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1135 - CAMACHO

Descoberto no Albacete pelo Real Madrid, a integração de José António Camacho no emblema sediado na capital espanhola dar-se-ia através do conjunto “b”, o Castilla. No entanto, a passagem do defesa-esquerdo pela equipa secundária dos “Merengues” seria curta. As exibições de bom nível, com destaque para a sua capacidade de sacrifício e combatividade, levá-lo-iam, ainda no decorrer da temporada de chegada, aos primeiros passos na formação principal.
Da estreia à titularidade também não demoraria muito tempo. Depois da primeira chamada em Março de 1974, a campanha seguinte mostraria um atleta pronto para assumir um lugar no “onze” do Real Madrid. Tal ascensão e a qualidade demonstrada em campo empurrá-lo-ia, ainda no decorrer da época de 1974/75, para a principal selecção espanhola. Lançado na “La Roja” pelo mítico Ladislav Kubala, Camacho estrear-se-ia com a camisola do seu país numa peleja frente à Escócia, em Fevereiro de 1975. No seguimento dessa partida e dando jus a um caminho que, com as cores do clube, continuaria a mostrar um elemento de excelsas qualidades, as oportunidades suceder-se-iam com regularidade. Ao somar 81 internacionalizações, o lateral canhoto tornar-se-ia num dos nomes que mais vezes conseguiria representar a Espanha. Nesse trajecto, destaque para as suas presenças nos Mundiais de 1982 e 1986 e nos Europeus de 1984 e 1988.
No Real Madrid, como já foi desvendado, o seu trajecto também seria merecedor de grandes louvores. Num percurso de 16 temporadas a envergar a camisola “madridista”, Camacho, quase sempre como um dos indiscutíveis da equipa, participaria em 577 jogos oficiais. Nem mesmo a grave lesão num joelho, sofrida a meio da temporada de 1977/78, haveria de diminuir a sua influência no grupo de trabalho. Mesmo depois de afastado por um período bem superior a um ano, o defesa regressaria na plenitude das suas capacidade e pronto para ajudar os colegas a novas vitórias. Nesse campo, o das conquistas, o palmarés do atleta, como em tantos aspectos numéricos do seu currículo, transformar-se-ia em algo invejável. Para além das 9 “La Ligas” vencidas, o esquerdino conseguiria amealhar 5 Copas del Rey, 1 Taça da Liga, 2 Supertaças e 2 Taças UEFA.
Ao “pendurar as chuteiras” no final da temporada de 1988/89, a paixão pela modalidade e pelo Real Madrid, mantê-lo-ia ligado ao futebol. Como treinador, começaria pelas camadas jovens do clube para, mais tarde, passar a adjuvar Alfredo Di Stéfano na equipa principal. Seguir-se-iam inúmeras experiências com técnico-principal, incluindo algumas passagens pelo comando dos “Merengues”. Ainda nessas tarefas, também experimentaria orientar outros emblemas no principal escalão de “nuestros hermanos”. Para além de Rayo Vallecano, Espanyol, Sevilla, Osasuna e das presenças no Euro 2000 e Mundial de 2002 à frente da selecção espanhola, destaque também para as duas passagens por Portugal. Sempre ao serviço do Benfica, o antigo defesa conseguiria, frente ao FC Porto de José Mourinho, entregar aos escaparates da “Luz” a edição de 2003/04 da Taça de Portugal. Para além do já arrolado, falta ainda fazer referência, àquelas que foram as mais recentes oportunidades de trabalho, ou seja, aos anos passados à frente dos destinos das equipas nacionais da China e do Gabão.

678 - CUBILLAS

A sua ascensão dentro do Alianza Lima, emblema que o haveria de lançar para o estrelato, acabaria por ser tão excepcional, quanto toda a sua qualidade. Para começar, logo no início do seu percurso profissional, Cubillas sagra-se o Melhor Marcador do Campeonato peruano de 1966. Esses 19 golos acabariam por ser uma pequena amostra daquilo que o jogador conseguiria daí em diante. Ainda assim, talvez pelo seu clube andar um pouco afastado da rota dos títulos, a sua primeira chamada à selecção aconteceria apenas em 1968.
Seria com a equipa do Peru que, em 1970, no México, Cubillas disputaria o Mundial de futebol.  Orientado por Didi, antigo internacional brasileiro, o craque tornar-se-ia na peça fulcral de todas as manobras ofensivas. Tendo velocidade e força, a sua técnica, compreensão do jogo e remate colocadíssimo, faziam dele um futebolista completo. Ora jogando na transição do meio campo para o ataque, ora mais encostado aos defesas contrários, Cubillas era um perigo constante. Os 5 golos que aí haveria de marcar, mas, acima de tudo, as suas grandes exibições, ajudariam a equipa a chegar aos quartos-de-final.
Como resultado desse seu primeiro Campeonato do Mundo, presenças que haveria de repetir em 1978 e 1982, Cubillas lança-se no estrelato. A prova de tal vem em 1972, quando, sem ter conquistado qualquer troféu relevante, é eleito o Melhor Jogador da América do Sul. Este seu estatuto sairia reforçado anos mais tarde, com a chamada a uma selecção do resto do Mundo. A partida, organizada em favor da UNICEF, disputava-se na Suiça. Do outro lado, uma equipa composta por estrelas europeias, acabaria por não conseguir impor-se à classe do peruano que, marcando 2 golos, acabaria por ser o principal obreiro da vitória por 3-1.
Essa viagem até à Europa, faz com o FC Basel insista na sua transferência. Aliciado pela perspectiva de disputar outro contexto competitivo, o jogador assina pelo clube helvético. Contudo, o clima frio do país e as dificuldades em dominar a língua, tornariam a sua permanência num completo martírio. Ora, é na sequência desta inadaptação que, 6 meses após a sua chegada, aparece o FC Porto. Com o objectivo de pôr termo a um jejum de títulos que já durava há imensos anos, os dirigentes do clube “azul e branco” predispõem-se a contratar aquele que era visto como um dos melhores jogadores do mundo.
É neste cenário que, em Janeiro de 1974, entra no Estádio das Antas. Os adeptos recebem-no como um verdadeiro herói e este jamais os desapontaria. As suas exibições voltariam a pôr o “Dragão” na disputa pelos títulos. Mais uma vez, os seus golos e a construção de toda uma série de ofensivas, empurrariam os seus companheiros a conseguir importantes vitórias. É certo que, na cidade do Porto, faltou um título para legitimar toda essa sua importância. No entanto, muito mais do que troféus, o jogador conquistaria companheiros, adeptos e adversários. Neste sentido, é conhecida a sua amizade com Eusébio; é sabido do seu peso no balneário portista, tendo sido eleito pelos seus colegas como capitão de equipa. Mais importante ainda, é que Cubillas será para sempre recordado pela sua gentileza e simpatia. Essa sua qualidade faria com que, numa longa carreira, e que o levaria a passar por diversos países, nunca fosse expulso num único jogo.
Nisto de troféus, é sabido que o currículo de Cubillas não faz jus às suas qualidades como jogador. Ainda assim, e durante o período em que passou por Portugal, o peruano conta com uma das maiores proezas da sua vida de desportista. Em 1975, com a equipa nacional, o atleta participaria na Copa América. Numa edição disputada de uma forma diferente daquela que já estamos habituados, as eliminatórias, muito ao jeito das competições de clubes, seriam disputadas a duas mãos, com as selecções a jogar a uma partida em cada país. Na final, já depois de ter eliminado o Brasil na ronda anterior, o Peru defrontaria a Colômbia. Após uma finalíssima, Cubillas, sendo também eleito o Melhor Jogador do torneio, finalmente conseguiria erguer a tão merecida taça.
É após deixar o FC Porto em 1977, que Cubillas entra naquilo que podemos chamar a segunda metade da sua carreira. Numa fase que, ainda assim, duraria por mais de uma década, o internacional dividiria a sua vida entre os Estados Unidos da América e o seu país natal. No Peru conseguiria conquistar os seus primeiros títulos de campeão nacional quando, ao serviço do Alianza Lima, vence os Campeonatos de 1977 e 1978. Já na NASL (North American Soccer League) haveria de tornar-se numa das estrelas do Fort Lauderdale Strikers e brilhar numa liga onde pontuavam nomes como os de George Best, Gerd Müller, entre tantos outros.

490 - CAPELLO

Tal como outros que por aqui já passaram, Capello também vem de uma família onde o futebol era figura diária. O seu pai, por exemplo, era o treinador da sua primeira equipa, o AC Pieris. Já o seu tio, Mario Tortul, que também começou no mesmo clube, foi um notável futebolista que fez carreira em diversos emblemas italianos (Sampdoria; Triestina; Padova; etc), tendo, inclusive, representado a "squadra azzurra". Assim sendo, para o jovem Fabio pouco mais havia a fazer do que dar seguimento ao legado que lhe haviam deixado. A responsabilidade era muita, mas o jovem atleta soube cumprir a sua missão... aliás, excedeu-se um bocadinho!!!
É verdade, o nome de Fabio Capello será, para sempre, tido como um dos maiores no "calcio". A razão é simples: como jogador foi brilhante; como treinador, ainda melhor!!!
Começou, como já o referi, no AC Pieris. Ainda nos escalões de formação, o SPAL ganha a corrida ao AC Milan e contrata-o para as suas escolas. Termina a sua carreira nos juniores com a conquista do Campeonato Nacional da categoria, estreando-se de seguida pela equipa principal. Apesar de não ser muito rápido, a sua excelente leitura de jogo, a capacidade de passe e a valentia que punha na altura dos desarmes, faziam dele um médio acima da média. Por essa razão, ainda no modesto SPAL, Fabio Capello havia de ser chamado aos trabalhos dos s-23 italianos.
Ora, como executantes de qualidade é o que os clubes grandes procuram, não tardou muito até que emblemas maiores começassem no seu encalço. Quem ganhou a corrida haveria de ser a Roma, que assim levaria o jovem talento para a capital. Nos "Lupi", Capello assumiria, logo desde o início, um papel fundamental na estratégia do sector intermediário. Nos três anos que por lá permaneceu, nunca haveria de conseguir o "scudetto", no entanto haveria de ser aí que ergueria o seu primeiro grande troféu, a Taça de Itália de 1968/69.
O Campeonato consegui-lo-ia, sim, aquando da sua mudança para a cidade de Turim. Na Juventus para além das 3 vitórias na "Serie A" (1971–72; 1972–73; 1974–75), Capello cimentou a notoriedade que até aí vinha conquistando. Muito dessa fama haveria de ser consolidada pelas campanhas europeias que a "Vecchia Signora" faria, com o destaque para as finais da Taça das Cidades com Feira (1971) e da Taça dos Campeões Europeus (1973), perdidas, respectivamente, para Leeds Utd e Ajax.
No entanto, e apesar de ser reconhecido como um dos melhores médio-centro da altura, os problemas físicos que, recorrentemente, afectavam os seus joelhos fariam com que os responsáveis da Juventus, 6 anos após a sua chegada ao clube, se decidissem pela sua venda aos rivais do Milan. A primeira temporada na capital da moda transalpina (1976/77), mostraria um Capello em forma e, como já o fizera antes, de enorme influência no desenrolar do jogo. Contudo, os anos que se seguiram confirmariam as piores previsões feitas e, diminuído pelas lesões, o médio apagar-se-ia progressivamente.
No final da época de 1979/80, com mais 1 Campeonato (1978/79) e 1 Taça de Itália (1976/77) no seu currículo, Capello deixa os relvados para passar ao leme das camadas jovens dos "Rossoneri". Só passou a assumir funções na equipa principal, excepção feita a 1986/87, altura em que por lá teve uma breve passagem, quando no Verão de 1991, Berlusconi decide prescindir dos serviços de Sacchi. Os resultados desta aposta não demorariam a aparecer. As mudanças perpetradas por Capello, tanto no plano táctico como na composição do plantel, acabariam por tornar o Milan numa das melhores equipas do mundo, na primeira metade dos anos 90.
4 "Scudetto", 3 "Supercoppa", 1 Taça dos Campeões Europeus e 1 Supertaça UEFA, não foram motivo suficiente para, aquando do convite do Real Madrid, segurar o treinador em Milão. A proposta de fazer uma equipa competitiva vinha agora da capital espanhola e, como só ele sabe, Capello não deixou os créditos por mãos alheias. Venceu a "La Liga" de 1996/97, mas apenas ao fim de uma temporada decide voltar ao seu país.
"Não voltes ao lugar onde já foste feliz", foi a máxima que Capello esqueceria neste seu regresso. Talvez por isso mesmo, esta nova passagem pelo Milan, sem grande motivo para destaque, duraria apenas um ano.
Ora, de seguida assina pela Roma. O objectivo de tornar uma equipa, que não vencia o Campeonato há cerca de década e meia, num conjunto de campeões, não era tarefa fácil. Mais uma vez, Capello não se deixaria atemorizar pelas dificuldades e, depois de construir um balneário onde, em 2001, conviviam nomes como os de Cafú, Totti, Delvecchio, Montella, Balbo e Batistuta, conquistaria o 3 "Scudetto" da história da Roma.
Não estando farto de vencer, chega a vez de conquistar o Campeonato à frente de uma velha conhecida. Na Juventus também ganha, mas o despoletar do escândalo que ficou conhecido como "Calciopoli" revoga todos os títulos à equipa de Turim.
Já depois de mais uma passagem pelo Real Madrid, onde, já sem espantar ninguém, volta a conquistar a "La Liga", Capello enceta uma nova etapa no futebol, a de seleccionador. Começa pela equipa nacional inglesa. Ao seu comando, ele que, na condição de jogador já tinha marcado presença na edição de 1974, consegue a qualificação para o África do Sul 2010. Repete a faceta para o Euro de 2012, mas por a F.A. querer retirar a braçadeira de capitão a John Terry, Capello acaba por se demitir antes da fase final.
Esta última edição, a do Mundial de 2014, fez-se apresentar no Brasil, como o homem à frente da equipa russa. Ao contrário daquilo que é habitual consigo, o percurso da sua selecção foi muito desapontante. Tão mau foi, com a Rússia a quedar-se pela fase de grupos, que da Duma exigiram a sua presença, para uma explicação do acontecido.

459 - EDINHO

As dezenas de internacionalizações que conseguiu, as presenças em 3 Mundiais consecutivos (1978; 1982; 1986) e a chamada aos Jogos Olímpicos de Montreal (1976) fizeram dele, e fazem, uns dos melhores jogadores brasileiros a actuar durante os anos de 1970 e de 1980. Para além da selecção brasileira, o antigo defesa foi, igualmente, um dos maiores símbolos do Fluminense. Chegou ao clube do Rio de Janeiro ainda muito novo e para actuar nas camadas jovens. Desde esse momento, as qualidades exibidas fizeram com que progressivamente fosse subindo de escalão. Foi assim que, na temporada de 1973, acabou por assegurar um lugar junto da categoria principal. Raçudo, com um excelente jogo de cabeça e intransponível na marcação, Edinho conseguiu muito mais do que os seus colegas de posição. Nesse sentido, para além das características que faziam dele um intérprete implacável, tinha também a capacidade de jogar bem com os pés. Isso conferiu-lhe a habilidade para distribuir jogo, para ajudar os companheiros na construção de ofensivas e, muito apreciado nele, fazia com que, tantas vezes, conseguisse transformar os livres-directos em golos de belo efeito. Aliás, há um lance que a grande maioria dos adeptos do “Tricolor” recorda com grande orgulho. A partida, nada mais, nada menos, do que a final do Campeonato Carioca de 1980. Frente aos homens das Laranjeiras, na disputa do aludido título, somente o maior rival dos "Tricolores", o Flamengo. Com o "derby" "Fla vs Flu" na meia hora final, uma falta foi assinalada perto da defesa do “Rubro-negro”, mais precisamente junto ao canto direito da grande-área. Edinho decidiu avançar para a marcação do castigo e, com um remate certeiro, fez entrar a bola junto ao poste mais próximo (veja aqui o lance)*.
Por altura do referido golo, o atleta já tinha participado no seu primeiro Mundial. Na Argentina começou como titular. No entanto, a opção do seleccionador Cláudio Coutinho, ao colocá-lo no lado esquerdo da defesa, fez com que saísse prejudicado, acabando, com o decorrer do torneio, por perder o lugar no "onze". Em Espanha, a sua sorte também não foi muito diferente e terminou, por razão da titularidade de Luisinho (ex-Sporting) e de Óscar, relegado para o banco de suplentes. Ainda assim, a sua popularidade continuou a crescer no “universo do futebol”. Por essa razão ninguém ficou admirado quando, no Verão a seguir ao certame espanhol, o defesa acabou contratado pelos italianos da Udinese. Após 5 anos a actuar no "Calcio", com outro Campeonato do Mundo (México 86) no currículo, onde foi titular indiscutível, Edinho regressou ao país natal e ainda representou, nos derradeiros capítulos da carreira, o Flamengo, o Fluminense e o Grêmio.
Com o "pendurar das chuteiras", Edinho iniciou-se nos ofícios de treinador. Foi nessa função que em, 1993/94, teve a sua passagem pelo cenário português. Veio para comandar um Marítimo prestes a fazer a estreia nas competições continentais. Contudo, a sua passagem pela ilha da Madeira foi rápida e ao voltar ao Brasil deu seguimento à carreira como técnico.
Outra curiosidade prende-se, também, com o jogo da bola, mas com a variante disputada na areia! Edinho chegou a participar num Mundial de Futebol de Praia e acabou, nesse torneio de 1996, por ser considerado o melhor atleta do torneio.

*https://www.youtube.com/watch?v=f4RGYq4dyXI

456 - HUMBERTO COELHO

Não sou um grande fã de comparações e, por certo, também não o serão aqueles que são alvo das mesmas. Ainda assim, há algumas similaridades que têm o condão de deixar-nos orgulhosos. Nesse sentido, para um defesa-central conseguir ostentar o epiteto de "Beckenbauer Português" é, sem sombra de dúvidas, um desses bons exemplos. A alcunha é pertença de Humberto Coelho e, só por si, dá logo para aferir a qualidade da sua carreira.
Começou bem novo e, desde cedo, mostrou características de um atleta imponente, daqueles que, só pelo nome, faz tremer qualquer adversário. Aos 18 anos já fazia a estreia com a camisola principal das "Águias". Incrivelmente, num plantel que apresentava a maioria dos jogadores que haviam disputado as 5 finais europeias pelo Benfica, o jovem Humberto Coelho conseguia impor-se como titular. Ainda nessa temporada de 1968/69, o brilhante desempenho conseguido nas provas nacionais valeu-lhe a primeira chamada à selecção nacional. Os sucessos como profissional sucediam-se-lhe. A cada partida, o atleta crescia mais, tornava-se maior. O seu jogo aéreo era impressionante; o seu sentido posicional era um estrondo; a maneira como tomava consciência de tudo o que corria à sua volta era só para os predestinados. Para além de tudo isso, tinha outras coisas que faltavam à maioria dos praticantes da sua posição: sabia jogar com os pés e marcava muitos golos.
Todos esses predicados deram ao Benfica a segurança necessária para a conquista de muitos títulos. Pelos "Encarnados" venceu, no cômputo de duas passagens a perfazerem 14 temporadas, 14 títulos: 8 Campeonatos Nacionais, 5 Taças de Portugal e 1 Supertaça. Já em 1975 viu surgir a proposta do Paris Saint-Germain. Para a capital gaulesa, abalava da "Luz" aquele que, no distante Verão de 1968, numa tournée pelo Brasil, Otto Glória tinha incumbido de "anular" Pelé – "Eu marquei-o e ele não marcou nenhum golo"*. Contudo, em França, o desempenho da equipa a jogar em casa no Parc des Princes acabou por não ser condizente com a sua qualidade. A somar ao desaire colectivo, uma grave lesão num joelho já no decorrer da segunda época, pôs Humberto Coelho à margem das escolhas para o "onze". Pensou em sair. Em sentido contrário aos seus intentos, a direcção do clube parisiense tentou vendê-lo para o Internacional de Porto Alegre. No entanto, para o defesa-central a ideia de tal transferência estava longe do conceito de idílico. Ainda assim viajou para o Brasil. Na bagagem levava o intuito de arruinar as negociações. Conseguiu-o, exigindo um salário astronómico.
Regressou a Lisboa, mas pelo meio fez ainda, habitual naqueles tempos, uma passagem pelos Estudos Unidos da América, ao serviço dos Las Vegas Quicksilver. Voltava, para a temporada de 1977/78, um dos grandes símbolos do Benfica. Humberto Coelho era grande. Ainda assim, não o era somente pelas capacidades futebolísticas. Quem com ele partilhou os relvados, sabe, melhor do que ninguém, que o antigo defesa era um líder, era a voz de comando, o indivíduo certo para lidar fosse que grupo fosse. Por essa razão exibiu a braçadeira de capitão, tanto no Benfica, como por Portugal. Com a "camisola das quinas" conseguiu ainda outro feito: o de igualar Eusébio no recorde de jogos internacionais. Todavia, se o orgulho em representar o seu país foi sempre inegável, foi também com as cores lusas que veio a precipitar o fim da carreira e essa malfadada partida entre Portugal e a Finlândia não só resultou numa grave lesão, como fez com que o jogador perdesse a oportunidade de disputar um grande certame de selecções, o Euro 84.
Já depois de "penduradas as chuteiras", Humberto Coelho passou à condição de treinador. Começou no Sporting de Braga, passou pelo Salgueiros, mas o grande momento nessas funções viveu-o por Portugal. Apurou a selecção para o Euro 2000 e no torneio organizado entre a Holanda e a Bélgica conseguiu o brilharete de, no "Grupo da Morte", composto igualmente por Inglaterra, Alemanha e Roménia, passar para a fase seguinte, em primeiro lugar. De seguida, conduziu o conjunto luso até às meias-finais e só não chegou à derradeira partida do certame por causa, como temos na memória, de um controverso penalty.

*retirado de “101 Cromos da Bola”, Lua de Papel, Rui Miguel Tovar, Março de 2012

433 - PLATINI

Associar Michel Platini a um clube tão modesto quanto o AS Joeuf parece, hoje que conhecemos a sua carreira, um pouco surpreendente. Contudo, seria no emblema da terra onde cresceu que o médio haveria de dar os primeiros passos no mundo do futebol. Nesse modesto contexto, após cumprida toda a formação, o atleta, por razão de um torneio para jovens, revelar-se-ia de uma habilidade bem acima da média. A aludida exibição, frente ao Metz, faria com que os responsáveis pelo emblema sediado no nordeste gaulês convidassem o jogador a realizar alguns testes. No entanto, combinada a data, a oportunidade sairia gorada, com o criativo centrocampista a lesionar-se uns dias antes. Já a chance seguinte também não correria de feição, com Platini, durante os testes físicos, a perder os sentidos e a ver o médico a diagnosticar-lhe uma debilidade cardio-respiratória.
Não seria o Metz, acabaria por ser o Nancy a apostar nele para a temporada de 1972/73. Ora, por razão do seu pai, Aldo Platini, ali ter feito grande parte da carreira futebolística, o dito clube já não era um lugar estranho para Michel. Provavelmente, o tal “passado familiar” até terá tido algum peso na sua contratação. A verdade é que, com um “hat-trick” na estreia pelas “reservas”, o jovem intérprete rapidamente demonstraria o valor que tinha para acrescentar ao grupo principal. Infelizmente para si, os primeiros anos com o novo clube arrastá-lo-iam por diversas lesões. O resultado seriam épocas em que intercalaria bons períodos com outros mais discretos. Apesar de tudo, as suas qualidades ficariam bem patentes, com Platini a revelar-se um executante cerebral, com uma técnica superior à média e imbatível na marcação livres-directos.
Tanta classe, a 27 de Março de 1976, levá-lo-ia à estreia na principal selecção gaulesa. Quase um par de anos após essa partida frente à Checoslováquia, numa altura em que já era um dos nomes habituais nas convocatórias da equipa francesa, Michel Platini, num episódio peculiar, haveria de sublinhar toda a sua classe. A partida, agendada para Nápoles, no contexto de um encontro de preparação para o Mundial de 1978, jogava-se frente a Itália. Na sequência de uma falta, é assinalado um livre. O médio tomaria para si a responsabilidade da marcação e, com Dino Zoff na baliza adversária, remata e faz golo. Todavia, o árbitro diria que não tinha apitado e mandaria repetir o castigo. Sem deixar atemorizar-se pelo contratempo, Platini prepararia novamente o esférico e… outra vez golo!
Seriam histórias como a relatada no parágrafo anterior, tal como o golo que marcaria contra a Bulgária e que haveria de selar o apuramento para o Mundial de 1978, que fariam com que Platini continuasse a garantir a presença nas convocatórias dos "Bleus". Com a chamada para o Campeonato do Mundo de selecções a projectar-se como a oportunidade certa para o “10” gaulês conseguir sublinhar-se no futebol como um intérprete de cariz superior, Platini, que umas semanas antes, com um golo seu, tinha ajudado o Nancy a erguer a Coupe de France de 1977/78, veria no certame realizado na Argentina uma boa parte dos focos apontados para si. No entanto, a verdade é que as prestações individuais do atleta, em consonância com as colectivas, seriam auferidas como paupérrimas, ao ponto da França não ter passado da Fase de Grupos.
Depois de defraudadas tão grandes expectativas, muitos dedos acabariam apontados ao atleta. Pior ainda, seriam os críticos a indicarem-no como inapto para a modalidade, quando, na temporada seguinte, outra lesão deixaria o médio de fora da campanha europeia do Nancy. Apesar de tudo, das mazelas e dos apupos que passou a ouvir com frequência, os grandes emblemas não deixariam as aferições feitas às suas exibições serem afectadas por tais protestos. Assim, no Verão de 1979, o Saint-Étienne, à altura uma das mais importantes colectividades de França e da Europa, haveria de contratá-lo. As 3 épocas passadas nos “Verts”, para além da conquista da Ligue 1 de 1980/81, confirmariam um jogador fenomenal, facto que viria a ser vincado pela brilhante exibição de Platini no Campeonato do Mundo de 1982.
Os anos vindouros na carreira do atleta seriam, em tudo, radiosos. Bem, talvez não tenha sido assim. É verdade, houve uma pequena excepção que, mesmo sendo insignificante, quase deitaria tudo a perder. Como sabemos, o defeso de 1982 marcaria a transferência de Platini para a Juventus. Porém, num plantel cheio de craques, muitos deles consagrados como campeões do mundo de selecções, a sua chegada não seria consensual. Pior ainda, acabariam por ser as exigências da imprensa, que passariam a cobrar a Platini “mundos e fundos”. Não admitindo que o atleta pudesse necessitar de um período de adaptação, o coro de protestos seria de tal forma grande que o médio-ofensivo começaria a equacionar o regresso ao país natal. Ainda bem que tal não aconteceu, pois, daí em diante, o jogador pouco mais saborearia do que o sucesso. Nesse campo, tanto a nível individual, como por equipas, os troféus suceder-se-iam. O rol é espantoso! A saber-se: 1 Taça dos Clubes Campeões Europeus (1984/85); 1 Taça dos Vencedores das Taças (frente ao FC Porto, em 1983/84); 1 Supertaça Europeia (1984/85); 1 Taça Intercontinental (1985/86); 2 “Scudettos” (1983/84 e 1985/86); 1 Coppa Italia (1982/83); 3 Ballon d’Or (1983, 1984 e 1985); 3 Capocannoniere (prémio de Melhor Marcador da Serie A, em 1982/83, 1984/85 e 1985/86). Para finalizar, há ainda que fazer referência à vitória, pela selecção francesa, do Euro 84, de onde também sairia consagrado como o goleador máximo e como o melhor jogador do torneio.
Depois de terminar a carreira nos relvados, Platini, entre 1988 e 1992, ainda teria uma passagem pelo comando técnico da principal equipa dos “Bleus”. Contudo, o seu perfil, pretensiosamente intelectual, ambicionaria a muito mais. Por essa razão, em 2007, com alguma naturalidade, o antigo médio assumiria o papel de Presidente da UEFA, cargo que, juntamente com polémicas quanto baste, ainda mantem até aos dias de hoje (Janeiro de 2014).