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1770 - ALFREDO GUIMARÃES

Formado nas “escolas” do Vitória Sport Clube, Alfredo da Costa Silva Guimarães teria a primeira oportunidade na equipa principal dos “Conquistadores”no decorrer da temporada de 1972/73. Lançado por Mário Wilson, o jogador, caracterizado pela baixa estatura, mas igualmente pela velocidade e habilidade acima da média, revelaria a capacidade para, ao longo de uma carreira dada mormente aos trabalhos consignados aos intérpretes posicionados nas vertentes periféricas do campo, desempenhar diferentes tarefas. Inicialmente como avançado-centro, mas a destacar-se como extremo-esquerdo para, mais tarde, passar a cumprir as funções de um defesa canhoto ou dextro, o jovem praticante, ainda assim, demoraria algum tempo até conseguir impor-se como um elemento preponderante nas escolhas técnicas. Nesse sentido, após o arranque da caminhada entre os seniores, nomeadamente na campanha seguinte ao já referido encetar de actividades, o atleta haveria de passar por um empréstimo e seria a AD Fafe, depois de uma curta viagem dentro do Minho, a recebê-lo nas contendas agendadas para 1973/74.
Os parâmetros competitivos sublinhados durante a cedência aos homens a equipar de amarelo, serviriam para assegurar o seu regresso à “Cidade Berço”. De volta ao grupo de trabalho do Vitória Sport Clube, Alfredo Guimarães, ainda orientado pelo “Velho Capitão”, teria na época de 1974/75 um acréscimo considerável de presenças em campo. Ainda no que respeita a esses números, a campanha seguinte, em semelhança com a anterior, seria bastante importante. No entanto, a temporada de 1975/76 teria outra magia, com a chegada dos minhotos à derradeira etapa da Taça de Portugal a conferir outro “élan” aos desempenhos do jogador. Na apelidada “Prova Rainha”, chamado por Fernando Caiado à final, o defesa apresentar-se-ia no Estádio das Antas como um dos nomes arrolados à titularidade. Infelizmente para o seu lado, o 2-1 registado no “placard” seria favorável ao Boavista e o troféu partiria em direcção aos escaparates do Bessa.
Daí em diante, Alfredo Guimarães passaria a assumir-se como um dos elementos regularmente chamados ao “onze” inicial. O lateral-esquerdo, que seria convocado aos trabalhos dos conjuntos sob a alçada da Federação Portuguesa de Futebol e que, sem nunca ter jogado com as cores lusas, haveria de ocupar um lugar no banco de suplentes da equipa “B”, passaria a ser aferido como uma das figuras mais proeminentes nos desenhos tácticos do Vitória Sport Clube. Todavia, mesmo com a ligação entre a agremiação e o jogador a cimentar-se, só no que à camisola principal diz respeito, no decorrer de 7 anos, o termo da ligação entre ambos conheceria o fim com o remate das provas de 1979/80 e a escolha do atleta, para dar seguimento à carreira enquanto futebolista, recairia no Belenenses.
No Restelo a partir de 1980/81, a entrada de Alfredo Guimarães no grupo de trabalho dos “Azuis” em pouco alteraria a condição de titular trazida de anos anteriores. Já a temporada seguinte, tanto em termos pessoais, mas principalmente na avaliação atribuída ao colectivo “alfacinha”, ficaria bem abaixo do expectável. Alias, a última jornada do Campeonato Nacional de 1981/82 selaria algo de insólito no futebol português. Com a inédita descida do Belenenses a acentuar negativamente um ano menos conseguido por parte do defesa-lateral, a mudança de colectividade, ainda assim, levá-lo-ia até a um Ginásio de Alcobaça a estrear-se no escalão máximo. Como elemento do emblema sediado na Região Oeste, o atleta, em 1982/83, voltaria a desiludir-se na luta pela permanência. No seguimento de mais uma despromoção, uma nova transferência afastá-lo-ia, em definitivo, das contendas primodivisionárias e o Desportivo de Chaves, a AD Fafe, o Beira-Mar, o Paredes e o Celoricense completariam uma caminhada que, como futebolista, findaria em 1990/91.
Depois de “penduradas as chuteiras”, Alfredo Guimarães manter-se-ia ligado à modalidade e entre as funções de treinador-adjunto e técnico-principal, o antigo defesa teria experiências, a exemplo, na AD Fafe e Pevidém.

1655 - RODRIGUES DIAS

Não havendo grandes dados sobre o assunto, ainda assim, existem algumas fontes a asseverar um trajecto de José Rodrigues Dias enquanto futebolista. Dizem-nos essas informações ter, o futuro treinador, jogado a guarda-redes e que, num percurso modesto, terá ainda representado colectividades como o União Almadense, o Trafaria e o Sintrense.
O que parece ser verdade é que, concluído o curso em Educação Física, Rodrigues Dias, paralelamente às actividades relacionadas com o ensino escolar, também terá dedicado bastante da sua disponibilidade ao futebol. Ao assumir, em diferentes ocasiões, diversas funções, o seu trajecto como treinador-principal terá começado pelo Torres Novas e, posteriormente, no Ginásio Clube do Sul. Em 1964/65 terá representado, como elemento técnico das camadas jovens, o alcantarense Atlético. Seguir-se-ia, não muito tempo depois, a entrada naquele que viria a tornar-se no emblema mais representativo da sua caminhada na modalidade, o Sporting.
Em Alvalade começaria o seu trabalho, nas camadas jovens, a partir da temporada de 1965/66. Igualmente contribuiria para os sucessos da equipa principal nas funções de adjunto e, como aconteceria em 1967, por ocasião do Torneio Ibérico de Badajoz, assumiria, ainda que de forma interina, o papel de técnico-principal dos “Leões”. No entanto, mesmo com desempenhos louváveis, a primeira grande oportunidade conseguida para o seu trajecto profissional viria do Norte de Portugal. Convidado pelo Varzim, agarraria o momento e ficaria como responsável-mor dos “Lobos-do-mar”. Nessa campanha de 1970/71, a disputar a 1ª divisão, a verdade é que o desempenho colectivo ficaria aquém do esperado. Numa equipa a contar com nomes míticos da colectividade, como Sidónio, Fernando Ferreira, Quim ou Salvador, as pobres exibições do grupo a envergar o listado alvinegro fariam com que Rodrigues Dias, após a 21ª jornada, abandonasse o clube, indo para o seu lugar Noé Castro.
Já aquela que viria a tornar-se na época áurea da sua caminhada pelo futebol desenrolar-se-ia entre a última metade da década de 1970 e o início dos anos de 1980. O encetar desse grande capítulo surgiria em 1975/76, durante o qual, Rodrigues Dias emergiria como o preparador-físico da equipa principal do Sporting. Em idênticas tarefas, num grupo de trabalho liderado por José Maria Pedroto, surgiria o período entre 1976 e 1977, onde trabalharia para a Federação Portuguesa de Futebol. Depois assomar-se-ia novamente a Alvalade. Ao aceitar o desafio do Presidente João Rocha, substituiria o brasileiro Paulo Emílio para, a partir de Janeiro, passar a liderar os “Leões”. No que restaria da temporada de 1977/78, seria na Taça de Portugal que conseguiria tirar, do grupo ao seu cargo, os melhores resultados. Com os “Verdes e Brancos” a alcançarem a derradeira ronda da denominada “Prova Rainha”, a resolução da referida competição, após o empate a 1-1, necessitaria de uma sequela. Na finalíssima, o resultado frente ao FC Porto fixar-se-ia nos 2-1 e o tão almejado troféu ficaria a cargo dos escaparates do emblema lisboeta.
Após, em 1978/79, ter voltado às funções de preparador-físico, o começo da época seguinte surgiria com a aposta do seu nome para regressar ao comando técnico do Sporting. Todavia, a primeira metade da temporada resultaria, depois de algumas polémicas com a direcção, na saída do treinador. Com Fernando Mendes a ocupar o seu lugar, a substituição, muito à custa do trabalho iniciado por Rodrigues Dias, resultaria na conquista da prova de maior calibre no calendário luso e, meritoriamente, o nome do técnico também seria incluído no rol de figuras a contribuir para a vitória no Campeonato Nacional.
Ainda nessa temporada de 1978/79, Rodrigues Dias continuaria o seu périplo por emblemas primodivisionários. Depois de orientar o Beira-Mar, seguir-se-iam, nas épocas vindouras, o par de campanhas ao serviço do Vitória Futebol Clube e a campanha de 1981/82 à frente do Belenenses. Por fim, o treinador ainda registaria passagens pelo Quimigal, Sintrense e Lusitano de Vila Real de Santo António.

1231 - EVARISTO

Aldeano de gema, figura e “filho” do popular Bairro do Mouco, Evaristo Pinto da Silva entraria para as “escolas” do clube de maior monta da sua terra natal. Terminado o percurso formativo no Clube Desportivo do Montijo, o passo seguinte levá-lo-ia, no início da década de 1970, a ser chamado a representar o plantel sénior da referida colectividade. Começaria por acompanhar o emblema da Margem Sul nas pelejas dos escalões secundários. Porém, esse paradigma rapidamente mudaria e com o emblema a conseguir, com a conclusão da temporada de 1971/72, posicionar-se no 1º lugar da Zona Sul do Campeonato Nacional da 2ª divisão, outras portas viriam a abrir-se para o jovem atleta.
O facto relatado no final do parágrafo anterior, ou seja, a promoção à 1ª divisão e consequente estreia do Montijo no escalão máximo do futebol português, seria mais que suficiente para inscrever Evaristo na história do clube. No entanto, o jogador, ao longo da carreira, mostraria ser muito mais do que uma efeméride ou uma mera estatística. A contribuir para tal, a sua postura dentro de campo tornar-se-ia num exemplo de abnegação e combatividade. Ao posicionar-se no miolo do terreno de jogo, o médio ficaria conhecido pela bravura, rispidez e por um físico e poderio inigualável.
Com a estreia no cenário primodivisionário a acontecer pela mão do treinador argentino Dante Bianchi, a verdade diz-nos que Evaristo, no decorrer dessa época de 1972/73, poucas oportunidades alcançaria no “onze” titular. Porém, e apesar de este facto conseguir ser justificado pela presença de atletas como Rachão ou Raúl Vítor, não é menos correcto dizer-se que a entrega e lealdade que sempre mostrou também contribuiria para cevá-lo como um elemento importante para as metas traçadas ao grupo de trabalho. Assim sendo, e depois de, na Liguilha, ajudar o Montijo a selar a manutenção, a campanha seguinte, já sob o comando do técnico uruguaio José Caraballo, voltaria a revelar o médio como um membro de incontestável utilidade para o plantel.
Durante a quase totalidade da sua carreira desportiva, Evaristo não conheceria outras cores para além do amarelo e verde do Montijo. Com muitas contendas travadas, voltaria, mais uma vez, a ser decisivo para a nova promoção do clube à 1ª divisão. Após 2 temporadas a militar no 2º escalão, a campanha de 1976/77 marcaria o regresso do jogador, e respectiva comitiva montijense, ao convívio com os “grandes”. A aludida época tornar-se-ia, com o fim da mesma e como resultado directo do 14º posto da tabela classificativa, na última presença do médio no patamar máximo. Prosseguira, ainda durante mais uns anos, sem mudar de camisola, mas o defeso estival de 1980, desviá-lo-ia da única agremiação conhecida, até à altura, no seu trajecto competitivo.
A passagem pelo plantel do Barreirense de 1980/81, onde partilharia o balneário com antigos colegas como Gijo, António Jorge e Manuel José, serviria também para, de certa maneira apadrinhar os primeiros passos de Neno e Nunes, futuros internacionais “A”. Seguir-se-iam, numa carreira a passos largos a aproximar-se do fim, o Estrela de Vendas Novas, a vitória na edição de 1981/82 do Campeonato Distrital da Associação de Futebol de Évora e o fim da caminhada como futebolista, ainda ao serviço do emblema alentejano, em 1983.

936 - BOLOTA

Chico Bolota, ou simplesmente Bolota, foi um atleta que brilhou nos maiores palcos do futebol nacional. Avançado possante, seria durante a década de 70 que mais conseguiria destacar-se. Intrépido, a forma “musculada” como enfrentava todos os lances valer-lhe-ia a passagem pelos planteis primodivisionários do Barreirense, União de Tomar e Montijo.
Ainda que tendo conseguido maior destaque ao serviço dos da “Cidade Templária”, seria na Margem Sul do Rio Tejo que faria a estreia entre os “grandes” do futebol português. Contratado ao Alcochotense, seria no Barreirense comandado por Vieirinha que, em 1967/68, o ponta-de-lança encetaria o seu percurso no escalão máximo. Depois dessa estreia na temporada de 1967/68, Bolota voltaria a aparecer na 1ª divisão na época de 1969/70. Ambas as campanhas, em termos individuais, ficariam abaixo do esperado para um atleta cuja esperança nele depositada era grande.
O contrário aconteceria aquando da sua transferência para o União de Tomar. Nas Margens do Rio Nabão, Bolota conseguiria alcançar aquilo que tinha perseguido nas anteriores passagens pela 1ª divisão. Ao conquistar a titularidade logo na temporada de 1971/72, o atacante tornar-se-ia numa das referências do conjunto ribatejano. Para esse estatuto muito contribuiria a entrega mostrada dentro de campo. Para além disso, os golos que concretizaria nessas 5 épocas (uma delas na 2ª divisão), fariam dele o goleador máximo da equipa nas aventuras primodivisionárias.
A notoriedade conseguida no futebol português, ainda que sem ter conseguido chegar a uma equipa de topo, faria com que de outros lados as suas habilidades fossem cobiçadas. Nos Estados Unidos da América, numa “North American Soccer League” cada vez mais bem cotada, o atleta contaria com algumas passagens. Com o destaque para as suas exibições ao serviço dos Rochester Lancers, onde partilharia o balneário com o também “luso” Ibraim Silva (ex-Benfica) e com Ratko Svilar (pai do benfiquista Mile Svilar), os capítulos americanos seriam testemunhos de uma qualidade que, asseverada por muitos, não saberia ser devidamente aproveitada.
Também o Montijo faria parte da sua história na 1ª divisão portuguesa. Curiosamente seria o regresso ao emblema da Margem Sul que, em 1984/85, poria um ponto final no seu percurso como futebolista. Entretanto, outras camisolas completariam a sua caminhada. A jogar exclusivamente nos escalões secundários a partir do final dos anos 70, Juventude de Évora, Lusitano de Évora e mais umas voltas no União de Tomar, acabariam por colorir o resto de uma carreira que chegaria ao fim com o atleta já perto de completar 40 anos de idade.

764 - GODINHO

Foi com 9 anos de idade que chegou às escolas do Belenenses. Sempre muito elogiado, Godinho acabaria por fazer todo o percurso formativo com os da “Cruz de Cristo”. Já na temporada de 1963/64 é promovido à categoria principal, conseguindo, rapidamente, transformar-se num dos grandes craques da equipa.
Podendo posicionar-se a extremo ou no meio-campo, era no lado esquerdo do terreno de jogo que a sua habilidade mais se destacava. A sua qualidade era de tal forma evidente que, logo na primeira época com os seniores, Fernando Vaz faz dele uma grande aposta. Já após duas temporadas de grande categoria, durante as quais jogaria com grande regularidade, a sua evolução haveria de sofrer um pequeno retrocesso. Depois desse início fulgurante, Godinho começa a perder algum espaço na equipa. Deixa a titularidade e, nas épocas que se seguiriam, vê a sua importância diminuir. Só na temporada de 1968/69 é que volta a recuperar o estatuto desses primeiros tempos como profissional. Todavia, daí em diante, a sua preponderância torna-se inquestionável e, tirando raras excepções, passa a ser um dos esteios do Belenenses.
Nos anos vindouros, as suas exibições contribuiriam para épocas memoráveis. No caminho que levaria o Belenenses ao 2º lugar (1972/73), até às campanhas europeias, Godinho cimentar-se-ia como um dos pilares da equipa. Ainda assim, e não menosprezando o valor que sempre mostrou, o seu percurso futebolístico haveria de ter uma pequena pecha. Sem grandes troféus a abrilhantar o currículo, o esquerdino venceria apenas 2 Taças de Honra da Associação de Futebol de Lisboa (1969/70; 1975/76). Contudo, e mesmo não tendo um palmarés muito vistoso, o seu desempenho seria suficiente para que merecesse uma chamada à selecção nacional. Ora, e após ter jogado pelos juniores de Portugal, o extremo acabaria convocado na campanha de apuramento para o Euro 76, disputando uma partida frente ao Chipre.
Já depois de envergar a camisola do Belenenses durante 23 anos, o início da temporada de 1977/78 traria a Godinho um novo emblema. À altura com 32 anos de idade, o atleta ainda não estava pronto para “pendurar as chuteiras”. Essa sua vontade levá-lo-ia a disputar os escalões secundários do nosso futebol. Assinaria contrato pelo Sacavenense e prolongaria o seu percurso por mais 4 anos.
Mesmo não tendo terminado a carreira no Restelo, Godinho nunca deixou de ser estimado por todos os adeptos e associados. Nutrindo, também ele, uma igual paixão, o antigo capitão do Belenenses acabaria por regressar ao clube. Em 2004 abraçaria de novo a “Cruz de Cristo”, desta feita nas funções de administrador da SAD.

755 - RUI

Com o percurso na formação dividido entre GD Mealhada, Belenenses e FC Porto, foi a chegada às Antas que impulsionaria a sua carreira. Ainda como júnior dos “Dragões”, o guarda-redes começou a ser chamado às camadas jovens da selecção nacional. Nesse contexto, seria convocado a disputar o Torneio Internacional de Juniores da UEFA, em 1960. A “Equipa das Quinas” ficaria em 3º lugar. Contudo, esse primeiro passo serviria de empurrão para o que viria a acontecer no ano seguinte. Com o certame a ser organizado por Portugal, e com Rui como titular absoluto, os jovens “lusos” conseguiriam a proeza de vencer o título europeu.
Tal vitória, levá-lo-ia a conquistar um lugar no plantel principal “Azul e Branco”. Apesar do merecido destaque, a concorrência para a posição de guarda-redes era enorme. Por altura da sua promoção, em 1961/62, o dono da baliza portista era Américo. Logicamente, as oportunidades para o jovem Rui Teixeira não seriam muitas. Ainda assim, já por altura da sua 4ª temporada como sénior, Otto Glória começa a apostar nele. Infelizmente, o risco assumido pelo treinador brasileiro não teria continuidade. Com a saída do técnico para o Sporting, Rui regressa à condição de suplente.
Com o seu estatuto a manter-se inalterado, surgem os rumores da sua partida para o Benfica. Tal transferência acabaria por nunca acontecer e Rui continuaria a ser presença habitual no banco do FC Porto. Nova excepção aconteceria já passados alguns anos. Com o começo da década de 70, o guardião parece, finalmente, conquistar o seu lugar. Entre as épocas de 1970/71 e 1972/73, é o seu nome que mais vezes aparece na ficha de jogo.
Como se um estigma fosse, Rui, desta feita em favor de Tibi, volta a ser preterido. Epítetos como os de “Eterno Suplente”, começam a sublinhar aquilo que seria a sua carreira. A preferência que sempre deu aos “Azuis e Brancos”, faria com que o seu percurso profissional fosse mais discreto do que inicialmente era profetizado. Essa sua devoção pelo clube, que ficaria materializada em 18 temporadas de “Dragão” ao peito, torná-lo-iam num dos históricos do emblema portuense.
Também participaria naquela que foi a mudança de paradigma do FC Porto. Já com José Maria Pedroto como técnico, os troféus começaram a preencher o percurso do atleta. Rui, que já tinha no seu currículo 2 Taças de Portugal (1967/68; 1976/77), ainda faria parte do grupo que, em 1979, comemoraria a conquista do bi-campeonato. Aliás, essa seria a sua derradeira temporada como futebolista. No entanto, a sua proximidade ao clube manter-se-ia. Recentemente, voltou a fazer parte das equipas técnicas do FC Porto, estando, esta temporada (2016/17), a trabalhar com as camadas jovens e com a equipa “b”.

422 - ABRANTES

De Abrantes à localidade capital do distrito das suas origens, Portalegre, distam em linha recta, qualquer coisa como 68,78 km. Curiosamente, o grosso da sua carreira também andaria bem longe da terra a dar-lhe o nome. Nesse sentido, depois de ter jogado em emblemas do Alentejo, as suas qualidades futebolísticas, reveladas bem cedo, levá-lo-iam até Lisboa e seria no Benfica que Manuel Abrantes viria a estrear-se como sénior.
Com os “Encarnados” a atravessarem uma das épocas de maior glória na história, ao jovem guardião, após a primeira partida na equipa principal em 1966/67, não deve ter faltado motivação para a carreira. Porém, essa partida, sob o comando de Fernando Riera, não teria grande continuidade. A verdade é que, num plantel que contava com Costa Pereira, José Henrique ou Nascimento, a esperança de Abrantes ganhar o lugar à baliza tornar-se-ia num sonho bem longínquo. A sublinhar tal ideia emergiriam os números, com o jogador a alcançar poucas oportunidades, participando, em 3 temporadas, em apenas 2 jogos da Taça de Portugal. Aliás, o único troféu oficial inscrito no seu currículo consegui-lo-ia através da vitória do Benfica na edição de 1968/69 da “Prova Raínha”.
O passo seguinte na carreira encaminhá-lo-ia até Académica de Coimbra. Contudo, o objectivo de jogar com maior frequência depressa começaria a esfumar-se. Primeiro surgiria a época de 1969/70 onde, peculiarmente, 5 guardiões calçariam as luvas da "Briosa". Depois seria a concorrência de Melo a remetê-lo para mais uma campanha longe do “onze”. Do mesmo modo, no regresso à Luz em 1970/71, o guardião seria vítima da qualidade dos concorrentes à sua posição, nomeadamente da presença de José Henrique, mas também de Fidalgo e de Fonseca.
Seria por essa altura que o Benfica, a pensar na contratação de uma grande promessa do futebol português, envolveria o seu nome no negócio. Com o acordo firmado entre todas as partes, Abrantes partiria em direcção à Margem Sul do Rio Tejo e Manuel Bento deixaria o FC Barreirense para rumar às “Águias”. A mudança viria a beneficiar o novo guardião do listado vermelho e branco que, como consequência da transferência, faria da temporada de 1972/73, a sua primeira temporada como titular no escalão maior.
.Daí em diante, após representar o colectivo do Barreiro e de passagens pelo Sporting de Espinho e pelo primodivisionário Montijo, Abrantes, na campanha de 1978/79 chegaria ao emblema onde passaria mais anos. Para além de 7 temporadas cumpridas pelo Estoril Praia, poderá dizer-se que terá sido pelos “Canarinhos” que guarda-redes, internacional júnior e “B”, viveria um dos episódios mais caricatos da sua vida como futebolista – "Eu tinha sempre muito trabalho contra o F.C. Porto mas aquele jogo foi o que mais me ficou na memória (…). O árbitro marca um penalty contra nós, o Vítor Madeira protesta, vê o segundo amarelo e é expulso. O Gomes mete a bola na marca de penalty mas eu defendo. Quando me levanto vejo que o Vítor Madeira estava em campo. Não sei dizer se nunca saiu ou se tinha voltado a entrar. Mas estava lá e o banco do F.C. Porto estava todo de pé a reclamar (…). Os jogadores do Porto empurravam o árbitro para a marca do penalty os nossos empurravam-no para fora da área. E ele não tomava nenhuma decisão (…). Só lhe disse uma coisa [refere-se ao árbitro Graça Oliva]: se vocês não viram se o Vítor Madeira estava em campo, esqueçam lá isso. Eles que joguem à bola que são melhores do que nós. Ele olhou para mim e disse: Tem razão. E o jogo seguiu"*.

*adaptado do artigo de João Tiago Figueiredo, publicado a 21/09/2013, em https://maisfutebol.iol.pt

325 - MANUEL JOSÉ

Ainda não endoideci de vez! Sei perfeitamente a nacionalidade de Manuel José. Porém, convenhamos, há um português que também pode ser considerado um pouco africano e esse é o técnico algarvio!
O que põe Manuel José no rol de personalidades apresentadas durante este mês, não é o facto de grande parte da sua carreira, e das suas conquistas, ter sido feita ao serviço dos egípcios do Al-Ahly. Como devem estar recordados, o treinador teve a seu cargo a equipa nacional de Angola, quando esta participou na CAN organizada no país dos "Palancas Negros". No entanto, mesmo com prestação dos angolanos no certame de 2010, quando muitos sonhavam com a vitória no torneio, a levá-los apenas aos quartos-de-final, a verdade é que grande parte da sua caminhada como técnico tem sido pautada por grandes sucessos.
Vamos começar um "pouco" antes. Aos 16 anos, um jovem algarvio, médio, chega ao Benfica. Faz aí o resto do seu percurso de formação e naturalmente, após de um ano nas "reservas", começa por ser emprestado. Depois do Sporting da Covilhã e do Varzim, a temporada de 1967/68 no Belenenses, começa a mostrar um jogador suficientemente maduro para, aos olhos do treinador "encarnado" Otto Glória, ingressar no plantel das "Águias" da época seguinte. É assim que, na temporada de 1968/69, apenas alguns minutos em campo, dão o primeiro título a Manuel José - "Joguei mesmo mal. Devo ter sido assobiado pelo público, mas disso nem me lembro (...). Em Abril, acabou o Campeonato e o Benfica fez a festa. A Direcção telefonou-me então para o quartel de Queluz, onde fazia a tropa, a convidar-me para ir receber a medalha de campeão, mas eu não fui. Ia lá fazer o quê? Então joguei 19 minutos, e mal, e ia receber a medalha?"*.
Dispensado do Benfica, a sua carreira começou, a partir dessa altura, a vogar por clubes de menor monta. Talvez por essa razão, apenas com 32 anos e depois de ter envergado as camisolas do União de Tomar, Farense, Beira-Mar e Sporting de Espinho, Manuel José, sem sair dos “Tigres da Costa Verde”, decide encetar a vida como treinador.
Foi o protagonismo ganho no cumprimento das funções de técnico de futebol que, hoje em dia, faz dele um dos nomes mais respeitados da modalidade, a nível mundial. Para isso muito contribuem o rol de títulos conquistados, 23 para ser mais exacto, dos quais podemos destacar, os 6 Campeonatos egípcios, as 4 Ligas dos Campeões Africanos e as 4 Supertaças do mesmo continente, todos ao serviço do já referido Al-Ahly. Claro que, para além do que foi vencendo durante a diáspora, é impossível esquecer todo o trabalho feito, na década de 1990, com as cores do Boavista. Durante os aludidos anos ganhou a Taça de Portugal de 1991/92 e a edição de 1992/93 da Supertaça Cândido de Oliveira. Todavia, há que sublinhá-lo, categoricamente, como o homem que lançou os “Axadrezados” na senda da vitória no Campeonato Nacional.

*retirado do livro “101 Cromos da Bola” (Lua de Papel), de Rui Miguel Tovar (2012)