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1722 - JESUALDO FERREIRA

Apesar de uma curta carreira enquanto praticante, mormente cumprida nas equipas de formação do Desportivo de Chaves e da Ovarense, Manuel Jesualdo Ferreira nunca perderia a paixão pelo futebol. Porém, nessa caminhada competitiva, o médio-ofensivo depressa tomaria a decisão de trocar as chuteiras pelos livros. Já em Lisboa, como aluno do ISEF, concluiria o curso em Educação Física e, ao aproveitar o convénio celebrado entre o referido estabelecimento de ensino e a Federação Portuguesa de Futebol, numa ideia onde também caberiam Peres Bandeira e José Moniz, desde cedo começaria a trabalhar com os jovens a envergarem a “camisola das quinas”.
Numa altura em que já tinha igualmente abraçado a carreira de docente no ISEF, onde viria a ser professor de Carlos Queiroz, o jovem treinador seria convidado por Gaspar Ramos para ficar à frente das “escolas” do Benfica. Depois, a fase seguinte da sua carreira apresentá-lo-ia aos desafios de orientar algumas equipas seniores. No entanto, mesmo com a excepção que viria a tornar-se a passagem pelo plantel de 1984/85 da Académica de Coimbra, as experiências à frente do Rio Maior, Torreense, Atlético e Silves não levariam o jovem treinador para além da 2ª divisão. Então, numa altura em que já contava com alguns anos de traquejo, surgiria o convite para regressar às “Águias”, para onde, na temporada de 1987/88, entraria como adjunto de Toni.
Seguir-se-ia, em 1990, a passagem à frente da selecção de Angola. Não muito tempo depois, na sua caminhada enquanto treinador, emergiria uma nova experiência primodivisionária, dessa feita com o Estrela da Amadora de 1990/91. Em paralelo ao tempo cumprido na Reboleira, surgiria também o convite endereçado por Artur Jorge, para que o coadjuvasse nos trabalhos da selecção portuguesa. Mais tarde, com a época de 1992/93 em andamento, reunir-se-ia mais uma vez a Toni no Benfica e, ainda como seu adjunto, após ano e meio na Luz, partiriam os dois em direcção a um Girondins de Bordeaux, onde, em 1994/95, brilhavam nomes como Lizarazu, Dugarry ou Zidane.
FAR Rabat e uma nova entrada nos quadros da Federação Portuguesa de Futebol, onde, entre 1996 e 2000, orientaria os sub-21, precederiam os anos que, em definitivo, viriam a consagrar Jesualdo Ferreira como um treinador de elite. Ao começar essa senda pelo plantel de 2000/01 do Alverca, a entrada num Benfica no rescaldo dos anos negros de João Vale e Azevedo, não teria grande proveito em termos de resultados colectivos. Já o grande salto na carreira dá-lo-ia, a partir de 2002/03, ao serviço do Sporting de Braga. Do Minho, onde começaria a habituar-se a lutar pelos lugares cimeiros do Campeonato Nacional, transitaria para o FC Porto. Com a entrada no Estádio do Dragão a acontecer na campanha de 2006/07, chegaria o tempo do experiente treinador começar a ver o currículo a ficar colorido por diversos títulos. Nesse contexto vitorioso, destacar-se-iam os triunfos em 2 Taças de Portugal, 1 Supertaça e, acima de tudo, o “tri” conquistado entre a sua chegada aos “Azuis e Brancos” e a época de 2008/09.
Com a despedida da “Cidade Invicta”, Jesualdo Ferreira encetaria um longo périplo, ainda que interrompido um par de vezes, por emblemas estrangeiros. Nesse trecho da sua caminhada pelo futebol, surgiria à cabeça a passagem pela edição de 2010/11 da La Liga e pelo Málaga. De seguida apareceriam o Panathinaikos, o regresso a Portugal para orientar o Sporting e o Sporting de Braga, as vitórias do Campeonato e da Taça do Egipto ao serviço do Zamalec e o Al-Sadd onde ganharia vários troféus nas provas do Qatar. Para terminar, as curtas passagens pelo Santos, pelo Boavista e mais um período à frente do já referido emblema egípcio.

996 - CAIADO

Se a habilidade técnica impelia Fernando Caiado para zonas mais avançadas do terreno de jogo, já a sua compleição física, não muito propensa a choques titânicos, haveria de puxá-lo um pouco mais para trás. Tal equilíbrio, polido quando já vestia de “axadrezado”, transformá-lo-ia num grande futebolista. Tão bom mostraria ser que, mesmo a jogar num Boavista bem distante daquele a que estamos habituados, a selecção de Portugal acabaria por surgir no seu percurso como um passo lógico e bem merecido.
A estreia com a principal “camisola das quinas”, sob a alçada do seleccionador Tavares da Silva, aconteceria já no final da temporada de 1945/46. Essa chamada, a rematar a sua primeira época no patamar maior do nosso futebol, serviria para sublinhar a rápida valorização do jogador. Com o começo ainda ali bem perto, a noção de que os capítulos iniciais da sua carreira tinham sido escritos no segundo escalão, ainda mais enalteceriam a ascensão de Caiado. Porém, a internacionalização conseguida frente à República da Irlanda, acabaria por trazer resultados aquém do esperado. Mesmo tendo em conta as qualidades do interior esquerdo, a verdade é que a falta de interesse de outros clubes seria difícil de explicar.
A relutância na sua contratação acabaria mesmo por conhecer um fim. Mantendo-se, durante mais alguns anos, como a maior estrela do Boavista, só para a campanha de 1952/53 é que um emblema de outra monta decidiria ir no seu encalço. Com mais 5 internacionalizações a colorir o seu currículo, seria o Benfica a comprometer-se com o atleta. A mudança para Lisboa, de forma definitiva, catapultá-lo-ia para os anais do desporto português. Nos anos ao serviço das “Águias”, acabaria por fixar-se na selecção como um dos grandes estrategas do conjunto luso. Também no clube, a sua presença ajudaria a sublinhar a ideia de um conjunto de natureza universal. Ao lado de José Bastos, Félix Antunes, Francisco Moreira, Julinho ou Rogério de Carvalho, todos eles presentes na conquista da Taça Latina de 1950, Fernando Caiado seria uma das peças na ligação entre esse grupo e os bicampeões europeus.
Em 1959, Caiado resolveria ser a altura certa para terminar a carreira como futebolista. Com um palmarés rico, no qual exibia a glória em 2 Campeonatos e 4 Taças de Portugal, o antigo médio decidiria manter-se ligado à modalidade. De forma quase imediata, e aproveitando a inteligência que sempre havia mostrado em campo, o Benfica endereçar-lhe-ia um convite para integrar a sua equipa técnica. Como adjunto, tornar-se-ia no principal ajudante de Béla Guttmann nas campanhas vitoriosas da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Nas funções de técnico, manter-se-ia na “Luz” por mais alguns anos. Chegaria, em substituição do referido treinador húngaro, a liderar o Benfica na final da Taça de Portugal de 1961/62. Depois dessa vitória frente ao Vitória de Setúbal, só voltaria ao leme de uma equipa aquando da sua saída para o Sporting de Braga. Antes ainda, a presença como adjunto de Otto Glória no Mundial de 1966. Depois dar-se-ia o regresso a Lisboa, dessa feita para comandar o Sporting Clube de Portugal. No seu trajecto como técnico, caminhada feita por mais de duas décadas, tempo ainda para trabalhar na 1ª divisão com Boavista, CUF, Vitória de Guimarães ou Sporting de Espinho.

988 - PAULO LOPES

Com os irmãos mais velhos a jogar no Mirandela, Paulo Lopes decidiria tentar a sua sorte no emblema da terra natal. O sucesso seria de tal ordem que, com apenas 14 anos de idade, começaria a realizar jogos pela equipa sénior. É nessa tão rápida evolução que o Benfica iria descobri-lo. Convidado para alguns treinos, o jovem atleta conseguiria impressionar os responsáveis técnicos do clube. Passados alguns meses sobre os primeiros testes realizados em Lisboa, o guarda-redes seria convidado a juntar-se às camadas jovens e rubricaria um contrato com os “Encarnados”.
A chegada aos juvenis do Benfica permitir-lhe-ia, não só evoluir com as cores do clube, como abriria ao jogador as portas das jovens selecções portuguesas. Primeiro pelos sub-17 e, na altura da transição para o patamar sénior, com os sub-20 e sub-21 de Portugal, as internacionalizações de Paulo Lopes levá-lo-iam a ganhar algum espaço no plantel principal das “Águias”. Porém, a presença de Michel Preud’Homme e de Sergei Ovchinnikov faria com que o guardião nunca passasse de 3ª escolha.
Depois de 2 temporadas sem jogar, e para que a sua evolução não fosse comprometida, surgiria o empréstimo ao Gil Vicente. A passagem por Barcelos em 1999/00, mesmo tendo em conta a sua estreia na 1ª divisão, também não traria os resultados esperados. Para que Paulo Lopes começasse a aparecer com regularidade nas fichas de jogo, nova cedência seria equacionada. A campanha seguinte, já com as cores do Barreirense, permitiria ao jogador aquilo que, até então, ainda não tinha conseguido. A jogar com frequência, as portas do Benfica abrir-se-iam novamente e o seu regresso à “Luz” aconteceria na temporada de 2001/02.
Mais uma vez a Paulo Lopes não seriam dadas grandes chances. Dessa feita com Robert Enke e Moreira a posicionarem-se à sua frente, a verdade é que voltaria a não conseguir impor-se de “Águia” ao peito. Após essa última tentativa, a desvinculação surgiria com naturalidade. Seguir-se-ia uma década em que, ao saltar entre os dois principais escalões nacionais, teria a oportunidade de representar diversos emblemas. Salgueiros, Estrela da Amadora, Trofense e Feirense seguir-se-iam na sua caminhada profissional. Durante esses anos, e mesmo com a passagem por Paranhos a permitir ao guarda-redes ganhar 1 internacionalização “B”, seriam os anos ao serviço dos “Fogaceiros” que voltariam a mudar o rumo da sua carreira.
Após realizar uma boa temporada no regresso do Feirense à 1ª divisão, surgiria da Luz nova proposta – “Fiquei surpreendido, na altura. O Rui Costa ligou-me e eu pensei que era uma brincadeira. Mas ele disse logo que não era. Pensei e senti que estava em condições de estar a este nível. Tinha uns 34 anos, não havia nenhum registo de o Benfica contratar um guarda-redes português com essa idade, mas sentia-me na minha melhor forma e preparado. E foi a melhor coisa que me aconteceu”*. As campanhas seguintes seriam de grande sucesso. Com os “Encarnados” a entrar para vencer em todas as competições, Paulo Lopes acabaria por fazer parte do grupo que daria ao clube o primeiro “tetra” da sua história. Eternizadas ficariam também as comemorações do atleta que, por inúmeras vezes, subiria à barra da baliza para mostrar os troféus aos adeptos.
Após anunciar o fim da carreira como futebolista, Paulo Lopes, que por essa altura já tinha ultrapassado os 40 anos de idade, aceitaria novo convite do Benfica. De 2018 em diante o antigo jogador passaria a fazer parte do corpo técnico do clube, tendo, no papel de treinador de guarda-redes, orientado os sub-23 e a equipa “b”.

*retirado da entrevista publicada em https://www.slbenfica.pt, a 16/10/2018

940 - TED SMITH

Fã do futebol desde muito novo, Ted Smith haveria de dar os primeiros passos na modalidade ao representar a equipa da sua escola, a Arthur Street School, em Grays (Essex). Mais tarde, continuando a alimentar essa paixão, passaria por alguns clubes locais, casos do Thames Mills, Grays Town, Grays Athletic e Barking. Seria por esta última colectividade que, após vencer a Athenian League de 1934-35, um dos escalões amadores em Inglaterra, despertaria a curiosidade de emblemas de maior monta.
Na sequência das qualidades demonstradas, é o Millwall que, na temporada de 1935-36, oferece ao atleta o seu primeiro contrato profissional. Ainda assim, e apesar do salto dado, o seu novo clube apenas militava no 3º patamar inglês. Por pouco tempo, é verdade! A equipa, impulsionada também pela sua inclusão no plantel, rapidamente começaria a dar sinais de grande ambição. Tendo Ted Smith como um dos esteios defensivos, a promoção em 1938 à Division Two, deixaria o escalão maior a apenas um passo de distância.
A corrida do Millwall seria, no entanto, interrompida pelo rebentar da 2ª Guerra Mundial. Como tantos outros atletas, o defesa seria destacado para servir o seu país no estrangeiro, acabando por ser colocado na Base das Lajes. Nos Açores, à frente das referidas instalações militares, estava João Tamagnini Barbosa. O Comandante, também ele grande adepto do futebol, haveria de tornar-se grande amigo do futebolista inglês. Quando em Janeiro de 1947 tomou posse como Presidente do Benfica, a sua prioridade tornar-se-iam os títulos que há muito escapavam ao clube. Depois de contratar Lippo Hertzca, o antigo Primeiro-ministro lembrar-se ia de Ted Smith que, desse modo, poria um ponto final à sua carreira de jogador para abraçar as tarefas de treinador.
No Benfica, os métodos revolucionários do inglês, muito mais do que o sucesso imediato, lançariam os alicerces para os sucessos vindouros. Algumas das mudanças perpetradas por Ted Smith incluiriam a alteração de táctica para um 3x2x5, marcações cerradas e o exaustivo estudo dos adversários. Os resultados não tardariam. Logo na primeira temporada, a de 1948/49, vence a Taça de Portugal. Depois, já na campanha seguinte, viriam o Campeonato e a memorável conquista da Taça Latina. Ainda comandaria as “Águias” em mais uma vitória na “prova rainha”. Para além de tudo isso, o seu contributo para evolução do clube teria ainda outras curiosidades. Por exemplo, seria ele que, durante uma tournée por África, descobriria aquele que haveria de tornar-se num dos maiores símbolos dos “Encarnados”, o avançado José Águas.
A sua derradeira temporada no Benfica ficaria marcada, por razões que nunca ficaram muito bem esclarecidas, pela sua partiria para Inglaterra a meio da época e pelo regresso já bem perto do fim. A verdade é que Ted Smith, depois dessa campanha de 1951/52 acabaria mesmo por voltar ao seu país. Desligando-se do futebol acabaria por dedicar-se ao negócio dos “pubs”. Excepcionalmente, e apenas por alguns meses em 1967, aceitaria orientar os amadores do Lancaster City. Talvez espicaçado por essa experiência, aceitaria regressar a Portugal para comandar o Atlético. Contudo, o desafio acabaria numa situação deveras triste, com o treinador a ser despedido e a acabar por ter que viver numa “roulotte”.
Foi então que recebeu o convite do Presidente da Associação de Futebol de Ponta Delgada. Para lá viajaria com o intuito de estimular o futebol jovem nos Açores. Regressaria a Lisboa a custo de uma grave doença que acabaria mesmo por derrotá-lo. Seria sepultado no Cemitério dos Ingleses, na Estrela.

897 - ANTÓNIO STROMP

Se mais nada houvesse, a data de 1 de Julho de 1906 seria o bastante para que entrasse na história do Sporting Clube de Portugal. Todavia, não só como fundador dos “Leões” fez da cronologia da colectividade lisboeta a sua. O jovem atleta haveria de gravar o seu nome das mais diversas maneiras. No futebol, no atletismo, no cricket, na esgrima e no ténis António Stromp tornar-se-ia no símbolo da maior bandeira do emblema da capital, o eclectismo.
Nessa sua caminhada, e tendo conseguido um lugar na categoria principal com apenas 16 anos, o extremo-direito rapidamente chegaria à condição de estrela maior do conjunto. A velocidade, aliada à habilidade com a bola nos pés, faziam dele um grande futebolista. Tal eram as suas qualidades que, cada vez que uma digressão era organizada, o seu nome era convocado para vestir as cores da selecção de Lisboa. Fosse em Espanha ou noutro país qualquer, eram para si os maiores destaques. Já numa tournée pelo Brasil, as suas exibições seriam de tal ordem boas que diversos clubes tentariam a sua contratação. No entanto, a paixão que tinha pela cidade “alfacinha” e pelo clube eram de tal ordem que todos os convites seriam recusados.
Mas não só de futebol seria a feita a sua passagem pelo desporto. De todas as modalidades já referidas, seria no atletismo que melhores performances obteria. Nas pistas, António Stromp seria um ganhador. Recordista Nacional no salto com vara, nos 100 metros e nos 200 metros, também na estafeta conseguiria adicionar troféus aos escaparates do Sporting. Seria também nas disciplinas de velocidade que participaria nos Jogos Olímpicos de 1912. Em Estocolmo, o multifacetado atleta tornar-se-ia, não só no primeiro sportinguista, como no primeiro português a participar numas olimpíadas. Os resultados não seriam famosos. Contudo, nem o facto de ter perecido logo nas primeiras rondas tira qualquer mérito à sua presença no certame organizado na Suécia.
Apesar de todo o sucesso, e de tudo o que o futuro parecia prometer, a sua carreira seria curta. Acossado por uma terrível doença, os últimos anos da sua existência seriam passados em retiro. A sífilis acabaria por vencer. Ainda assim, anos antes de decidir retirar-se de todas as competições, António Stromp daria um enorme contributo para a primeira grande conquista do futebol “Verde e Branco”. Na temporada de 1914/15, o atacante seria uma das personagens principais da vitória no Campeonato Regional de Lisboa.

893 - OLIVEIRA MARTINS

Começaria por representar as camadas jovens do Sporting para, ainda em idade adolescente, chegar à 4ª categoria do futebol “verde e branco”. Mesmo sendo um atleta de excelência, a facilidade com que, ainda nesse primeiro ano de sénior, conseguiria chegar à equipa principal seria surpreendente. Essa celeridade, a mesma que o tinha levado a conviver com as maiores estrelas do clube, seria também aquela que empurraria o jovem atacante para o “onze” leonino.
Orientado pelo britânico Charles Bell, o sucesso que conseguia traduzia-se pela quantidade de golos que obtinha. Ao destacar-se na posição de avançado-centro, as suas exibições em muito contribuiriam para o sucesso da equipa. Ora, esse êxito levá-lo-ia também a vestir a camisola da selecção de Lisboa. Aliás, uma das histórias mais famosas na sua carreira envolveria as cores da capital. Numa altura em que era habitual jogar-se duas partidas no mesmo dia, Oliveira Martins, numa contenda frente à congénere do Porto, seria convocado para capitanear os “Alfacinhas”. Depois desse encontro disputado pela manhã, à tarde jogaria frente ao FC Porto. Nesse desafio a contar para a edição de 1928/29 do Campeonato de Portugal, o atacante seria o principal intérprete da vitória por 3-2, contribuindo com um “hat-trick”.
Todavia, aquilo que podia ter sido uma carreira de enorme sucesso, teria um final tão inesperado quanto o seu surgimento. Depois da contratação do avançado Rogério de Sousa em 1929/30, Oliveira Martins começaria a perder algum fulgor. Não sendo chamado a jogo com a mesma frequência, a solução passaria por representar as “Reservas” leoninas. O seu afastamento da equipa principal tornar-se-ia ainda mais notório com o agravamento de uma lesão. Distante das qualidades que o tinham tornado num ídolo da massa adepta, o fim do seu percurso como futebolista viria quando estava perto de completar 24 anos de idade.
Com o terminar da campanha de 1934/35, época em que se afastaria dos campos da bola, aqueles que pensaram que Oliveira Martins estava terminado para o desporto, enganaram-se. Separado da modalidade que o tinha empurrado para a popularidade, o antigo ponta-de-lança dedicar-se-ia a outras disciplinas. Basquetebol, onde chegaria a internacional português, andebol, râguebi ou atletismo fariam parte da lista de 11 modalidades em que também envergaria o “Leão” ao peito.
Sempre ligado ao Sporting, o ecléctico praticante também era um dedicado estudante. Licenciado em Ciências Económicas e Financeiras, as valências obtidas durante a vida académica levá-lo-iam a desempenhar diversos cargos de dirigente no emblema “verde e branco”. Tendo sido Vice-Presidente em diversas áreas e também membro do Conselho Fiscal, a dedicação de Oliveira Martins aos “Leões” permitir-lhe-ia a entrada na história da colectividade. O emblema lisboeta também não esqueceria a importância da sua devoção. Agraciado diversas vezes “pelos bons serviços” prestados ao clube, em 1950 seria condecorado como “Sócio Benemérito”.
Curiosamente, não só no desporto chegou ao estrelato. Tendo participado em diversos filmes, entre os quais “Maria do Mar”, “Fátima, Terra de Fé”, “Varanda dos Rouxinóis” ou “As Pupilas do Senhor Reitor”, Oliveira Martins foi um dos galãs do cinema português dos anos 30.

841 - JOSÉ PEREIRA

Com a carreira dedicada quase em exclusivo ao Belenenses, o seu percurso conheceria duas excepções. A primeira aconteceria logo após os seus anos de formação. Na altura, com José Sério como o titular absoluto da baliza “azul”, os responsáveis técnicos da equipa decidir-se-iam pela sua cedência. Nos Pescadores da Costa da Caparica faria a sua estreia como sénior para, no final dessa temporada de 1951/52, voltar ao Restelo.
O regresso a Lisboa não seria fácil para o jovem atleta. A presença no plantel do já referido guardião, faria com que José Pereira não conseguisse ser chamado à equipa principal com a frequência que, naturalmente, desejaria. Ainda assim, as qualidades que já demonstrava fariam com que a sua presença no grupo fosse importante. A colocação entre os postes e a enorme agilidade – que daria origem à sua alcunha “Pássaro Azul” – eram armas imprescindíveis para o sucesso da equipa. Tanto isso era verdade que, passados apenas um par de anos após a sua integração na primeira categoria, já o guarda-redes era um dos principais nomes no alinhamento do Belenenses.
Pelos da “Cruz de Cristo” José Pereira enfrentaria os mais diferentes desafios. Nessas demandas colectivas, os títulos estariam sempre no horizonte do atleta. Apesar de nunca ter conseguido conquistar um Campeonato Nacional, facto que esteve perto de acontecer em 1954/55, fazem parte do seu currículo alguns troféus. Às 2 Taças de Honra da Associação de Futebol de Lisboa, vencidas em 1959/60 e 1960/61, juntaria a vitória na Taça de Portugal de 1959/60. Também nas competições europeias o guardião deixaria a sua marca na história do clube. Fez parte das campanhas na Taça das Cidades com Feira e defenderia as redes do Belenenses na Taça Latina.
Apesar de um percurso notável com a camisola do clube, o apogeu da sua caminhada como profissional aconteceria com as cores de Portugal. Com as “quinas” ao peito, e tendo já jogado pelos “b”, o guardião faria a estreia pela equipa “a” na campanha de apuramento para o Mundial de 1966. Já com a qualificação garantida, o seu nome, sem surpresa alguma, faria parte da lista elaborada pelo seleccionador Manuel da Luz Afonso. Em Inglaterra, José Pereira ainda começaria o torneio como suplente do sportinguista Carvalho. Contudo, logo após esse embate com a Hungria, Otto Glória daria o lugar a José Pereira e o guarda-redes manter-se-ia como o número 1 dos “Magriços”, ajudando à chegada ao 3º lugar.
Curiosamente, seria pouco tempo depois da presença no Campeonato do Mundo que a sua ligação ao Belenenses terminaria. No final da campanha de 1966/67, José Pereira deixaria o Restelo para rumar a Norte. No Beira-Mar prosseguiria a sua carreira, a qual conheceria o seu fim no início da década de 70. Depois de ter “guardado as luvas”, o antigo internacional luso abandonaria o futebol, mudar-se-ia para Barcelona e dedicar-se-ia aos negócios que na cidade catalã haveria de abrir.

500 - CARLOS GOMES

Começamos este Agosto com um dos heróis (esquecido) do futebol português. Mas num mês onde se pretende falar de diáspora, Carlos Gomes, para além de emigrante, acabou por ser, também ele, um refugiado!
Muito antes deste episódio, já o guarda-redes mostrava habilidade entre os postes. No Barreirense, clube da sua terra natal, o jovem atleta era visto, não como uma simples promessa, mas como um valor seguro. Tal era a certeza disto, que antes de completar a idade de sénior, já ele era um dos nomes que, com alguma frequência, alinhava de início na sua equipa. Começou por alternar o lugar com o seu ídolo de infância, e antes que conseguisse, em definitivo, roubar o lugar a Francisco Silva, já o Sporting o tinha contratado. No entanto, e se para qualquer um esta mudança seria motivo de júbilo, para Carlos Gomes a história foi bem diferente. Pelo que se conta, no dia em que os dirigentes leoninos entraram em sua casa, aquilo que esperariam ser uma notícia alegre, acabaria por se tornar num explodir de revolta. Estava tudo acertado entre os dois clubes, mas ao contrário do que hoje vemos como normal, alguém se tinha esquecido de perguntar ao jogador sobre a sua vontade. Ora, para Carlos Gomes, criado num meio operário, onde o espectro da luta contra o regime salazarista estava presente em cada esquina, tal "pormenor" não era mais do que uma afronta à sua liberdade. Reclamou respeito e acusou aqueles que dirigiam o futebol português de promover o esclavagismo. Mandaram-no calar; disseram-lhe que receberia 10 contos. Exigiu 50... e o presidente leonino, Ribeiro Ferreira (dirigente da União Nacional) lá cedeu!!!
Já no Sporting, a veia contestatária de Carlos Gomes nunca desapareceu. Começou por entrar em conflito com o seu antecessor, de quem dizia "o velho [Azevedo] já nem vê a bola"!!! Depois vieram as exigências para lhe aumentarem o salário. A resposta que teve do Presidente Góis Mota (outro alinhado do regime), seria bem o exemplo da prepotência daqueles tempos - "Queres mais dinheiro? Pois mete na tua cabeça, se é que a tens, que enquanto for presidente são cinco contos ou nada. Para que queres tu mais dinheiro? Para putas e automóveis?".
Pelo meio, outros episódios... Como aquele em que levou uma estrangeira à PIDE; estacionou o carro nos lugares reservados aos funcionários e, já lá dentro, pediu que carimbassem o atestado de residência da amiga. Resultado: por entre insultos e agressões, Carlos Gomes seria detido, safando-se de males maiores por ser jogador do Sporting. Pior acontecer-lhe-ia quando, num jogo da Selecção Militar, se riu de uma bacorada de Santos Costa (Ministro da Guerra de Salazar). Aqui, já nem o "verde e branco" lhe valeu de nada, acabando por passar uma semana encarcerado.
Com tantas desavenças, atleta e clube entrariam em rota de colisão. É então que aparece em cena Alejandro Scopelli. Ora, em 1958, o antigo treinador leonino (com passagens por FC Porto e Belenenses) estava à frente do Granada; na calha, um negócio que mataria "dois coelhos de uma cajadada só". Vejamos: para o Sporting era livrar-se de uma dor de cabeça; já para o clube andaluz, o contratar de um dos melhores guarda-redes daquela década… Sim, não exagero quando digo que Carlos Gomes era um dos melhores! Isso via-se em campo; via-se na maneira destemida como saía dos postes, nos reflexos que o tornavam imbatível, na sua elegância e até nos adornos, tantas vezes dispensáveis, que punha nas suas intervenções. Contudo, se os espanhóis pensaram que estavam a contratar apenas um futebolista, enganaram-se! Carlos Gomes continuava polémico! Um dia, quando um jornalista lhe pediu para comentar os salários em atraso, respondeu - "No hay diñero, no hay portero". Logo de seguida, quando o mesmo periodista perguntou porque é que se equipava sempre de preto, retorquiu - "Enquanto o futebol português estiver entregue aos doutores, estou de luto".
A sua passagem por Espanha duraria 3 anos. Dizem que Barcelona e Real Madrid almejaram em tê-lo; dizem, também, que alguns dirigentes do Sporting "evitaram" que isso acontecesse, permitindo, no entanto, que fosse para o Oviedo. 

Já de regresso a Portugal e com destino marcado ao Sporting, Carlos Gomes requere ser o mais bem pago do plantel. Desta feita ninguém aceita as suas exigências. O guardião ameaça assinar pelo Salgueiros (filial do Benfica)... e a resposta não demorou muito tempo!!!
Ora, nesses tempos, Carlos Gomes tinha alguns negócios para além do futebol. Um deles era uma loja de fotografia. Um dia pôs um anúncio pedindo um funcionário. Quem responde ao reclame é uma jovem rapariga. O pior é que no dia seguinte, a mesma jovem acusa o internacional português de violação. Carlos Gomes nega tudo. Diz que lhe armaram uma cilada; diz que os dirigentes do Sporting, numa maquinação com a PIDE, estavam, por razão de ter dito que assinava pelo Salgueiros, a tentar vingar-se dele. É então que é "empurrado" para o Atlético. Aceita. Contudo, o pensamento de Carlos Gomes já estava muito mais além, e em mente o esboço de uma fuga. 

O tal plano acabaria por ser posto em marcha num jogo disputado na Tapadinha. Antes do mesmo, sem levantar suspeitas, junta-se à sua equipa. Ainda começa a partida, mas perto do intervalo finge uma lesão. Vai aos balneários e no regresso para a segunda parte, nem mesmo os agentes da PIDE que o vigiavam das bancadas, parecem saber do atleta!!! Pois é, tarde demais: Carlos Gomes dirigia-se à fronteira... instalado na mala de um carro.
De Espanha partiria para Marrocos. Aí com o estatuto de refugiado político, continuou a sua carreira. Jogou pelo Ittihad Tanger, tendo, de seguida, passagens pela Argélia e Tunísia.

475 - HILÁRIO

Com 14 anos de idade, Hilário veria o Atlético de Lourenço Marques a ir buscá-lo às fileiras de um emblema de bairro, o FC Arsenal. Por essa altura, o jovem praticante, de origens muito humildes, mal tinha visto um par de sapatos na sua vida, quanto mais conseguir usar um par de chuteiras. A solução seria passar dois anos a adaptar-se ao uso de calçado, a jogar de sapatilhas e na prática do basquetebol!
Findo o referido período dar-se-ia a estreia do jovem atleta no emblema da capital moçambicana. Já na modalidade certa, Hilário teria ainda de limar algumas arestas na sua definição como jogador de futebol. Habilidade não faltava, mas ao posicionar-se, umas vezes no meio-campo, outras no centro da defesa e outras ainda na direita do sector mais recuado, a necessidade de apreender mais um pouco viria ao de cima. Tais acertos tácticos aconteceriam já em Lisboa, ao serviço do Sporting e com os responsáveis pela equipa a decidirem ser a hora certa para substituir o internacional Joaquim Pacheco.
Logo na temporada da sua chegada à metrópole, 1958/59, Hilário mostraria excelentes dotes competitivos. Veloz, com reflexos rápidos e dono de uma bravura excepcional, o lateral-esquerdo logo prometeria tornar-se num enorme sucesso no seio do plantel leonino. No entanto, transformar-se-ia em muito mais do que um simples êxito. Nas 15 temporadas de “Leão” ao peito, o jogador sublinhar-se-ia, não só como um dos maiores símbolos do clube, como num dos melhores da sua posição, na história do futebol português. Como prova de tal aferição, bastariam os números em que assentaria a carreira. Contudo, nada melhor do que as palavras de José Augusto, um dos seus pares e por sinal um dos seus maiores rivais dentro de campo, para ilustrar a justeza da avaliação - "O Hilário foi o defesa-esquerdo que melhor se adaptou à minha maneira de jogar. Era muito forte a manter posição e recuperava com muita facilidade (...). O Hilário, de quem continuei amigo pela vida fora e ao lado de quem vivi a epopeia dos Magriços, foi o adversário mais difícil que apanhei pela frente - mais ainda que o alemão Schnellinger e o italiano Facchetti"*.
Ainda assim, nem tudo seria um mar de rosas para o antigo internacional português. Um dos episódios mais desgostosos da sua carreira prender-se-ia, ironicamente, com um dos momentos mais gloriosos do Sporting. Parece impossível?! É fácil de explicar. Ora, uns dias antes da partida para a Bélgica, onde iriam disputar a última etapa da Taça dos Vencedores das Taças de 1963/64, os “Leões” defrontariam o Vitória Futebol Clube. Num lance fortuito, um choque com o sadino José Maria resultaria na lesão do atleta leonino. O pior prognóstico confirmar-se-ia, com o defesa-esquerdo, devido à fractura contraída na perna direita, a ser retirado da convocatória a arrolá-lo para a final frente ao MTK de Budapeste. Apesar de afastado dos dois desafios ante o conjunto húngaro (final e finalíssima) e que culminariam com o triunfo dos "Verde e Brancos", Hilário, em pleno recobro, veria reconhecida a sua dedicação, com os colegas de equipa a visitarem-no e a darem-lhe a beijar o troféu conquistado.
Outro dos momentos altos da sua carreira, a valer-lhe a consagração internacional, seria o Mundial de 1966. Em Inglaterra, Hilário, muito para além de ter sido uma das pedras fundamentais de Portugal na conquista do 3º lugar, acabaria, com exibições fenomenais, por ser considerado o melhor defesa-esquerdo da competição e, por acréscimo, um dos melhores a nível global, no cumprimento de tais funções.

* retirado de "Os 100 magníficos", de Rui Dias, publicado em 2012

473 - MORAIS

Aos 14 anos de idade, com o jeito que já mostrava para a prática do futebol, Morais ver-se-ia integrado na equipa principal da sua terra, o Sporting de Alcabideche. Mesmo tendo em conta a tenra idade e os confrontos com jogadores, na maioria das vezes, bem mais velhos que ele, o "miúdo" parecia zombar de todos os que, dentro do campo, entravam em confronto com ele. A evidência da sua qualidade seria tal que o Estoril Praia não duvidaria das suas capacidades, acabando por contratá-lo para os quadros do clube. Ao mudar-se para o emblema "vizinho", também aí, é certo que a jogar na devida categoria, Morais continuaria a mostrar excelsos dotes futebolísticos. Então, o Caldas apresentaria uma proposta ao atleta que, deslumbrado com a ideia do estatuto profissional, não recusaria o contrato. O pior é que, paralelamente, também o Benfica já tinha chegado a acordo com os “Canarinhos”. Morais, ainda jovem e provavelmente bastante pressionado, acabaria por celebrar outro acordo, dessa feita com as "Águias". Resultado: um ano de suspensão para o atleta.
Terminado o castigo, entretanto reduzido para metade, Morais acabaria por chegar a acordo com o Torreense. Concluída a transferência, o jogador, no decorrer da temporada de 1955/56, viria a estrear-se na 1ª divisão. Nas 3 campanhas cumpridas no emblema da região Oeste, o atleta veria o seu estatuto, a dá-lo como um excelente intérprete, cada vez mais cimentado. Ao fim das ditas épocas, o Sporting asseguraria o seu concurso e o extremo-esquerdo, em 1958/59, mudar-se-ia para Alvalade.
Apesar de ser um jogador que estava, quase sempre, na primeira linha das convocatórias, em certas temporadas, pela concorrência a que estava sujeito, Morais haveria de ser menos utilizado. À procura de mais oportunidades, começaria então a experimentar as funções de lateral. A verdade é que o atleta nunca escondeu o desagrado com a tal adaptação e conta-se que, um dia, ao saber que iria ser utilizado na defesa, acabaria por inventar uma desculpa para não jogar.
Ironicamente, seria à custa do novo lugar em campo que o atleta viveria o momento mais bonito da carreira, episódio que viria a imortalizá-lo para a história, não só do Sporting, como do desporto português – "Eu não estava convocado. Mas no jogo antes dessa competição, o Hilário magoou-se. Eu estava no estádio e ouvi a convocação pelo altifalante, avisando-me para estar no dia seguinte no estádio que iria partir com a delegação"*.
A infelicidade daquele que era o dono da posição levaria a que Morais partisse para a Bélgica. Jogaria a partida da final no sector mais recuado da equipa e, na finalíssima de Antuérpia, devido a lesão do brasileiro Bé, acabaria por regressar à posição de que tanto gostava. Então, próximo do minuto 19, um canto seria assinalado a favor dos "Verde e Brancos". Morais agarraria no esférico e… "na hora do golo, eu beijei a bola e falei com ela. Pedi para que ela entrasse. Graças a Deus deu certo e o Sporting foi campeão"*.
Para a memória colectiva ficará para sempre gravado o seu golo, marcado num canto directo, e que daria, aos “Leões”, o triunfo na Taça dos Vencedores das Taças de 1963/64. Depois viriam as homenagens, as festas e a cantiga de Maria José Valério que poria o atleta nas "bocas do mundo", com o seu "Cantinho do Morais".
Outro momento alto da sua vida como desportista haveria de ser o Mundial de 1966. Em Inglaterra, deixando para trás congéneres como o Brasil ou a Rússia, Portugal chegaria ao 3º lugar. Mérito para os jogadores, sem dúvida, ainda para mais tendo em conta a estreia da equipa lusa. No entanto, para Morais, com muita mágoa sua, o torneio ficaria marcado por outro lance - "A falta que fiz no Pelé foi igual a muitas outras. Foi um lance normal de jogo. Ele mesmo já disse isso, uma vez que fomos juntos a uma entrevista na BBC de Londres. Contra a Bulgária (no primeiro jogo da primeira fase), ele já tinha apanhado muito e já se tinha lesionado. Tanto, que não enfrentou a Hungria no jogo seguinte. Infelizmente, as pessoas sempre só se lembram desse lance"*.
Sensivelmente 3 anos após este episódio, sem que uma coisa tenha a ver com a outra, Morais deixaria o Sporting. No palmarés levaria a conquista de 3 Campeonatos Nacionais, 1 Taça de Portugal e a vitória na já referida competição organizada pela UEFA. Partiria em direcção a uma nova fase da carreira, a levá-lo a jogar na África do Sul e, já no regresso a Portugal, no Rio Ave. Em Vila do Conde terminaria a caminhada competitiva e também começaria uma outra etapa que, sem grande expressão, faria com que desempenhasse as funções de treinador. Pouco tempo depois afastar-se-ia do futebol, acabando por encetar a vida como funcionário do aludido município do Norte do país.

*adaptado do artigo de Thiago Fernandes, publicado a 3/12/2008, em https://ge.globo.com/

453 - VIRGÍLIO

Nascido no Entroncamento, foi no Ferroviário local que Virgílio deu os primeiros pontapés na bola. Tão auspiciosa foi a sua estreia que logo o Benfica quis contratá-lo. Foi passar 3 semanas a Lisboa, para que pudesse, às ordens de Vítor Silva, antigo atleta das "Águias" e treinador dos juniores, mostrar as suas qualidades. Não agradou. Por razão do chumbo voltou à terra natal e aos ofícios de serralheiro mecânico. No entanto, a maneira como disputava cada partida, deixava os responsáveis de outros clubes, cada vez mais, embevecidos pelas suas habilidades. Surgiu "O Elvas" na corrida. Porém, o salário oferecido não compensava o facto de deixar a sua profissão. Então, um dia, em plena oficina onde trabalhava, aparece Soares dos Reis. A pessoa em causa era, nada mais, nada menos, do que o antigo guarda-redes internacional e figura incontornável do Futebol Clube do Porto. A sua missão era simples e passava por convencer o jovem rapaz a ir treinar-se ao Campo da Constituição. O jogador aceitou e tão bom ar deu de si que o treinador Joseph Szabo já não o deixou partir.    
Ao contrário das características que mais contribuíram para a sua enorme reputação, Virgílio começou por jogar a interior-esquerdo. Só mais tarde, já com algum tempo nos "Azuis e Brancos", é que o argentino Alejandro Scopelli o recuou no campo, para jogar a defesa-esquerdo. Finalmente, seria o técnico Eládio Vaschetto a indicar o caminho certo e a mostrar-lhe a direita como o lado a fazê-lo famoso. Sim, seria nesse lado do sector mais recuado que o atleta faria da sua carreira algo de notável. Para ele o segredo era simples e passava pela entrega ao futebol. Esmiuçando: era um praticante apaixonado, corajoso, generoso em todas as fases do jogo. Tinha também um sentido táctico tremendo, fazendo-o, tantas vezes, arrancar pelo terreno de jogo para auxiliar os colegas do ataque. Foram essas as características que, a 27 de Fevereiro de 1949, levou para dentro de campo. A partida a opor Itália a Portugal, apesar da categoria derrota lusa por 4-1, ainda assim fez sobressair alguns nomes lusos. Pela maneira incansável como lutou até ao fim do “match”, Virgílio, a estrear-se com a “camisola das quinas”, foi um desses atletas a merecer rasgados elogios. Apesar da primeira internacionalização, nunca acusou qualquer nervosismo, assumiu com bravura a responsabilidade do desafio, rubricou uma exibição memorável e, pela maneira como anulou o extremo Carapelese, ganhou para a eternidade o epiteto de “Leão de Génova”.
A partir desse momento ganhou uma legião invejável de fãs. Tal fenómeno fez com que os grandes colossos do futebol europeu começassem na sua peugada. Real Madrid e FC Barcelona perfilaram-se como os principais emblemas a projectarem-se como a nova morada do atleta. Todavia, a devoção e sentido de gratidão pelos “Dragões” foi suficiente para que recusasse todos os convites. Manteve-se pela colectividade da “Cidade Invicta”, no total da sua carreira, por 16 temporadas. Venceu 2 Campeonatos Nacionais e 2 Taças de Portugal, com a vitória na edição de 1955/56 da “Prova Rainha” a transformar-se na primeira a entrar para o palmarés do FC Porto. Voltou a negar a mudança de cidade quando o Celta de Vigo pôs em cima da mesa uma proposta milionária e sobre o episódio chegou a dizer: "trocar de camisola apenas por dinheiro, se não era violentar o coração e o clube, era, pelo menos, aceitar viver como um mercenário"*.

*retirado de “101 Cromos da Bola”, Lua de Papel, Rui Miguel Tovar, Março de 2012

444 - PAULO MADEIRA

Foi como júnior que Paulo Madeira, vindo do Lusitano de Vila Real de Santo António, chegou ao Estádio da Luz. Em Lisboa acabou a formação e viu o seu nome, por altura do último ano nas “escolas encarnadas", a ser incluído na lista de convocados para o Mundial sub-20 de 1989, realizado na Arábia Saudita. O facto de, no aludido país do Médio Oriente, ter participado em todos os desafios daquela que foi uma caminhada vitoriosa, transformou-se no sinal, mais do que evidente, que o defesa-central tinha valor para, futuramente, singrar nas “Águias”. Com essa ideia em mente, os responsáveis técnicos benfiquistas, nomeadamente Sven-Göran Eriksson, mantiveram o jovem jogador no plantel. Claro está que, como é normal nessas situações, a sua afirmação não foi fácil e o jovem intérprete, na sombra de jogadores como Ricardo Gomes ou Aldair, não teve muitas oportunidades no decorrer das campanhas de 1989/90 e 1990/91.
Com a entrada na época de 1991/92, surpreendentemente nenhum nome sonante acabou anunciado como reforço para o sector mais recuado das "Águias". No centro da defesa, como aposta do já referido técnico sueco, surgiu então Paulo Madeira. Ainda algo inexperiente, a escolha do jogador, ainda por cima para titular, foi vista como um enorme risco. No entanto, o atleta não desiludiu e mostrou, no decorrer das provas agendadas para a campanha mencionada no começo deste parágrafo, uma consistência digna dos grandes nomes a exibirem-se na sua posição. Uma dessas demonstrações, que ficará para sempre na nossa memória, foi o mítico Arsenal/Benfica, disputado em pleno Highbury Park. Ao lado de Rui Bento, outras das jovens promessas saída das “escolas” benfiquistas, o jogador faria um jogo praticamente imaculado, contribuindo para a eliminação dos londrinos e, acima de tudo, empurrando o Benfica para a participação na fase de grupos da última edição da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Depois dessa temporada, quando era esperada a sua afirmação como um dos pilares do “Glorioso”, Paulo Madeira começou a perder algum espaço. Surgiu então o empréstimo ao plantel de 1993/94 do Marítimo, com a passagem pela Madeira a traduzir-se numa boa época. Infelizmente para o jogador, a cedência aos “Leões do Almirante de Reis” impediu-o, com o Benfica a sagrar-se campeão, de juntar tal título às vitórias no Campeonato Nacional de 1990/91 e à Taça de Portugal de 1992/93. Pior ainda emergiu com o termo da campanha da chegada de Artur Jorge aos comandos das “Águias”. Com mais uma purga de balneário perpetrada pelo técnico, um dos nomes indicado, pelo treinador português, para abandonar o clube, foi o do defesa e tal dispensa levou-o para a outra ponta da capital, onde, durante dois anos, envergou a camisola do Belenenses.
No Restelo, o jogador continuou a manter uma qualidade apreciável, motivo suficiente para voltar à órbita das pretensas contratações do Benfica. No entanto, era João Vale e Azevedo quem "reinava" para os lados da 2ª Circular. Escusado será dizer que o regresso de Paulo Madeira à Luz, como em tantas outras histórias ocorridas por essa altura, ficou envolto em polémica. Sem que consiga explicar-vos o cerne das “habilidades” feitas pelo Presidente das “Águias”, mas certo que as mesmas apareceram com o intuito do Benfica nada pagar ao Belenenses, o atleta, numa primeira fase, seria “contratado” pelo Burgos, para dias depois, ser inscrito pelo Levante! Finalmente, com a época de 1997/98 a decorrer, o estranho périplo terminou e o defesa veio a parar ao Benfica.
Trapalhadas à parte, o regresso de Paulo Madeira à Luz apanhou o clube numa das mais tristes fases da sua história. Esse "arrastar pela lama" trouxe consequências para todos os que nele foram apanhados. O defesa não foi excepção. Injustamente apontado como medíocre, o atleta pagou a factura de um clube em decadência. É certo que não era o mais rápido dos centrais; é certo, também, que não era um dos mais virtuosos da equipa. Contudo, apelidarem de "mau" alguém que, pouco tempo antes, tinha feito parte da convocatória de António Oliveira para a Fase Final do Europeu de 1996 ou porem em causa o valor de um jogador que alcançou as 24 internacionalizações, transformou-se numa tremenda injustiça. Está bem, podemos justificar a atitude dos adeptos pelo momento conturbado vivido pelo emblema. Contudo, há uma coisa que ninguém deve duvidar. Isso é a paixão que Paulo Madeira sempre nutriu pelo clube. A prová-lo estão as horas que dizem ter passado na fila de espera para conseguir votar numa das mais concorridas eleições do Benfica, acto esse que ditaria a derrota do Presidente já aqui aludido, elegendo para o seu lugar Manuel Vilarinho.
Depois do termo da ligação ao Benfica, Paulo Madeira ainda conseguiu outras aventuras no futebol. Já com a carreira a aproximar-se do fim, o defesa-central teve uma fugaz ligação ao Fluminense e outra experiência no plantel de 2003/04 do Estrela da Amadora. Aliás, foi na colectividade sediada na Reboleira que o jogador veio a terminar a caminhada enquanto futebolista.

381 - MATIC

Envolvido na transferência de David Luiz para o Chelsea, Matic, por razão do empréstimo aos holandeses do Vitesse, só chegaria ao Benfica meia temporada depois no negócio concluído, mais precisamente no Verão de 2011. Apesar de nunca ter sido, até então, um dos nomes habituais no plantel dos "Blues", o facto de, desde tenra idade, ser uma das apostas dos londrinos, levou a que fosse visto pelos responsáveis do emblema da "Luz" como uma boa contratação. No entanto, os primeiros jogos cumpridos pela equipa "encarnada" mostrariam um jogador pouco assertivo. Sendo a clarividência essencial para quem joga a “trinco”, a estreia pela agremiação lisboeta, deixaria os adeptos desconfiados e a presença de Javi Garcia ira dificultar, ainda mais, a sua disputa por um lugar no “onze”.
Com a saída do aludido internacional espanhol, para o Manchester City, nos últimos dias do defeso de 2012/13, muitos foram os adeptos que tremeram quando deram conta que a alternativa para a posição "6" era o sérvio. Contudo, para os mais atentos, os derradeiros encontros da época anterior, tinham deixado a descoberto um atleta diferente daquele que havia chegado sensivelmente um ano antes. Ora, em abono da verdade, foi esse Matic que emergiu e que conseguiu firmar-se como um dos atletas mais importantes no decorrer da campanha benfiquista, referente à temporada que há pouco terminou.
Ao aparentar possuir o dom da omnipresença, o médio foi um autêntico esteio no miolo do terreno benfiquista. A sua capacidade de desarme revelou-se como uma potente arma e a maneira como, superiormente, consegue sair a jogar, acabou por ser o remate de todo um viçoso ramalhete. Justamente foi considerado como o atleta do ano para a Liga Portuguesa. Pena foi que, a nível do clube, esse sucesso individual, não tivesse a justa correspondência em títulos, pois, ele, mais do que ninguém, merecia-o!

378 - RUI PATRÍCIO


Num clube com ambição do Sporting Clube de Portugal, é muito difícil tentar explicar o desaire acontecido na finda época de 2012/13, em que nem o apuramento para as competições de índole continental foi conseguido. Ainda assim, mesmo tendo sido a pior temporada na história dos “Leões”, houve um atleta a destacar-se na luta contra tal descalabro. Muito longe do significado retirado da sétima posição conquistada na tabela classificativa do Campeonato Nacional, Rui Patrício teve exibições muito acima das alcançadas pela maioria dos seus colegas. Nesse sentido, é justo dizer-se que conseguiu atenuar o desastre “verde e branco”; é justo também dizer-se que demonstrou ser um dos melhores intérpretes de Alvalade e acima de tudo justificou a razão para ter destronado Eduardo das redes da principal selecção portuguesa.
Com tamanhas exibições, o guarda-redes de 25 anos, formado na Academia leonina, há muito deixou de ser uma promessa dos relvados lusos. As suas "luvas" passaram a ser das mais cobiçadas da Europa, fazendo de si um dos "activos" mais preciosos no depauperado e decadente "Reino do Leão". Porém, como veio a ser anunciado pelo Presidente Bruno de Carvalho, os “diamantes da coroa" sportinguista, fruto de negócios antigos, afinal não pertencem, na totalidade, ao clube. Ora, com a trágica notícia a revelar apenas uma pequena percentagem do “passe” do jogador na posse do clube, aquilo que poderia tornar-se num grande encaixe, afinal parece ainda não ser o começo da almejada recuperação financeira do clube.

336 - JAIME GRAÇA

Cedo, como era apanágio para muitos da sua condição social, abandonou os estudos para, ainda na meninice, passar a dedicar o tempo a aprender uma profissão. Electricista haveria de ser a sua "arte" e que jeito daria essa aprendizagem anos mais tardes. No entanto, o desporto era a verdadeira paixão e muito antes de preferir o futebol como a modalidade de eleição, lá ia dividindo o tempo entre o popular "jogo da bola", as obrigações de aprendiz e o Hóquei.
Sobre os patins, Jaime Graça também mostrava grande habilidade. Os amigos comparavam-no aos melhores craques da época, os patinadores do FC Barcelona e, desse modo, lá colou a alcunha de "Catalunha". Contudo, talvez pela influência do irmão mais velho, o médio internacional Emídio Graça, na altura de escolher uma modalidade preferiu os campos às quadras dos pavilhões. Nos primeiros passos dessa senda, apesar de, primeiro, ter tentado a sua sorte nos "Sadinos", o jovem médio acabaria a envergar as cores do Palmelense. Todavia, com o jeito exibido para o jogo, rapidamente haveria de voltar ao emblema de Setúbal. Aos 17 anos estrear-se-ia com a camisola verde e branca e no Vitória Futebol Clube marcaria uma época. Para ele seria o consolidar das capacidades como atleta, o desenvolvimento do famoso drible, da postura em campo, da maneira intrépida como encarava todos os desafios. Já para a agremiação do Bonfim, com um dos golos a ser concretizado pelo centrocampista, seria a altura de vencer a edição de 1962/63 da Taça de Portugal, o primeiro grande troféu nacional da história da colectividade.
Com toda a evolução demonstrada pelo jogador, ninguém ficaria espantado com a estreia do médio na principal "Equipa das Quinas". Ainda ao serviço dos setubalenses seria chamado por Manuel da Luz Afonso a representar Portugal no Campeonato do Mundo de 1966. Em Inglaterra, chamado a campo por Otto Glória, ao lado de estrelas como Eusébio, Coluna, Vicente, José Carlos, Simões, José Torres, entre tantos outros craques, Jaime Graça acabaria o torneio como um dos totalistas e ajudaria, e de que maneira, à campanha da selecção lusa que, no aludido certame, atingiria o terceiro lugar.
Foi igualmente em "Terras de Sua Majestade" que terá recebido, através de um telefonema da sua esposa, a notícia de que já era atleta do Benfica. De "Águia" ao peito viveria uma amálgama das mais distintas emoções. Primeiro, posso contar-vos a vez em que, com os seus conhecimentos sobre electricidade, salvou alguns colegas da morte certa. Malta da Silva e Eusébio dever-lhe-ão para sempre a vida, depois de Jaime Graça ter conseguido desligar o quadro que alimentava uma banheira de hidromassagem avariada, num acidente que, ainda assim, vitimaria fatalmente o defesa Luciano.
É certo que os feitos desportivos foram igualmente importantes. Pelo Benfica, a conquista de 7 Campeonatos e 3 Taças de Portugal, terão sido, para o jogador, inesquecíveis. Ficar-lhe-ia, no entanto, com uma grande mágoa, a de nunca ter vencido, ao serviço daquela que era uma das maiores potências do futebol europeu da altura, a Taça dos Clubes Campeões Europeus. Mesmo assim, haveria de marcar presença na final de 1968, frente ao Manchester United. Seria dele o golo que levaria a disputa para o prolongamento. Porém, a sorte não estava do lado dos "Encarnados" e o médio, mais os seus companheiros, sairiam do Estádio de Wembley apenas com o consolo do segundo lugar.

275 - PEPE

Poderá ter sido pela inconsciência dos 18 anos de idade, mas logo na estreia na primeira equipa do Belenenses, Pepe encaminhou-se para aquilo que acabou por caracterizar a sua curta carreira, isto é, a queda para o sucesso. O jogo, frente ao Benfica, revelou, a 15 minutos do fim, os “Azuis” a perder por 4-1. Depois de, para grande espanto de todos, terem conseguido empatar, já nos instantes finais do encontro foi assinalada uma grande penalidade a favor dos da “Cruz de Cristo”. Enquanto todos se encolhiam com a perspectiva de serem chamados à execução do castigo, o avançado agarrou na bola, assumiu a responsabilidade perante o capitão Augusto Silva e nem o facto de estar em pleno Campo das Amoreiras, a casa das "Águias", fez com que errasse o alvo.
Transformado o referido castigo em golo, Pepe, nesse mesmo instante, começou a erguer o próprio mito, que, ainda nesse ano de 1926 e por razão da chamada aos trabalhos da Selecção Nacional, cresceu de forma exponencial. Mais uma vez, que grande estreia! Apesar de ocupar a posição de extremo, o jogador, com uma aptidão excepcional para finalizar, marcou 2 golos frente à França e ajudou à vitória lusa por 4-0. Outros foram os momentos a alimentar essa veia goleadora. Como exemplo, marca que é recorde nas provas oficiais portuguesas, surgem à cabeça os 10 remates certeiros contra o Bom Sucesso ou, ainda nessa temporada de 1929/30 do Campeonato de Lisboa, os 36 golos concretizados durante as 14 jornadas da prova.
Em 1928 Pepe disputou os Jogos Olímpicos em Amesterdão. Na cidade holandesa revelou-se ao Mundo como um exímio atacante. Nele juntavam-se a velocidade, as fintas, o remate certeiro e, principalmente, uma enorme vontade. Muito escreveram sobre ele, mas nada melhor para o caracterizar do que as palavras de um outro grande nome do futebol nacional, Severiano Correia – “Era de facto um jogador extraordinário! Irrequieto e franzino, dentro do rectângulo era um elemento que chamava as atenções do público. Chutador por excelência, de uma combatividade extraordinária, constituía perigo para qualquer defesa, por muito valiosa que fosse. Era o menino mimado das gentes de Belém, de tal modo que nem com uma rosa se lhe poderia bater — expressão do seu mestre Artur José Pereira”*.
Era já um ídolo das massas quando, a 24 de Outubro de 1931, a tragédia bateu à sua porta. Numa manhã, como outra qualquer para ele, depois de ir para o local de trabalho, as Oficinas da Aviação Naval em Belém, Pepe desembrulhou um pão com os restos do jantar do dia anterior. Ainda partilhou a merenda com o gato que ali era a mascote e foi o bicho, ao morrer, que deu o primeiro sinal da desgraça a avizinhar-se. Com fortes dores abdominais, Pepe foi rapidamente conduzido ao hospital. Contudo, o corpo médico, face às fortes hemorragias que dilaceravam o atleta, viram-se impotentes e o jovem futebolista acabou por falecer, segundo o relatório forense, devido a envenenamento. Ao que parece, a mãe, num equívoco que só não foi mais fatal porque ela e os seus outros filhos conseguiriam sobreviver, acidentalmente trocou bicarbonato por potassa, adicionando o químico à comida por todos ingerida.
Ao funeral no Cemitério da Ajuda, dizem ter comparecido mais de 30 mil pessoas. Muitas foram as homenagens que se seguiram, como o Estádio das Salésias baptizado com o seu nome - José Manuel Soares. Por Leopoldo de Almeida, foi ainda esculpido o baixo-relevo que agora figura no Estádio do Restelo. Porém, mais do que tudo, as saudades deixadas entre adeptos e colegas fizeram dele, e farão para sempre, uma das grandes lendas do desporto português.

*retirado de “O Século XX do Desporto”, de António Simões e Rui Dias, 2001, edição “A Bola”

129 - JOSÉ AUGUSTO

"O meu pai jogava futebol no Barreirense, mas, a certa altura, ficou doente dos pulmões. Francisco Ferreira era seu compadre e levou o Benfica duas vezes ao Barreiro para angariar fundos para nos ajudar. Só admitia transferir-me para o Sporting ou para o FC Porto ou para qualquer outro clube se o Benfica me dissesse que não estava interessado"*. A promessa que fizera a ele próprio era uma forma de gratidão para com o emblema que na doença do seu pai, Alexandre de Almeida, auxiliara a sua família. Mas a vontade de representar o conjunto da “Luz” por pouco não se concretizava. O namoro com o extremo e nova estrela da colectividade da Margem Sul tinha começado bem antes. E se nas primeiras tentativas a exigência de 1000 contos foi adiando a saída do avançado, a despromoção da formação “alvirrubra” acabaria por transformar a sua transferência numa operação essencial para a sobrevivência do clube.
Segundo consta, já o atleta estava na Estação de Santa Apolónia com as malas aviadas para embarcar em direcção ao Porto, quando Manuel da Luz Afonso, responsável pelo futebol benfiquista, desvia José Augusto do seu destino. Com a vontade do jogador em vestir a camisola vermelha a assumir-se como prioritária perante qualquer outra hipótese, foi tão fácil convencê-lo a assinar contrato que a sua rubrica acabaria gravada numa folha em branco. Já no Benfica, depois de entrar em 1959, viveria muitos momentos de glória: venceria 8 Campeonatos Nacionais, 3 Taças de Portugal e seria, em duas vezes consecutivas, consagrado como campeão europeu de clubes.
Para além dos títulos, viveria também muitas histórias engraçadas. Numa delas, frente ao Sporting de Braga, seria preso. Naquele seu jeito rápido, excelente de técnica e visão de jogo, o extremo-direito, ao aproximar-se da linha de fundo, provavelmente para mais um dos seus mortíferos cruzamentos, é rasteirado sem que qualquer falta fosse assinalada. Nisto, um dos polícias que estava de serviço ao jogo, manda-o levantar-se do chão. Daí à troca de palavras e à ameaça de prisão, foi um instante. A promessa seria cumprida ao intervalo, com uma enorme confusão a eclodir no acesso aos balneários. O avançado e Mário Coluna, por razão da sua intervenção na defesa do colega, jogariam a segunda parte sob ordem de prisão. Porém, a melhor parte desse episódio ainda estava para vir! Quem é que teve de dormir em Braga e, no dia seguinte, ir responder a tribunal? Domiciano Cavém!
Os anos de José Augusto de "águia" ao peito fariam dele um dos mais futebolistas mais apreciados no mundo. Para além de premiado pela "France Football" como o melhor na sua posição, seria convocado para a selecção da FIFA por duas ocasiões. Claro, toda essa visibilidade, adicionada às finais Europeias disputadas, só poderia resultar na cobiça de outros clubes, como o Real Madrid. No entanto, nunca sairia do Benfica. Por lá terminaria a sua carreira de jogador e, ao substituir Otto Glória, iniciaria a sua caminhada como treinador.
Pela selecção, entre 45 internacionalizações e 9 golos, viveria o seu apogeu com a presença no Mundial de 1966, jogando todos as partidas de qualificação e da fase final da campanha dos "Magriços". No papel de treinador também estaria presente num dos grandes torneios internacionais. Ao integrar a comissão técnica de Portugal, ao lado de Fernando Cabrita, António Morais e Toni ajudaria a orientar a “equipa das quinas” no Euro 84.

*retirado de ”100 figuras do futebol português”, António Simões e Homero Serpa (A Bola), 1996

117 - BUTT

O primeiro sinal apareceu no VfB Oldenburg, clube de cariz regional, onde terminou a sua formação e onde jogou as primeiras campanhas como sénior. Anos mais tarde, com a sua transferência para um emblema de outra monta, cresceu a esperança que conseguisse reprimir essa mania. Não, nada desapareceu na sua ida para o Hamburger SV, e nada desapareceu na posterior transferência para o Bayer Leverkusen. Assim, o guardião continuou a marcar penalties.
No emblema da Renânia do Norte-Vestfália sofreu um golo de meio-campo, após o recomeço do jogo e enquanto festejava a marcação de um tento seu. Ainda assim, nem este incidente desencorajou Hans-Jörg Butt a cobrar as grandes penalidades atribuídas à sua equipa. Ora, à custa de marcar os penalties, ganhou o apelido de "o guarda-redes mais sul-americano da Europa".
Ao ver-se remetido para o banco de suplente, depois de várias épocas como titular, Butt decidiu mudar a direcção à sua carreira. O guardião deixou o Bayer Leverkusen, com quem chegou à final da “Champions” de 2001/02, e rumou a outro clube e a outro país. O destino, em 2007, foi Portugal e o Benfica. Contudo, pouco mudou na sua carreira. Desde cedo, Quim tirou-lhe a ilusão da titularidade no Campeonato. Nos jogos que restaram, os das Taças, na primeira oportunidade que teve para marcar uma grande penalidade, falhou!
Passado uma época, voltou à Alemanha. No Bayern Munique ainda conquistou a titularidade, e esta já é a 4ª campanha ao serviço do emblema bávaro. Mas depois de tantos anos e como tudo tem que ter um fim, Butt já revelou que entre esta temporada de 2010/11 ou a próxima, a sua carreira com "veia goleadora", conhecerá o final.

71 - YAZALDE

Um dia foi assistir ao treino de um amigo seu, num pequeno clube de Buenos Aires, o Piraña. Como era oriundo de classes desfavorecidas e daquilo que ganhava como vendedor de bananas, não sobrava nada para a compra de um equipamento, teve que, no mesmo dia em que foi desafiado a prestar provas, pedir roupas emprestadas. Porém, nem esse pequeno incidente teve peso na hora de cativar os responsáveis pelo clube. Terminadas as provas, e fascinados com a sua habilidade, logo deram a Yazalde um contrato para assinar.
A sua ascensão foi rápida. Tinha apenas 20 anos, quando num torneio de futebol, o presidente do Independiente reparou nos seus dotes goleadores. A oportunidade para ir jogar num dos históricos da Argentina, foi-lhe dada logo ali. Já no novo clube, demorou pouco tempo até chegar à primeira equipa. Ainda a jogar pelas “reservas”, o técnico brasileiro Osvaldo Brandão, ao ver no ponta-de-lança enormes qualidades, logo chamou o atleta para equipa principal.
Na temporada de estreia, feito que repetiria 3 anos depois, Yazalde tornou-se campeão. Contudo, a referida revalidação tomou contornos de maior importância. Em 1970, numa altura em que o seu peso na equipa era incontestável, o avançado foi a figura central do título ganho. Ao sagrar-se Melhor Marcador da Prova, os seus golos foram fulcrais. Ainda assim, houve um que ficou na memória de todos os adeptos. Nos últimos minutos da derradeira jornada, onde só uma vitória interessava, foi dele o tento que acabou por desempatar a partida frente ao Racing Avellaneda e por dar o troféu aos escaparates do Independiente.
No rescaldo da prova, apesar da alegria, outra preocupação assolou o espírito dos dirigentes do Independiente. Yazalde estava nos últimos dias de contrato e o mérito das suas exibições permitiam a cobiça de outros emblemas. Valência, Lyon, Nacional de Montevideu, Santos, Palmeiras e Boca Juniores disputaram os seus serviços. No entanto, seria o Sporting, após uma investida relâmpago, a contratá-lo. Com isso chegava a Lisboa um avançado que, ao contrariar o típico jogador sul-americano, não era de finta fácil e bola no pé. Por outro lado, a sua agilidade, o sentido posicional e uma entrega inabalável, haviam de tornar-se míticas. Nos 4 anos em que vestiu a camisola leonina, fez-se num símbolo do clube. A sua primeira época não terá sido espantosa, mas daí em diante foi sempre em ascensão. Em 1973/74, para juntar à vitória no Campeonato Português e ao título de Melhor Marcador com 46 golos, Yazalde também ganhou o seu lugar no rol dos ilustres vencedores da Bota d'Ouro.
Ainda pelo Sporting, havia de conseguir terminar a temporada de 1974/75, na posição cimeira da tabela dos Melhores Marcadores do Campeonato. Foi a sua última época em Portugal. Em seguida, seguiu para França e para o Olympique de Marselha. Todavia, as suas prestações, ainda que boas, já não voltaram a ter o brilhantismo que tinham levado o atleta ao estrelato e ao Mundial de 1974. Passadas 2 épocas voltou ao país natal. Regressou para representar o Newell's Old Boys e, depois de 4 campanhas, o Huracán.
É certo que as marcas, os golos e as vitórias dão contornos de heroísmo à vida dos homens do futebol. Contudo, não é menos verdade que aquilo que mostram fora das 4 linhas, muito mais do que as conquistas dentro delas, é o mais importante dessas memórias. O “Chirola”, na sua generosidade, tornou-se numa dessas saudosas lembranças. Como exemplo, temos a história do carro ganho com a conquista da Bota d’Ouro. Ao querer premiar todos os seus colegas pelo feito conseguido, Yazalde pôs o automóvel à venda. Ao dinheiro conseguido, dividiu-o e ofereceu-o aos companheiros de balneário, pois, como terá querido dizer, a glória é de todos.

69 - MATATEU

Jogava no 1º de Maio de Lourenço Marques, filial do Clube Futebol "Os Belenenses" em Moçambique, um avançado possante que diziam marcar muitos golos. Nisso, às Salésias começariam a chegar as notícias do seu valor e, na “casa mãe”, quiseram saber mais sobre o tal atacante. A viagem foi marcada. As passagens compradas e todas as despesas pagas. No entanto, a pressa, ou o medo de que um dos rivais desviasse o craque foi de tal ordem, que a viagem de barco foi trocada por uma de avião!
A Lisboa chegava Matateu, corria o ano de 1951. Como já contava 24 anos, a desconfiança dos adeptos sobre o real valor de um jogador que tarde tinha despontado, começou a surgir. Porém, a dúvida demorou pouco tempo a esfumar-se. Logo à 1ª jornada do Campeonato de 1951/52, o avançado haveria de marcar 2 golos na vitória do Belenenses por 4-3, frente ao Sporting dos “5 Violinos”. A multidão, endoidecida pela estrondosa exibição, invadiria o campo para, no final do jogo, carregar em ombros a sua nova estrela.
Outros momentos inesquecíveis não demorariam a aparecer. Bastou mais 1 época para que conseguisse sagrar-se, pela primeira vez, no Melhor Marcador do Campeonato, com 29 golos. A proeza voltaria a repetir-se passados 2 anos, dessa feita com 31 remates certeiros. Contudo, as suas maiores façanhas, e que acabariam por projectá-lo como uma estrela internacional, terão ocorrido em 1955. Em Maio do referido ano, no Estádio do Jamor, e na sequência da primeira vitória de Portugal sobre a Inglaterra, escreveriam assim num tablóide britânico: “Fomos derrotados por essa oitava maravilha que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada e inebriada. E não há justificação porque, com excepção do maravilhoso Matateu, o grupo português é uma equipa de passeantes com apenas uma vitória em 19 jogos”*. Ainda nesse ano, em Paris, na disputa de mais uma edição da, à altura muito prestigiada, Taça Latina, mais um louvor. Ao passar à frente de “galácticos” como Di Stefano ou Puskas, o avançado veria o seu nome ser eleito como o melhor atleta da competição.
Doze anos após ter chegado, já com 36 anos, veria o treinador Fernando Vaz a inscrevê-lo no rol de atletas dispensados. Apesar de descontente com a despromoção às “reservas”, acataria, com todo o brio, as decisões tomadas. Mesmo depois do técnico ter sido despedido, Matateu achou que seria melhor despedir-se do Belenenses. Saiu sem nunca ter sido campeão e, apenas, com 1 Taça de Portugal no currículo.
Porém, a vontade de jogar ainda não tinha acabado. Os últimos anos da carreira passá-los-ia em clubes de menor monta. Atlético, Amora, Gouveia e Desportivo Chaves marcariam a derradeira fase de uma caminhada que, no Canadá, terminaria aos 55 anos. Longa a vida de um dos mais letais avançados portugueses que, como diria um dia Artur Quaresma, seu antigo treinador – "Equipas como Sporting, FC Porto e Benfica marcavam-no homem a homem, num tempo em que nem se pensava nessas modernices"*.

*retirado do artigo de Rui Tovar, publicado no “Jornal i”, a 27/01/2010