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902 - AMARAL

Apesar do apelido “Coveiro”, Amaral nunca abriu qualquer sepultura – “Eu trabalhava numa funerária, mas não fazia covas. Eu enfeitava e maquiava os defuntos, que já estavam com a cara triste e eu fazia na cara deles uma risada no caixão”*. Já a sua passagem pelo futebol, ao contrário da alcunha pouco rigorosa, seria feita de algo completamente diferente. Abnegado em todos os momentos do seu percurso, a carreira do médio acabaria por caracterizar-se, para além da longevidade, por uma assertividade exemplar.
Tendo começado nas “escolas” do Palmeiras, Amaral largaria o já referido emprego para profissionalizar-se no desporto. No Palestra Italia, as suas exibições cedo começariam a merecer os mais rasgados elogios. Também colectivamente tudo corria de feição e os sucessos do clube acabariam por entrega-los a outros voos. Já após ter vencido alguns títulos nacionais e estaduais, merece a primeira chamada à selecção “canarinha”. Em seguida, e com o palmarés colorido pela Medalha de Bronze nas Olimpíadas de Atlanta, por 2 “brasileirões” e 3 Campeonatos de São Paulo é da Europa que surge novo desafio. A oportunidade de participar num das melhores ligas do mundo, chegaria com o convite do Parma. Todavia, no “Calcio” as coisas não correriam da melhor maneira e, num plantel que tinha como estrelas Thuram, Buffon, Cannavaro, Brolin ou Sensini, o “trinco” brasileiro poucas vezes apareceria em campo.
Surge então o empréstimo ao Benfica. Poucos meses após a sua chegada a Itália, Amaral transfere-se para as “Águias”. Num clube marcado pela instabilidade, o médio surge como um oásis de força e de vontade. Os fãs reconheceriam o seu esforço e entrega e, finda a época de 1996/97, desponta o movimento “Fica Amaral”. Com os cofres da “Luz” muito debilitados, estando os “Encarnados” longe de conseguir o exigido pelo emblema italiano, é dos adeptos que surgiria o esforço para que a contratação do médio fosse uma realidade. Contudo, a benquerença e o dinheiro angariado pela campanha seriam insuficiente para manter o médio em Lisboa. Ainda assim, as saudades do jogador levariam a que novo esforço fosse feito. Depois de, também por empréstimo, ter regressado ao Palmeiras, o “passe” de Amaral é finalmente adquirido pelo Benfica. Com a aquisição a acontecer na segunda metade de 1997/98, o médio volta a apresentar-se na “Luz”. No entanto, a presença de Graeme Souness ao comando técnico das “Águias”, levaria o jogador a enfrentar uma realidade bem diferente da encarada durante a sua primeira passagem. Pouco conseguiria jogar e acabaria por voltar ao Brasil.
Corinthians e Vasco da Gama dariam ao médio-defensivo uma chance para relançar a carreira. Dessa feita seria a Fiorentina, onde jogavam Rui Costa e Nuno Gomes, a ver em si um bom reforço para o meio-campo. Seguir-se-iam louvadas exibições, tudo para ter êxito e, todavia, mais um contratempo nos intentos do brasileiro. Com o conjunto de Florença a “declarar” falência, não restaria outra opção para o futebolista senão a de procurar um novo destino. Ora, outra mudança só daria mais força à ideia de que a carreira de Amaral era a de um verdadeiro “globetrotter”. Aliás, esse saltitar não pararia por aí. Depois do Besiktas, viriam ainda passagens por diversos emblemas no Brasil, o Catar, a Polónia, a Austrália e a Indonésia. Com tantas paragens, a caminhada do centrocampista só terminaria aos 42 anos de idade e no emblema da sua terra natal, o Capivariano.

*retirado do artigo de Luís Castro Martins, publicado a 21/12/2016 em http://www.maisfutebol.iol.pt

492 - DESCHAMPS

Nascido no País Basco, mais precisamente em Baiona, seria no emblema local que Deschamps daria os primeiros passos no mundo do futebol. Ora, por esta altura, já a ideia do "rugby", desporto que tinha praticado até então, tinha sido saído da cabeça do jovem atleta. Em boa hora se deu a troca, pois a habilidade que o médio mostrava para a bola redonda era bem superior à que tinha mostrado com a oval. Tanto assim era que os "olheiros" do Nantes, uns anos passados, aconselharam-no aos técnicos do clube. A mudança de contexto, de uma colectividade amadora para uma estrutura profissional, era o sinal do que estava para vir: uma carreira cheia de sucessos.
É verdade que os primeiros anos como sénior, não lhe trouxeram títulos. Contudo, o pragmatismo que mostrava dentro de campo, indicava, para quem quisesse ver, que ali estava, muito para além de um jogador excepcional, um líder. Quem não enjeitou a oportunidade de contar com tamanho atleta, foi uma das melhores equipas francesas e, porque não dizê-lo, europeias do início dos anos 90. Por esta altura, o Marseille, que dominava o futebol gaulês, perseguia algo muito específico e, acima de tudo, muito mais ambicioso: um troféu internacional. Ora, na temporada de estreia de Deschamps na equipa da região de Provence (1989/90), este intuito haveria de esbarrar no Benfica e... na mítica "mão de Vata"!!! Já passados uns anos, após uma curta passagem pelo Bordeaux (empréstimo), seria o próprio Deschamps, agora com o estatuto de Capitão de equipa, a erguer, na edição de 1992/93, aquela que foi a primeira "Champions" ganha por um clube francês.
Após esta conquista europeia (o título seria retirado posteriormente, devido a um caso de corrupção), a juntar a duas Ligas Francesas, o estatuto de Deschamps tinha outro peso. A prova dessa inflação é que de outros campeonatos, começaram a vê-lo como um verdadeiro alvo a contratar. De entre outras propostas é de Itália que surge aquela que seria a mais tentadora. A mudança torna-se inevitável e o jogador lá segue para a Juventus. No "Calcio", o "trinco" francês continua na mesma senda de sucesso. 3 "Scudetto", 1 Taça e 2 Supertaças de Itália, são os números de 5 épocas a jogar pela equipa de Turim, que se completam com a Liga dos Campeões de 1995/96 e a Supertaça Europeia e Taça Intercontinental do ano seguinte.
Por esta altura, devido a suspensão de Cantona e posterior purga de alguns dos elementos mais antigos nos "Bleus", já Deschamps capitaneava a sua selecção. As mudanças perpetradas por Aimé Jacquet, na ressaca da "não qualificação" da França para o Mundial de 1994, haveriam de dar boas indicações. As meias-finais do Euro 96, acabariam por ser isso mesmo, ou seja, uma espécie de prelúdio para o que viria a seguir, com Deschamps, e companhia, a vencerem o Mundial de 1998 e, logo de seguida (já o médio representava as cores do Chelsea), o Euro 2000.
Depois do torneio organizado pela Bélgica e Holanda, pouco mais houve de Deschamps como jogador. Terminada a sua carreira, em 2001, após uma derradeira temporada no Valencia, de imediato o antigo internacional abraçou as funções de técnico. Começaria no Monaco, onde o seu ponto mais alto, pode dizer-se terá sido a presença na final de 2004 da "Champions", perdida, como bem se recordam, para o FC Porto. A seguir veio a Juventus, onde após o escândalo do "Calciopoli", Didier Deschamps teria um papel importantíssimo na recuperação do prestígio desportivo da "Vecchia Signora". Já os títulos, se não contarmos com a Taça da Liga ganha ao serviço dos monegascos, vieram, quase em catadupa, no seu regresso a Marselha. Venceu 1 Campeonato, 2 Taças da Liga e 2 Supertaças, mas, acima de tudo, conquistou, por mérito próprio, o direito de decidir o destino da equipa nacional do seu país. Foi nesse papel, o de seleccionador, que se apresentou neste Mundial (2014). Corajoso, ao deixar de fora nomes como o de Nasri, Deschamps cairia nos quartos-de-final, aos pés de uma poderosa Alemanha. Apesar de ficar aquém das suas próprias expectativas, a promessa de um futuro brilhante para os seus pupilos, acabaria por dar força ao treinador - "Embora a nossa aventura no Brasil termine aqui e estejamos tristes, desapontados e frustrados, seguiremos em frente. Espero que esse grupo de jogadores possa continuar junto por muito tempo. As coisas são realmente promissoras".

358 - RAPAIC

Muito antes de emigrar para Itália, onde viria a sublinhar-se como um futebolista muito habilidoso, seria na antiga Jugoslávia que Milan Rapaic iniciaria a carreira. Com 18 anos de idade, depois de cumprido o percurso formativo, o extremo, na temporada de 1991/92, acabaria promovido à primeira categoria do Hajduk Split. Já com a independência da Croácia, o avançado ajudaria a sua equipa a transformar-se numa das grandes potências do recém-criado país e a presença na Liga dos Campões de 1994/95, no grupo onde também ficaria o Benfica, viria a sustentar esse crescimento.
Num plantel com vários nomes sonantes, tais como Stimac, Asanovic ou Butorovic, Rapaic não ficaria conhecido apenas pelas competências dentro de campo, mas também por ser, fora dos relvados, um nadinha despassarado! Bem, pelo menos é a conclusão a tirar do acidente que haveria de sofrer e que o afastaria dos embates competitivos durante um largo período! Conta-se que, ao preparar-se para apanhar um avião, terá conseguido a proeza de enfiar no próprio olho, nada mais, nada menos, que o cartão de embarque. Tal seria a violência do “lance” que o jogador sairia do incidente seriamente lesionado e, no rescaldo do aparatoso episódio, acabaria por ser forçado, como já foi referido, a uma longa recuperação!
Após a relatada peripécia e de ter, ao serviço do Hajduk Split, arrecadado 3 vitórias no Campeonato croata, Rapaic mudar-se-ia para "Calcio". No Perugia a partir da campanha de 1996/97, o estatuto do clube com o qual rubricaria um contrato, pouco mais daria para que o avançado, nos anos passados em Itália, andasse a cirandar entre a Serie A e o segundo escalão do futebol transalpino. Depois dessa primeira experiência no estrangeiro, seria a mudança para a Turquia, mais concretamente para o plantel de 2000/01 do Fenerbahçe, que voltaria a pô-lo na senda das conquistas. Outros troféus de renome, a seguir à vitória na SüperLig no ano de estreia pelo emblema de Istambul, não mais conseguira levantá-los. Porém, o estatuto ganho haveria de pô-lo, indiscutivelmente na rota das principais competições para nações. Nesse contexto competitivo, seria com o axadrezado vermelho e branco da Croácia que o atacante participaria no Mundial de 2002 e no Euro 2004. No certame organizado em Portugal, o atleta destacar-se-ia na partida realizada do Estádio Dr. Magalhães Pessoa, onde, frente à França, um golo seu contribuiria para o empate final a 2 bolas.

210 - ERIC TINKLER

Era praticamente um desconhecido quando, em 1990 e vindo dos "Estudantes" do Bidvest Wits, chegou a Portugal para representar o União de Tomar. Apesar de não ter um grande currículo no mundo futebolístico, o risco de trocar o emblema sul-africano, primodivisionário, por um que jogava na 2ª divisão “b”, era bem representativo da vontade de Eric Tinkler em jogar na Europa. Mais do que ninguém, o jogador conhecia a sua força, a capacidade que tinha para vencer e subir na carreira. Desse modo, 2 épocas passadas no nosso 3º patamar foram suficientes para que a faceta lutadora e poder físico do médio chamassem à atenção de emblemas de maior prestígio.
A ligação que, de seguida, formou com o Vitória Futebol Clube pareceu perfeita. Por um lado, os “Sadinos” ganharam um verdadeiro "pulmão" no centro do terreno. Já Eric, com a chegada a Setúbal, passou a ter uma maior visibilidade em termos internacionais. Com a referida união a dar frutos, o primeiro grande prémio veio em 1994, aquando da chamada do jogador à equipa nacional da África do Sul. No seguimento dessa estreia, já como um elemento nuclear dos "Bafana Bafana", chegou a edição de 1996 da CAN. A titular, ajudou a selecção a galgar etapas no torneio. Sem sair do “onze”, disputou a final esgrimida em Johannesburg e, como pilar do sucesso alcançado, contribuiu para a primeira vitória do seu país no referido certame.
 Após a passagem de um ano pelos italianos do Cagliari e a representar o Barnsley, repetiu, em 2000 e 2002, a participação na Taça das Nações Africanas. Mas voltando atrás, à senda clubística, há que ter em conta que a experiência na Sardenha resultou numa despromoção da equipa para a Serie B. Também a estreia em terras britânicas teve idêntica sorte, com o emblema inglês a terminar a temporada de 1997/98 como um dos nomes relegado ao escalão secundário. Dessa feita, mesmo com a descida, Eric Tinkler acompanhou o grupo e continuou a desempenhar um papel importante no seio do plantel. Porém, a tal preponderância acabou afectada, quando lesões graves, primeiro uma hérnia e depois uma ao nível da tíbia e joelho, afastaram o médio dos relvados, por longos períodos de tempo.
Apesar de recuperado, a direcção do Barnsley achou que a condição física de Eric não oferecia segurança e que não era suficiente para dar continuidade a um dos contratos mais dispendiosos para o clube. Com a dispensa, o centrocampista voltou a jogar em Portugal. O Caldas, entre a temporada de 2002/03 e a de campanha de 2004/05, acabou como a colectividade escolhida para antecipar o derradeiro passo como atleta. O fim da carreira de futebolista foi dado em 2007 e depois de, 2 anos antes, ter regressado ao clube onde tinha dados os primeiros passos como sénior.
Hoje em dia, é ainda no Bidvest Wits que Eric passa os dias, mas agora em outras funções, a de treinador-adjunto.