos antes à sua mudança, estar em franca ascensão, aquela que seria a sua primeira experiência no estrangeiro, não revelaria mais do que um atleta a entrar na última fase da carreira.
Após a passagem pela Grécia, e tal como com Jorge Leitão, Carlos Carneiro faria dos ingleses do Walsall a sua tentativa para relançar-se no mundo do futebol. No entanto, e depois de ter agradado durante o período experimental, eis que uma lesão no ombro acaba por afastá-lo das escolhas do treinador.  A solução, acordada entre o atleta e o clube, acabaria por levar à rescisão do contrato. Esta situação leva-o a um regresso ao Paços de Ferreira, onde mais um incidente acaba por pôr em risco a continuidade da sua carreira. Apanhado, numa partida referente à 29ª jornada de 2007/08, num controlo anti-doping, o avançado vê confirmada a sua suspensão de 4 meses. Depois de cumprido o castigo, o avançado ainda jogaria durante mais duas temporadas, nas quais vestiria as camisolas de Paços de Ferreira, Vizela e Penafiel.
Após retirar-se dos relvados, não demorou muito para que Carlos Carneiro retornasse ao futebol. Desta feita como director-desportivo, o antigo futebolista voltaria ao Paços de Ferreira. Por lá ficaria alguns anos, ajudando, durante esse período, o clube a atingir o 3º lugar e a pré-eliminatória da Liga dos Campeões. No desempenho das funções já referidas, acabaria por ser ao serviço do Tondela que, já no decorrer desta temporada de 2016/17, voltaria a mostrar-se ao desporto português.