Mostrar mensagens com a etiqueta Ases da Selecção. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ases da Selecção. Mostrar todas as mensagens

1142 - ELEUTÉRIO

Começaria a prática do futebol ainda como atleta do Grupo Desportivo “Os Fósforos”. Em 1946 viria a assistir à união do seu emblema com o Marvilense Futebol Clube e o Chelas Futebol Clube, dando, desse modo, origem ao Clube Oriental de Lisboa. Mas muito mais do que testemunhar o nascimento da histórica colectividade, Eleutério, ao integrar os planteis do novo emblema “alfacinha”, ajudaria a consolidar o sonho de um conjunto de entusiastas da modalidade.
A sua integração na categoria principal, com registos desde a temporada de 1947/48, faria com que a cotação do jogador começasse a subir. Como um dos pilares do sector intermediário, seria também por razão da sua dedicação que, depois da promoção conseguida na campanha anterior, o Oriental conseguiria, na edição de 1950/51 do Campeonato Nacional, estrear-se na 1ª divisão. Com a disputa do patamar máximo do futebol português e com a visibilidade daí resultante, Eleutério começaria a ser observado por emblemas de grande monta. Daí até à transferência para outra colectividade seria um pequeno salto e na época de 1952/53, o centrocampista daria início aos seus trabalhos com o FC Porto.
De “azul e branco”, o atleta cumpriria 5 temporadas. Lançado pelo treinador argentino Lino Taioli, logo no ano da chegada, Eleutério, ocupando posição na esquerda do meio-campo, tornar-se-ia num dos elementos com mais chamadas ao “onze”. Manteria a posição com a entrada de Cândido de Oliveira a meio da primeira época, estendo o estatuto de titular para a campanha seguinte. Aliás, 1953/54 tornar-se num dos mais importantes ciclos da sua carreira desportiva. Com o lugar na equipa alicerçado em boas exibições, a chamada à principal selecção portuguesa surgiria com naturalidade. Chamado a jogo por Salvador do Carmo, a Bélgica, num “particular” disputado em Março de 1954, serviria para alimentar a única internacionalização do seu trajecto.
Mesmo diluída a preponderância alcançada nos 2 primeiros anos com os “Dragões”, Eleutério manter-se-ia integrado no plantel principal. Com Joaquim Machado, inicialmente, a roubar-lhe o lugar, a introdução, por Dorival Yustrich, de um novo esquema táctico, acabaria por acentuar a sua perda de importância. Ainda assim, o atleta haveria de celebrar a “dobradinha” conquistada em 1955/56. Chamado pelo famoso técnico brasileiro à disputa de apenas 5 partidas oficiais, o médio veria as vitórias no Campeonato Nacional e na Taça de Portugal a enriquecerem o seu currículo.
Depois de envergar pela última vez o listado “azul e branco” no decorrer da temporada de 1956/57, o futebolista daria continuidade à carreira desportiva. Com a mudança a acontecer não para muito longe do Estádio das Antas, seria o Salgueiros, a militar na 1ª divisão, que abriria, ao atleta, as portas das competições organizadas na época de 1957/58.

983 - BAPTISTA

Nascido em Setúbal, chegaria à primeira categoria do FC Porto já com 23 anos de idade. Tendo sido essa temporada de 1949/50 a única campanha em que há registos da sua participação na equipa principal “Azul e Branca”, a questão que aqui levanto é: por onde terá andado Ezequiel Baptista, até então? A resposta, para quem tenha acesso a outro tipo de arquivos, poderá ser fácil. Eu não a encontrei!
Voltando à sua passagem pelo FC Porto, ainda a jogar no Campo da Constituição, seria, como aqui já foi dito, de pouca duração. Num ano atribulado, com diversas mudanças de treinador, os “Dragões” acabariam (em termos de pontos) mais perto da “linha-de água”, do que do topo da tabela classificativa. Talvez esse turbilhão tivesse, de alguma forma, atrapalhado a adaptação do médio. Pouco utilizado, o seu peso dentro do plantel acabaria por levá-lo a escolher outro caminho para a sua carreira de futebolista. A solução seria encontrada um pouco mais a Norte e a transferência para o Sporting de Braga, com uma época de hiato nos arquivos da sua actividade, tomaria corpo em 1951/52.
A mudança para o Minho seria de fulcral importância para o estatuto de que viria a usufruir mais adiante. Podendo jogar no miolo do terreno, como mais inclinado para a direita do sector intermediário, Baptista tornar-se-ia num elemento fundamental para as manobras tácticas dos bracarenses. Com uma primeira temporada algo discreta, as campanhas seguintes mostrariam o atleta como um dos nomes habituais na ficha de jogo. Essa regularidade exibicional acabaria por levá-lo a vestir a “camisola das quinas”. Baptista, que, frente ao Luxemburgo, também faria uma partida pela equipa “B”, conseguiria a estreia no conjunto principal em Dezembro de 1954. No particular frente à Alemanha Ocidental, disputado no Estádio Nacional, o médio entraria para o “onze” inicial. Escalonado por Fernando Vaz, o jogador acabaria por exibir-se ao lado de nomes como José Maria Pedroto, Vasques, Matateu ou Albano.
A internacionalização conseguida pelo centrocampista, haveria de consagrá-lo na história do emblema bracarense como o segundo atleta da casa, a seguir a Alberto Augusto, a vestir as cores de Portugal. Aliás, poderá haver uma correlação entre o nome de Alberto Augusto e a ida de Baptista para o Sporting de Braga. Nessa atribulada época de 1949/50, a tal do médio na equipa principal do FC Porto, Alberto Augusto orientaria o conjunto “Azul e Branco” até Novembro. Se essa correspondência terá tido, ou não, alguma influência na sua contratação por parte do emblema minhoto, não consegui confirmá-la. No entanto, não deixa de ser curiosa e passível de ser bem investigada.
No Sporting de Braga passaria 6 temporadas. Com o húngaro Joseph Szabo, que já tinha orientado o FC Porto uns anos antes, como o seu primeiro treinador, a caminhada de Ezequiel Baptista com as cores dos “Arsenalistas”, terminaria sob a alçada do mesmo técnico. Essa temporada de 1956/57, em que, após a despromoção 1 ano antes, ajudaria o conjunto minhoto a regressar à 1ª divisão, marcaria o fim da ligação entre o atleta e o clube. Depois viria o Leixões e finda essa campanha vivida em Matosinhos, a impossibilidade de acompanhar o que terá acontecido de seguida. Com 32 anos cumpridos, é bem possível que o médio tenha decidido pôr um “ponto final” no seu trajecto competitivo. Se tal aconteceu ou se, por outro lado, manteve alguma ligação à modalidade, não sei! Talvez seja mais uma boa questão para averiguar!

899 - SERRA E MOURA

Tendo começado muito novo nas lides do desporto, a primeira modalidade que, com mais afinco, praticaria seria o atletismo. Tanto no salto em comprimento, como nas disciplinas de velocidade, Serra e Moura vestiria as cores do Sporting. Sempre de “Leão” ao peito, alguns anos mais tarde viria a descobrir aquela que acabaria por tornar-se na sua maior paixão.
No futebol, muito mais do que a entrega que mostrava dentro de campo, a sua grande característica era a habilidade que tinha com a bola nos pés. Numa altura em que a modalidade era mais força do que jeito, a arte que Serra e Moura mostrava em cada toque destacava-o dos demais atletas. Curiosamente, a estreia do médio na categoria principal leonina aconteceria já este contava com 26 anos de idade. Logo nessa temporada, a de 1924/25, o médio conseguiria amealhar para o seu currículo o “Regional” de Lisboa. Ainda que tenha feito apenas um jogo durante essa campanha, os sinais que deixaria permitir-lhe-iam ganhar um lugar no plantel. Já na época seguinte, o seu peso nos destinos da equipa seria bem diferente. Titular indiscutível, o jogador passaria a ser o “dono e senhor” da posição de interior-direito.
Apesar da sua preponderância no desenho táctico do conjunto “verde e branco”, as suas exibições melhorariam ainda mais com a sua mudança dentro de campo. Entendo que as suas características valeriam mais no miolo do terreno, Augusto Sabbo, treinador germânico e antigo atleta dos lisboetas do CIF, muda-o para médio-centro. A adaptação revelá-lo-ia como um grande estratega. Aliada a sua capacidade técnica, a maneira como lia o jogo faria dele o cérebro de toda a equipa. Essa condição faria dele um dos “capitães” do Sporting e, para além disso, levá-lo-ia à estreia com a “camisola das quinas”.
O dia 1 de Abril de 1928, convocado por Cândido de Oliveira, marcaria assim a sua estreia com as cores de Portugal. Para além desse particular frente à Argentina, pela selecção nacional Serra e Moura ainda teria a oportunidade de jogar mais 2 partidas. Apesar de contar com apenas 3 internacionalizações, a verdade é que a mística do jogador sentir-se-ia de imediato. Se mais provas não houvesse, então a braçadeira de “capitão”, entregue ao seu encargo aquando da sua segunda chamada, serviria como testemunha.
Infelizmente, e quando o seu perfil era já o de uma das maiores estrelas do futebol luso, uma grave infecção numa perna afastá-lo-ia da prática desportiva. Pior ainda foi quando a doença, mal debelada, passou à condição de septicémia. Espalhada pelo corpo, a contaminação ceifar-lhe-ia a vida.

751 - CARRIÇO

Manuel Luís dos Santos, conhecido no mundo do futebol como Carriço, é um dos históricos jogadores do Vitória Futebol Clube. Tendo, no início dos anos 60, aparecido na categoria principal do emblema setubalense, seria também por essa altura que o jovem atleta participaria no primeiro grande êxito das selecções portuguesas. Escolhido por David Sequerra e orientado por José Maria Pedroto, Carriço marcaria presença em todos os jogos de Portugal no Torneio Internacional de Juniores de 1961. Como um dos indiscutíveis do “onze” luso, o jogador tornar-se-ia num dos pêndulos do grupo e extremamente importante na conquista do referido troféu.
Não foi só com as cores de Portugal que Carriço fez parte de uma excelsa geração. Ao lado de nomes como os de José Maria, Conceição, Jaime Graça ou Jacinto João o jogador ajudaria a construir uma das épocas áureas do Vitória de Setúbal. Podendo jogar a meio-campo, como em tarefas mais defensivas, era nas laterais que melhor desenvolvia o seu futebol. Tendo conseguido manter-se, ao longo da década de 60 e início da de 70, como um dos atletas mais utilizados no plantel sadino, o seu contributo para o sucesso do grupo seria decisivo.
Durante esse período, e sob a batuta de Fernando Vaz, o Vitória de Setúbal conseguiria a faceta de, por 4 vezes consecutivas, atingir o derradeiro jogo da Taça de Portugal. Desse rol de finais, do qual o clube sairia vitorioso por 2 vezes (1964/65; 1966/67), Carriço participaria em 3. Também no contexto das provas europeias, o seu currículo está bem preenchido. Resultado das boas campanhas conseguidas no Campeonato Nacional, as presenças na Taça das Cidades com Feira e, mais tarde, na Taça UEFA tornar-se-iam habituais. Durante essas campanhas, algumas das grandes potências do futebol cairiam a seus pés. Fiorentina, Inter de Milão, Leeds United, Olympique Lyonnais, Anderlecht ou Liverpool são alguns do clubes que claudicariam frente ao emblema da Foz do Sado.
Já a sua relação com a Selecção “A”, tendo em conta o valor que sempre mostrou em campo, acabaria por não ser tão estreita quanto o merecido. A estreia a 4 de Junho de 1969, num particular frente ao México, seria apenas o primeiro de 3 jogos feitos por Portugal. Essas internacionalizações acabariam por não reflectir o real valor da sua carreira. É certo que, durante o seu percurso como profissional, também Benfica e Sporting eram compostos por grupos de grandes jogadores. Ainda assim, e tendo sido essa a principal razão pela dificuldade em afirmar-se, fica-me a sensação que Carriço mereceria mais da “camisola das quinas”.

703 - ARTUR QUARESMA

Depois de, na 2ª divisão, fazer a estreia pela equipa principal do Barreirense, eis que, passados apenas alguns jogos, Artur Quaresma chama a atenção de um dos emblemas da capital. A qualidade que, com apenas 17 anos, já mostrava em campo, levaria a que os responsáveis do Belenenses não tivessem dúvidas e, pela sua contratação, pagassem 5 contos.
Chegado às Salésias, a sua integração iria acabar por confirmar aquilo que já se esperava do jogador. Inteligente na altura de servir os companheiros mais avançados no terreno, também ele sabia movimentar-se de maneira a conseguir aproximar-se das balizas adversárias. Esta sua postura dentro de campo, que haveria de valer um número considerável de golos, acabaria por conquistar a confiança dos seus treinadores e, principalmente, a admiração dos seus colegas de balneário.
Com o avançar dos anos, a sua importância no seio do grupo belenense cresceria exponencialmente. Ainda assim, e tendo chegado apenas em 1936, pouco tempo bastaria para que da selecção nacional chegasse a sua primeira convocatória. A 28 de Novembro de 1937, Artur Quaresma faria a sua estreia com as “quinas” ao peito. Contudo, e se esse particular disputado em Vigo acabaria por ser um marco na carreira do futebolista, seria outro desafio frente à Espanha que ficaria para história. Passados cerca de 6 meses, um novo amigável, desta feita marcado para o Estádio das Salésias, como que servia para selar a amizade entre um Portugal sob o regime de António Salazar e a Espanha “franquista”. Com a tribuna recheada com os mais altos cargos de ambas as nações e convidados dos regimes de extrema-direita alemão e italiano, seria na altura de tocar o hino que Artur Quaresma chamaria sobre si muita da atenção. Num verdadeiro acto de coragem, o jogador acabaria por quebrar o protocolo, mantendo os braços atrás das costas e, desta forma, recusando-se a fazer a saudação nazi – “Fomos à PIDE (…). Eu, deixando o braço em baixo, disse que me esquecera de o levantar. Não houve mais problemas porque o Belenenses moveu influências. Nunca fui político, mas embirrava com aquelas coisas do fascismo. O Barreiro era foco de comunistas opositores ao regime e eu era amigo de muitos. Mas fiz aquilo sem premeditação, foi um acto natural”*.
Apesar de pertencer a um grupo muito bem cotado, só alguns anos após a sua chegada ao Belenenses é que começariam a surgir os grandes títulos na sua carreira. Primeiro, e numa altura em que já era um dos mais conceituados da equipa, aparece a vitória na Taça de Portugal de 1941/42. Depois, viriam as vitórias nos Campeonatos de Lisboa de 1943/44 e 1945/46. Finalmente, e na mesma temporada do último “regional alfacinha”, Artur Quaresma, que jogaria todas as partidas, conseguiria sagrar-se campeão nacional.
Já despois da importante conquista, não passariam muitos anos até que o internacional português decidisse pôr um fim ao seu percurso nos campos de jogo. Na verdade, a sua despedida a 5 de Outubro de 1948, mais do que o definitivo final, seria o ponto de partida para uma fase transitória. Tendo, de imediato, começado a sua actividade como técnico, o que é certo é que, durante algum tempo, ainda desempenharia o papel de treinador-jogador. Aliás, seria nestas funções que Artur Quaresma chegaria à final da Taça de Portugal de 1948/49. Só passado algum tempo é que passaria em exclusivo para o “banco”, e, à parte dos anos estaria ao serviço do Belenenses, o antigo atleta daria o seu contributo a uma série de outros clubes.

 
*retirado do jornal “Record”, Janeiro de 2004

697 - JOSÉ SÉRIO

Nascido e criado em Belém, seria no clube do seu bairro que José Sério faria a estreia no futebol. Com incontestáveis habilidades para a defesa das balizas, seria para essa posição que, no final dos anos 30, entraria para a equipa de juniores do Belenenses. No entanto, e apesar de completar a formação no clube da “Cruz de Cristo”, a sua estreia nas categorias principais dar-se-ia no Paço de Arcos. Já o retorno às Salésias, aconteceria um par de anos depois (1944/45).
De volta ao emblema de origem, o atleta iria encontrar a forte concorrência de Capela. A presença daquele que era o guarda-redes titular do Belenenses, leva-o, nesse retorno, a disputar jogos pelas categorias “secundárias”. Logo no ano seguinte à sua chegada, sem que tenha conseguido apurar qual o papel de José Sério na conquista, o Belenenses sagra-se Campeão de Lisboa. Curiosamente, e aqui com o guardião a ocupar um lugar no “onze” inicial, também as “reservas” haveriam de conseguir lograr do mesmo êxito.
Mantendo-se na condição de suplente, mas utilizado, seria ainda nessa temporada de 1945/46 que o atleta conquistaria o título mais importante da sua carreira. Tendo participado em 3 partidas, José Sério faria parte do grupo que, orientado por Augusto Silva, destronaria os principais candidatos à liderança e venceria o Campeonato Nacional. No regresso à capital, após a contenda em que tudo ficaria decidido – partida disputada frente ao SL e Elvas –, o jogador haveria de proferir alguns comentários à festa dos adeptos – “Os carros foram obrigados a parar e o trajecto até Belém foi lento, com muita gente nas ruas a agitar bandeiras"*.
Apesar das suas qualidades, só a partir da época de 1947/48, e com a saída de Capela para a Académica de Coimbra, é que José Sério passou a ter um lugar de destaque dentro do plantel do Belenenses. Logo nessa temporada, ele que já tinha sido chamado à selecção “b”, faz a sua estreia com principal “camisola das quinas”. No entanto, esse particular disputado em Madrid acabaria por ficar marcado por um episódio curioso. Conhecido como um homem calmo, o ambiente nesse jogo frente à Espanha tê-lo-á atemorizado. Arrasado pelos nervos, acabaria por pedir a substituição, vindo mais tarde a confessar – “Pois eu nem via a bola”**.
A sua ligação ao Belenenses manter-se-ia durante longos anos. Só com a chegada de José Pereira à titularidade, é que José Sério acaba por equacionar a sua saída. Todo esse período passado na defesa das redes “Azuis”, torná-lo-iam num dos históricos do clube. Nesse sentido, é, ainda hoje, um dos guarda-redes mais utilizados na história do emblema “alfacinha”, ficando apenas atrás do já referido “magriço” e de Marco Aurélio.
Depois de, no final da temporada de 1954/55, deixar o Belenenses, José Sério ainda daria continuidade ao seu percurso como futebolista. Sem que haja muitos registos sobre o mesmo, é certo que, durante esse período, terá também jogado pelo Coruchense.

693 - ANTÓNIO ROQUETE

Nascido em Salvaterra de Magos, no seio de uma família muito pobre, António Roquete entraria para a Casa Pia. Seria na dita instituição, que o antigo internacional português se revelaria um desportista de nomeada. Natação, basquetebol, pólo-aquático e até basebol, fariam parte da sua lista de modalidades praticadas. Contudo, e apesar de ser um atleta multifacetado, o futebol era a sua grande paixão. Tendo começado nas equipas “escolares” casapianas, António Roquete prosseguiria a sua carreira no denominado Casa Pia Atlético Clube. A destreza que demonstrava, a bravura, mas, principalmente, as técnicas próprias de um bom guarda-redes, rapidamente fariam dele um dos melhores a actuar na sua posição.
Mesmo sem pertencer a um dos mais carismáticos emblemas nacionais, o seu nome, a partir de 1926, começa a fazer parte dos convocados para as partidas da selecção nacional. Com as cores de Portugal, num particular contra a França, faz a sua estreia em Toulouse. Esse jogo, já incluído na caminhada para os Jogos Olímpicos de 1928, era o reconhecimento, e merecido prémio, para a sua habilidade na defesa das balizas. A essa primeira internacionalização seguir-se-iam outras e, nessa senda, a sua presença no certame realizado em Amesterdão estava garantida.
Levado às olimpíadas pela mão do seleccionador nacional Cândido de Oliveira, António Roquete seria titular em todas as partidas disputadas. Portugal chegaria aos quartos-de-final e, mesmo a falta de uma medalha, não inibiria o povo de sair à rua para festejar o regresso dos seus heróis. Nisto, e como é fácil de compreender, a popularidade do guardião subiria em flecha. Alto e espadaúdo, e reflexo daquilo que o futebol já representava nessa altura, até a imagem de António Roquete seria alvo de cobiça e comparada com a dos mais afamados galãs do cinema. 

Também no campo desportivo, o futebolista continuaria a gozar dos maiores louvores. Apesar de apenas ter representado o Casa Pia, por diversas vezes seria cedido a outros emblemas, como o Vitória de Setúbal, o Sporting ou o Benfica, para a disputa de particulares ou como integrante nas digressões realizadas no estrangeiro.
Deste modo, foi com grande surpresa que, no início da década de 30, António Roquete desaparece da cena desportiva. Sem ainda ter completado 30 anos de idade, aquele que era tido como um dos melhores atletas da modalidade, retirava-se dos campos sem, ao que dava a entender, deixar grande rasto!

A verdade, no entanto, era outra. António Roquete abandonaria o futebol para ingressar na Polícia Internacional Portuguesa! Destacado no Minho, aquele que era um ídolo para as massas, tornar-se-ia num temido agente. Reconhecido pela sua faceta violenta e impiedosa, a sua imagem, passados alguns anos, ficaria ainda mais denegrida. É já como elemento da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), onde chegaria a subinspector, que António Roquete se envolve em dois casos muito badalados. Na morte do Dr. António Ferreira Soares, contam alguns relatos que terá tido parte activa na cilada perpetrada ao militante do Partido Comunista Português. Nela, e no mesmo consultório onde tantas vezes terá ajudado os mais desfavorecidos, o conhecido “médico dos pobres” terá sido interpelado por uma brigada e atingido a rajadas de metralhadora. Ainda vivo, mas já inanimado, seria arrastado para o interior de um carro da polícia, vindo a morrer pouco depois.
Já no caso da prisão de Cândido de Oliveira, também muito se especulou sobre o seu envolvimento. Pelo que se sabe, o treinador teria tido um papel proeminente no decorrer da 2ª Guerra Mundial, ao ajudar os Serviços Secretos Britânicos em acções de espionagem. Por essa razão haveria de ser levado para o forte de Caxias, onde seria sujeito às mais diversas torturas e privações, para depois ser deportado para o campo de concentração do Tarrafal. Dir-se-ia que o próprio Roquete havia participado nos espancamentos a que Cândido de Oliveira teria sido sujeito. Todavia, esta versão seria posteriormente desmentida pela sobrinha do antigo seleccionador nacional – “Era um rapaz muito pobre, o Roquete, o meu tio protegeu-o, garantiu-lhe refeições, ajudou-o a vestir-se, enfim fez com ele o que fazia com todos os casapianos que precisavam do que fosse... É verdade, que apesar disso, não se portou bem quando Cândido foi preso. Mas bater-lhe parece que não bateu. De qualquer forma, posteriormente, Roquete tentou uma aproximação, mas o Cândido recusou”*.

 
*retirado de  http://oindefectivel.blogspot.co.uk/

687 - CÉSAR DE MATOS

Foi, sem sombra de dúvida, um dos grandes ídolos do futebol “luso”, entre os anos 20 e os anos 30. Já no Belenenses, a sua história é ainda de maior importância, sendo, ainda nos dias que correm, um dos jogadores com mais internacionalizações, na história do clube.
Ora, depois deste pequeno parágrafo introdutório, que mais haverá para dizer sobre César de Matos? Bem, nesse bastante, e naquelas que viriam a ser as décadas seguintes à fundação do clube da “Cruz de Cristo”, o antigo médio constituir-se-ia como um dos pilares do sucesso do Belenenses. Nesse sentido, e tendo os de “Azul” vencido o Campeonato de Portugal nas temporadas de 1926/27, 1928/29 e 1932/33, se houve, entre outras coisas, algo de comum a esses três títulos, então, o nome de César de Matos foi uma delas.
Sendo um jogador aguerrido, ágil e atlético, características que o levariam a ser apelidado como o “médio voador”, César de Matos era um dos esteios nas manobras de Artur José Pereira. A rapidez com que haveria de conseguir impor-se no plantel principal, levá-lo-iam, logo no primeiro ano a trabalhar com a dita categoria, a ser visto como um bom elemento para integrar os planos da selecção.
A sua estreia com a “Camisola das Quinas”, pela mão do seleccionador Ribeiro dos Reis, aconteceria a 17 de Maio de 1925. Essa partida frente à Espanha, acabaria por marcar o início de uma relação que, muito mais rica do que o normal para a época, traduzir-se-ia em 8 anos de ligação e 17 internacionalizações. Por entre essas chamadas, grande maioria para contendas “amigáveis”, a presença naquela que era a maior competição para selecções.
Sem Mundial ou Europeu para disputar, os Jogos Olímpicos afiguravam-se como o grande certame para as equipas nacionais. Tendo isto em mente, e na hora de organizar a lista dos que haveriam de marcar presença no certame disputado em Amesterdão, a mão de Cândido de Oliveira, por certo, não terá tremido no momento de inscrever o nome de César de Matos. A presença do atleta acabaria por ficar registada, traduzindo a sua importância no seio do grupo, em todos os jogos do nosso país. Portugal apenas chegaria aos quartos-de-final da competição. Ainda assim, e nesse longínquo ano de 1928, a comitiva, já no seu regresso, seria recebida com grandes louvores. César de Matos seria um dos mais acarinhados, momento que serviria, ainda mais, para elevar o seu estatuto de estrela do desporto português.
A primeira época do Campeonato da Liga (1934/35) marcaria o fim da carreira de César de Matos. Numa vida de futebolista, antagónica àquilo que hoje temos como certa, o centrocampista haveria de conciliar aquele que era um mero entretém, com a sua profissão de Torneiro Mecânico. Ainda assim, nesses tempos de “amadorismo”, o jogador conseguiu, fruto da sua paixão pela modalidade, acumular um incrível rol de conquistas. Para além do que aqui já foi referido, ainda falta listar 4 Campeonatos de Lisboa e várias presenças com a camisola da selecção regional “alfacinha”.

600 - JOÃO MARTINS

Quando Gabriel Hanot, afamado jornalista do ”L’Equipe” e antigo internacional francês, pensou numa competição que opusesse os grandes emblemas dos diversos campeonatos europeus, nunca João Martins supôs que o seu nome fosse eternizado nas crónicas do futebol.
No entanto, muito antes da criação da Taça dos Clubes Campeões Europeus, já o gosto pelo desporto preenchia a vida do avançado. Na sua terra natal, nos intervalos que a vida da indústria corticeira concedia, João Martins lá ia dando uns pontapés na bola, com as cores do Sport Lisboa e Sines.
As suas habilidades com o esférico, principalmente aquelas que o empurravam em direcção à baliza, rapidamente entrariam no boca-a-boca dos entusiastas da modalidade. É indo de encontro à sua fama que o Olhanense endereça um convite ao avançado. João Martins segue para o Algarve, treina e agrada. Contudo, a paixão que nutria pelo futebol acabaria por não conseguir superar algo muito mais importante… e as saudades, um mês apôs a sua partida, fazem-no regressar a casa.
O capítulo seguinte da sua carreira, quase que terminava no mesmo fracasso do anterior. Desta feita no Barreiro, o destino de João Martins era a CUF. Tal como na aventura sucedida no Sul do país, o avançado começa por deliciar os técnicos e dirigentes da equipa. Encantaria de tal modo, que é já no preâmbulo do seu primeiro jogo, em pleno balneário, que a polémica rebenta. Ao ver que o emprego prometido pelos responsáveis do grupo industrial não aparecia, João Martins recusa-se a entrar em campo, acabando por nunca se estrear.
O dito impasse haveria de se prolongar até que o Sporting aparece em cena. O convite dos “Leões” faz com que o atacante atravesse o Tejo, em direcção a Lisboa. O pior é que no Lumiar, onde o clube jogava à altura, morava uma equipa que contava com uma frente de ataque de respeito. Ora, partilhar a cabine com os “Cinco Violinos”, reduz muito a esperança de alguém conseguir um lugar.
Seria esse mesmo paradigma que acabaria por regrar os primeiros anos de João Martins no Sporting. Suplente de Albano ou de Jesus Correia, haveria de ser, no entanto, a reforma de Peyroteo a abrir-lhe um lugar no “onze” leonino. É então, como avançado-centro, que consegue impor-se. Marca golos, decide troféus e torna-se de tal importância no seio da equipa que ganha o apelido de “Sexto Violino”.
É já com o estatuto de internacional que, a 4 de Setembro de 1955, João Martins é escalonado para o embate frente ao Partizan de Belgrado. O desafio marcado para o Estádio Nacional, assinala, somente, o primeiro jogo da recém-criada Taça dos Clubes Campeões Europeus. O facto, por si só, seria mais do que suficiente para que todos aqueles que nele participavam, ficassem na história do desporto. Contudo, o avançado português faria muito mais e aos 14 minutos do tempo inicial, inaugura o “placard”. Esse tento, num currículo que viria a contar com 7 títulos de campeão nacional, 1 Taça de Portugal e 1 troféu de melhor marcador do Campeonato, faz do avançado um pouco mais. João Martins, com esse golo, entra na história do futebol mundial, como o primeiro de sempre a marcar, naquela que hoje é conhecida como “Champions”.

555 - BENTES

Por obra do acaso, Bentes nasceria, aquando de uma visita de seus pais ao Minho, numa aldeia perto de Braga. Regressados ao Alentejo, seria na cidade de Portalegre que haveria de crescer e se faria menino. Ora, quis o destino que esse mesmo rapaz, pequeno, mas de uma agilidade surpreendente, fosse um às com a bola nos pés. Quem também não deixaria de reparar em tal facto, seria o antigo seleccionador nacional, Armando Sampaio. Também ele alentejano, a ligação que mantinha com a Académica, fez com que levasse o veloz rapaz a treinar com os "Estudantes". Bentes agradou e por lá ficou!
Tais eram as suas habilidades, que, com apenas 18 anos de idade, é chamado à estreia na equipa principal dos conimbricenses. Rapidamente, bem à imagem daquilo que era dentro de campo, conseguiu ganhar um lugar no "onze" inicial. Na ala esquerda do ataque, a sua velocidade, aliada a uma finta estonteante e a um remate potente, eram a dor de cabeça para qualquer defesa contrária. Mas, muito para além daquilo que sabia fazer, Bentes tinha na regularidade exibicional, o sustento para uma época inteira. Para ele, como testemunharia Mário Wilson, "jogar mal estava fora de hipótese". Destabilizava, e era nesse caos gerado pelas suas corridas, que alicerçava todo o seu brilhantismo.
Homem distinto, jogaria toda sua vida profissional por um só clube. Pela Académica, numa década e meia de jogos, tornar-se-ia no melhor marcador da história do emblema estudantil. Essa ligação, ao contrário daquilo que hoje seria normal, foi feita por sua vontade. Convites para mudar sempre os teve. Mas nenhum dos "Grandes" que o namoraram, mereceram a paixão que despendia pela sua "Briosa".
Brio também é uma das palavras que se ajusta à sua pessoa. Um dos episódios mais conhecidos sobre a sua vida de futebolista, fotografa, exactamente, o carácter vertical da sua pessoa. Em certo dia, aquando de um encontro entre "O Elvas" e a Académica, um remate seu é dado como golo. O árbitro, validando o lance, aponta para o círculo central. Logo de seguida, sem, por certo, entender o porquê de tal indignação, o juiz vê-se rodeado pelos atletas da casa. Todos gesticulavam, todos reclamavam sobre veracidade daquele momento. É então que Bentes também se acerca do aglomerado de jogadores. Para ele, muito mais do que um golo, do que uma vitória ou do que um sucesso, estava a justiça do mesmo. Bentes, de uma rectidão exemplar, explica ao árbitro que a bola, ao invés daquilo que ele tinha pensado, havia entrado na baliza por um buraco existente na lateral da rede. O golo seria anulado, um pontapé de baliza seria assinalado e a Académica acabaria por sair derrotada por 3-2!!!
Outro momento engraçado na sua carreira, haveria de acontecer numa partida frente ao Lusitânia. Ora, já a goleada ia em números expressivos, quando um remate de Bentes é travado pelo guardião adversário. Orgulhoso do seu feito, o guarda-redes, já de pé e com a bola em sua posse, vira-se para o extremo e diz-lhe: "este não marcaste tu"! Não satisfeito com a provocação, diz-se que ainda tentou fazer um manguito. É então que o caricato acontece, com o esférico a fugir-lhe das mão e a entrar dentro da baliza!!!
Pela selecção conseguiu 3 internacionalizações. Notoriamente pouco, para um jogador da sua categoria. Ainda assim, o orgulho de ter vestido a "camisola das quinas" ninguém lhe o pode tirar. Tal como nada apagaria da sua memória o facto de ter partilhado essa experiência com um dos seus ídolos de sempre, o benfiquista Rogério Carvalho. Ironia do destino, seria também frente ao antigo capitão "encarnado" que Bentes perderia a oportunidade de ganhar um grande título. Nessa final da Taça de Portugal de 1950/51, como o próprio Bentes viria a reconhecer, a sua Académica tinha sido derrotada (5-1) "por um génio do futebol, chamado Rogério Lantes de Carvalho".
Claro que todos os aspectos aqui retratados, fizeram do antigo avançado um dos símbolos, talvez o maior, da história da Académica. No entanto, há outro que vinca ainda mais a sua ligação aos ideais do clube. É que Bentes, para além de excepcional desportista, era, do mesmo modo, um modelo nos estudos. Por essa razão, foi já depois de terminar a carreira, que concluiria o curso do Magistério. "Pendurava as botas", mas naquele preciso momento nascia ali um exemplar professor primário.

538 - FERREIRA PINTO

À beira dos 18 anos, José Ferreira Pinto chega a Lisboa vindo de Angola, de onde é natural. Chega para integrar um plantel dos "Leões" que estava numa fase, podemos assim dizer, entre as gloriosas equipas dos "5 Violinos" e o Sporting que, alguns anos mais tarde, caminharia para a vitória na Taça dos Vencedores das Taças. Desse modo, e num plantel onde pontuavam nomes como os de Vasques, Travassos, David Júlio, Fernando Mendes, Pérides, Hilário, entre tantas outras estrelas, as oportunidades para o jovem atleta seriam muito reduzidas. E se nessa sua temporada de estreia em Alvalade, 1958/59, poucas seriam as partidas onde participaria, então podemos dizer que as restantes 3 épocas de "verde e branco", seriam afinadas, exactamente, pelo mesmo diapasão.
Sem lugar na equipa e, para acumular, com a frustração de no seu derradeiro ano (1961/62), e por motivo de não ter jogado qualquer partida para a respectiva prova, ter ficado de fora da lista dos vencedores do Campeonato Nacional, Ferreira Pinto vê-se no rol de excendentários.
Esta dispensa acabaria por o levar a atravessar o Rio Tejo em direcção à sua margem Sul. No Barreiro, ao serviço da CUF, relança a sua carreira. Joga com regularidade, faz boas exibições, marca golos mas, principalmente, entra nas bocas do mundo do futebol. Este seu caminhar para a ribalta, faz com outras oportunidades acabem por surgir na sua vida profissional. A primeira seria a convocatória para a selecção nacional, onde num particular frente à congénere do Brasil, faz a sua estreia com a principal "Camisola das Quinas". A segunda, acabaria por se revelar com o interesse de clubes de uma outra nomeada, principalmente o Benfica.
Ora, seria a caminho do Estádio da Luz que o médio ofensivo acabaria por se dirigir, na época seguinte. Mais uma vez, para 1965/66, Ferreira Pinto vê-se inserido no seio de um grupo recheado de estrelas. Contudo, ao contrário daquilo que tinha acontecido nos rivais das "Águias", o atleta acaba por assumir um papel bastante importante nessa temporada de 1965/66.
A regularidade com que aparece em campo, faz com que o seu nome volte a aparecer nas listas para os jogos de Portugal. Participa na campanha que qualificaria o nosso país para o Mundial de 1966 e, desse modo, dá corpo àquela que ficaria conhecida como a história dos "Magriços".
Tal como, surpreendentemente, apareceu no meio de nomes como os de Eusébio, Simões, Torres, José Augusto ou Coluna, seria com igual surpresa que, nos anos vindouros, os adeptos do futebol veriam Ferreira Pinto a eclipsar-se. Quase não joga e, tirando o título de campeão nacional que, na temporada de 1967/68, juntaria às suas conquistas, nada mais de relevante se veria do jogador.
Este desaire, dá oportunidade a Ferreira Pinto para fazer parte da consagração de um outro emblema. No União de Tomar faria parte do grupo que, em 1968/69, leva os nabantinos à estreia na Primeira Divisão. Se essa razão já é mais que suficiente para o pôr nos anais do clube, então, o facto de ser ele o escolhido para capitanear a equipa nessa campanha, põe o seu nome, sem sombra de dúvida, como um dos que merece maior destaque nesse pedaço de história dos da "Cidade dos Templários".

477 - ALEXANDRE BAPTISTA

Muito mais do que um adepto da modalidade, Alexandre Baptista, talvez por razão do seu tio, também ele jogador, parecia ter o futebol no sangue. Mas ao contrário de Raúl Baptista, que envergou as camisolas do Barreirense, Benfica e Carcavelinhos, a paixão do antigo defesa foi só uma, o Sporting. Foi, então, em 1960, vindo das escolas do clube, que chega à primeira categoria leonina. Atleta multifacetado, ou um ecléctico do ténis, basquetebol e ténis de mesa, Alexandre Baptista acabaria por se decidir em definitivo pelo "jogo da bola". É verdade que de início, apesar das suas qualidades inegáveis, o central não era um dos mais requisitados dentro do plantel. Categoria, como já o afirmei, não lhe faltava. Tinha um bom físico, sabia colocar-se e era eficaz no momento do desarme. Então, o que lhe faltava? Pois, não o sei!!! E tal como eu não o sei, também admirados andavam os seus colegas de equipa com o seu afastamento! Por esse motivo, conta-se que foram os próprios que começaram a pressionar a equipa técnica, para que Alexandre Baptista começasse a ser mais utilizado. Correcta, ou não, esta versão, o que é certo é que a conquista da sua titularidade coincide com bela campanha do Sporting na Taça dos Vencedores das Taças de 1963/64. Podem dizer que um jogador não faz uma equipa! E, até, terei que vos dar toda razão! Mas há algo que é inegável, e isso é a importância que Alexandre Baptista teve na conquista do já referido troféu europeu e que, até hoje, é o único que consta na história dos "Leões".
Preponderância havia também de a ter na selecção. No Mundial de 1966, haveria de ser um dos mais utilizados (só não jogou uma partida) e um dos reconhecidos esteios defensivos dos "Magriços", na caminhada para o terceiro lugar. Contudo, e apesar daquilo que já aqui foi dito a seu respeito, o antigo internacional português, não foi, ao longo da sua carreira, um jogador muito regular. Como, então, se justifica isto? Indisciplina; falta de entrega? Não! Diz quem com ele de perto lidou que a sua personalidade estava bem reflectida naquilo que ele era dentro de campo. Alexandre Baptista era conhecido, dentro e fora dos relvados, como um homem de uma elegância, educação e lealdade inabaláveis. Ora, já a sua intermitência desportiva pode ser justificada pelo seguinte. É que muito para além da prática do futebol, o homem por trás do desportista não se esgotava apenas no desporto. O rapaz, que também sabia brilhar dentro de campo, também tinha outros interesses, outros horizontes, e esses levá-lo-iam a concluir, em paralelo com a sua carreira desportiva, a Licenciatura em Economia.
Retirou-se cedo dos relvados, quando ainda contava apenas com 30 anos. No currículo levou a vitória, para além da Taça das Taças de 1964, em 3 Campeonatos Nacionais e 2 Taças de Portugal. No entanto, não se afastou do futebol e muito menos do seu Sporting. Passou a desempenhar funções directivas que, entre outros cargos, o levaram à vice-presidência, no mandato do mítico João Rocha.

470 - PEDRO GOMES

"Os Cinco Violinos" não foram apenas a linha avançada mais famosa do Sporting! Esses jogadores foram também a inspiração para muitos jovens que, ao serem adeptos da prática desportiva, acabaram por escolher o futebol como a modalidade de eleição. Um deles foi Pedro Gomes que decidiu, contava 15 anos, ir prestar provas ao clube do coração. Foi aceite. Entrou para as camadas de formação dos “Leões” e com isso deu início a uma relação onde, como atleta, não conheceu outras cores.
Foram 17 os anos passados entre as diferentes categorias, tempo mais do que suficiente para que, já como sénior, conseguisse ficar na história, como o 8º jogador com mais partidas realizadas pelo clube lisboeta. Tanto tempo ao mais alto nível trouxe ao jogador uma série de troféus de que nem todos podem gabar-se. Foram 2 Campeonatos Nacionais e 3 Taças de Portugal igualmente a fazerem parte do rol de títulos que conquistou. Contudo, há uma vitória especial que todos os adeptos recordam e que contribuiu para a transformação de Pedro Gomes num dos melhores laterais dos anos de 1960, tanto em Portugal, como a nível da Europa. Claro, falo da conquista da Taça dos Vencedores das Taças de 1963/64. Na aludida temporada, o defesa teve um papel importantíssimo nessa caminhada recheada de glória. No desenrolar das rondas a levar à vitória final, o atleta não só mostrou uma enorme preponderância na manobra defensiva dos "Leões", como ajudou, com as corridas pelo meio-campo adversário, aos intentos dos seus companheiros do ataque. Aliás, essa propensão atacante era uma das suas imagens de marca. Faceta que, para a altura, não era muito usual num futebolista da sua posição e que, apesar de louvável, ainda trouxe um ou outro dissabor – "(...) posso dizer que fui dos primeiros laterais ofensivos. (...) uma vez, o Sporting multou-me, pelo facto de me ter adiantado muito no terreno num jogo com a Académica"*.
Também na selecção nacional, desde muito cedo, começou a mostrar-se como um jogador influente. Ainda júnior participou no Europeu de 1960, onde Portugal conseguiu atingir o terceiro lugar do pódio. No entanto, a maior façanha alcançada com a "camisola das quinas" acabou por ser a qualificação para o Campeonato do Mundo de 1966. Mas se a felicidade de ter participado na Fase de Apuramento foi enorme, já a tristeza que sentiu por não puder marcar presença no certame organizado na Inglaterra, transformou-se em algo de idêntica grandeza – "Fiz parte dos Magriços na fase de qualificação. Na vitória contra a Turquia por 5-1, fui considerado o melhor jogador em campo. Entretanto partiram-me uma perna e por isso não fui à fase final"**.
No final da temporada de 1972/73, quando ainda não havia completado 32 anos de idade, Pedro Gomes decidiu-se pelo fim da carreira como atleta. Apesar de afastado dos relvados, continuou bem próximo do futebol e a desempenhar as tarefas de técnico. Nas novas funções, pode dizer-se que o antigo futebolista não conseguiu atingir glória idêntica à granjeada enquanto jogador. Terá sido por falta de capacidade? Não! Mas por não querer alinhar, como o próprio sempre reconheceu, em jogos de bastidores e afins - "Eu sou um treinador sem empresário e por isso considero-me um «outsider», um desalinhado"**.
Nos exercícios de treinador, o antigo defesa deu aos seus grupos o cunho com que ficou reconhecido dentro das "quatro linhas". Disciplinados e batalhadores, os conjuntos orientados pelo internacional português sempre tiveram na entrega a característica de eleição. Por esse motivo, Pedro Gomes ficou conhecido como um “timoneiro” capaz de salvar equipas em situações bastante difíceis. Por outro lado, existiram na sua caminhada outros episódios, momentos dos quais sempre mostrou um grande orgulho e um deles prendeu-se com a descoberta de outro dos símbolos dos “Verde e Brancos” e ex-capitão leonino – “O Oceano jogava no Odivelas e eu quando estava desempregado ia ver os jogos na região e na periferia de Lisboa. Gostei da forma como ele se aplicava e entregava aos jogos e por isso quando fui contratado pelo Nacional levei-o comigo. Entretanto o Sporting voltou a contactar-me para trabalhar com um treinador estrangeiro [John Toshack]. (...) Entretanto falei com o Oceano e disse-lhe que o levaria para o Sporting"**.

*retirado do artigo publicado a 10/08/2013, em www.sporting.pt
**retirado da entrevista publicada em https://www.torcidaverde.pt/scp1906/entrevistas/586-entrevista-com-pedro-gomes


451 - SOEIRO

Tendo começado a carreira no Luso do Barreiro, com a entrada na equipa principal a acontecer na campanha de 1928/29, Manuel Soeiro Esteves Vasques desde cedo começou a demonstrar uma vincada veia goleadora. Ainda a representar o emblema da Margem Sul do Rio Tejo, o avançado seria convocado pela primeira vez a representar a selecção portuguesa futebol. Logo na estreia com a “camisola das quinas”, como era o seu apanágio, o atleta não deixou os créditos em mãos alheias e brindou a partida frente à Jugoslávia, naquela que foi uma vitória lusa por 3-2, com um golo da sua autoria.
Já a gozar de um enorme destaque, tanto pelos desempenhos com a camisola do Luso, como com as cores de Portugal, Soeiro começou a despertar a cobiça do Sporting. Com a mudança a acontecer em 1933/34, também na primeira partida pelos “Leões”, dessa feita frente ao FC Barreirense, o atacante veio a concretizar um golo. No entanto, o segredo para o seu sucesso, êxito mantido ao longo da carreira, não estava cingido às habilidades que exibia dentro de campo. Nesse sentido, o avançado sempre foi aferido como um atleta deveras regrado. Por exemplo, conta-se que, após ter sido descoberto por Filipe dos Santos, antigo futebolista internacional leonino, o jogador continuou a manter o hábito de sair da cama de madrugada para, ainda em casa, repetir os exercícios físicos que aprendera nos treinos do emblema anterior. Tanta dedicação valeu-lhe a devoção dos adeptos. Tal admiração alimentou-a, como é lógico para alguém na sua posição, com muitos golos. Conseguiu, desse modo, tornar-se num dos melhores marcadores da história do Sporting e atingiu a espantosa marca de 209 remates certeiros, em 219 partidas.
Pela selecção nacional as suas marcas também foram dignas de registo. Pode dizer-se que, durante os anos de 1930, foi um dos atletas que mais vezes envergou a "camisola das quinas", acumulando, numa altura em que os desafios entre as equipas a representarem de países eram escassos, um total de 10 internacionalizações e 5 golos.
Por tudo o que foi dito, Soeiro ficará para sempre na história do futebol português como um dos mais prolíferos avançados de todos os tempos, conseguindo atingir o topo da lista dos melhores marcadores na 1ª edição do Campeonato da I Liga (1934/35), repetindo a proeza em 1936/37. No entanto, houve outro factor a merecer grandes louvores, isto é, a capacidade das suas exibições não perderem qualidade aquando dos momentos decisivos. Um bom exemplo, ocorrido no final da primeira temporada de “leão ao peito”, foi o derradeiro encontro do Campeonato de Portugal, em que, frente ao FC Barreirense, marcou 4 golos.
Mais uma curiosidade. Soeiro é tio de Vasques, acabando por ter sido ele um dos principais responsáveis pela ida do sobrinho, que fez parte da linha ofensiva conhecida como os “5 Violinos”, para o Sporting.

310 - DELFIM

Tendo o Carcavelinhos ido estrear o Campo Nossa Senhora da Saúde, à altura a morada do Farense, os responsáveis por outros emblemas algarvios acharam por bem ver o desafio entre os "Alfacinhas" e a agremiação da "casa". A vitória dos lisboetas por 11-0, mas principalmente a exibição de um dos avançados da equipa forasteira, despertou a cobiça dos elementos das outras colectividades, presentes na assistência. O atleta, de seu nome Delfim, jogava como interior-esquerdo e rapidamente o Olhanense viu no "Lourinho", nome pelo qual foi baptizado pela massa adepta, um reforço de peso para as batalhas na prova maior do futebol nacional, o Campeonato de Portugal.
Na edição de 1923/24 da competição, Delfim tornou-se num elemento de enorme preponderância, tanto na caminhada do Olhanense até a derradeira partida da prova, como na final, onde foi dele um dos golos que, frente ao FC Porto, deram a vitória por 4-2 ao conjunto algarvio. A importância da conquista e, também, o peso do atacante no referido sucesso colectivo foi enorme e, nesse sentido, o atacante rapidamente passou a entrar nas contas para o escalonamento da selecção nacional.
Com as cores de Portugal Delfim marcou presença em 4 desafios, nos quais um assumiu um papel especial no percurso do atleta. A 18 de Junho de 1926, numa partida agendada para Lisboa, a “equipa das quinas” veio a encontrar-se com a congénere italiana. No Campo do Lumiar, entraram no terreno de jogo dois “onzes”, não digo com ambições radicalmente díspares, mas com currículos bem diferentes. Para tal, assumiu-se o facto de, no curto historial de 4 partidas, o conjunto luso não ter, à altura, qualquer vitória. Porém, na aludida data tudo mudou e ao fazer parte da linha ofensiva, o atacante participou no primeiro grande resultado do combinado português, o 1-0 que derrotou a “Squadra Azzurra”.

308 - CARLOS ALVES

Carlos Alves foi uma das maiores estrelas da história do Carcavelinhos. Conquistou tal estatuto após começar a jogar na segunda metade dos anos de 1920 e numa altura em que, na colectividade “alfacinha”, já era visto como o “patrão” do último reduto. Como um dos pilares do conjunto de Alcântara, teve uma enorme influência na conquista do único título nacional do clube, o Campeonato de Portugal de 1927/28. Na derradeira partida da competição, disputada a 30 de Junho frente ao Sporting, ajudou a esbater o favoritismo atribuído aos “Leões” e, no Campo da Palhavã, esteve no “onze” que, com o 3-1 inscrito no “placard” final, deu à sua equipa a vitória na competição.
O ano de 1928 tornou-se memorável para o atleta. Para além da conquista do referido troféu, o jogador acabou chamado ao grupo que, pela primeira vez na história da selecção portuguesa, participou num grande certame futebolístico. Nos Jogos Olímpicos de 1928, organizados na cidade neerlandesa de Amesterdão, Carlos Alves, orientado pelo mítico Cândido de Oliveira, participou em todas as partidas e ajudou o conjunto luso a chegar aos quartos-de-final.
Mesmo com um trajecto brilhante, a história mais conhecida do defesa extravasou, um pouco, o desporto. Diz-se que nas vésperas de mais um “derby” frente ao Benfica, na pensão onde o Carcavelinhos estagiava – termo talvez abusivo para a época –, uma rapariga que ali trabalhava, vendo o nervosismo do jogador, abeirou-se dele, deu-lhe um par de luvas pretas e prometeu-lhe que, se as usasse durante a partida, o seu lado sairia vitorioso. Carlos Alves guardou-as, mas disse à moça que o futebol era sério de mais para brincadeiras daquelas. A verdade é que, com a sua equipa a perder ao intervalo e tendo descoberto as luvas no bolso dos calções, o jogador decidiu usá-las. Na segunda parte, o emblema alcantarense virou o marcador e acabou por vencer. Desse dia em diante, nunca mais largou o talismã, que, anos mais tarde e em sua memória, continuou a ser usado pelo neto, o médio internacional João Alves.
Na fase final da carreira, depois de representar o Carcavelinhos e ao mudar-se para a “Cidade Invicta”, Carlos Alves ainda vestiu as camisolas do Académico e do FC Porto.

192 - FONSECA E CASTRO

Dizer que o Académico Futebol Clube, mais conhecido por Académico do Porto, começou pela vontade de um grupo de estudantes, até pela obviedade do nome, não há-de ser surpresa. O que realmente terá espantado, até mesmo o grupo de liceu que o idealizou, foi a popularidade com que a ideia foi acolhida. Porém, os tempos eram outros; o entusiasmo que movia os praticantes era apenas o desporto, o jogo, a competição. Encarada essa paixão como uma forma de divulgar, não só o “jogo da bola”, como uma maneira de disseminar a actividade física por entre os seus pares e – porque não? – por entre todos os portuenses, dois anos foi o tempo necessário para que o sonho ganhasse forma.
A 15 de Setembro de 1911, nasceu o novo emblema da “Invicta”. O dinamismo típico da juventude depressa catapultou o clube para outros projectos. Rapidamente, os seus dirigentes compreenderam a necessidade de encontrar infra-estruturas que dessem largo ao objectivo de formar, não só atletas, como pessoas. Apareceu o Estádio do Lima e a novidade de um relvado em Portugal.
É nesse contexto de saudável ambição que cresceu Fonseca e Castro, um desportista, avançado saído do futebol, a quem coube a responsabilidade de ser o primeiro elemento da agremiação estudantil a representar o país. A estreia deu-se em Lisboa, a 18 de Junho de 1925. No Lumiar, para medir forças, apresentaram-se em campo Portugal e Itália. A partida ficou na história, pois, com o 1-0 final, o resultado assinalou o encetar de vitórias da selecção nacional. Já o atacante, numa altura em que os jogos internacionais não aconteciam com a frequência a que hoje estamos habituados, voltou, por mais duas vezes, contra a Checoslováquia e frente à França, a ser convocado para envergar as cores lusas.