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1679 - ARSÉNIO

Desde pequeno que revelaria um grande gosto pelo “jogo da bola”. Ainda em criança, a exibir a alcunha Pinga, o craque do FC Porto, Arsénio Trindade Duarte partilharia as pelejas de rua com Vasques. Um pouco mais velho, mas ainda em idade de formação, experimentaria o Galitos Futebol Clube, onde viria a encontrar-se com Albano. Já numa tentativa de caminhar um pouco mais a sério na modalidade, haveria de treinar-se na CUF. Agradaria ao treinador Raul Jorge, mas para sua infelicidade o conjunto “fabril”, naquele ano, decidiria não montar equipa de juniores. Surgiria então o FC Barreirense e o encetar de uma caminhada que depressa iria pô-lo na primeira categoria do listado alvirrubro.
Estrear-se-ia na equipa principal do FC Barreirense, com apenas 15 anos, numa partida de tributo ao colega Francisco Câmara. Logo na campanha seguinte, em 1942/43, fixar-se de vez nos seniores do conjunto sediado na Margem Sul. Mesmo a disputar a 2ª divisão, o jovem avançado conseguiria revelar-se como um goleador sagaz. Apesar de não ser muito habilidoso, Arsénio destacar-se-ia como um elemento veloz, muito esforçado e, acima de tudo, com uma enorme argúcia no momento de enviar a bola para as redes adversárias. Tamanhas habilidades levá-lo-iam a treinar-se, juntamente com o camarada de balneário Francisco Moreira, no Vitória Futebol Clube. Contudo, nem um, nem o outro, acabariam por ficar nos “Sadinos” e depois da tentativa falhada, e com Moreira já vinculado às “Águias”, chegaria a vez de o avançado-centro convencer os responsáveis do Benfica das suas qualidades.
Agradado com as suas características, Janos Biri anuiria à transferência do atacante. Contratado como reforço para a época de 1943/44, a campanha de entrada de Arsénio nos “Encarnados”, mesmo ao marcar na partida de estreia, não entregaria o jogador à titularidade indiscutível. Tal estatuto conquistá-lo-ia na temporada seguinte. A partir desse momento, a importância do avançado no seio do grupo de trabalho benfiquista cimentar-se-ia como fulcral. Nesse sentido, o atleta tornar-se-ia numa das peças centrais das conquistas colectivas do clube. Ao palmarés pessoal, no decorrer dos 12 anos a envergar a camisola das “Águias”, o ponta-de-lança juntaria a conquista de 10 títulos. Nas 6 Taças de Portugal que ajudaria a vencer, estaria presente em todas as finais e marcaria golos em 4 delas. Há igualmente a arrolar a esta lista, 3 Campeonatos Nacionais e, acima de tudo, o triunfo na Taça Latina de 1949/50.
Seria no primeiro grande feito continental do futebol luso que o avançado viveria um dos momentos mais espantosos da carreira. Com o Girondins de Bordeaux a vencer por 1-0, o aproximar do termo da finalíssima quase que dava o emblema gaulês como o dono do almejado troféu. Então, a 15 segundos do fim do tempo regulamentar, sairia da acção de Arsénio o golo a arrastar a decisão da partida para os diferentes prolongamentos e, principalmente, para o golo de Julinho que, aos 146 minutos de jogo, tombaria a resolução da Taça Latina para o lado do Benfica.
Outra circunstância importante, na sua caminhada enquanto futebolista, seriam as chamadas à selecção nacional. Com a estreia a acontecer no âmbito da Fase de Qualificação para o Campeonato do Mundo de 1950, Arsénio, pela mão de Salvador do Carmo, envergaria, pela primeira vez no trajecto desportivo, a “camisola das quinas”. Poucos dias passados sobre o embate disputado, a 2 de Abril de 1950, em Chamartin, o avançado voltaria a entrar em campo frente à “La Roja” e somaria, num cômputo notoriamente escasso para a sua categoria, a 2 internacionalização alcançada na carreira.
Apesar da importância dos seus desempenhos para os objectivos do Benfica, a profissionalização do futebol das “Águias”, mudança posta em curso com a chegada de Otto Glória, iria alterar a posição do atleta no seio do plantel. Relutante em deixar o emprego que mantinha paralelamente às actividades futebolísticas, Arsénio começaria a ser posto de lado pelo referido técnico brasileiro. Com a saída a posicionar-se como a melhor opção para a carreira do atacante, seria o Lusitano de Évora a primeira agremiação a abordar o jogador. Quase de imediato surgiria a CUF na corrida e a proposta apresentada pelo emblema “fabril” levaria o avançado-centro a representar a colectividade da cidade do Barreiro.
Com a entrada na CUF a acontecer na temporada de 1955/56, Arsénio passaria a trabalhar na alçada de Umberto Buchelli. Ao assumir-se como um dos preferidos do treinador uruguaio, o avançado arrancaria para uma colaboração a estender o seu trajecto primodivisionário por mais 4 campanhas. Pelo meio, outro feito fantástico, com o atleta a posicionar-se como o Melhor Marcador da edição de 1957/58 do Campeonato Nacional da 1ª divisão.
Após 16 anos no patamar máximo, 313 partidas disputadas e 212 golos concretizados na prova de maior relevância no calendário futebolístico português, Arsénio, já em plena veterania, ainda revelaria vontade para prolongar a sua caminhada competitiva. Afastado dos grandes palcos a partir do final de 1958/59, o avançado, nos anos seguintes, representaria o Montijo, o Cova da Piedade e o Monte da Caparica.

1371 - AMÍLCAR CAVÉM

Eu diria impossível, no contexto futebolístico, alguém não reconhecer o apelido deste jogador. No entanto, para os mais distraídos, posso assegurar-vos Amílcar Cavém como o filho de Norberto Cavém, ilustre figura do Olhanense e do Lusitano de Vila Real de Santo António, como o irmão mais velho de Domiciano Cavém, bicampeão europeu pelo Benfica e, para não falar de outros parentes, como primo de Tamagnini Nené e de José Rita
Deixando a árvore genológica e arribando caminho para o desporto, Amílcar Cavém, ainda em idade adolescente, daria os primeiros passos no futebol com a camisola do Grupo Desportivo “O Celeiro”, popular emblema de Vila Real de Santo António. De seguida, ao ver os seus créditos tidos como capazes de outras ambições, a temporada de 1948/49 traria no FC Serpa o emblema a asseverá-lo como um potencial praticante, quiçá, profissional.
Bem, talvez haja algum exagero meu na apreciação feita à ligação do atleta com a colectividade alentejana. Todavia, as duas temporadas passadas pelo jogador no emblema sediado no distrito de Beja, serviriam para que o jogador desse o salto para os escalões “nacionais”. No Lusitano de Vila Real de Santo António a partir da temporada de 1950/51, Amílcar Cavém passaria a partilhar o balneário com o irmão Domiciano. Mesmo a disputar os escalões secundários, a verdade é que os seus desempenhos destacá-lo-iam, mais uma vez, como um elemento com habilidade para voos de maior monta. Nessa lógica, logo surgiria o Sporting da Covilhã interessado na sua contratação e na época de 1952/53 o defesa, que também sabia ocupar posições no sector intermediário do terreno de jogo, apresentar-se-ia como reforço dos “Leões da Serra”.
Mesmo tendo em conta o pulo que levaria o atleta a transitar da 3ª divisão para o escalão máximo do futebol português, a sua adaptação ao novo cenário competitivo tornar-se-ia, surpreendentemente, num pormenor fácil de ultrapassar. Com a sua estreia a acontecer pela mão do treinador János Szabó, daí em diante seria aferido pelos responsáveis técnicos como alguém essencial ao “onze”. Como um dos titulares da equipa, logo na época seguinte à da sua chegada, haveria de receber no clube o irmão Domiciano Cavém. Como é óbvio, não seria apenas dos episódios até aqui relatados que o jogador viveria. Ora, com Amílcar Cavém a integrar os grupos de trabalho que desenhariam os melhores anos da história do Sporting da Covilhã, então é certo dizer-se que o defesa teria um papel fundamental em dois importantes momentos.
A primeira situação a merecer menção, terá de ser aquela que é a melhor classificação de sempre dos “Serranos”, isto é, o 5º lugar alcançado, na temporada de 1955/56, na disputa do Campeonato Nacional. Naquela que é a principal prova do calendário futebolístico português, , logicamente na já aludida campanha e num plantel a incluir nomes como Fernando Cabrita ou José Rita, o atleta seria um dos preferidos do técnico húngaro mencionado no parágrafo anterior. Já na época seguinte, o destaque viria com o avançar nas eliminatórias da Taça de Portugal e com a chegada à final da prova. No Estádio Nacional do Jamor, numa partida frente a um Benfica onde já brilhava o seu irmão Domiciano Cavém, Amílcar Cavém seria chamado ao “onze”. Infelizmente para o conjunto liderado pela dupla Tavares da Silva e, na condição de jogador-treinador, por Fernando Cabrita, a derrota por 3-1 levaria o troféu a seguir para os escaparates da Luz.
Daí em diante, talvez com uma presença não tão preponderante, o jogador ainda iria manter-se no Sporting da Covilhã por mais 5 temporadas. Ao fim de 11 anos no emblema beirão, 9 dessas campanhas e 145 jogos disputados na 1 ª divisão, Amílcar Cavém deixaria a Serra da Estrela para regressar ao Algarve. Voltaria ao Lusitano de Vila Real de Santo António e no final da época de 1963/64 daria por terminada a sua caminhada enquanto futebolista.

836 - JUAN FORNERI

Tendo o jogador aparecido por cá em meados dos anos 50, seria certo pensar-se que os registos sobre o seu percurso desportivo fossem mais conclusivos. No entanto, tudo aquilo que consegui apurar levou-me a uma série de dúvidas ainda maiores! A primeira: de onde surgiu Forneri? Há quem diga que, antes da sua viagem para a Europa, o médio já tinha jogado pelo Quilmes. Outros, contudo, referem-no numa senda curiosa. Nela, sem ligação a qualquer colectividade, terá andado pelo nosso país a bater de porta em porta, à procura de um novo clube. A verdade, a única que consegui confirmar, é que a primeira aparição deste argentino em Portugal remonta à temporada de 1953/54.
Foi, então, ao serviço do Juventude de Évora que Forneri disputou as primeiras partidas nos nossos campeonatos. Aqui, mais uma dúvida. Há quem o apresente como vindo de um empréstimo do FC Porto. Todavia, a fraca consistência da dita informação faz-me pensar que tal não passa de mais um erro no universo cibernauta.
Continuando… Já após cumprir essa época inicial, outros pretendentes começaram a aparecer. Sendo um atleta de excepcionais qualidades, e com os alentejanos a claudicarem nas derradeiras etapas da luta pela promoção, novo convite haveria de surgir. Com Oscar Tellechea no lugar de treinador, e havendo no balneário outros conterrâneos seus, foi fácil para os responsáveis do Torreense convencer o atleta a mudar-se para o Oeste. Em Torres Vedras assumiria um papel de tremenda importância naqueles que foram os melhores anos da colectividade. Tendo a seu lado Américo Belen e José Maria Pellejero, também eles argentinos, Forneri destacar-se-ia como um dos melhores centrocampistas a actuar em Portugal.
Bom a defender e a atacar, o atleta conseguia ocupar várias posições dentro do terreno de jogo. Essa polivalência, que o levava a ser médio interior ou médio defensivo, seria uma das grandes armas para as boas campanhas do seu clube. Muito para além de ser um titular indiscutível, seriam as suas prestações que ajudariam o Torreense a atingir a final da Taça de Portugal de 1955/56. No entanto, e depois de já ter marcado o golo que, nessa caminhada, ajudaria a eliminar o Sporting, Forneri não evitaria a derrota na derradeira partida da prova. Frente ao FC Porto, o emblema saloio não conseguiria sair do Jamor com a vitória. Dois golos de Hernâni, sem qualquer tento em resposta, fariam com os de “Azul e Branco” levassem o troféu para a “Cidade Invicta”.
Após mais algumas temporadas ao serviço do Torreense, é a partir de 1959 que o seu nome deixa de aparecer nas fichas de jogo dos nossos campeonatos. É também a partir dessa data que em Espanha surge um atleta que, mesmo com algumas diferenças no nome e ano de nascimento, muitos relatam como sendo a mesma pessoa. Contudo, Forneris Ocampo, também conhecido como Juancho Forneri, tem muitas coisas em comum com o jogador que passou em Portugal. Ambos, para além da similaridade do apelido, partilham Juan Carlos como os primeiros nomes; a posição de campo também era a mesma; e, para concluir, há ainda a muito relatada camaradagem que tinha com o antigo atleta do emblema do Oeste, José Maria Pellejero.
Ora, partindo do princípio que Forneri e Forneris Ocampo são o mesmo, então, e já depois de deixar Portugal, pode dizer-se que a carreira do médio terá continuado no sul de Espanha. No Granada, e com o referido Pellejero como companheiro no centro do terreno, o atleta abrilhantaria os campos do escalão máximo espanhol. Tendo, ainda na mesma divisão, representado o Elche, seria no Mallorca que a sua importância seria mais notada. Já um veterano, é nas Baleares que faz a transição dos relvados para o corpo técnico. Durante anos a fio ficaria ligado ao clube. Desempenharia as funções de treinador em todas as camadas; seria chamado a observar jogadores; e, inclusive, faria de roupeiro. A tamanha devoção ao emblema levá-lo-ia a figurar nos anais como um dos seus históricos. Por altura do seu falecimento em 1995, uma partida frente ao Atlético de Madrid seria disputada em sua homenagem.