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1477 - NÉNE

Modesto Luís Ortiz de Sousa Neves, popularizado no mundo do futebol como Néne, nasceria em Madrid para, ainda em tenra idade, acompanhar a família na mudança para Moçambique. Na actual Maputo começaria a prática do futebol e as enormes qualidades exibidas levá-lo-iam a ser cobiçado na metrópole. Veloz e dono de uma técnica estonteante, o jovem avançado deixaria o Desportivo de Lourenço Marques, onde tinha conseguido popularizar-se, para escolher nos estudos em Coimbra e na camisola negra da Académica o novo destino da sua vida. Já na “Cidade dos Estudantes”, onde chegaria para integrar a equipa de juniores, depressa as suas qualidades empurrariam o avançado para o conjunto principal e ao agarrar a titularidade, a época de 1968/69 tornar-se-ia no primeiro grande capítulo da história de uma verdadeira lenda.
Parte de um sector ofensivo que, na sua época de estreia pelos seniores, contava com nomes como Manuel António, Artur Jorge, Crispim, Serafim ou Rocha, Néne não deixaria intimidar-se pela forte concorrência e assumiria, a partir da 12ª jornada do Campeonato Nacional, um papel de enorme relevância no decorrer da temporada de 1968/69. Muito para além da presença naquela que é a competição de maior relevo no calendário futebolístico luso, o atacante assumir-se-ia de fulcral importância no desenrolar da Taça de Portugal. Nesse sentido, depois de marcar um dos golos que, na disputa das meias-finais, ajudaria a eliminar o Sporting, o jogador seria chamado, por Fernando Andrade, para a disputa da derradeira peleja da prova. No Estádio Nacional, numa partida que ficaria para sempre marcada pelo protesto estudantil contra o vigente regime ditatorial, o atleta entraria no alinhamento inicial, mas o seu génio seria insuficiente para derrotar o Benfica.
Antes ainda da partida disputada no Jamor e aludida no parágrafo anterior, já Néne tinha tido a oportunidade para envergar a “camisola das quinas”. Chamado aos trabalhos da equipa de “esperanças” à guarda da Federação Portuguesa de Futebol, o avançado, ao lado de outros colegas da Académica, casos de Toni e de Mário Campos, integraria a comitiva a viajar para “Terras de Sua Majestade”. Na cidade de Coventry, a 16 de Abril de 1969, o avançado faria parte do “onze” que entraria no Highfield Road Ground. Frente a Inglaterra, o jogador estrear-se-ia por Portugal e consequentemente adicionaria 1 internacionalização ao currículo pessoal.
A segunda temporada cumprida pela Académica iria trazer-lhe a estreia nas competições sob a tutela da UEFA. Com os “Estudantes” incluídos nos sorteios associados à Taça dos Vencedores das Taças, a progressão na prova levaria Nené e os companheiros a enfrentar, já nos quartos-de-final, o Manchester City. Convocado por Juca, disputaria ambas as mãos da referida ronda e mesmo com o afastamento da agremiação conimbricense, o jogador sairia da eliminatória como um dos elementos merecedor dos mais rasgados elogios.
Seria já com o início da época de 1970/71 à vista que a desgraça atingiria o jovem praticante. Aferido como uma das maiores promessas do desporto luso, Néne começaria a ser perseguido por Benfica, Sporting e, segundo veiculado, pelo Real Madrid. Com o assédio a crescer de tom e com a confusão instalada entre as direcções leoninas e da “Briosa”, o jogador, à altura a cumprir o Serviço Militar Obrigatório nas Caladas da Rainha, aproveitaria uma das licenças para desanuviar do clima tenso que o suposto “namoro” com outros emblemas havia causado no meio futebolístico estudantil. Nessa viagem, na estrada entre Coimbra e a Figueira da Foz, o avançado, a conduzir o seu Mini, embateria de frente com uma camioneta e na sequência do terrível acidente de viação, perderia a vida a 10 dias de cumprir 21 anos de idade.

1002 - PEDRAS

Tendo chegado à equipa sénior do Vitória de Guimarães depois do 3º lugar conquistado no Europeu de Juniores de 1960, Pedras sublinharia o seu nome como uma das grandes promessas do futebol nacional. Ao conseguir estrear-se na principal equipa vimaranense na temporada de 1960/61, o médio, logo à partida, demonstraria que toda a esperança nele depositada dificilmente cairia em saco roto. Atleta com propensões ofensivas, o que traria para o seu currículo muitos golos, seriam necessárias apenas duas temporadas para que o Benfica fosse no seu encalço. A transferência concretizar-se-ia para a campanha de 1962/63 e o jovem centrocampista seria levado para o seio do grupo bicampeão europeu.
Numa equipa tão poderosa, e não pondo em causa a qualidade do jogador, a verdade é que a sua adaptação seria sempre complicada. A presença no plantel de nomes como José Neto ou Mário Coluna deixariam o médio sem grande margem para conseguir impor-se na equipa. Em 4 temporadas de “Águia” ao peito, poucas seriam as oportunidades dadas a Pedras. Por outro lado, e mesmo tendo jogado apenas 31 partidas durante a sua passagem pela “Luz”, o centrocampista conseguiria acrescentar ao seu currículo um total de 3 Campeonatos e 1 Taça de Portugal.
A transferência para o Vitória de Setúbal, além de dar ao jogador uma chance para relançar a carreira, acabaria por catapultá-lo para um nível já há muito merecido. Envolvido no negócio que levaria Jaime Graça para a “Luz”, Pedras, juntamente com Guerreiro e Arcanjo, partiriam para as margens do Sado. Nos dois anos em que vestiria o listado verde e branco do clube, o médio granjearia do merecido destaque. A presença em 2 finais da Taça de Portugal, tendo ajudado a ganhar a edição de 1966/67, seria superada em importância apenas pelas chamadas à principal selecção nacional. Pelos “AA” de Portugal, tendo também conseguido uma presença no conjunto “B”, jogaria 3 vezes. Bulgária, em duas ocasiões, e Brasil apadrinhariam as suas internacionalizações. No que diria respeito a seleccionadores, José Gomes da Silva e, mais tarde, José Maria Antunes transformar-se-iam nos seus timoneiros.
Após o destaque conseguido com os “Sadinos”, seria o Sporting a perguntar por si. Ao agarrar na temporada de 1968/69 a titularidade, o que aconteceria nas campanhas seguintes voltaria a levantar dúvidas sobre a sua real qualidade. Tal como já tinha sido verificado na passagem pelo Benfica, Pedras, ao perder muito fulgor, passaria os 2 anos seguintes sem ser tantas vezes chamado ao “onze” titular. Mais uma vez, salvar-se-iam os títulos e a vitória no Campeonato Nacional de 1969/70 e na Taça de Portugal do ano seguinte, serviriam para colorir o palmarés do atleta.
Já na derradeira etapa da sua carreira, tempo ainda para representar outro emblema naquele que é o nosso escalão máximo. Depois de um par de épocas com as cores do Atlético, Sintrense e o Seixal seriam os passos finais de uma caminhada que terminaria com o fim da temporada de 1974/75.

904 - ARNALDO

Depois de ter encantado no Sport Bissau e Benfica, seria na CUF que o jovem Arnaldo Silva faria a estreia no principal escalão português. No grupo do Barreiro, sob o comando de Manuel de Oliveira, o médio seria lançado na temporada de 1964/65. A segunda metade da referida época mostraria um jogador que, apesar da tenra idade, mereceria a confiança do treinador. No entanto, esse belo arranque acabaria por não ter continuidade nas campanhas seguintes. A irregularidade mostrada levaria os responsáveis da equipa a procurar nova solução. A resposta para a sua carreira viria na forma de empréstimo e, durante os 3 anos seguintes, o centrocampista evoluiria longe da Margem Sul.
Seria no regresso que Arnaldo conseguiria, finalmente, afirmar-se como um atleta fundamental na manobra da sua equipa. Com a ascensão do emblema do Barreiro, expressa na luta pelos lugares cimeiros da tabela classificativa, o médio começaria a ser cobiçado por emblemas de outra monta. Com a “Lei da Opção” a dificultar a sua saída, os “grandes” do futebol português acabariam por ser dissuadidos da, tantas vezes veiculada, contratação. Apesar de nunca conseguir a tão almejada transferência, o prémio para as suas excelsas qualidades acabaria por vir da Federação Portuguesa de Futebol. Já com 30 anos de idade, o médio, com José Maria Pedroto no lugar de seleccionador, envergaria pela primeira vez a camisola das “quinas”.
Até 1976 manter-se-ia como uma das maiores estrelas da CUF. É já com a entrada em decadência da empresa que dava nome ao clube, que o internacional português acaba por deixar a camisola que, durante 10 temporadas, tinha envergado. Com a sua saída, seriam o Montijo, Barreirense e Amora as colectividades que, daí em diante, permitiriam ao jogador dar continuidade à sua carreira. Entre os 2 principais escalões nacionais, o atleta passaria aquela que pode ser vista como a segunda parte do seu percurso. A maior curiosidade desse período prender-se-ia com a polivalência revelada pelo futebolista. Durante essa meia dúzia de anos, o antigo médio acabaria por experimentar diferentes lugares. Ainda assim, e tendo jogado a avançado e defesa, a qualidade do seu jogo pouco diminuiria. Preponderante, Arnaldo poucas vezes seria esquecido na altura de delinear a táctica de jogo.
Bem perto de completar a sua quarta década de vida, e numa altura em que qualquer atleta estaria a pensar na reforma, Arnaldo decidiria manter as chuteiras nos pés. Já a distanciar-se da vontade e técnica mostrados nos mais importantes palcos do futebol português, a sua determinação levá-lo-ia ainda a jogar durante mais algumas temporadas. É em 1987, com 43 anos e a disputar os “distritais”, que decide ser a hora certa para afastar-se dos “jogos da bola”. Curiosamente, seria como segurança em estádios de futebol que, anos mais tarde, o antigo jogador passaria a ganhar a vida.