258 - CHALANA

Já longe ia a sua estreia pelo Benfica quando, a 14 de Junho de 1984, Portugal, no Estádio La Meinau em Estrasburgo, entrou em campo pela primeira vez num Europeu. No seu onze, envergando nas costas o número 4, jogava um pequeno extremo esquerdo que, nesse torneio, iria espantar o mundo do futebol. A uma escala bem diferente, cá dentro das nossas fronteiras, já Chalana, muito novo ainda, havia despertado a atenção daqueles que acompanhavam a modalidade. Ansiosos por o contratarem, não foram necessários mais do que meia dúzia de partidas para que os responsáveis encarnados ficassem convencidos a pagar por ele, um júnior, 750 contos. Assim, seis jogos depois, Chalana deixava o Barreirense, clube onde ficou após ter sido chumbado pela CUF, atravessando o Tejo em direcção à margem norte e a um dos colossos do futebol nacional. Na Luz, como talento precoce que era, também não demorou até que o promovessem das camadas jovens para o seio do plantel principal. Ao substituir Toni num encontro com o Farense, Chalana iniciava a sua caminhada nos seniores. Os seus 17 anos não haveriam de ser travão para que nesse ano de 1976, comemorasse os títulos de campeão em ambos os escalões. Muito menos a sua tenra idade, impediu José Maria Pedroto, logo no Novembro seguinte, de o chamar à estreia nas convocatórias da selecção "A". Daí em diante, o manancial de fintas que apresentava tornou-se, cada vez mais, essencial para o sucesso de ambas as camisolas que habitualmente vestia, a do Benfica e a do seu país. Como um dia dele disse Mário Wilson - “Ele é futebol da cabeça aos pés. Sim, ele é todo futebol. É senhor de intuição extraordinária para jogar à bola. Um rapaz capaz de solucionar qualquer problema. Além disso, não se envaidece. Por isso, Chalana é um craque”. Foi essa sua preponderância que ajudou o Benfica nos 5 campeonatos que ganhou entre 1976 e 1984. Foi esse seu modesto jeito de ser o melhor jogador português da altura, que conduziu o seu emblema à final da Taça UEFA em 1983. E, principalmente, foi a sua maneira abnegada que, no derradeiro e decisivo encontro da fase de qualificação para o "Euro" francês, o fizeram lançar-se, vezes sem conta, em direcção à defesa soviética, sofrendo, numa dessas ofensivas, a falta que resultaria na marcação do castigo máximo que apuraria Portugal para fase final.
Sim, ele era, decididamente, o elemento mais precioso do balneário benfiquista. No entanto, a sua maravilhosa campanha no Europeu de 1984, haveria de tornar impossível a sua permanência no nosso campeonato. 220 mil contos não se podiam recusar e Chalana acabou por rumar aos também gauleses do Bordeaux. Para o jogador tudo agora era diferente. Tanto a atenção dos "media", como o protagonismo dos cânticos adeptos com o seu nome, eram novidade para si. A verdade é que a sua experiência no estrangeiro, assolada que foi pelas lesões, saiu bem abaixo do expectável. As mazelas daí resultantes, mais uma vida privada atribulada, com o seu casamento e principalmente o divórcio, a serem devassados pela imprensa, acabariam por o diminuir tanto a nível físico como psicológico. O seu regresso ao Benfica, três anos depois da sua saída, sublinhariam apenas a fase descendente da sua carreira. Ainda venceria, em 1988, mais um Campeonato, mas o seu fim na alta competição estava à vista e esse viria, já depois de representar o Belenenses e o Estrela da Amadora, em 1992, contava Chalana com 33 anos.

257 - VÍTOR BATISTA

No primeiro dia na "Luz", na sua apresentação aos adeptos, intitulou-se "O Maior". Já no último golo pelo Benfica, um monumental remate à entrada da área, frente ao Sporting, pôs toda a gente à procura de um brinco perdido, impedindo o normal reinício da partida depois dos festejos. Pelo meio, muita daquela sua luta ao jeito de "Dr.Jekyll and Mr. Hyde", entre uma personalidade conturbada e o génio do futebol.
Nascido em meio desfavorecido na cidade de Setúbal, logo desde muito cedo as suas bem conhecidas facetas começaram a despontar. Ora vagueando no meio da prostituição, para quem, como o próprio contava, era moço de recados; ora participando em pequenos torneios da bola, o miúdo Vítor já era uma figura de destaque. Quem primeiro lhe deitou a mão, foi o Vitória da sua terra natal. Por lá começou a vincar a sua marca no mundo do desporto nacional, fosse pelo papel que teria, com apenas 18 anos, na conquista da Taça de Portugal de 1966/67, ou nos golos, 22 na sua última época no Bonfim, fosse também pelas suas excentricidades, como quando foi apanhado pelos colegas em frente a um espelho a perguntar - "Ó meu Deus, porque me fizeste tão belo?". O "gargantas", alcunha ganha por uma imensidão de semelhantes episódios de soberba, haveria de ser cobiçado por Sporting e Benfica. Depois de apalavrado com os "Leões", virou-se para o outro lado da 2ª circular, onde o clube, para o contratar, faria o maior esforço financeiro da sua história até então. 3 mil contos, mais 750 de "luvas" para o atleta, e a cedência de três das suas estrelas - Torres, Matine e Praia - fariam o negócio. De seguida, aquilo que aqui já se destampou: lances e golos de levantar estádios, cães presos à baliza durante os treinos, a adoração do público, grandes bólides e "chauffeur", muito futebol e outros tantos vícios. Foram mesmo as suas dependências que o levariam, já depois de terminada a carreira, ao mundo do crime. Condenado por roubo, cumpriria pena. Muitos foram os que nessa altura o tentaram ajudar, mas em vão. Já pouco existia do Vítor Batista que, nas Antas, por marcar 3 golos ao serviço dos "Sadinos", aposta ganha, ficara com o isqueiro de ouro do seu treinador, José Maria Pedroto. A toxicodependência e o álcool, deixariam-no, até à sua morte aos 50 anos, na maior das misérias. Resta a memória de um enorme futebolista e também, como recorda o seu grande amigo e colega no Vitória de Setúbal, Fernando Tomé - "um bom coração. No regresso a Setúbal, depois de jogar no Benfica, não quis jogo de apresentação. Preferiu uma tourada, que ele próprio organizou. A receita, fez saber, seria metade para ele e metade para o Asilo Paula Borba. Mas nunca houve tourada porque se esqueceu de arranjar os touros".

256 - BÓBÓ

Quando se fala nas equipas do Boavista que durante os anos 90, pisaram os relvados nacionais, há sempre presente uma faceta de luta impossível delas dissociar. Um dos primeiros responsáveis de que me lembro por sublinhar bem esta faceta batalhadora da equipa portuense, foi Bóbó. É inegável que ele era um jogador duro, daqueles que raras eram as ocasiões em que terminava uma partida sem o correspondente cartão amarelo. Mas longe da agressividade intempestiva e por vezes com laivos de loucura de alguns, Bóbó, sem dúvida e acima de tudo, foi um atleta incansável. Por essa mesma razão, é considerado um dos esteios, um verdadeiro pilar no meio campo defensivo, que permitiu aos "axadrezados" vogar durante anos a fio nos lugares de topo do Campeonato português. Ajudou-os a garantir muitas presenças nas competições europeias, foi figura essencial nessas mesmas campanhas e, como titular indiscutível, fez parte do grupo que venceu a Taça de Portugal em 1992.
Foi nessa mesma prova que o "trinco" havia de se estrear na conquista dos títulos maiores em Portugal. Representava na altura o Estrela da Amadora, clube que acabaria por ser como um novo impulso numa carreira que já antes tinha prometido muito, mas que em certa medida parecia andar adormecida. É que talvez muitos não saibam, mas o centro-campista começou por ser uma das apostas do FC Porto. Tendo subido à equipa principal "Azul e Branca" com apenas 18 anos, o guineense, com um empréstimo pelo meio ao Águeda, acabaria por pouco jogar. Seguiram-se outros primodivisionários, onde será impensável dizer-se que a sua prestação esteve longe do sucesso. Mas se tanto no Varzim, como no Vitória de Guimarães e também no Marítimo, talvez aqui não tanto na mesma medida, as suas qualidades sobressaíram, foi mesmo com o tricolor equipamento do emblema dos arredores de Lisboa e depois disso no Bessa, que Bóbó se alicerçou como um dos futebolistas de destaque na última década do século XX no nosso país.
Terminada que estava a sua carreira nos relvados, Bóbó continuou ligado ao futebol, tanto pela criação de uma escola na Guiné-Bissau, como a trabalhar na prospecção de novos craques. Aliás, foi esta sua nova função que o levaria a assinar contrato, como "olheiro", pelos londrinos do Chelsea.

255 - KLINSMANN

Dizem que por ter jogado em várias posições enquanto jovem, herdou delas todas as suas características. O que se constata é que Klinsmann conseguiu reunir em si toda uma série de qualidades excepcionais que iam desde a rapidez, a perseverança, uma excelente colocação, "endurance", capacidade de criar jogo, o instinto dos grandes goleadores e, acima de tudo, muita muita inteligência. Desta sua última faceta, a maior prova foi sempre o seu apurado sentido de humor. Ora, quando em Inglaterra o apelidaram de "diver" - mergulhador - a sua resposta foi, em cada golo marcado pelo Tottenham, correr na direcção da bandeirola de canto e mergulhar para a relva. O público adorou. Muitos foram os aplausos para o gesto que, de uma maneira tão britânica, acabaria por mostrar o seu desportivismo. Gostaram desta sua atitude, tal como gostavam da sua postura, não sei de de homem modesto ou de provocação para com os seus pares, que o levava, entre os bólides dos colegas, a estacionar o seu Volkswagen Carocha. Realmente, em 1994, quando chegou pela primeira vez à "Premier League", o ponta-de-lança não tinha necessidade de provar nada, muito menos de ostentar o seu sucesso de que maneira fosse. Em 1988, ao serviço do Stuttgart, já tinha sido eleito o Jogador Alemão do Ano; em 1990, havia ganho o Campeonato do Mundo, inclusive sofrendo a falta para penalti que, na final em Roma, derrotaria a Argentina de Maradona; e por fim, também em Itália, adicionaria ao seu currículo a Taça UEFA de 1991 conquistada pelo Inter de Milão.
Mesmo com créditos firmados, todos os vencedores têm sempre um pouco mais de ambição. Sabendo que maiores títulos só os conseguiria mudando de emblema, o avançado decide-se então pelo regresso ao seu país natal. Na terra da cerveja e das salsichas, ele que, por razão do negócio dos pais, até tinha tirado o diploma de padeiro, voltou à ribalta do futebol. Pelo Bayern de Munique, venceria, mais uma vez, uma Taça UEFA, a de 1996. Isto, exactamente no mesmo ano em que pela "Mannschaft" ergueria o troféu de Campeão Europeu de selecções, para logo na temporada seguinte, conseguir, igualmente envergando a camisola dos bávaros, o seu primeiro Campeonato Nacional de sempre.
Supostamente retirado de vez, ele que é casado com uma americana, resolveu fazer da Califórnia a sua casa. Contudo, enganaram-se os que pensavam que, depois das passagens pela Sampdoria e, novamente em Londres, pelo Tottenham, a carreira do ponta-de-lança tinha terminado. É que em 2003, o goleador decidiu fazer uma fugaz aparição ao serviço de um pequeno emblema norte-americano, os Orange County Blue Stars. Mas na verdade, Klinsmann tinha mesmo acabado, pois o atleta que ali se apresentava dava pelo nome - um heterónimo, está claro - de Jay Göppingen.

254 - SENINHO

Senhor de uma velocidade sem par - um dia cronometraram-lhe 10,8 segundos aos 100 metros e chamaram-lhe "o mais rápido da Europa" - e com arranques explosivos tão ou mais fenomenais, Seninho juntava essa sua característica física singular a uma capacidade de controlar o esférico, igualmente assombrosa. Foi essa simbiose perfeita que, em 1977/78, destruiu o intento do Manchester United em recuperar do 4-0 sofrido na primeira mão no Estádio das Antas. A segunda partida dos oitavos-de-final da Taça das Taças, em Old Trafford, não se perspectivava, apesar da excelente vantagem trazida da cidade do Porto, nada fácil. E se assim era esperado, assim se confirmou. Os "Red Devils", alimentados por um ambiente infernal, depressa se adiantaram no marcador. No entanto, quem não estava pelos ajustes era o extremo "azul e branco" - "fiz uma arrancada, driblei dois ou três adversários pela direita e rematei com o pé esquerdo, já perto da área". Estava feito o empate. Mas o arbitro, com tendências caseiras, entre, como recorda também o jogador, "golos irregulares, faltas e constantes empurrões" dificultava muito a vida aos portistas. O "placard" chegaria a registar, a 30 minutos do fim, 4-1, mas, mais uma vez, o português faria das suas. Desta vez "domino a bola, consigo fintar o guarda-redes (...), tentei enquadrar-me com a baliza, já que estavam dois adversários em cima da linha de golo (...). Depois meti a bola no buraco da agulha, por entre as pernas de um deles." O resultado acabaria por ficar 5-2, com Seninho, verdadeiramente, a fintar os ingleses. Quem também sairia desconsertado do do estádio seriam os emissários do New York Cosmos, que naquela noite até iam para ver jogar António Oliveira. Quem afinal na partida se destacaria seria Seninho, e os observadores, agradecidos por tal engano, logo na manhã seguinte fariam chegar aos responsáveis portistas uma proposta milionária. 20 mil contos depois, 12 para o jogador e 8 para o clube, mais um telefonema de Pelé a convencer o seu futuro colega a mudar-se, e o negócio estava fechado. O craque luso rumava ao outro lado do Atlântico, deixando para trás, para além de um rol de tentadoras propostas de grandes clubes do velho continente, o FC Porto, ao qual, vindo de Angola, chegara em 1969 e onde tinha já vencido dois Campeonatos, inclusive aquele que, 19 anos depois do último conquistado, punha o emblema da "Invicta" de volta à liderança.
Nos Estados Unidos, para além de um salário substancialmente maior ao auferido em Portugal, Seninho teria a oportunidade de partilhar o balneário, para além do já referido astro brasileiro, com estrelas como Beckenbauer, Neeskens, Carlos Alberto, entre outros. Financeiramente e também por todo o "glamour hollywoodesco" em que nasceu a Liga norte-americana, a experiência, por certo, terá compensado. Já no campo desportivo a história é outra. E Seninho que se transferiu, ao contrário da maioria dos jogadores famosos que lá foram parar, ainda no auge da carreira, acabaria perder alguma visibilidade para o "mundo" do futebol. Um dos resultados mais notórios desse afastamento foi o facto de a partir daí, nunca mais ter representado a selecção nacional.

253 - BALAKOV

Temos que concordar que só os mais afincados adeptos é que têm capacidade para acompanhar o futebol da Bulgária! E foram esses, de certeza, os únicos que em 1990 deram conta da surpreendente prestação do FC Etar no campeonato desse país do leste europeu. Pois bem, quem também parece que estava atento ao evoluir de um internacional búlgaro que aí jogava, foi Sousa Cintra. É verdade que poderá não ter sido o, à altura, presidente do Sporting a descobri-lo, mas o que interessa à nossa história é que foi ele que o contratou e apresentou à massa adepta leonina.
O tal emblema da cidade Veliko Tarnovo até acabaria por ser campeão nessa temporada, mas a sua estrela já se tinha mudado em Janeiro para Lisboa, e diga-se que em boa hora o fez, pois se por um lado, para Balakov, que já contava com 24 anos, foi a maneira de dar um salto quantitativo na sua carreira, para o Sporting também a transferência acrescentaria muita qualidade à sua equipa. A partir daí, inegavelmente, todos os que o viam jogar passaram a ser seus fãs. O médio-ofensivo entre fintas estonteantes, passes irrepreensíveis ou pontapés bombásticos, parecia desvendar a cada partida, um novo rol de habilidades. Muitos foram os seus lances que ficaram na memória, mas uns, às vezes por razões que extravasam o futebol, acabam por ser mais curiosos que outros. Um deles passou-se no "derby" maior da capital, corria a época de 1992/93. O encontro estava ainda no começo, mas para Balakov 12 segundos foram mais do que suficientes para mostrar aquilo de que era capaz e um potente remate de longe acabaria por pôr o 1 no "placard" ao lado do emblema de Alvalade. Agora o caricato disto tudo é que a SIC fazia a sua primeira transmissão em directo de uma partida de futebol e, como se recorda no livro de Rui Miguel Tovar, "101 cromos da bola", "o canal privado, que se estreava naquele dia nos jogos televisivos, só mostrou a nuvem de fumo dos petardos que a claque benfiquista tinha lançado".
Balakov deixaria o Sporting findos 5 anos. Na bagagem apenas levava a Taça de Portugal conquistada nessa sua derradeira temporada em Portugal, a de 1994/95. Numa altura em que o 4º lugar conquistado, um ano antes pela sua selecção, no Mundial dos EUA, já o tinha posto, definitivamente, nas "bocas do Mundo", o desafio que se aproximava era o de vencer ao serviço do Stuttgart. Efectivamente, faltaram também títulos nesta sua passagem pela Bundesliga. Contudo, ao fim de 8 épocas, o ganho ainda se saldou por uma Taça alemã, duas Intertoto e, claro, a presença na final da Taça das Taças de 1998.
Como treinador a sua carreira não tem sido tão virtuosa quanto a vivida nos relvados. Depois de ter começado como adjunto no Stuttgart, estreou-se como técnico principal, embora acumulando também as funções de jogador, nos germânicos do VFC Plauen. Após passagens pela Suíça (St. Gallen e Grasshoppers), pelo seu país natal (Chernomorets) e Croácia (Hajduk Split), regressou este ano à Alemanha, onde, nem passados que estavam 2 meses, acabaria por ser despedido do Kaiserslautern.

252 - ZÉ BETO

Destemido o quanto só os da sua posição sabem ser, Zé Beto, acima de tudo, era um guardião entusiasmante e muito feliz pela posição que desde sempre ocupou no terreno de jogo. Só por essa sua alegria em defender a baliza é que se entende o quanto lhe terá custado o tempo passado no banco, e nas bancadas, depois de ter sido promovido aos séniores do FC Porto. Mas Zé Beto era um lutador. Para ele, quase sempre titular nas camadas jovens, tanto nos "Dragões" como antes, no seu primeiro emblema, o Pasteleira, tinha de haver qualquer solução para o tirar da sombra de Fonseca e Tibi. Para começar, havia que ganhar alguma experiência. A solução mais lógica estava no empréstimo e o destino acabaria por ser o Beira-Mar. Depois de um bom ano em Aveiro voltaria às Antas para iniciar a época de 1980/81. No entanto, Fonseca continuava a ser o rei e senhor da baliza e o jovem guarda-redes o preterido. Com certeza que durante esses anos foi necessária da sua parte muita perseverança, principalmente para contrariar alguma ansiedade, resultado daquela que era a sua, sobejamente conhecida, intempestividade. Foi essa mesma falta de paciência que acabou por emergir na final da Taça da Taças de 1983/84, quando agrediu alguns dos elementos da equipa de juízes. A temporada até lhe estava a correr de feição. Finalmente, assinalados que estavam 3 anos sobre o seu regresso ao FC porto, conseguira a titularidade. Melhor ainda, fazia parte do "onze" "Azul e Branco" que se estreava numa final europeia. Mas essa partida de Berna frente à Juventus, havia de ser marcada por uma arbitragem polémica, que para além de validar um golo dos transalpinos precedido de uma falta, ainda viraria as costas a uma penalidade cometida na área dos italianos. No final do encontro, derrota consumada, Zé Beto dirige-se ao árbitro principal. Um dos seus fiscais-de-linha, ao aperceber-se dos maus intentos com que, para o colega, avançava o guarda-redes, pôs-se entre ambos, acabando por ser pontapeado duas vezes. Segundo contam as crónicas, para se defender de uma terceira investida, o "bandeirinha" usa a mesma, espetando-a na barriga do seu oponente. Zé Beto ainda mais se enerva e rouba o dito objecto das mãos do seu dono, arremessando-a, e aí é que surgem as discrepâncias nos diferentes relatos, ou para longe ou, como disseram outros, à cabeça do "chefe" da "equipa de negro". Com alguma condescendência, a pena acabaria por não ser tão pesada quanto talvez se esperasse. O jogador ficaria apenas um ano afastado de todas as competições organizadas pela UEFA, o que ainda assim, o retiraria dos convocados para o Euro de 1984 em França. 
À selecção só regressaria em 1986, e em abono da verdade se diga, um pouco também à custa da ressaca do caso Saltillo. Ironicamente, conseguiria a sua primeira internacionalização "A", numa altura em que no clube, Mlynarczyk começava a pôr em causa o seu domínio. Mesmo sentado no banco na maior parte dos encontros, Zé Beto é um dos nomes que ficará para sempre ligado às conquistas da Taça dos Campeões de 1987 e Intercontinental e Supertaça Europeia do ano seguinte.
A sua carreira haveria de terminar brutalmente em Fevereiro de 1990, quando, na sequência de um acidente de viação, perderia a vida. Para a história remanescerá na nossa memória um atleta que, muito para além do seu feitio peculiar, foi um futebolista de eleição.

251 - MÁRINHO

Sem ser dono de um físico impressionante, Márinho rapidamente entendeu a maneira de contornar o primeiro revés da sua vida como jogador. Preterido muitas vezes nas escolhas dos técnicos devido à sua baixa estatura, para o médio não havia outro remédio senão o de correr o dobro dos seus colegas. Foi esta sua entrega ímpar que logo desde novo o fez, numa altura em que a equipa da cidade dos "Arcebispos" militava ainda na 2ª Divisão, integrar o plantel sénior do Sp. Braga. Mas se a visibilidade do escalão secundário não era muita, já a promoção de que a sua equipa gozaria passadas algumas temporadas, deu-lhe outro alento à carreira. Primeiro viria a chamada à selecção portuguesa de "esperanças", ponto de partida para outros horizontes, e depois o salto para um dos "grandes", o Sporting. Em Alvalade foi com alguma facilidade que se impôs. Não era para admirar, pois Márinho tinha muito daquilo que qualquer treinador gosta: a já falada garra e ainda por cima alguma polivalência. Assim sendo, está bem que preferencialmente sempre se posicionou no miolo do terreno, Márinho tinha boas prestações em qualquer lado do meio-campo ou até, sempre que era necessário aí fazer uma "perninha", na defesa. A sua propensão ofensiva também era do agrado tanto de técnicos como de adeptos. Engraçado é que este sua tendência atacante nunca lhe trouxe muitos resultados, com o balanço a saldar-se em um golo durante os cinco anos de "leão" ao peito e pouco mais na restante carreira. A verdade é que nunca isso dos golos lhe foi pedido. O que se queria dele era que fosse o sustento, e também a rede de protecção, daqueles que mais à frente no relvado tratavam dessas questões da finalização. Pode dizer-se que cumpriu bem a tarefa. Foi um dos esteios da vitória no Campeonato Nacional de 1979/80, da conquista da "dobradinha" de 1981/82 e de uma Supertaça. A época que coincidiu com este último troféu, 1982/83, seria mesmo a sua derradeira em Lisboa. De seguida partiu para o Funchal e a fui já a representar o Marítimo que decidiu, com apenas 31 anos abandonar a sua vida de futebolista.

250 - PAULINHO SANTOS

É incontornável falar de Paulinho Santos sem referir as eternas disputas com os seus adversários. Estas, mais em jeito de batalha medieval do que em pratica desportiva, tornaram o vilacondense numa lenda do futebol nacional. Que o diga João Pinto, o tal do Benfica e Sporting, que tantas vezes sentiu na pele o que era ser seguido pelo "trinco" portista. Não sei se ambos o sentiam, mas para o público em geral, estes eram, desculpem-me a expressão, a personificação de dois inimigos mortais. Engraçado foi quando o seleccionador António Oliveira, por altura dos estágios que nos levaram ao Euro de 1996 em Inglaterra, tentou promover uma trégua entre os dois e os pôs a dormir juntos no mesmo quarto!!! O que se lá passou permanecerá para sempre um segredo, mas o que é verdade é que Portugal conseguiu a classificação e ambos os jogadores marcaram presença na competição, e já agora, com o médio defensivo "Azul e Branco" a jogar adaptado a lateral esquerdo. Claro está que nem sempre se saiu bem nestas suas lutas. Como todos os adeptos dos clubes lisboetas já se devem ter lembrado, houve aquele mítico embate na final da Taça de Portugal com outro dos seus grandes rivais, o argentino Beto Acosta. Nesse derradeiro encontro da edição de 1999/00 do troféu, à imagem de tantos outros encontros, os dois atletas já andavam pegados. Depois de uma maldade maior por parte de Paulinho Santos, o avançado leonino não se mostrou rogado e mais à frente na partida, em mais um ríspido lance, Acosta dá uma valente cotovelada na face do seu oponente deixando-o deitado no chão com uma fractura e com um bilhete de ida para o hospital.
Violência à parte, Paulinho Santos foi muito mais do que isto que já aqui contei. Nascido nas Caxinas e formado no Rio Ave, seria aí que também faria a sua estreia no futebol sénior. Como sempre fora um lutador, rapidamente o FC Porto nele reparou. Entrou para as Antas em 1992 e não precisou de muitos tempo para se impor como um dos elementos preponderantes dos "Dragões". Seria um dos mais utilizados, o terceiro para ser mais concreto, atrás de Aloísio e Drulovic, na campanha do pentacampeonato e no total das suas 11 temporadas de FC Porto participou em mais de 200 jornadas no Campeonato. O fim da sua carreira estará sempre marcado por duas situações inolvidáveis. A primeira a vitória na Taça UEFA de 2002/03 e a segunda, na sua derradeira presença nos relvados, um FC Porto-Sporting na última ronda, pela troca de camisolas com o aqui já falado João Pinto.
Agora em novas funções, é engraçado também aquilo que nos contam alguns dos seus antigos discípulos - "É muito diferente como treinador do que foi como jogador: nada maldoso e amigo do amigo. É excelente pessoa e ajudava a desbloquear situações de conflito."

249 - ALEXI LALAS

De ascendência grega, talvez a certa altura da vida, ao jovem Panayotis Alexander Lalas, tivesse surgido a ideia que teria de escolher entre que interesse seguir, a música ou o desporto. Mas em vez de decidir se haveria de se agarrar a qualquer coisa como ser um novo Demis Roussos ou pisar os passos da selecção campeã europeia de 2004 em Portugal, até porque o seu gosto o levava mais para o Rock, e para além disso, quando à ribalta do futebol se mostrou, ainda a equipa helénica era apenas uma sombra da que referimos, Alexi Lalas quis dar continuidade a ambas as paixões. Em certa medida até conseguiu. No "jogo da bola", logo desde início, mostrou ter capacidades que o destacavam dos demais: foi considerado em 1987 o jogador do ano no seu Liceu e anos mais tarde, já na Universidade (sim, porque o desporto escolar nos EUA é encarado de forma um pouco diferente do que estamos habituados), acabaria por ser o sustento da equipa da instituição onde estudava, os Rutgers Scarlet Knights.
Com 22 anos, isto já depois de nos Jogos Olímpicos de 1992 ter representado, longe do meu disparate grego, a selecção norte-americana, haveria de surgir a oportunidade de entrar para o Arsenal. Em Londres nunca conseguiu ser a aposta que dele se esperava e nunca passaria da equipa de reservas. Apesar deste revés, o sonho de jogar num emblema europeu haveria de tornar-se realidade quando, ao transferir-se para o Padova, tornar-se-ia no primeiro do seu país a envergar uma camisola da Serie A italiana. Apesar da equipa não ser das mais fortes, o grupo acabaria por conseguir a manutenção e aquele que tinha sido considerado uma das estrelas do Mundial de 1994, precisamente o tal disputado em "Terras do Tio Sam", haveria de se manter por lá durante mais uma  temporada. Em 1996 acabaria por regressar à Major Soccer League (MSL), onde, depois de passagens pelos New England Revolution, NY MetroStars e Kansas City Wizards, acabaria nos L.A. Galaxy. Seria mesmo na equipa Californiana, pela qual venceu em 2000 a "Champions" da CONCACAF, que Lalas, agora já em funções de "General Manager", seria um dos principais responsáveis pela contratação do astro britânico, David Beckham.
No que à sua vida nos palcos diz respeito, aquela que foi conseguindo manter paralelamente à do futebol, Lalas mais a sua banda, os "Gypsies", lançaram dois álbuns - "Woodland" e "Jet Lag". Depois disso prosseguiu a carreira a solo, a qual conta já com 4 discos editados.

CROMOS PEDIDOS 2012

Aproxima-se mais um aniversário do "Cromo sem caderneta" - dia 18 deste mês sopraremos 2 velas - e como tal, não poderíamos deixar passar esta data sem, mais uma vez, pedir ajuda a todos aqueles que nos vistam. Assim, à imagem daquilo que no ano passado fizemos e que queremos que se torne uma tradição, pedimos aos nossos leitores que connosco escolhessem os cromos a publicar. Lançámos uma lista inicial de 30 jogadores, aos quais foram sendo acrescentados mais uns quantos que, tão bem, foram sendo sugeridos. Desses, sendo os mais votados, houve dez que se destacaram. A lista que abaixo apresentamos representa isso mesmo, a preferência de quem nos acompanha. Por essa razão o mês de Junho vai ser totalmente feito com os "Cromos Pedidos".
 
1º   Chalana (35 votos)
2º   Vítor Batista (31 votos)
3º   Bóbó (14 votos)
      Klinsmann (14 votos)
5º   Seninho (12 votos)
6º   Balakov (10 votos)
7º   Zé Beto (9 votos)
      Marinho (9 votos)
      Paulinho Santos (9 votos) 
10º Alexi Lalas (8 votos)