Com 14 anos de idade, Hilário veria o Atlético de Lourenço Marques a ir buscá-lo às fileiras de um emblema de bairro, o FC Arsenal. Por essa altura, o jovem praticante, de origens muito humildes, mal tinha visto um par de sapatos na sua vida, quanto mais conseguir usar um par de chuteiras. A solução seria passar dois anos a adaptar-se ao uso de calçado, a jogar de sapatilhas e na prática do basquetebol!
Findo o referido período dar-se-ia a estreia do jovem atleta no emblema da capital moçambicana. Já na modalidade certa, Hilário teria ainda de limar algumas arestas na sua definição como jogador de futebol. Habilidade não faltava, mas ao posicionar-se, umas vezes no meio-campo, outras no centro da defesa e outras ainda na direita do sector mais recuado, a necessidade de apreender mais um pouco viria ao de cima. Tais acertos tácticos aconteceriam já em Lisboa, ao serviço do Sporting e com os responsáveis pela equipa a decidirem ser a hora certa para substituir o internacional Joaquim Pacheco.
Logo na temporada da sua chegada à metrópole, 1958/59, Hilário mostraria excelentes dotes competitivos. Veloz, com reflexos rápidos e dono de uma bravura excepcional, o lateral-esquerdo logo prometeria tornar-se num enorme sucesso no seio do plantel leonino. No entanto, transformar-se-ia em muito mais do que um simples êxito. Nas 15 temporadas de “Leão” ao peito, o jogador sublinhar-se-ia, não só como um dos maiores símbolos do clube, como num dos melhores da sua posição, na história do futebol português. Como prova de tal aferição, bastariam os números em que assentaria a carreira. Contudo, nada melhor do que as palavras de José Augusto, um dos seus pares e por sinal um dos seus maiores rivais dentro de campo, para ilustrar a justeza da avaliação - "O Hilário foi o defesa-esquerdo que melhor se adaptou à minha maneira de jogar. Era muito forte a manter posição e recuperava com muita facilidade (...). O Hilário, de quem continuei amigo pela vida fora e ao lado de quem vivi a epopeia dos Magriços, foi o adversário mais difícil que apanhei pela frente - mais ainda que o alemão Schnellinger e o italiano Facchetti"*.
Ainda assim, nem tudo seria um mar de rosas para o antigo internacional português. Um dos episódios mais desgostosos da sua carreira prender-se-ia, ironicamente, com um dos momentos mais gloriosos do Sporting. Parece impossível?! É fácil de explicar. Ora, uns dias antes da partida para a Bélgica, onde iriam disputar a última etapa da Taça dos Vencedores das Taças de 1963/64, os “Leões” defrontariam o Vitória Futebol Clube. Num lance fortuito, um choque com o sadino José Maria resultaria na lesão do atleta leonino. O pior prognóstico confirmar-se-ia, com o defesa-esquerdo, devido à fractura contraída na perna direita, a ser retirado da convocatória a arrolá-lo para a final frente ao MTK de Budapeste. Apesar de afastado dos dois desafios ante o conjunto húngaro (final e finalíssima) e que culminariam com o triunfo dos "Verde e Brancos", Hilário, em pleno recobro, veria reconhecida a sua dedicação, com os colegas de equipa a visitarem-no e a darem-lhe a beijar o troféu conquistado.
Outro dos momentos altos da sua carreira, a valer-lhe a consagração internacional, seria o Mundial de 1966. Em Inglaterra, Hilário, muito para além de ter sido uma das pedras fundamentais de Portugal na conquista do 3º lugar, acabaria, com exibições fenomenais, por ser considerado o melhor defesa-esquerdo da competição e, por acréscimo, um dos melhores a nível global, no cumprimento de tais funções.
* retirado de "Os 100 magníficos", de Rui Dias, publicado em 2012

