1035 - GERALDÃO

Logo após chegar às “escolas” do Cruzeiro de Belo Horizonte, por razão da sua alta estatura, o jovem atleta acabaria por ser testado a avançado-centro. A conclusão da tal experiência revelaria que a melhor posição para Geraldão seria mesmo a defesa! Ainda assim, uma das qualidades que tinha levado o seu treinador ao referido ensaio, ser-lhe-ia muito útil para o resto da sua carreira. Bom de pés, o seu remate portentoso acabaria por tornar-se numa arma e em números nada comuns para alguém da sua posição.
Apesar de ter começado a treinar com equipa principal ainda em idade adolescente, só depois de um curioso empréstimo é que o defesa iria conseguir impor-se no conjunto de Minas Gerais. Após uma passagem de 2 anos pelo Al-Arabi, de onde traria o título de campeão do Qatar, o regresso ao Cruzeiro revelaria um atleta de competências superiores. A valentia física, o bom sentido posicional e a aptidão no jogo aéreo levá-lo-iam à titularidade. Em 1984 tornar-se-ia numa das referências do “onze” gaúcho. Nesse mesmo ano, ajudaria a quebrar a hegemonia do Atlético Mineiro, com a conquista do Campeonato Estadual. A façanha voltaria a repeti-la em 1987. Porém, seria o capítulo seguinte na sua carreira que mais títulos traria ao seu palmarés.
Numa altura em que o seu nome começava a ser um dos habituais nas convocatórias para a selecção do Brasil e já com a presença na Copa América de 1987 no horizonte, chegar-lhe-ia da Europa um novo desafio – “Estava com a selecção brasileira, era o capitão aliás, em Londres a jogar a Taça Stanley Rous. O FC Porto mandou lá alguém ver-me e quando dei por mim já estava a assinar”*. Acercar-se-ia da “Invicta” na temporada seguinte à conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1986/87. Ao comando dos “Dragões” estava Tomislav Ivic e como concorrentes ao lugar tinha Celso, Lima Pereira, Eduardo Luís e um jovem Fernando Couto. Todavia, nada do que era o contexto vivido nas Antas intimidaria o defesa. Logo nesse ano conseguiria impor-se e acabaria por ser uma pedra basilar na conquista de vários títulos. Aliás, troféus não faltariam ao jogador nos 4 anos de “Dragão” ao peito. A Taça Intercontinental e a Supertaça da UEFA, ambas vencidas na campanha da sua chegada, seriam rematadas pelas vitórias em 2 Campeonatos, 2 Taças de Portugal e 1 Supertaça.
Outra das marcas deixadas pela sua passagem no FC Porto seriam os golos. Com 25 remates certeiros em todas as competições, marca próxima dos 30 conseguidos durante os anos no Cruzeiro, o central tornar-se-ia num fenómeno. Com um chuto fortíssimo, os livres directos, fossem lá de onde fossem, eram a sua especialidade. Na retina e na memória de muitos, ficaria a execução magistral conseguida em Alvalade – “O Domingos sofreu uma falta logo no início do Clássico e lá fui eu. O Ivkovic inverteu a posição normal da barreira, mas eu nem quis saber. Ele pensou que a bola ia para fora (risos). No final fui ter com o Marinho Peres, técnico do Sporting e meu amigo, e disse-lhe isto: «seu Marinho, diz ao goleirão que contra o Geraldão ninguém pode estar preparado. É impossível»”**.
A verdade é que a passagem de Geraldão pelos “Azuis e Brancos” ficaria marcada também por um grande celeuma. Já perto do final do contrato, começariam a surgir os rumores que o jogador já tinha um acordo com as “Águias”. Os responsáveis do FC Porto, convencidos da veracidade das notícias veiculadas, acabariam por afastar o atleta que, entretanto haveria de ser obrigado a um “exílio” no Brasil – “estava na hora de renovar o contrato mas nunca mais falavam comigo. Eu tudo bem, na minha, aliás já tinha uma série de golos no campeonato dessa época quando falhei um penálti com o Salgueiros, num jogo em que ganhámos 3-0. Houve logo quem se aproveitasse para dizer que eu ia assinar contrato com o Benfica no final da época”*.
Geraldão acabaria mesmo por sair, um ano depois da polémica, mas para ficar ligado ao Paris Saint-Germain. Com Artur Jorge ao comando dos gauleses, a contratação do defesa iria reforçar o contingente brasileiro da equipa francesa. Contudo, a experiência ao lado de Ricardo Gomes e de Valdo, nessa temporada de 1991/92, não agradaria ao jogador que acabaria por deixar a Ligue 1. Antes ainda de regressar ao Brasil, naquela que seria a recta final da sua caminhada como futebolista, dar-se-ia a passagem pelos mexicanos do América. Já de volta ao seu país, Grêmio e Portuguesa seriam os emblemas a apadrinhar a sua despedida. As mazelas deixadas por lesões antigas apressariam o seu afastamento dos relvados. Aos 30 anos de idade, o antigo internacional “canarinho” deixaria o desporto para passar a dedicar-se à agricultura. Todavia, as saudades devolvê-lo-iam ao futebol. Como técnico ou director, o seu caminho haveria de levá-lo a agremiações como o Ipatinga, Democrata GV ou CRB Alagoas. Ainda assim, o destaque terá que ir para a sua colaboração com o Marítimo, onde, com um cargo de dirigente, ficaria intimamente ligado às chegadas à Madeira de Ezequias, Léo Lima, Pepe e Alan.

*retirado da entrevista conduzida por Rui Miguel Tovar, publicada em https://ionline.sapo.pt, a 13/06/2013
**retirado do artigo de Pedro Jorge da Cunha, publicado em https://maisfutebol.iol.pt, a 29/09/2016

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