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474 - OSVALDO SILVA

Sem descrédito para nenhum dos outros atletas, pode dizer-se que Osvaldo Silva foi, dentro de campo, o grande mestre da vitória da Taça dos Vencedores das Taças de 1963/64. Claro está que, por altura dessa campanha, já o médio brasileiro tinha talhado uma bela carreira. Essa caminhada começaria no seu país natal, o Brasil, onde, com as cores do Pompeia FC, viria a despontar. Alguns anos cumpridos e seria já a representar o América Mineiro que Osvaldo Silva conheceria a pessoa que mudaria o rumo da sua vida. Falo-vos do treinador Dorival Yustrich, o responsável pela sua vinda para Portugal e… para o FC Porto! 
Sim, seria para "Cidade Invicta" que o antigo interior iria inicialmente jogar. Também ao serviço dos “Dragões”, a excelente técnica, a velocidade e a visão de jogo, fariam com que o médio-atacante facilmente conseguisse impor-se. Ao serviço dos "Azuis e Brancos", o jogador, em dois anos, ajudaria a vencer a Taça de Portugal de 1957/58 e também o Campeonato Nacional da época seguinte. Contudo, a sua relação com os responsáveis portistas, por razão do despedimento de Yustrich, começaria a deteriorar-se logo na temporada da sua estreia pelo emblema luso. Ao nunca esconder o descontentamento pela forma como o técnico brasileiro havia sido afastado, a sua relação com a direcção do clube continuaria a azedar e Osvaldo Silva acabaria igualmente por ser dispensado.
Depois da saída do FC Porto no final de 1958/59, o médio-ofensivo não perderia muito tempo e logo arranjaria, ali bem perto, um clube pronto abrir as portas à sua vida profissional. No Leixões, quase em modo de vingança, o atleta ajudaria a escrever uma das páginas mais brilhantes do emblema de Matosinhos. O episódio, para quem ainda não adivinhou, refere-se à conquista da Taça de Portugal de 1960/61, onde o brasileiro, na vitória por 2-0 alcançada na final, marcaria um dos golos. Tamanho marco, por si só e ainda por cima para uma colectividade mais modesta, erguer-se-ia como algo deveras notável. Porém, se, à aludida vitória, juntarmos o facto de a derradeira partida da “Prova Rainha” ter sido disputada frente aos “Dragões” e em pleno Estádio das Antas, então é fácil entendermos os contornos épicos de tal história!
Seria depois do feito relatado no parágrafo anterior e ao fim de 3 temporadas a representar os "Homens do Mar", que Osvaldo Silva haveria de rumar a Lisboa. O destino seria o Sporting e o médio-ofensivo, mais uma vez, parecia carregar nele a essência do sucesso. Nessa senda leonina, após a conquista da Taça de Portugal de 1962/63, seguir-se-ia a famosa campanha europeia que terminaria na Bélgica, com a consagração dos "Leões". Tal caminhada teria nos últimos desafios – final e finalíssima –, até pelo desfecho de ambas rondas, contornos de um acontecimento inolvidável. No entanto, também é verdade dizer-se que outros capítulos, principalmente para o médio leonino, haveriam de merecer um enorme destaque. O primeiro desses momentos seria o 5-0 sobre o Manchester United, onde, depois da derrota por 4-1 em Inglaterra, 3 golos de Osvaldo Silva acabariam por dar o mote para a reviravolta na eliminatória. Outro seria o desempate das meias-finais frente ao Lyon, no qual, com mais um remate certeiro, o médio brasileiro carimbaria, em definitivo, a passagem para o último estágio da competição.
Com o triunfo no Campeonato Nacional de 1965/66 a enriquecer o seu currículo, Osvaldo Silva, no final da aludida época, deixaria o Sporting. Rumaria à Portuguesa dos Desportos e depois ao Académico de Viseu. De seguida acabaria a assinar pelo Olhanense e, mais tarde, pelo Avintes, acumulando, nos colectivos lusos mencionados, as tarefas de jogador e de treinador. Em definitivo nas funções de técnico, a antiga estrela do futebol leonino haveria de regressar a Alvalade, onde trabalharia na formação de novos craques, no auxílio a outros treinadores – como Di Stéfano – ou mesmo ao leme do plantel principal. Por fim, falta ainda fazer referência à sua passagem pelo União de Tomar e o regresso à colectividade a jogar em casa no Estádio do Fontelo.

454 - TRAVASSOS

É curiosa a maneira como o destino por vezes entra na nossa vida ou como, com antecedência, somos alertados para o devir do nosso caminho. Com Travassos passou-se exactamente isso. Nasceu em Lisboa, na Quinta do Lumiar. Talvez o nome não diga muito à maioria. No entanto, consigo dar-vos uma pista para que logrem entender as primeiras linhas deste texto! Nesse sentido, posso falar-vos da bancada nova do antigo Estádio de Alvalade! Pois é, o famoso atacante nasceu no mesmíssimo lugar onde, anos mais tarde, veio a erguer-se a referida estrutura da “casa” leonina. O mais engraçado é que a tal premonição chegou a estar em perigo. Conta-se que o avançado, ao decidir prestar provas no Sporting, foi aferido como franzino demais para a prática desportiva. O treinador Jesef Szabo terá mesmo aconselhado o jovem futebolista a comer mais batatas com bacalhau, acabando por recusar o seu ingresso nos “Verdes e Brancos”.
Pela razão acima exposta e porque no Barreiro também tinha a garantia de emprego, Travassos arribou caminho para a Margem Sul. No GD CUF, onde veio a estrear-se como sénior na temporada de 1943/44, o avançado, mesmo a disputar o 2º escalão, rapidamente começou a despertar a atenção de outros emblemas nacionais. Então, surgiu no seu encalço o FC Porto. Com o “namoro” encetou-se mais uma das típicas ”novelas” do futebol luso. Depois de apalavrado o acordo com os “Dragões”, apareceu o Sporting a esconder o atleta algures em Torres Vedras, enquanto tentava um acordo com o emblema fabril. Mais uma vez, surgiram os “Azuis e Brancos” a conseguirem convencer o atacante a viajar para o Norte. Já na "Cidade Invicta", talvez por um misto de culpa e de paixão pelo clube lisboeta, o jogador tomou a decisão de telefonar aos “Leões” e acabou a informá-los do seu paradeiro.
Com o fim do imbróglio, o atacante veio mesmo a assinar pelo emblema do coração. No novo colectivo, a inteligência revelada em campo, a maneira fácil como punha os outros colegas a jogar e a uma técnica irrepreensível, garantiram-lhe o espaço no "onze" do Sporting. Com a sua chegada e com a contratação de Vasques, ambos a entrar no clube na temporada de 1946/47, ficava completa aquela que foi a linha avançada mais famosa do futebol português ou como o jornalista Tavares da Silva a baptizou, "Os Cinco Violinos". Essa portentosa equipa leonina, onde também couberam, para além do atleta já referido neste parágrafo, Peyroteo, Albano e Jesus Correia, acabou a dominar o cenário competitivo luso no final dos anos de 1940 e durante uma boa parte da década de 1950. Por essa razão, o palmarés do interior-direito transformou-se num rol de troféus deveras faustoso e a incluir as vitórias em 8 Campeonatos Nacionais, 1 Campeonato de Lisboa e 2 Taças de Portugal.
Apesar do sucesso conseguido dentro de fronteiras, nada mais o projectou internacionalmente que a chamada à selecção da UEFA. Nunca antes um futebolista português tinha tido tamanha honra. Diz-se que Travassos estava de férias na Costa da Caparica quando recebeu a boa-nova. Como estava parado há algum tempo, decidiu pelos próprios meios e para não fazer má figura durante a partida, recuperar a boa forma física. Nesse desafio disputado em Belfast, a 13 de Agosto de 1955, o atacante cotou-se como um dos melhores em campo e tal desempenho valeu-lhe o epíteto, pelo qual ficou conhecido para o resto da vida, do "Zé da Europa".

123 - COSTA PEREIRA

Ainda no tempo do Ferroviário de Lourenço Marques, começaria a destacar-se por ser um praticante ecléctico! Na vela, mas principalmente no basquetebol e no futebol, Costa Pereira mostraria ser um exímio desportista.
No futebol daria os primeiros passos a jogar como avançado. Porém, a habilidade que as suas mãos demonstravam no ataque ao cesto, levariam o seu técnico no clube moçambicano a sugerir-lhe a baliza. Em boa hora viria a troca, pois Costa Pereira tornar-se-ia num dos maiores entre os postes. Nesse caminho, superaria vários "handicaps". Adaptaria os tiques de basquetebolista às suas novas funções, faltando-lhe vencer as reticências relativas à mudança de posição – “Quem sabe o que o futebol perdeu com a minha passagem a keeper? Talvez fosse hoje um avançado como me dizem ter sido o Soeiro, que eu não vi jogar, mas que me afirmam levava tudo na sua frente, graças ao poder físico que possuía”*.
No Benfica venceria tudo. Contra o Barcelona, em 1961, afastaria das redes benfiquistas um sem-número de bolas, numa final onde o trio magiar Kubala, Kocsis e Czibor semeariam o terror no meio-campo das “Águias”. No ano seguinte, nem os 3 golos do também húngaro Puskas assombrariam uma bela exibição sua e, muito menos, evitaram a segunda vitória dos “Encarnados” na Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Já os dissabores viriam nos anos seguintes. O primeiro aconteceria na terceira final consecutiva, onde o Benfica, dessa feita contra o AC Milan, conheceria a derrota. No entanto, o pior desaire ainda estaria para vir. Em 1965, em mais uma presença no derradeiro jogo da Taça dos Clubes Campeões Europeus, um remate frouxo do brasileiro Jair, resultaria num "frango" tremendo de Costa Pereira. Para piorar o cenário já por si negativo, 12 minutos após o intervalo, o guarda-redes ressentir-se-ia de uma pancada sofrida na 1ª parte. Acabaria por sair e, ao não estarem ainda instituídas as substituições, veria o defesa Germano substituí-lo à baliza. O resultado de 1-0 não voltaria a alterar-se. Ainda assim, a chegada ao aeroporto de Lisboa, com os adeptos a ovacioná-lo, serviria para atenuar toda a má fortuna da peleja disputada no Giuseppe Meazza.
Para além do que já foi dito, Costa Pereira será para sempre recordado como um lutador dentro campo ou fora dele. Para além do que conseguiu no rectângulo de jogo, o guardião ficaria conhecido por defender os direitos dos colegas, acabando, tantas vezes, por ser comparado a um aguerrido sindicalista.

*retirado do livro de João Malheiro, “Memorial Benfica 100 glórias”; Quidnovi (2004)

66 - PEYROTEO

É considerado por muitos o melhor avançado-centro de sempre do futebol português. Se foi ou não o maior, ser-me-á difícil discuti-lo. Porém, e verdade seja dita, os números não deixam muitas duvidas e será fácil chegar à conclusão que Peyroteo terá sido um grande goleador. Vejamos: em 12 anos marcou à volta de 700 golos; detém o recorde de golos numa só partida para o Campeonato, 9 nos 14-0 ao Leça; foi 6 vezes o Melhor Marcador do Campeonato Nacional; e, com mais de 1,6 golos/jogo, é o detentor do recorde mundial para a melhor média de golos conseguidos durante a carreira, em campeonatos nacionais.
Não foi só os golos que se tornaram Peyroteo num exemplo. Vários são os episódios que aferem a rectidão deste homem. Acabado de chegar de Angola, onde representava o Sporting de Luanda, e ainda sem ter contrato assinado, consta que um emissário do FC Porto tê-lo-á abordado e oferecido condições mais vantagens. Recusou, pois já tinha dado a sua palavra aos “Leões” e nunca a trairia. Anos mais tarde, terá sido também assediado pelo rival Benfica e pelos franceses do Bordeaux, mas a fidelidade e paixão pelo seu clube era tal que, novamente, recusou as vantajosas propostas.
Só no último ano da sua brilhante carreira, abandonou o emblema “verde e branco” e vestiu a camisola do Belenenses. No entanto, a sua imagem ficará para sempre ligada ao Sporting, seja pela sua estreia, onde marcou 2 golos na vitória por 5-3 frente ao Benfica; seja por ter feito parte de uma das mais famosas linhas de ataque, "Os Cinco Violinos"; seja pela admiração e saudade que deixou nos corações leoninos.
A devoção à sua pessoa chegou a ser tanta que, por graça, e também em alusão à rivalidade que mantinha com um tal avançado das “Águias”, era costume ouvir-se da boca dos sportinguistas: "Em nome do pai, e do filho e do Peyroteo, que o Espírito Santo é do Benfica!"