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1184 - VERÍSSIMO

Com o percurso formativo feito, na sua grande maioria, com as cores do Benfica, Veríssimo, desde cedo, mostraria uma postura diferente dos demais colegas de equipa. Com uma maturidade bem vincada, revelada dentro e fora de campo, veria, por diversas vezes ao longo da carreira, ser-lhe confiada a braçadeira de “capitão”. A seriedade da sua entrega levá-lo-ia, a exemplo, a capitanear a equipa de juniores das “Águias”, logo na temporada de estreia no referido escalão. Ao longo dos anos, a hombridade patenteada faria dele um atleta que, longe da exuberância de alguns predestinados, pautaria as exibições pela sobriedade. Uma mentalidade positiva, aliada a um bom jogo de cabeça e a uma velocidade acima da média, torná-lo-iam num bom “alvo” para as convocatórias da Federação Portuguesa de Futebol. O crescimento apresentado nas “escolas” benfiquistas, bem como nos reptos lançados às jovens selecção nacionais, alinhariam a evolução do defesa-central para os desafios de outros patamares e a chegada a sénior dar-se-ia de “Águia” ao peito.
A primeira aparição com a camisola da principal equipa do Benfica, aconteceria na temporada de 1995/96. Depois de a época ter começado sob o comando técnico de Artur Jorge, seria a troca do referido treinador por Mário Wilson que daria a Veríssimo a oportunidade de fazer a estreia pelos seniores. Tal tomaria lugar no Estádio “da Luz”, em Março de 1996. Contudo, a presença no plantel de elementos bem mais experimentados, casos de Ricardo Gomes, Hélder ou Paulo Pereira, não facilitariam a vida ao jovem jogador. Por essa razão, a partida disputada frente ao Desportivo de Chaves tornar-se-ia, tanto nessa época, quanto nas seguintes, numa das poucas participações do defesa com a camisola dos “Encarnados”. A solução para a falta de utilização surgiria do Alverca e, para que pudesse ter mais minutos de jogo, o emblema ribatejano entraria no percurso do atleta.
O emblema, à altura, “satélite” do Benfica e a passagem, já na 1ª divisão, pela Académica de Coimbra, dariam ao jogador o traquejo suficiente para que, daí em diante, conseguisse afirmar-se como um intérprete de cariz superior. Ainda assim e com qualidade suficiente para militar no escalão maior do futebol português, a verdade é que Veríssimo nunca mais voltaria a envergar a camisola do Benfica. Na época de 1999/00 seria o Alverca, novamente, a abrir-lhe as portas e a dar azo a mais um grande rol de exibições positivas. Durante as 5 temporadas seguintes, 4 das quais no patamar principal, representaria os ribatejanos sempre com uma seriedade inabalável e, como prémio para a sua dedicação, mais uma vez, veria a braçadeira de “capitão” a ser entregue à sua custódia.
De seguida viria o período mais prolífero do seu trajecto enquanto desportista profissional. Ao serviço do Vitória Futebol Clube, nas 3 temporadas passadas à beira do Rio Sado, o central conseguiria os maiores feitos da carreira. Logo na campanha de chegada ao Bonfim, acompanharia o emblema setubalense até à final da Taça de Portugal, marcaria presença no Jamor e, mesmo sem sair do banco de suplentes, contribuiria para a conquista do troféu. Nas 2 campanhas subsequentes, voltaria a viver outros momentos dignos de destaque. Para além de nova comparência, dessa feita como titular, no derradeiro jogo da “Prova Rainha”, os anos vindouros trariam ao atleta a disputa de duas edições da Supertaça e a inclusão no grupo que, por duas vezes, participaria na Taça UEFA.
Antes ainda de “pendurar as chuteiras”, o defesa adicionaria ao currículo as participações pelo Fátima e, com a época de 2011/12 a tornar-se na da sua despedida, com as cores do Mafra. Após o ponto final da carreira como futebolista, e sem grande tempo para estar afastado da modalidade, a temporada seguinte marcaria o arranque das actividades de Nélson Veríssimo como treinador. Desde então ligado à estrutura do Benfica, o antigo futebolista tem desempenhado o seu papel, maioritariamente, ao serviço do conjunto “B”. Como adjunto ou técnico-principal, o seu trabalho tem sido pautado, à imagem dos anos como atleta, pela honestidade, paixão e rigor. Por essa razão, aquando da rescisão de Bruno Lage em 2019/20, seria ele a escolha para assumir o comando dos “Encarnados”. Já esta época, a de 2021/22, a saída de Jorge Jesus levaria o Presidente Rui Costa a elegê-lo para idêntica tarefa e, ao começar com uma “prova de fogo”, o Estádio do Dragão irá apadrinhar o seu regresso à primeira equipa das “Águias”.

676 - VALDO

Tendo começado a praticar futebol ao serviço do Figueirense, Valdo acabaria por revelar-se com a camisola do Grêmio. Já em Porto Alegre, onde chegaria em 1982, o jogador começaria a destacar-se. Apesar de franzino, a maneira como actuava dentro de campo, permitia ao médio fugir às eventuais fragilidades físicas. A sua visão de jogo fazia com que, para ele, a construção das manobras ofensivas parecesse fácil. Claro, também ajudava a maneira como Valdo, preferencialmente com o pé canhoto, conseguia tratar a bola. Essa mesma habilidade faria também com que, ao longo da sua carreira, o atleta acabasse por tornar-se num exímio marcador de bolas paradas.
Quem não deixaria de reparar na sua evolução, seria Têle Santana. O antigo seleccionador brasileiro, responsável pela “Canarinha” no Mundial de 1986, e até para surpresa do próprio atleta, haveria de juntar o seu nome a craques como Zico, Falcão ou Alemão. No torneio realizado no México, Valdo, perante tamanha concorrência, acabaria por não participar em qualquer encontro. No entanto, este seria só o ponto de partida para tornar o seu nome num dos habituais na equipa brasileira.
Depois dessa primeira participação, o médio acabaria também por marcar presença no Campeonato do Mundo de 1990. O Brasil, sempre com Valdo a comandar o sector intermediário, apresentava-se em Itália como o vencedor da Copa América de 1989. Esse título dava ao “Escrete” a responsabilidade de, ainda mais, ter de lutar pelo triunfo. Contudo, a equipa brasileira não iria além dos oitavos-de-final. Esse jogo, disputado frente à Argentina, muito mais do que a eliminação do Brasil, ficaria marcado pela polémica – “Eu sou assim, raramente eu tomo água nos jogos. Até hoje eu sei que é um erro, mas até hoje eu não bebo água. Meu negócio nos jogos era tomar um cafezinho no intervalo e estava tudo certo. Anos depois fiquei sabendo que o Maradona queria que eu bebesse a água. Ele me chamava de “Baldo”. Ele me chamava «Baldo, Baldo», só que eu não era de beber água (…).Teve essa água baptizada e realmente os brasileiros beberam. Foi uma ingenuidade, sobretudo vindo dos nossos “hermanos”. E o Maradona disse ainda depois que a água estava baptizada mesmo e que não era para o Branco, e sim para o «Baldo»”*.
É entre os dois já referidos Mundiais que Valdo assina pelo Benfica. No Verão de 1988, a chegada do internacional brasileiro dá uma nova dinâmica ao meio-campo “encarnado”. Comandado pelo sueco Sven-Goran Eriksson, a energia que a equipa ganharia com a sua contratação, permitiria ao Benfica sagrar-se campeão logo nessa sua época de estreia. Depois, viria a Taça dos Campeões Europeus de 1989/90, a “mão de Vata” e a final disputada em Viena. Nesse derradeiro encontro, as “Águias” claudicariam frente a um Milan recheado de estrelas. Baresi, Gullit, Donadoni, Van Basten, entre outros, ajudariam Rijkaard a marcar o golo que daria a vitória à equipa transalpina – “Naqueles jogos tudo se decide pelos detalhes. Eles tinham uma grande equipa... Nós também, mas eles... Jogámos de igual para igual, mas o Hernâni, que chamávamos de Mano, ouviu um apito da bancada, hesitou, parou e o Rijkaard furou e marcou”**.
No seguimento desta primeira passagem pela “Luz”, onde ainda venceria mais um Campeonato (1990/91) e uma Supertaça (1989/90), Valdo começa a receber convites de outras ligas. O Milan posiciona-se como um dos mais fortes candidatos à sua contratação, mas a transferência, um pouco surpreendentemente, acaba por ir noutro sentido – “Eu tinha recebido uma proposta fabulosa, fantástica, do AC Milan, onde um dirigente foi em minha casa. Eu disse a ele que não queria; ele disse que eu era louco, com o dinheiro que estava em cima da mesa; E eu perguntei a ele – «Tudo bem eu vou para o Milan, o senhor irá colocar-me a jogar em que posição? O Ancellotti? Eu não sou trinco! O Rijkaard eu não vou tirar do time; o Gullit também não vou; Donadoni , que eu poderia jogar pelo lado direito, capitão da selecção da Itália ou o Evani, a mesma coisa; o Van Basten, avançado?!» Eu falei – «Eu vou jogar onde?». Eu disse para ele –  «Meu senhor, eu quero é voar. Tenho 27 anos, quero jogar, correr! E então ele começou a rir e falou «Bravo»”***.
No Paris Saint-Germain iria partilhar o balneário com nomes conhecidos do futebol português. Ao lado de Ricardo Gomes, também seu companheiro no Benfica, e Geraldão (ex-FC Porto), Valdo seria orientado por Artur Jorge. Durante essas 4 temporadas no Parc des Princes, a última das quais já com Luiz Fernandez como treinador, a equipa da capital francesa chegaria ao topo do futebol gaulês. O Campeonato ganho em 1993/94, as duas Taças de França (1992/93; 1994/95) e uma Supertaça (1994/95), seriam ainda mais abrilhantados pelas campanhas europeias, que, por duas vezes, permitiriam ao clube chegar às meias-finais.
Contudo, as querelas com o técnico francês, acabariam por apressar Valdo no regresso a Portugal. Mais uma vez a vestir de encarnado, o médio ofensivo acabaria por reencontrar-se com Artur Jorge. Todavia, e numa altura em qua o clube lisboeta encetaria uma série de anos sem conseguir vencer o campeonato, o brasileiro viria o técnico português partir rapidamente. O saldo dessa sua passagem pelo Benfica, numa altura em que Mário Wilson já tinha tomado conta da equipa, acabaria por ficar reduzido à conquista da Taça de Portugal de 1995/96. Relativamente ao “Velho Capitão”, para além dessa partida disputada no Jamor, e que acabaria por ficar manchada pelo caso do “very light”, há um outro episódio que Valdo, com muito humor, gosta de recordar – “Um exercício do treino culminava com centros para a área e finalização, e num dos cruzamentos o Preud'homme socou a bola, ela passou por cima do Mário Wilson e apareceu o Ricardo Gomes, que rematou de primeira e acertou mesmo no cachaço do professor, que disse logo, com aquela voz característica. F... Quem fez este remate não joga domingo! Mas quando olhou para trás e viu o Ricardo Gomes mudou de ideias. Esse joga, esse joga!”**.
Se depois de sair do Benfica, já com 33 anos de idade, muitos pensariam que a carreira de Valdo estaria perto de terminar, então, o engano foi monumental! Com passagens pelo Nagoya Grampus (Japão), e o regresso ao Brasil, onde, quase sempre no primeiro escalão, representaria, Cruzeiro, Santos, Atlético Mineiro, Juventude, Grêmio e Botafogo, o atleta apenas se retiraria com a chegada dos 40!!!
Nisto, o início das suas actividades como treinador. As experiências no Brasil, em França (Lusitanos de Saint-Maur), ou, como adjunto de Artur Jorge, ao serviço dos argelinos do MC Alger, têm-no preparado para futuras aventuras. Tendo uma ligação muito forte a Portugal, o seu desejo é exercer essas funções num dos nossos emblemas e, quem sabe, dar seguimento a um grande sonho – “Espero voltar um dia, pelo que eu fiz e ainda represento. Segundo o que os dirigentes falam, talvez haja a hipótese de um dia integrar os quadros do Benfica, até pelo que já vivi e pela experiência que tenho como 27 anos de profissional. Gostaria de ser útil ao Benfica. Seja nos Iniciados, Juvenis, Juniores, acredito que poderia ser útil ao Benfica”***.


*retirado de artigo de José Ricardo Leite e Vanderlei Lima, em www.uol.com.br, a 17/12/2013
**retirado de “soubenfica2010.blogspot.pt”, citando o jornal “A Bola”, a 25/12/2010
***retirado da entrevista em www.avanteplobenfica.com, a 2 de Abril de 2011

656 - BRASSARD


Suplente de Bizarro no Mundial S-20 de 1989, Brassard, dois anos depois, e no torneio que se seguiria, era já o dono e senhor das redes “lusas”. Ora, por altura desse segundo Campeonato do Mundo, e com uma carreira ainda a dar os primeiros passos, o guardião, cedido pelo Benfica, jogava no Louletano. Já pela selecção, ele que tinha um passado rico nas camadas jovens, evoluía ao lado de nomes como os de Luís Figo, Peixe, Rui Costa ou João Pinto.
Sendo ele um dos jogadores habituais nas convocatórias, a inclusão do seu nome para a disputa do torneio organizado em Portugal, não seria surpresa. Com o avançar das contendas, a sua reputação, como um atleta com um futuro brilhante, começa a crescer. Sempre seguro na defesa da baliza, Brassard tornar-se-ia num dos pilares da jovem selecção. Na final, disputada num Estádio da Luz completamente esgotado, acabaria por mostrar toda a sua categoria. Sem se intimidar pela responsabilidade de tal momento, ou, sequer, pela imensa moldura humana que enchia as bancadas, o guarda-redes haveria de brilhar. No desempate pela marcação de grandes-penalidades, Brassard defenderia um remate (Elber falharia outro) e, merecidamente, ajudaria Portugal a renovar o título de campeão.
O troféu, que acabaria por ser conquistado frente ao Brasil, muito mais do que a confirmação dos seus atributos, acabaria por ser o empurrão que o levaria a afirmar-se na 1ª divisão. Nesse sentido e ainda por empréstimo, o clube que o levaria à estreia no escalão máximo seria o Marítimo. Contudo, e tendo dado, nessa temporada de 1991/92, um passo importante na evolução como futebolista, Brassard, tolhido pela falta de traquejo, poucas oportunidades haveria de conseguir conquistar.
História bem diferente contar-se-ia na época seguinte. A jogar pelo Gil Vicente, Brassard toma um papel preponderante nos sucessos do emblema minhoto. Com uma temporada recheada de desempenhos bem positivos, o guardião começa a espreitar uma possível oportunidade no seio do plantel benfiquista. No entanto, as “Águias”, para a posição de guarda-redes, contavam com dois conceituados internacionais. Neno e Silvino haveriam de ser a principal barreira para a não inclusão do jovem jogador. Brassard acabaria por partir para um nova cedência.
O regresso de Brassard ao Benfica aconteceria na temporada de 1995/96. Já depois de vestir as cores do Vitória de Guimarães e de nova passagem pelo Gil Vicente, o atleta, pela mão de Artur Jorge, é incluído no grupo de trabalho “encarnado”. Dois anos no Estádio da “Luz” permitiriam ao jogador fazer parte da equipa que, logo na época da sua chegada e já sob o comando de Mário Wilson, venceria a Taça de Portugal. Todavia, esta nova passagem pelo clube onde tinha terminado a sua formação, acabaria por não ser tão frutuosa quanto aquilo que o jogador, por certo, esperaria. A culpa, desta feita, haveria de ser imputada a uma só pessoa – seu nome, Michel Preud’Homme.
Por razão de uma grave maleita, Brassard seria forçado a terminar a sua carreira de desportista. A lesão crónica, faria com que o guarda-redes, já depois de vestir as camisolas do Varzim e Vitória de Setúbal, decidisse, com apenas 29 anos, “arrecadar as suas luvas”. Ora, este momento acabaria por marcar o início de uma nova batalha. Ao reclamar uma pensão vitalícia por conta da sua condição, o antigo atleta vê negadas as suas pretensões. É então que o caso dá entrada nos tribunais. Com o processo a arrastar-se até ao Supremo, Brassard acabaria por sair vitorioso nesta sua luta contra a companhia de seguros em questão. O impacto deste caso seria tal, que o Governo acabaria por alterar as leis, dando a protecção necessária a futuros casos de incapacidade permanente.
Depois de se retirar como futebolista, o antigo atleta viu a Federação Portuguesa de Futebol abrir-lhe as portas. Actualmente, e tendo passado pelos mais diversos escalões, Brassard é um dos treinadores de guarda-redes das selecções nacionais.

307 - GASPAR PINTO

Notabilizou-se, em grande medida, pelos anos em que envergou a camisola do Benfica. No entanto, a carreira de Gaspar Pinto, antes da mudança para as “Águias”, conheceu as cores de outro emblema, o Carcavelinhos.
No extinto clube, que neste ano de 2012 comemoraria o centenário da sua fundação, o aguerrido defesa deu-se a conhecer. A forma combativa e aplicada de encarar todas as partidas, depressa levaram o atleta até à selecção nacional e à mudança para os “Encarnados”. Pelo Benfica, entre a segunda metade dos anos de 1930 até meados da década de 1940, Gaspar Pinto transformou-se numa referência do desporto português. Muito para além das 12 temporadas ao serviço do Benfica, dos mais de 300 jogos e diversos títulos que venceu com as “Águias”, ficaram célebres as disputas, muitas vezes para além do limite do razoável, com os mais variadíssimos oponentes.
O mais famoso dos seus adversários foi Peyroteo. Com o craque leonino, foram inúmeras as picardias que marcaram o “derby” “alfacinha”. A mais badalada dessas histórias foi o episódio em que, depois de repetidamente ser travado de forma menos leal, o atleta do Sporting não resistiu às ofensas verbais de Gaspar Pinto, acabando por esmurrá-lo. Depois do incidente cortaram relações. Todavia, no encontro entre uma selecção de jogadores de Lisboa e as “Águias”, jogo que serviu para marcar a despedida do benfiquista Valadas, o homenageado chamou os dois rivais, fazendo com que, num aperto de mão, surgissem as pazes. Segundo consta, a tentativa de apaziguamento foi infrutífera, com a contenda entre ambos a reatar-se logo na partida seguinte!

269 - VÍTOR SILVA

Começou logo por ter um início de carreira diferente dos demais, quando o Benfica, após vê-lo jogar no Torneio de Promoção da Associação de Futebol de Lisboa, ofereceu, coisa nunca vista até então, 15 contos pela sua transferência. À altura Vítor Silva pertencia ao Hóquei Clube de Portugal e por pedido do Carcavelinhos foi emprestado à colectividade de Alcântara para jogar o dito certame. O que aconteceu é que a sua prestação foi de tal maneira excepcional que, face ao poderio financeiro das "Águias", nenhum dos clubes conseguiu mantê-lo nas suas fileiras.
Com a transferência a ocorrer em 1927, o avançado tornou-se no primeiro jogador da história do futebol português a ser contratado por dinheiro. O episódio, na sociedade civil de então, gerou de imediato grande indignação. No entanto, o Benfica pouco ficou importado com a polémica, pois os responsáveis “encarnados” sabiam que ao plantel tinham adicionado um praticante com um estilo fora do comum. Para tal avaliação, muito contribuiu o seu excelente jogo de cabeça, onde os “saltos de peixe” eram a imagem principal. O atacante tinha ainda a capacidade de tornar em golos os lances que, para todos os outros, pareciam perdidos. A provar as suas qualidades chegaram também os números e os 203 remates certeiros em 236 partidas disputadas pelo Benfica, serviram para sublinhar as suas capacidades como avançado-centro.
Para além das cores do Benfica, outra das camisolas que vestiu com grande destaque foi a da selecção portuguesa. Envergando-a, marcou presença nos Jogos Olímpicos de 1928, competidos em Amesterdão e onde, para além de ter estado em todas as partidas – Chile, Jugoslávia e Egipto –, também fez o gosto ao pé em todas elas.
Apesar da qualidade patenteada, Vítor Silva retirou-se bem cedo e, pelo menos aos olhos da medicina de hoje, devido a uma estranha lesão. Aos 27 anos, o avançado deixou o mundo do futebol, por razão das varizes na perna esquerda e com o abandono, o Benfica perdeu aquele que, durante os 9 anos em que briosamente carregou o emblema da "Águia" ao peito, foi o primeiro grande “astro” dos “Encarnados”.

128 - CAVÉM

Foi difícil fugir ao fado do futebol depois de saber o pai Norberto Cavém (Lusitano VRSA e Olhanense) e o tio Diogo Barrocal (Lusitano VRSA) a correr os campos da bola. Terá sido isso que influenciou Domiciano Cavém... influenciou-o a ele, ao seu irmão Amílcar Cavém (Sporting da Covilhã) e ainda aos primos João Barrocal (Olhanense) e à outra glória benfiquista, Tamagnini Nené!
É sabido que o contexto familiar teve um papel preponderante nas suas escolhas. Tudo terá tomado contornos mais decisivos quando o seu pai, à altura treinador do Lusitano de Vila Real de Santo António, convidou o jovem jogador para fazer parte do conjunto que comandava. Já na sequência de 3 temporadas como sénior e com a descida de divisão do emblema algravio, o convite do Sporting da Covilhã levou-o a juntar-se ao seu irmão na cidade serrana. Daí ao Benfica foi apenas um passo e a glória, para um Cavém resistente, lutador, intrépido e brioso futebolista surgiu normalmente.
Na Luz, onde, entre 1955 e 1968, jogou na direita e na esquerda, no ataque, no meio-campo e até na defesa, fez parte da geração que disputou as 5 finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Muito contribuiu para todas essas caminhadas. Porém, o golo marcado frente ao Barcelona, na final de Berna, terá sido um dos seus melhores momentos. Outro remate certeiro ficou igualmente famoso e ter marcado aos 15 segundos frente ao FC Porto, faz dele o recorde do golo mais rápido numa final da Taça de Portugal.
Caricata, ficaria também para a história a superstição da barba por fazer e as Taças dos Clubes Campeões Europeus ganhas pelos “Encarnados”. Segundo as palavras de Cavém, na noite anterior à final contra o Barcelona, “apareceu-me uma figura simpática, meio calva e com bigode, cujas feições me eram totalmente estranhas, aconselhando-me a não cortar a barba, no caso de querer vencer”*. No ano seguinte, sonho idêntico, onde "o velho semi-careca voltou a aparecer e ensinou-me como deveria marcar Di Stefano"*. O Benfica venceu essas duas edições. Já no que à derrota de 1963 frente ao AC Milan diz respeito, a conversa sempre foi outra e, por várias vezes, lamentou-se por não ter jogado de barba por fazer.

*retirado de “Almanaque do Benfica – Edição Centenário 1904-2004”, Rui Tovar,  Almanaxi (2003)

122 - BÉLA GUTTMANN

Muitos anos antes dos seus afamados chazinhos terem valido ao húngaro as alcunhas "feiticeiro" ou "bruxo", ou ainda antes de ter conseguido sagrar-se bicampeão europeu, já Béla Guttmann tinha ganho o seu espaço na história do futebol.
Em 1919 começaria um trajecto como jogador que, ainda numa porção jeitosa, seria vivido no Campeonato norte-americano. Aos Estados Unidos da América chegaria numa “tournée” do SC Hakoah Wien, equipa de génese judaica e com a qual, com alguns colegas a acompanhá-lo na decisão, decidiria não regressar à Áustria. Nessa caminhada como futebolista, também teve o seu lugar na selecção magiar. Uma passagem mais discreta, mas, ainda assim, com a participação nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924.
Já como treinador, globalizou-se. Depois das passagens bem-sucedidas pela América do Sul ao serviço do São Paulo e do Quilmes, ou na Europa à frente do AC Milan, o técnico húngaro aterraria em Portugal. Após um ano no FC Porto, onde ganharia o Campeonato, o treinador iria atrás de uma proposta milionária e assinaria pelos rivais lisboetas. No Benfica, nos anos seguintes, patrocinaria uma verdadeira revolução. Ao dispensar cerca de 20 seniores, promoveria uma séria de novos atletas descobertos nos juniores das "Águias". Seriam esses jogadores a base para as 2 vitórias na Taça dos Clubes Campeões Europeus… Seriam esses jogadores e um tal avançado que, após uma conversa de barbearia com José Carlos Bauer, um antigo pupilo seu no São Paulo, Guttmann acabaria por desencantar em Moçambique.
Foi no Benfica que chegou ao topo e que sentiu a tão afamada mística – "Francamente, até pensava que não fosse nada, que não passasse de uma simples e vã palavra. Agora, porém, que a conheci, senti e vivi, afirmo-lhe que ela existe"*. Após a vitória de 1962, em São Bento, Guttmann e todos os jogadores foram condecorados. À saída diria a um dos vice-presidentes que iria demitir-se, pois não conseguiria treinar 14 comendadores. Abalou mesmo e antes de deixar a “Luz” haveria de proferir a famosa frase que, ainda hoje, é uma maldição – “Nem daqui a 100 anos uma equipa portuguesa será bicampeã europeia e o Benfica sem mim jamais ganhará uma Taça dos Campeões Europeus”**.

* retirado do artigo publicado em www.planetadofutebol.com, a 09/05/2001
**retirado do artigo publicado em www.record.pt, a 10/05/2003

68 - JOSÉ ÁGUAS

É o capitão que ergueu as 2 Taças dos Clubes Campeões Europeus vencidas pelo Benfica... Mas a história deste avançado começa muito antes!
Corria o ano de 1950 e uma digressão de início de época leva o Benfica, acabado de vencer a Taça Latina, a deslocar-se a Angola. O jovem José Águas, com 19 anos, jogador do Lusitano do Lobito e dactilógrafo numa empresa concessionária da Ford, é chamado para defrontar a equipa vinda da metrópole. No campo, o Benfica acabaria por encaixar uma derrota por 3-1 frente à selecção do Lobito. Já o treinador Ted Smith sairia a ganhar!
No rescaldo do encontro, o técnico inglês pede ao avançado-centro que tinha acabado de marcar 2 golos à sua equipa, para ir até ao hotel onde as “Águias” estavam instaladas. Falaram e nem o assédio do FC Porto, posto em marcha no dia seguinte ao da reunião, demoveu o atleta do acordo já feito. José Águas acabaria por fazer o resto da "tournée" com os “Encarnados”. Daí, partiria com a equipa do seu coração, para vir a fixar-se em Lisboa.
O começo não terá sido muito auspicioso. Houve quem dele desconfiasse e pusesse em causa o seu valor. Porém, José Águas não demorou muito a dar uma resposta a todos os críticos. Ao exibir os exímios dotes que fariam dele um dos mais elegantes cabeceadores do futebol luso, marcou 4 golos logo à 2ª jornada do Campeonato. Com a vitória por 8-2 frente ao Sporting de Braga, as dúvidas ficaram desfeitas. Daí em diante a sua carreira fez-se apenas de grandes sucessos e faustosos números. Entre esse dados, temos as 2 vitórias na Taça dos Clubes Campeões Europeus; os golos marcados em ambas as finais; a conquista do título de Melhor Marcador na primeira dessas 2 edições; os 5 Campeonatos Nacionais e as 7 Taças de Portugal ganhas; e, por fim, os 5 troféus como Melhor Marcador do Campeonato Nacional.
A saída de Béla Guttmann, pelo qual tinha uma admiração muito especial, e a entrada de Fernando Riera, marcou o fim da sua ligação ao Benfica. Passadas 13 épocas de “Águia” ao peito, e ao ver-se relegado para o banco de suplentes, o capitão decidir-se-ia pelo adeus. Aceita ainda o convite do FK Austria Wien, onde joga apenas uma época. Mas nesse seu percurso desportivo, serão os 384 jogos e 379 golos feitos ao serviço dos “Encarnados”, que, para sempre, marcarão a história daquele que uma vez chegou dizer que vestia o equipamento com “mesmo espírito com que o operário veste o fato-macaco”*, até porque “não gostava de jogar à bola”*. Curioso discurso para quem mostrou sempre uma enorme entrega!

*retirado do livro “Memorial Benfica – 100 glórias”, de João Malheiro

25 - MARCELO

Poderão muitos estranhar esta escolha para "Mal Aproveitado". Pois bem, assumo-a como pessoal. É que Marcelo foi para mim, um daqueles pontas-de-lança que possuía o que mais gosto de ver num jogador da sua posição. Marcelo possuía coragem, espontaneidade e a alegria em rematar!
Fruto das escolas da Académica, onde esteve nos primeiros anos de sénior, jogou ainda no Sertanense, Feirense, Gil Vicente e Tirsense. Já em Santo Tirso, resultado de uma época bem acima do esperado para o conjunto "Jesuíta", Marcelo, e outros dos seus companheiros, começaram a ser cobiçados por clubes com outra ambição. O ponta-de-lança acabaria por ser contratado pelo Benfica. Porém, e ao fim de um ano, tal como tantos outros que por lá passaram nessa altura, acabaria dispensado.
Mas este filho de emigrantes portugueses, nascido no Brasil, não teve azar só no Benfica. Para a selecção portuguesa, António Oliveira, ao que parece, nunca chegou a pôr a hipótese de considerá-lo como elegível. Para o antigo seleccionador, o jogador era "estrangeiro" e nem o facto de ter vindo para Portugal ainda menino, fez com que o treinador mudasse de ideias. A incongruência disso tudo é que jogadores como Dimas ou Petit, que, filhos da diáspora, nasceram também fora de Portugal, foram por ele chamados à equipa nacional!
Continuando… Marcelo, saído da "Luz", acabaria por ter uma passagem de um ano pelos espanhóis do  Alavés. De seguida rumou a Inglaterra, onde, em clubes como o Sheffield Utd, Birmingham ou Walsall, jogaria mais de 150 jogos na liga e marcaria cerca de 50 golos. Depois da aventura britânica, regressaria a Coimbra, para na "Briosa" fazer as suas últimas duas épocas.
Ah, já quase ficava esquecido!!! O tal avançado que, no final da campanha de 1995/96, não serviu mais para o Benfica, na única temporada que vestiu de “encarnado”, concretizou 13 golos. Ajudou, com 2 remates certeiros na meia-final, à conquista da Taça de Portugal e acabaria a dita campanha como o 2º melhor marcador da equipa, atrás de João Vieira Pinto.