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708 - IAN RUSH


Sendo natural de uma pequena aldeia no Norte do País de Gales, Ian Rush tomaria a decisão de rumar até Inglaterra para, no futebol profissional, tentar a sua sorte. Não tendo viajado mais de 20 Km, seria no Chester City que o jovem aspirante a futebolista prestaria as necessárias provas.
Pouco tempo depois de ter dado os primeiros passos no seu novo clube, já Rush era um dos principais craques da equipa. Mesmo jogando a médio, a quantidade de golos que conseguia marcar punha-o em plano de destaque. Contudo, seria um jogo para a Taça de Inglaterra que iria mudar tudo na vida do jovem praticante. Nesse embate, ao modesto Chester City calharia em sorte o Newcastle. Contra todas as probabilidades, seria o grupo de Ian Rush a seguir em frente na prova e, com o golo apontado nessa eliminatória, o galês acabaria por chamar a atenção dos emblemas mais poderosos.
Com Manchester City e Everton – de quem Rush era fã – também no seu encalço, a escolha do jogador acabaria por incidir no Liverpool. Com o colosso inglês a querer apressar a sua contratação, a transferência, ainda assim, acabaria por atrasar-se. Com o mercado a fechar no final de Março, algumas complicações burocráticas levariam a que a mudança não fosse possível até à data limite. Ainda assim, e com a saída a ser adiada até o fim da temporada, Ian Rush, que já tinha chamado a si todos os focos, acabaria, em jeito de compensação, por ser chamado à estreia na selecção do seu país.
Seria então, para a época de 1980/81, que o novo reforço chegaria a Anfield Road. No Liverpool, a sua “veia goleadora” levaria a que os responsáveis técnicos do clube o adiantassem um pouco mais no terreno. Começando a jogar a avançado, a adaptação, de início, não correria de feição. Desabituado àquela zona do campo, Rush sentiria algumas dificuldades. Sem que os golos começassem a aparecer, é então que o seu técnico, o inglês Bob Paisley, decide ter uma conversa com o jogador. Apontando-lhe as falhas e as maneiras de corrigir tais erros, o treinador conseguiria mudar o rumo de Ian Rush, levando-o a tornar-se numa das maiores lendas do Liverpool.
Já depois de, nos primeiros tempos, ter alternado a sua presença no plantel principal com jogos pelas “reservas”, Ian Rush conseguiria, em definitivo, afirmar-se na primeira equipa. Na temporada de 1981/82, já o atacante galês era um dos nomes habituais nas convocatórias do Liverpool. A importância dos seus golos cresciam com o passar dos jogos e, nesse mesmo ano, com um tento na final frente ao Tottenham, Rush ajudaria o seu clube a conquistar a Taça da Liga.
Títulos foi coisa que não faltou ao internacional galês. Com o Liverpool, na década de 80, a dominar tanto o futebol inglês, como o cenário europeu, o currículo do jogador acabaria por ficar bem rico. 5 Ligas, 3 Taças de Inglaterra, 5 Taças da Liga, 3 “Charity Shields” e, sobretudo, 2 Taças dos Campeões Europeus, fazem de Ian Rush um dos jogadores mais laureados na história da modalidade. Também em termos pessoais, a hegemonia do seu clube, ajudaria a que o atleta conseguisse alcançar brilhantes distinções. Jogador do Ano, Melhor Marcador da Liga Inglesa e Bota d’Ouro Europeu, tudo conquistado em 1983/84, engrossam uma lista de prémios já por si bem recheada.
Os 15 anos em que vestiria as cores do Liverpool, seriam interrompidos por uma curta passagem pelo “Calcio”. Já depois da tragédia do Heysel Park, onde vários adeptos perderiam a vida, Liverpool e Juventus tentariam estreitar as suas relações com a transferência do ponta-de-lança. No entanto, a ida de Ian Rush para “Vecchia Signora” não correria de feição. As exibições poucos convincentes e, principalmente, a escassez de golos, acabariam por fazer com que o jogador deixasse Itália e regressasse ao futebol britânico.
De volta ao Liverpool em 1988/89, o avançado teria a concorrência de outros dois grandes jogadores. Com John Aldridge e Peter Beardsley a atrapalhar o seu caminho para a titularidade, Ian Rush, durante algum tempo, ainda passaria pelo banco de suplentes. Todavia, os bons registos que, sempre que a oportunidade aparecia, ia conseguindo, levá-lo-iam de volta ao “onze” inicial.
É certo que Ian Rush, nessa segunda passagem por Anfield, não conseguria ser tão prolífero quanto da primeira. Também não deixa de ser verdade que os números por ele apresentados, deixariam orgulhoso qualquer avançado de topo. Esses mesmos registos, acabariam por fazer dele uma das grandes lendas do emblema inglês. No Liverpool, os seus 346 remates certeiros em 660 partidas, transformá-lo-iam num dos atletas mais utilizados e no recordista de golos na longa existência do clube. Curiosamente, também ele detém o recorde de golos pela selecção do País de Gales. Pelos “Dragões”, os 28 golos conseguidos mantem-se como a marca máxima da equipa nacional.
É no defeso de 1996 que Ian Rush termina a sua longa relação com o Liverpool. Já distante dos seus melhores anos, é aí que o avançado começa um périplo que o levaria a jogar por uma série de outras equipas. O Leeds United seria o primeiro emblema de uma lista que o levaria também até ao Sheffield United e ao Wrexham. Finalmente, e marcando aí os seus derradeiros golos, uma passagem pela Austrália e pelo Sydney Olimpic.

157 - RUI BARROS

Ou porque o equipamento ficava muito grande ou porque os dirigentes o confundiam com um juvenil, que desde cedo ficou habituado às muitas piadas sobre a sua estatura. Porém, do alto do seu 1,56m, Rui Barros sempre soube agigantar-se. Fê-lo durante os empréstimos ao Sporting da Covilhã e ao Varzim; fê-lo, principalmente, durante o ano de estreia pelos seniores do FC Porto.
Com uma velocidade estonteante e um "dribble" igualmente frenético, as suas qualidades rapidamente haveriam de pô-lo nas contas do técnico Tomislav Ivic. Que interessava que o grupo de trabalho fosse o que, meses antes, em Viena, tinha conseguido levantar a Taça dos Clubes Campeões Europeus? Nada! O jovem futebolista, sem grandes dificuldades, ombreava com os demais craques. As importantes disputas em nada pareceram tolhê-lo. Já a prova cabal da sua valia, veio com a primeira mão da Supertaça Europeia. Frente ao Ajax, na partida de Amesterdão, bastaram 5 minutos para que marcasse. Com a equipa oponente adiantada no campo, Rui Barros correu com a bola cerca de 50 metros, fintou o guarda-redes Menzo à entrada da área, passou por outro adversário e concretizou o golo com que os “Dragões” bateram o conjunto holandês.
 Ao derrotar a "pressão alta" dos holandeses, Rui Barros ajudou o FC Porto a vencer no campo e, com uma exibição notável, ganhou também a admiração dos jornalistas. Nessa noite consideraram-no “impossível de travar, como Maradona, mas duas vezes mais rápido"*. Por conta da comparação com o “astro” argentino, ou não, a verdade é que no Verão de 1988, o avançado entrou nos planos da Juventus. Com uma recepção apoteótica, milhares de adeptos ovacionaram-no à chegada a Turim. Depressa mostrou a razão pela qual tinha sido contratado. Logo na primeira oportunidade, a “Formiga Atómica”, apelido posto pelos “tiffosi” da “Vecchia Signora”, catapultou a equipa transalpina para uma estrondosa vitória por 5-1. Tal como nessa partida frente ao Vicenza, onde 3 assistências suas resultaram num “hat-trick” de Altobelli, o internacional português, nas 2 temporadas seguintes, manteve-se como um dos mais importantes intérpretes das conquistas colectivas. Porém, tal facto não convenceu os dirigentes do clube italiano – "Nem o vejo da bancada VIP. Nunca mais teremos jogadores tão pequenos no plantel"**.
Rui Barros vestiu pela última vez a camisola da Juventus, na mesma noite em que levantou a Taça UEFA de 1990. Seguiu-se o Campeonato gaulês. Com a sua preciosa ajuda, também o AS Monaco atingiu uma final europeia. A derradeira partida da edição de 1991/92 da Taça dos Vencedores das Taças, disputou-se em Lisboa, no Estádio da "Luz". Contudo, nem a jogar no seu país, nem a astucia de Arsène Wenger, ou mesmo a companhia de George Weah, conseguiram com que o avançado repetisse a vitória de dois anos antes. Ainda em França, com Paulo Futre a fazer-lhe companhia no balneário, representou o Marseille. Um ano após ingressar no conjunto sediado à beira do Mar Mediterrâneo, marcou a viagem de volta ao FC Porto. Em boa hora o fez, pois o regresso a Portugal permitiu-lhe participar num dos grandes marcos da história dos "Dragões", a conquista do "Penta".

*retirado do Livro “100 Figuras do Futebol Português” (A Bola), António Simões e Homero Serpa, 1996
**adenda feita em 2012, com texto retirado do livro “101 Cromos da Bola” (Lua de Papel), Rui Miguel Tovar, 2012

137 - EUSÉBIO

E se vos disser que a contratação do melhor jogador português de todos os tempos terá começado numa "amena cavaqueira" de barbearia?! Espantados?! Segundo é contado, Bela Guttmann terá tido com o treinador que o sucedeu no São Paulo, José Carlos Bauer, um encontro em Lisboa. O clube brasileiro andava em tournée e a conversa, no tal estabelecimento comercial, levaria à revelação, por parte do brasileiro, da existência de um jogador em Moçambique, que ele próprio observara e que tinha, sem sucesso, tentado convencer a sua direcção a contratar. Como já adivinharam, o craque referenciado era Eusébio, um tal jovem que, anos antes, não ficara no Desportivo, filial benfiquista na capital moçambicana porque, como haveria de contar Coluna, “o roupeiro, não sei porquê, disse que não havia mais equipamento para lhe dar”*!
Para azar das "Águias", Eusébio passou a jogar no Sporting de Lourenço Marques, "dependência" do seu grande rival lisboeta. No entanto, não havia de ser esse contratempo que faria desistir o Benfica. Obviamente, o Sporting, o de Lisboa, já tinha dado conta do diamante que tinha em mãos. O que não esperavam é que à mãe de Eusébio não agradasse, em nada, a ideia do seu filho vir para Alvalade sem contrato profissional e para jogar “à experiência”, pelos juniores leoninos. Como resultado dessa indignação, Dª Elisa, tal como já tinha feito anteriormente aquando de uma proposta da Juventus, acabaria por impedir a partida do jovem praticante. No entanto, o Benfica saberia convencê-la. Duzentos e cinquenta contos em “dinheiro fresquinho” e Eusébio passou a estar pronto para embarcar em direcção a Lisboa... sob o nome de Ruth Malosso!!!
Na "Luz" congeminava-se toda maneira possível para defender o novo "tesouro". Para além da identidade falsa, e com medo que alguém, já em Portugal, o desviasse, Eusébio seria levado até à assinatura do contrato, para uma unidade hoteleira no Algarve. Mas a verdadeira protecção, aquela que a mãe queria para o seu filho de 18 anos, foi pedida numa carta enviada a um conterrâneo - "A mãe está a pedir para o senhor Coluna tomar conta de mim, que aqui não conhecemos ninguém"*. Assim foi feito. No dia seguinte o "capitão" levou-o a abrir uma conta bancária, mas segundo o mesmo , "Eu é que fiquei com a caderneta. Todos os meses, quando ele recebia, íamos juntos à Caixa fazer o depósito e eu dava-lhe 500 escudos (...) Depois levei-o ao meu alfaiate e mandei fazer dois fatos para ele. Mandei que ele escolhesse, para ele andar vestido igual aos colegas"*.
Só faltava a estreia. A mesma aconteceria em Maio de 1961, após meses de burocracias, num particular contra o Atlético, vésperas da partida dos “Encarnados” para a disputa da final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, em Berna. Eusébio não seria aposta na conquista do troféu, mas o "hat-trick" na partida contra o conjunto de Alcântara, passaria a justificar mais oportunidades. Sensivelmente passado um mês, depois de já ter marcado uns quantos golos em jogos oficiais, participaria no Torneio de Paris. Na capital francesa, frente à equipa de Pelé, concretizaria 3 golos, o que levou, anos mais tarde, o craque brasileiro a confessar – "(...) os jogadores do Santos, todos eles, eu próprio, dizíamos que aquele rapaz era um grande jogador"**.
Começava a nascer a fama daquele miúdo que tinha chegado de África. Porém, a confirmação do seu valor aconteceria na final europeia de 1962, a segunda consecutiva para o Benfica. Em Amesterdão, estava o "placard" a favor do Real Madrid, 2-3, quando surge uma grande penalidade. Eusébio preparava-se para cobrar a falta sobre ele cometida, quando Santamaría, defesa adversário, abeira-se dele e chama-lhe "maricon". Eusébio, sem entender, pergunta a Coluna o que é que o espanhol tinha dito. Este pede-lhe apenas duas coisas: "Marca o golo e chama-lhe cabron”***. O remate sairia certeiro; o impropério guardá-lo-ia para si. No final da partida, o avançado sairia em ombros e admirado por muita gente. Entre eles estava o jornalista britânico Desmond Hackett que escreveria: "Eusébio, a Pantera Negra, estraçalhou o Real Madrid”.
Nascia assim o epíteto que passaria a adornar a lenda. Mas, como é lógico, os heróis não se alicerçam apenas em cognomes e a carreira do atacante, que será para sempre um mito, tornar-se-ia num sinónimo de metas ultrapassadas. Para além da já referenciada vitória na Taça dos Clubes Campeões Europeus, atingiria ainda, apesar do desgosto da derrota, mais 3 finais. Vestiria também as camisolas da UEFA e da FIFA. Com as cores do Benfica, o que ainda hoje são recordes, ganharia 11 Campeonatos Nacionais e 7 troféus de Melhor Marcador, sendo que 2 desses prémios permitiram a conquista de 2 Botas de Ouro.
Em 1965 seria o primeiro português a ser agraciado com o prémio Ballon d'Or da France Football. A publicação francesa parecia estar a estender-lhe a passadeira vermelha para aquilo que viria ser um dos grandes momentos da sua carreira. No ano seguinte, em Inglaterra, disputava-se o Campeonato Mundial de Selecções. A equipa portuguesa, que de longe era considerada uma das mais fortes, acabaria por ficar em 3º lugar. "Os Magriços" fariam jogos notáveis. Para a memória ficaria a partida da Fase de Grupos, em que venceriam o Brasil por 3-1, com 2 golos do "Pantera", ou o desafio dos Quartos-de-Final frente à Coreia do Norte, em que, a perder por 0-3, quatro remates certeiros de Eusébio contribuiriam para uma estrondosa reviravolta, que só acabaria nos 5-3.
Tendo o torneio inglês terminado com o atacante luso no 1º lugar da lista de Melhores Marcadores e glorificado como um craque mundial, Eusébio começou a ser cobiçado por outros clubes. Durante o auge da sua carreira muitas foram as propostas para que fosse para o estrangeiro. De Itália a Juventus e o Inter de Milão, ou o Real Madrid de Espanha, por várias vezes apresentaram negócios tentadores, mas que seriam sempre travados pelo então Presidente do Concelho de Ministros. António Salazar, por considerar Eusébio "Património do Estado", impediria sempre a sua saída de Portugal. Anos passados, quando os desabafos já eram possíveis, Eusébio diria – “Então eu mal conheço a pessoa, não é da minha família, como é que podia impedir-me de ir ganhar aquela pipa de massa?”***. Embora contrariado, manteve-se por Lisboa. Já nos últimos anos como futebolista, depois da despedida do Benfica, “voou” até ao Continente americano, onde, entre o Canadá, EUA e o México representou vários emblemas. Nos intervalos regressou e acabou por jogar com as cores do Beira-Mar e União de Tomar.
Nunca serão suficientes os agradecimentos e as homenagens para compensar o que fez pelo "mundo da bola". Há no entanto algumas bem bonitas, como a do poema de Manuel Alegre ou aquela em que Vítor Baptista, sócio do Benfica radicado nos EUA, quis, contrariando a ordem estabelecida, que Eusébio lograsse em vida de uma estátua sua à entrada do Estádio da "Luz".
Sabemos que continuará, por muitos mais anos, tanto como embaixador da Selecção ou do Benfica, a agraciar os fãs com a sua presença... por isso "long live the King"!!!

*retirado do artigo publicado em https://expresso.pt, a 15/12/2010
**retirado do artigo de João Malheiro, publicado em http://www.destak.pt, a 18/04/2010
***retirado de https://serbenfiquista.com/forum/index.php?topic=22362.60, publicado a 16/02/2008, por “Ednilson”