Mostrar mensagens com a etiqueta Os Azes do Foot Ball Portuguez Metropole e Colonias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Os Azes do Foot Ball Portuguez Metropole e Colonias. Mostrar todas as mensagens

1802 - JOÃO MENDONÇA

João Francisco de Mendonça, com o florescimento da modalidade em Portugal, depressa haveria de constituir-se como um dos grandes apaixonados pelo futebol. Ainda na posse das qualidades dadas pelo vigor da mocidade, seria enviado para Angola, onde, em Luanda, ficaria a trabalhar como membro do Observatório Meteorológico. No entanto, muito mais do que os deveres profissionais, o que movia a sua essência de jovem desportista era, em abono da mais pura das verdades, o “jogo da bola”. Seria, então, envolto por essa enorme paixão, que a 15 de Agosto de 1920, juntamente com outros entusiastas das práticas atléticas, fundaria o, à altura baptizado, Loanda Sporting Clube.
Dois anos após a fundação do clube, como registado no “site” oficial do mesmo, o nome da agremiação angolana viria a alterar-se para Sporting Clube de Luanda, para, a 1 de Setembro de 1922, passar a fazer parte do rol de filiais do Sporting “alfacinha”. Paralelamente à evolução da história da colectividade, João Mendonça, alcunhado “Fala de Homem”, depois da incontornável importância do acto de fundação, continuaria a cimentar-se como uma das figuras mais proeminentes do listado verde e branco. Nesse sentido, destacar-se-iam as suas exibições regularmente espraiadas pelos rectângulos futebolísticos da antiga colónia portuguesa, as funções excelsamente desempenhadas como dirigente e a habilidade, em semelhança de qualidade com as suas características de praticante, para desempenhar as tarefas adjudicadas aos melhores treinadores.
Muito mais haveria dizer sobre esta multifacetada figura do desporto luso-angolano. No entanto, com repetidamente terei veiculado, as informações sobre os primórdios do nosso futebol são escassas, confusas e, neste caso em específico, a fornecer pouco mais do que neste singelo texto compilei. Ainda assim, falta fazer referência a outra matéria de, permitam-me o entusiasmo, de relevância maior do que tudo o que já aqui disse! É que João Mendonça “pai”, paralelamente ao que registei e como resultado directo do casamento com uma senhora luandense de nome Catalina, haveria de arrogar-se como o progenitor e principal inspirador de uma tríade sobejamente conhecida no futebol português, para o caso, João Mendonça Junior, Fernando Mendonça e Jorge Mendonça.

1545 - CARLOS DOMINGUES

Tal como é apanágio naquela que é a temática do futebol luso, nomeadamente no que diz respeito aos primeiros anos das competições portuguesas, as informações são deveras escassas. Mesmo ao esperar tamanha falta de fontes, ainda assim decidi avançar para a redacção da biografia de Carlos Domingues, histórico elemento do Carcavelinhos que, entre as décadas de 1920 e 1930, haveria de exibir-se com as cores da colectividade sediada no lisboeta bairro de Alcântara. Curiosamente, contra o espectável, encontrei alguns artigos que, ao não permitirem, na totalidade, reconstruir a carreira do referido jogador, deram azo a que conseguisse organizar alguns dos capítulos desse trajecto. Assim sendo, ao contrário dos textos que aqui tenho publicado, preferi deixar-vos a compilação desses fragmentos recolhidos.

1.    Em primeiro lugar refiro o “Ilustração Portuguesa” de 27 de Outubro de 1923 (Edição semanal do jornal “O Século”), sobre o desafio a contar para “a segunda divisão do campeonato da Associação de Foot-ball de Lisboa”, onde constam os seguintes alinhamentos:
“Carcavelinhos: guarda•rêde, Mario Bento; defesas, Carlos Alves e Antonio Ribeiro; medios, Daniel Vicente, Filipe Duarte e Antonio da Conceição; avançados, Alfredo Rodrigues, Teixeira Mendes, Carlos Canuto, Carlos Domingues e Manoel Rodrigues. Portugal [Foot Club]: guarda•rêde, Vieira Alves; defezas, Raul Reis e José Constantino; medios, Guilherme Pessoa, José do Vale; avançados, Bento Gonçalves, Aníbal Cabrita, Jaime de Matos, João de Oliveira e Julio Pacheco”.
2.    De seguida, deixo-vos o que escreve o “site” oficial do Atlético Clube de Portugal sobre o jogo cabeça de cartaz na festa de inauguração do Campo da Tapadinha, realizado a 27 de Junho de 1926 – “Por fim, realizou-se o encontro Carcavelinhos-Sporting. Aos 15 minutos funcionou o marcador. O alcantarense, Carlos Domingues, numa jogada fulgurante, arrancou em direcção à baliza do Sporting, driblou Leandro, e atirou fortíssimo para o primeiro golo do Carcavelinhos na Tapadinha”.
3.    Já no “Recordes da Bola”, “blog” elaborado por José Guilherme, encontramos várias referências às diferentes rondas de diversas edições do Campeonato de Portugal, onde, nas temporadas de 1927/28 a 1929/30 e de 1931/32 a 1933/34, Carlos Domingues aparece amiúde nos alinhamentos do Carcavelinhos.
4.    Tendo também como base o que diz o “Diário de Lisboa” a 19 de Março de 1933, sobre uma partida em que o conjunto da Tapadinha terá vencido o União Lisboa por 2-1, encontro a contar para o Campeonato de Lisboa, também em 1932/33 Carlos Domingues terá jogado com as cores do Carcavelinhos. Ora vejamos – “Porém, aos 38 minutos, Álvaro de Sousa construiu o segundo «goal», aproveitando um passo colocado de Carlos Domingues”.
5.    Finalmente, para baralhar a ordem cronológica até agora apresentada, volto um pouco atrás até aquele que, sem qualquer dúvida, terá sido o momento mais alto da carreira de Carlos Domingues, ou seja, a presença e a vitória do Carcavelinhos na edição de 1927/28 do Campeonato de Portugal. Na final, com o resultado a ditar 3-1 a favor dos alcantarenses, os alinhamentos foram os seguintes:
“Carcavelinhos: Gabriel Santos, Carlos Alves, Abreu, Artur Pereira, Daniel Vicente, Carlos Domingues, Manuel Abrantes, Armando Silva, Carlos Canuto, José Domingues, Manuel Rodrigues.
Sporting: Cipriano Santos, Penafiel, Jorge Vieira, Martinho de Oliveira, Serra e Moura, Manuel Matias, João Francisco, Abrantes Mendes, João Jurado, Agostinho Cervantes, José Manuel Martins”.

1 – retirado do artigo publicado em “Ilustração Portuguesa” (Edição semanal do jornal “O Século”), a 27 de Outubro de 1923
2 – retirado do artigo publicado em www.atleticocp.pt
3 – retirado dos artigos publicado em http://recordesdabola.blogspot.com
4 – retirado do artigo publicado no Diário de Lisboa nº 3716, a 19 de Março de 1933
5 – adaptado da informação retirada de www.wikisporting.com

1427 - LIBERTO DOS SANTOS

Tendo em conta a altura em que o jogador fez carreira, mais uma vez foi fácil de adivinhar as dificuldades que iria encontrar na procura por dados suficientes para conseguir construir, de forma fiável, uma biografia capaz de ilustrar o seu percurso desportivo. O prognóstico, simples de fazer, veio a confirmar-se e para não prolongar em demasia esta nota introdutória, posso afirmar que essa projecção, por sorte, será uma das poucas verdades incontestáveis daquilo que agora comecei a escrever!
Segundo a Federação Portuguesa de Futebol, informação replicada amiúde por outras fontes, Liberto dos Santos terá nascido a 1 de Fevereiro de 1908 (1). Com a comunicação tida como certa, gostaria de apresentar um dado que assevera ser de 1922 a primeira aparição do jogador com as cores do União Lisboa (2). Tendo em conta a fraca probabilidade de, à altura, existirem patamares de formação, o último elemento cronológico exposto, até pode parecer, aos olhos de hoje, um pouco estranho. No entanto, mesmo ao aceitar que o ano, provavelmente, fará alusão à sua estreia sénior, a referência não é assim tão esquisita, pois antigamente era habitual haver atletas de tenra idade já inseridos na categoria principal. Ainda assim, tenho de sublinhar uma ressalva e indicar que a fonte utilizada, no que concerne ao arranque da caminhada competitiva do jogador, foi a única onde encontrei menção a 1922.
No que pertence ao currículo com as cores de Portugal (1), e acho que neste contexto as dúvidas serão mínimas, a estreia de Liberto dos Santos com as cores lusas terá acontecido a 24 de Janeiro de 1926. A partida, um “amigável” frente à Checoslováquia e sob a orientação de António Ribeiro dos Reis, seria disputada no portuense Campo do Ameal e viria a terminar com um empate a 1 bola. Depois desse embate, à data do qual o avançado contava 17 anos de idade, seguir-se-iam outras 4 pelejas internacionais e sempre de cariz preparatório. O referido percurso viria a servir de rampa para a sua inclusão no grupo que, em 1928, marcharia para a cidade neerlandesa de Amesterdão. Nos Jogos Olímpicos, na intendência de Cândido de Oliveira, o atacante acabaria por nunca entrar em jogo. Ainda assim, é impossível de desassociar a convocatória para tão importante certame desportivo, à sua qualidade como praticante e, com tal ideia em mente, não vincar a grandeza do atacante no cenário futebolístico nacional.
Ao regressar à sua caminhada clubística, há ainda para somar alguns factos relevantes. Com o União Lisboa a destacar-se como uma dos bons conjuntos da modalidade, muito para além das participações no Campeonato de Lisboa, o grande destaque surgiria com a presença da equipa “alfacinha” na final da edição de 1928/29 do Campeonato de Portugal. Na derradeira partida da prova, onde, à baliza, marcaria presença Carlos Silva, outro internacional pelo emblema do bairro de Alcântara, Liberto dos Santos, como a figura de maior peso e capitão da agremiação, também viria a ser escolhido para o “onze” a apresentar-se na contenda (3). Infelizmente para o listado alvinegro, a vitória sorriria ao adversário e o troféu, com o resultado final a quedar-se pelos 2-1, seria arrecadado pelo Belenenses.
Há ainda um par de acontecimentos que, tirando a curiosidade dos mesmos, revelam bem a importância do avançado no panorama do futebol português. O primeiro surgiria a 27 de Junho de 1926, com a inauguração do Campo da Tapadinha, à altura na posse do Carcavelinhos, para mais tarde, por junção do referido emblema com o União Lisboa, ficar como propriedade do Atlético. Para o evento seriam convidadas uma série de figuras solenes da modalidade e Liberto dos Santos, entre os futebolistas Carlos Canuto, António Augusto Lopes e João Francisco Maia, surgiria como um dos nomes convidado a apadrinhar o novo empreendimento desportivo.
O outro episódio emergiria com a tournée (4) feita pelo Sporting ao Brasil no Verão de 1928. Como era habitual à data, por altura de particulares com equipas estrangeiras ou em digressões além-fronteiras, os clubes tinham por costume pedir “emprestados” alguns atletas a outras colectividades. Na viagem transatlântica, com o plantel leonino, ao lado dos também “olímpicos” António Roquete, Armando Martins e Carlos Alves, Liberto dos Santos partiria em direcção a “Terras de Vera Cruz”.
 
PS: Alguns meses após a elaboração deste texto, fui confrontado com uma foto onde Liberto dos Santos, na época de 1933/34, é apresentado como atleta do Sporting de Lourenço Marques.

(1)https://www.fpf.pt/pt/Jogadores/Jogador/playerId/729713
(2)https://heroisdabola.com.br/jogadores/liberto-santos/grande
(3)https://www.zerozero.pt/jogo.php?id=1666185
(4)https://camaroteleonino.blogs.sapo.pt/fotografia-com-historia-dentro-222-6361286?thread=63329990

1186 - ABRANTES MENDES

Apesar de um pouco injustiçado por uma memória colectiva, em tantos aspectos, fraca, Abrantes Mendes, com uma extensa e aguerrida dedicação ao clube, terá de ser visto como um dos grandes símbolos da história do Sporting Clube de Portugal. Com o laço aos “Leões”, para além da inicial faceta de adepto, a começar como futebolista das camadas jovens, aquele que ficaria conhecido como o “Avançado Doutor”, inscreveria o seu nome nos anais da colectividade lisboeta, nas mais variadas formas.
Já desvendados os primeiros passos, a ligação com o futebol seria, de longe, a mais marcante entre Abrantes Mendes e o emblema leonino. Com a estreia na categoria principal a acontecer na segunda metade da década de 1920*, o atacante, rapidamente, passaria a ser tido como um dos principais elementos do plantel “verde e branco”. Logo na época de 1926/27, o extremo-direito marcaria presença em todas as partidas oficiais disputadas pelo Sporting. Daí em diante, as suas exibições seriam de fulcral importância para os sucessos do colectivo. Em termos de títulos, nesses anos em que conseguiria destacar-se como titular, há que fazer referência às conquistas do Campeonato de Lisboa de 1927/28 e de 1930/31. Mais tarde, já numa fase diferente do seu trajecto competitivo, o avançado também deixaria o cunho nas vitórias do Campeonato de Portugal de 1935/36, do Campeonato de Lisboa de 1936/37 e do Campeonato de Lisboa de 1938/39.
Como tem vindo a ser destapado no galgar deste texto, a carreira desportiva de Abrantes Mendes teria duas fases distintas. Na primeira, mais intensa, para além de acumular participações no futebol e em diferentes disciplinas do atletismo, o extremo-direito chegaria à selecção nacional e, com a “camisola das quinas”, conseguiria 2 internacionalizações. Já a segunda parte dessa caminhada e a intermitência que a caracterizaria, ficaria marcada pela convivência do futebol com os afazeres da sua vida profissional que, após a conclusão do Curso de Direito, haveriam de retirar ao jogador uma boa fatia das horas disponíveis.
Com o tempo mais limitado, ainda assim faria questão de manter bem acesa a paixão pelo clube. Mesmo depois de retirado da prática do futebol, onde alguns registos dão conta, nesses derradeiros anos, das suas participações com as cores do Carcavelinhos e “reservas” do Sporting, a sua ligação passaria a alimentar-se de outras formas. Como “olheiro”, diz-se dele a responsabilidade pela descoberta e contratação de uma outra lenda leonina, o avançado João Martins. Como técnico, passaria pelos escalões de formação, pelas tarefas de adjunto da primeira categoria e ao assumir as funções de treinador-principal, levaria os “Leões” à vitória na Taça de Portugal de 1945/46.
Porém, seria como dirigente dos “Verde e Branco” que viveria uma das histórias mais curiosas. Para além de ser o Secretário-Técnico da equipa que, na época de 1963/64, viria a ganhar a Taça dos Vencedores das Taças, Abrantes Mendes ficaria ligado à tentativa de “compra” de um dos maiores astros de sempre da modalidade. Conta-se que no início de 1964, terá viajado até ao Brasil para um encontro com os responsáveis do Santos. Com Pelé a atravessar uma fase polémica no emblema sediado no Estado de São Paulo, a conjuntura terá sido interpretada como a ideal para a contratação do internacional “canarinho”. Contudo, as boas exibições do avançado em partidas disputadas por essa altura, fariam com que a proposta do Sporting fosse recusada e o emissário regressasse a Lisboa de “mãos vazias”.

*No livro “Almanaque do Leão” – Rui Miguel Tovar; Topbooks; 2016 – na página 734, encontra-se uma referência à estreia de Abrantes Mendes, como sendo a “25/10/1925 (Vit. Setúbal, 2-0 no Campo Grande)”. Já na página 100 da mesma publicação, onde é esmiuçada a informação sobre a dita partida, o nome do avançado não consta, aparecendo a primeira referência à sua participação num jogo, a 17 de Outubro de 1926 (pag. 104).