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1102 - FRANCISCO MOREIRA

Descoberto numa altura em que representava os Leões do Barreiro, Francisco Moreira, ainda em idade adolescente, acabaria transferido para um dos históricos do futebol português. Com a entrada no Barreirense a acontecer na temporada de 1932/33 e numa altura em que Campeonato de Portugal e as provas regionais assumiam o papel principal no cenário competitivo nacional, o médio transformar-se-ia numa das figuras de proa do emblema da Margem Sul.
Atleta de pendor defensivo, as presenças em campo dá-lo-iam a conhecer como um praticante aguerrido e com uma enorme capacidade para desarmar os adversários. No entanto, e mesmo ao conseguir destacar-se como um dos melhores praticantes do conjunto alvi-rubro, a verdade é que o centrocampista demoraria vários anos até chegar a um dos maiores emblemas nacionais. Porém, esse suposto atraso acabaria por dar a Moreira o traquejo necessário para que, desde a época de estreia no Benfica, conseguisse ocupar um lugar de destaque na equipa “encarnada”. Com a mudança para Lisboa a acontecer na época de 1944/45, a titularidade imediatamente conquistada colocá-lo-ia a jogar ao lado do “capitão” Francisco Ferreira. Numa altura em que os 29 anos já indicavam a proximidade do fim de carreira, o atleta decidiria fazer da referida idade um número sem grande significado. Aliás, seria a partir desse momento que viveria os melhores anos da sua caminhada futebolística.
Com um dos elementos mais equilibradores da manobra táctica benfiquista, o médio começaria a acrescentar títulos ao currículo. Logo na campanha de chegada ao Benfica, tornar-se-ia num dos principais intérpretes da caminhada triunfante das “Águias” no Campeonato Nacional. A vitória na maior prova portuguesa voltaria a repeti-la em 1949/50. Também a Taça de Portugal viria a fazer parte do seu palmarés, com as 4 conquistas consecutivas entre 1948/49 e 1952/53, a tornarem-se num dos grandes marcos do seu percurso desportivo. Contudo, um troféu conseguiria destacar-se dos demais. Na edição de 1950 da Taça Latina, o treinador inglês Ted Smith escolheria Moreira para alinhar em todas as 3 partidas jogadas pelo clube na competição. Depois de ajudar a eliminar os italianos da Lazio na meia-final, também contra o Bordeaux seria chamado à peleja. Após um empate na final e com o jogo da finalíssima já em prolongamento, seria dele a assistência para o golo que resolveria a disputa da prova europeia.
Mas numa carreira que passou dos 40 anos, não foi só com os supracitados emblemas que Francisco Moreira brilhou. Também no trajecto da selecção nacional, o jogador conseguiria inscrever o seu nome. Numa altura em que os jogos internacionais escasseavam, o atleta, ainda assim, participaria em 7 partidas com a principal “camisola das quinas”. Sob a alçada de Tavares da Silva, encetaria a caminhada por Portugal a 6 de Maio de 1945, num encontro frente à Espanha. Porém, os dois maiores destaques da sua caminhada com as cores lusas viriam alguns anos após o desafio inicial. Um deles, em Janeiro de 1947, surgiria com um novo confronto ibério e com a primeira vitória frente à congénere de “nuestros hermanos”. Alguns meses passados sobre esse brilharete, emergiria o segundo desses inolvidáveis momentos. Numa viagem à República da Irlanda, o médio faria parte do conjunto que ficaria para a história como a equipa lusa a estrear-se em triunfos além-fronteiras.

1093 - JOSÉ MARIA

Partiu de Angola como produto formado no Atlético de Luanda, para chegar a Portugal na temporada de 1962/63. No Vitória Futebol Clube, onde entrou na companhia do irmão Conceição, depressa encontrou um lugar e depois de uma época de estreia bem aceitável, a campanha seguinte revelou José Maria já como um pilar do conjunto setubalense.
Com uma capacidade técnica tremenda e uma propensão ofensiva que o levou a marcar imensos golos, o jovem atleta fez da posição de interior-esquerdo, o lugar ideal para melhor potenciar as suas qualidades. Numa equipa que, ao longo dos anos, ficou recheada de craques, José Maria encontrou a base certa para lançar uma carreira com vários sucessos. Com o emblema a atravessar os melhores anos da sua história, os treinadores Fernando Vaz e José Maria Pedroto transformaram-se nos grandes timoneiros desse apogeu colectivo. Com boas classificações no Campeonato Nacional e as participações nas provas europeias, foi a Taça de Portugal que melhor serviu o êxito dos “Sadinos”. Com o jogador a conseguir ser titular em 4 finais consecutivas, as vitórias obtidas em 1965 e 1967 teriam nos seus golos uma marca muito importante.
Como já aqui foi dado a revelar, a capacidade finalizadora foi um dos seus melhores apanágios e uma das grandes marcas da carreira do atleta. Nesse sentido, José Maria conseguiu inscrever o nome em vários recordes do listado verde e branco setubalense. Sob a égide do Vitória, o médio, para além de ser o futebolista com mais partidas disputadas na 1ª divisão, transformou-se também no melhor marcador sadino na principal competição portuguesa e no detentor de mais golos concretizados pelo clube, nas provas organizadas pela UEFA.
Apesar de uma participação não tão proeminente, José Maria também vestiu a “camisola das quinas”. Por Portugal, a estreia aconteceu pela mão de José Gomes da Silva, em Junho de 1967, numa partida frente à Noruega, referente à Fase de Qualificação para o Euro de 1968. Seguiram-se, entre 1969 e 1970, mais 3 partidas pelo principal conjunto luso. A juntar a esses desafios, o jogador também participou num jogo feito pelas “esperanças” e em outro desafio com a equipa “b”. Curiosamente, num total de 6 internacionalizações, o atleta nunca veio a conseguir marcar um único golo!
Após 14 temporadas ao serviço do Vitória Futebol Clube, todas elas passadas no patamar mais alto do futebol português, José Maria partiu para o Canadá. Numa derradeira aventura competitiva, o médio ainda participou na multimilionária North American Soccer League (NASL). Com as cores dos Toronto Metros-Croatia jogou a última cartada como profissional e com o fim da temporada de 1977, decidiu pôr um ponto final na carreira desportiva.

960 - RITA

Apesar de ter começado como um atleta de campo, ainda em idade de formação, haveria de mudar a posição para a guarda das balizas. Sendo um jovem guardião, cedo começaria a revelar-se como elegante e corajoso. No entanto, e quase sempre à custa de uma senda por lances mais vistosos, era, por vezes, apontado como um jogador pouco seguro. Mesmo tendo isso em conta, é impossível afirmar que José Rita não era um predestinado. Apesar de algumas falhas, as qualidades que regularmente mostrava no cumprimento das tarefas a ele incumbidas acabariam por revelar toda a sua habilidade.
No Olhanense, onde, na temporada de 1950/51, daria os primeiros passos como sénior, depressa poria em alerta os seus colegas de posição. Conseguindo conquistar um maior protagonismo já no decorrer do segundo ano, outros olhos começariam a debruçar-se sobre o seu trabalho. Ainda que a disputar o escalão secundário, fruto da despromoção sofrida na época da sua estreia, a verdade é que as suas exibições levariam o Sporting a olhar para ele como um bom reforço para o seu grupo. Tido como um atleta com enorme potencial, a transferência consumar-se-ia na campanha de 1952/53.
À chegada a Alvalade, o promissor futebolista iria deparar-se com a concorrência do veterano Azevedo, mas, principalmente, com a competição de um também jovem guardião contratado ao Barreirense. Carlos Gomes de seu nome, acabaria por “tapar” quase todos os caminhos ao seu colega de equipa. Sem grandes oportunidades para apresentar-se na categoria principal, José Rita, na quase totalidade das suas participações, iria exibir-se pela equipa de “reservas”.
Ao fim de 3 temporadas e de poucas partidas efectuadas pelo conjunto principal “leonino”, a José Rita seria oferecida a oportunidade para prosseguir a carreira noutro emblema. A mudança para o Sporting da Covilhã em 1955/56 tornar-se-ia, sem sombra para qualquer dúvida, numa das melhores escolhas feitas por si. Nos “Leões da Serra” metamorfosear-se-ia num dos melhores da sua posição a actuar em Portugal. É certo que a titularidade alcançada, e mantida ao longo dos anos, seria o factor de maior peso. Todavia, num balneário partilhado com Fernando Cabrita ou com o seu primo Amílcar Cavém, o estatuto alcançado seria condimentado por um pouco mais de magia.
Uma das campanhas mais importantes nessa sua passagem pela Beira Baixa, terminaria com dois episódios nutridos por sentimentos completamente antagónicos. Por um lado, o orgulho de, não só eliminar o FC Porto ou o Vitória de Setúbal, mas o de chegar à final da Taça de Portugal de 1956/57. Nesse derradeiro confronto, para o qual seria apontado ao “onze” inicial, José Rita seria incapaz de travar a vitória do Benfica por 3-1. Pior ainda, seria o que estava reservado para o Campeonato Nacional. Ora, sem conseguir fugir aos lugares passíveis de despromoção, nem a participação na extinta “Liguilha” faria com que o Sporting da Covilhã escapasse ao castigo da descida de divisão.
Houve também outro momento em que José Rita conseguiria brilhar mais do que o normal. Esse capítulo, mais um de grande fulgor no seu percurso profissional, consumar-se-ia com a chamada à selecção “B” de Portugal. O desafio, disputado frente à França em 1960, adoçaria ainda mais o apetite pela sua contratação. Mais uma vez regressado ao principal patamar do futebol luso, o guardião, mantendo a sua condição de “pilar” na estrutura da equipa “serrana”, moldava-se, a cada jornada cumprida, para ocupar um lugar de outra monta. Essa oportunidade apareceria, mais uma vez, vinda da capital. O Benfica seria o clube no qual daria seguimento à sua carreira. Porém, outro grande nome das balizas portuguesas surgiria no seu caminho. Costa Pereira, ainda apor cima num conjunto “encarnado” composto na sua maioria pelos atletas recém bicampeões europeus, erguer-se-ia como uma enorme sombra na sua possibilidade de afirmação.
A conquista do Campeonato Nacional e da Taça de Portugal de 1963/64 permearia um papel que, no momento da sua contratação, já se adivinhava como o de suplente. Ainda antes do fim do seu percurso como futebolista, a passagem pelo Casa Pia marcaria os últimos passos do mesmo. Depois da aposentação, a vida levá-lo-ia ao Brasil. Fixar-se-ia do outro lado do Oceano Atlântico e em “Terras de Vera Cruz” alimentaria o mundo do futebol com mais uns quantos intérpretes. Destaque para o seu neto Leandrinho que, numa fugaz passagem pelo Paços de Ferreira, voltaria a trazer o seu nome para os escaparates do desporto português.

920 - MANUEL DOS ANJOS "POCAS"

Chegaria à categoria principal do FC Porto, segundo publicações da época, vindo de um modesto emblema da região de Chaves. Com a estreia a acontecer no antigo Estádio do Lima, a relação que ali começava seria, para ambas as partes, bastante proveitosa. Logo nessa temporada de 1935/36, o médio daria boas indicações. Todavia, e nisso de aferições positivas, também o atleta sairia como um dos afortunados.
Para Manuel dos Anjos, o popular “Pocas”, a campanha de estreia com os “Dragões” acabaria por resultar nos primeiros títulos para o seu currículo. Após ajudar a conquistar o “Regional” portuense de 1935/36, o centrocampista continuaria a ser uma peça fundamental para os sucessos do clube. Tecnicamente mais evoluído do que o comum dos futebolistas da época, o jogador também conseguiria destacar-se pela entrega que punha em todas as partidas. Essa razão levaria o transmontano a transformar-se num dos símbolos do clube e num dos grandes responsáveis por uma das mais bem-sucedidas épocas da história “azul e branca”.
Mantendo-se o clube na crista das vitórias regionais, os anos seguintes trariam também conquistas de índole mais vasta. O Campeonato de Portugal de 1936/37 e as edições de 1938/39 e 1939/40 do Campeonato Nacional catapultariam todo o conjunto para um patamar mais alto. Claro está, mesmo estando os ditos êxitos estritamente ligados ao poder do colectivo, houve jogadores que foram merecendo um destaque especial. Acácio Mesquita, Valdemar Mota, Hernâni ou Pinga foram nomes maiores, onde também venceriam Soares dos Reis, Guilhar ou, como é lógico, Pocas.
Nisso de reconhecimentos, e por mais troféus que consigam conquistar, há um que todo o atleta almeja. Para Manuel dos Anjos essa recompensa chegaria sensivelmente a meio do seu percurso como futebolista. A 16 de Março de 1941, com Cândido de Oliveira aos comandos da selecção nacional, o jogador conseguiria a sua primeira internacionalização. Em Bilbao, após o terminar da parte inicial desse amigável frente à Espanha, o médio entraria para o lugar do “belenense” Mariano Amaro.
Já no que restou do seu percurso como futebolista o médio passá-lo-ia, quase na sua totalidade, ao serviço do FC Porto. Ainda com o clube longe de atingir o fulgor dos primeiros anos, os títulos “regionais” sempre serviriam para acalentar alguns espíritos. No meio desse cômputo de 9 Campeonatos portuenses, Manuel do Anjos conseguiria cimentar a sua importância no seio grupo. Como já foi referido, a sua abnegação era admirável e alvo do respeito de todos os que consigo partilhavam os campos. Um bom exemplo dessa egrégia atitude aconteceria em Janeiro de 1941. Os “Dragões” recebiam o Olhanense para o Campeonato Nacional quando, logo no começo da partida, o guarda-redes Valongo é vítima de uma grave pancada. Altruísta, é Pocas que, na defesa da baliza “azul e branca”, toma o lugar do lesionado colega. Mesmo sem ter conseguido evitar que 2 bolas tocassem o interior das redes, o médio acabaria por ser o herói da vitória por 4-2.
Depois de deixar o FC Porto em 1946, Manuel do Anjos regressaria à sua cidade natal de Chaves, passando a vestir as cores da Flávia Sport Clube. No emblema que, alguns anos mais tarde e por fusão com o Clube Atlético Flaviense, daria origem ao Grupo Desportivo de Chaves, o atleta acabaria por pôr um ponto final na sua carreira. Contudo e apesar de afastado dos campos de jogo, a sua ligação à modalidade manter-se-ia. Após ter migrado para Moçambique, seria na província da Beira que voltaria ao futebol. Durante alguns anos, o antigo internacional português exerceria as funções de treinador no Ferroviário.

895 - ESPÍRITO SANTO

Benfiquista desde que a memória o consente, seria a mudança para a Angola que permitiria a Espírito Santo dar os primeiros passos no futebol. Longe da sua Lisboa natal e do clube do coração, a melhor solução encontrada para dar seguimento à paixão pelo jogo da bola seria o Sport Luanda e Benfica. Na filial das “Águias” estaria até que a sua mãe, insatisfeita por o jovem dar mais atenção ao desporto que aos estudos, o mandar de volta à metrópole e a casa dos avós. Contudo, já na capital, os intentos da sua progenitora sairiam gorados. O atleta decide inscrever-se nos treinos do Benfica, agrada e fica!
Tendo a agilidade de reflexos e a velocidade como grandes armas, a sua habilidade para marcar golos também não ficava muito atrás. Tudo junto faria com que, logo de início, conseguisse impressionar os responsáveis técnicos. Vítor Gonçalves, sem medo de arriscar, decide apostar no jogador para substituir o incontornável Vítor Silva. No lugar do seu ídolo de infância, a estreia de Espírito Santo ficaria na história do clube. Nessa temporada de 1936/37, o avançado-centro tornar-se-ia no mais jovem de sempre a jogar e a concretizar um golo pela equipa principal. Aliás, muitos foram os recordes que coloririam a sua carreira. Frente ao Casa Pia, numa partida a contar para o “regional alfacinha”, 9 golos por si concretizados permitiriam o quebrar de mais uma marca. Todavia, e ainda nesse campo, onde mais metas conquistaria seria… no atletismo!
É curiosa sua história. Diz-se que num dia em que treinava futebol, a saída da bola pela lateral mudaria o rumo da sua vida. Indo atrás do esférico, e estando os atletas do salto em altura a treinar à beira do campo, Espírito Santo decide galgar por cima de um obstáculo que o atrapalhava naquela perseguição. Sem bem entender o porquê, aquele pulo surpreenderia todos aqueles que ali estavam. A razão? O jovem futebolista tinha conseguido, sem qualquer preparação prévia, elevar-se até onde nenhum dos praticantes da modalidade tinha ainda conseguido. Ora, tal exibição só poderia acabar de uma maneira. Com a sua inclusão na equipa de atletismo, os resultados não demorariam muito a aparecer. Após uma fase inicial de adaptação, no Verão de 1938 os recordes nacionais do salto em altura, salto em comprimento e triplo salto passam a ter o seu nome.
A selecção nacional, incontestavelmente, também faria parte do seu currículo. Ainda assim, seria no rescaldo de uma partida com as cores de Portugal que Espírito Santo encetaria um dos períodos mais negros da sua vida. Depois de um jogo disputado em Bilbau, o seu estado de saúde ficaria pior. Agravada uma doença pulmonar que o afectava há alguns anos, o único remédio foi afastar-se da prática desportiva. No entanto, aquilo que todos pensavam ser uma solução de curto prazo, prolongar-se-ia por mais de 3 anos. Findo esse calvário, o avançado regressaria na segunda metade de 1943/44. Passando a jogar a extremo, o atleta juntaria ao já ganho mais alguns troféus. No cômputo desses dois períodos, e só no futebol, o atacante venceria 4 Campeonatos Nacionais, 3 Taça de Portugal e 1 Campeonato de Lisboa.
Em 1950, e depois de ter capitaneado o Benfica durante diversos jogos, Espírito Santo decidiria ser a hora certa para “pendurar as chuteiras”. Contudo, o seu trajecto como desportista prosseguiria. Mantendo a ligação aos “Encarnados”, o antigo futebolista passaria a jogar ténis. O vínculo com o clube, que manteria até aos últimos anos da sua vida, transformar-se-ia em merecidas distinções. Em 2000, seria agraciado com a “Águia de Ouro”. Já em 2004, pela altura da comemoração dos 100 anos do emblema lisboeta, seria nomeado Presidente Honorário do Centenário.

723 - CALDEIRA

Apaixonado pelo futebol, decide formar um clube onde, com os seus amigos, pudesse praticar a modalidade. O Onze Estrelas, muito mais do que uma inocente brincadeira de rapazes, acabaria por servir de impulso para lançar Manuel Caldeira naquela que viria a ser a sua carreira como jogador.
É já após esses primeiros passos que, anos mais tarde, decide treinar-se no Lusitano Futebol Clube. A experiência acabaria por correr de feição e, tendo agradado aos responsáveis do clube, Caldeira começa por integrar as camadas jovens dos algarvios. Em 1944/45, com o emblema ainda na 3ª divisão nacional, dá-se a sua subida aos seniores. Depressa consegue afirmar-se com um dos bons elementos do grupo e, sendo um dos esteios da defesa, seria fulcral na ascensão dos de Vila Real de Santo António.
Com a chegada do Lusitano à 1ª divisão, Manuel Caldeira começa a merecer maior destaque no panorama do desporto nacional. Durante essas 3 temporadas que, entre 1947 e 1950, manteriam o clube entre os “grandes” do nosso futebol, o atleta consegue afirmar-se como um dos melhores a actuar no sector defensivo. Reconhecido como um batalhador nato, essa sua faceta guerreira, faz com o Sporting, à procura de renovar a sua equipa, o vá contratar àquela que era a principal delegação benfiquista no Algarve. Já em Lisboa, também não demorou muito tempo a conseguir um lugar no “onze” inicial. Os 9 anos que se seguiram, serviriam, salvas raras excepções, para o sublinhar com um dos principais esteios do futebol leonino.
Tendo partilhado o balneário com nomes como os de Albano, Jesus Correia, Travassos, Peyroteo, Vasques ou o guarda-redes Azevedo, Manuel Caldeira fez parte de um dos períodos de ouro da história do Sporting Clube de Portugal. Nesse sentido, não é estranho constatar que o seu currículo, no que toca aos títulos, é um dos mais recheados da sua época. 5 Campeonatos Nacionais, entre os quais o primeiro “tetra” do futebol português, e ainda 1 Taça de Portugal, abrilhantam uma carreira que também se vestiu com as cores das “cinco quinas”. Pela selecção, conseguiria 3 internacionalizações. Depois da estreia em Dezembro de 1954, frente à República Federal Alemã, eis que o seu percurso com a camisola do nosso país terminaria naquela que foi a primeira vitória de Portugal frente à Inglaterra.
Quando em 1959 termina a sua ligação ao Sporting, Manuel Caldeira volta ao Algarve. Na região onde nasceu, o jogador cumpre os derradeiros capítulos da sua vida como futebolista. Já nos escalões secundários, representa o Portimonense e, por fim, o Silves. Seria neste último emblema que faz a transição do “rectângulo de jogo” para o banco de suplentes. Ainda como treinador-jogador, consegue levar o clube da 3ª à 2ª divisão nacional. Depois, numa carreira que, durante largos anos, foi dedicada à formação de jovens, passou pelas “escolas” do Esperança de Lagos e do Portimonense. Como treinador no escalão sénior, o maior destaque acabariam por ser os serviços prestados ao emblema de Portimão.

695 - ANTÓNIO FELICIANO

Nascido no seio de uma família modesta, e órfão de pai desde tenra idade, António Feliciano entraria para a Casa Pia, ainda criança. Aí, ganharia paixão pelo futebol. Começaria por jogar nas equipas escolares para, com apenas 17 anos, passar à categoria principal do Casa Pia Atlético Clube.
Ainda no decorrer da sua primeira temporada como sénior, Alejandro Scopelli endereça-lhe um convite. Após assistir a um jogo para a Taça de Portugal, onde o Casa Pia defrontaria o Benfica, o antigo internacional argentino e uma das estrelas do Belenenses, pede a António Feliciano para ir treinar às Salésias. Nisto, através de Siska, o defesa recebe um convite do FC Porto – “Cheguei a estar hospedado na Pensão Alegria uns 15 dias. Mas senti-me deslocado, muito pequenino ao pé de jogadores como Carlos Pereira, Pinga, Guilhar, Pocas, Novas e, por isso, sem dar cavaco, meti-me no comboio e voltei para Lisboa”*. O regresso à capital, leva Feliciano a aceitar a primeira proposta. Contrato assinado numa das mesas da “Brasileira” e a “Cruz de Cristo”, daí em diante, passaria a ser a seu emblema.
A ligação do atleta com o Belenenses acabaria por durar quase década e meia. Como é óbvio, em tão longa união, muitos seriam os momentos que Feliciano guardaria na sua memória. Incontornavelmente, teremos que falar dos troféus. Nesse rol, também cabem a Taça de Portugal de 1941/42, e o Campeonato “Alfacinha” de 1943/44. Todavia, a melhor temporada do defesa ainda estava para vir. Em 1945/46, e já depois de vencer o “Regional” de Lisboa, o Belenenses parte para a disputa do Campeonato Nacional. Numa equipa recheada de internacionais, o jogador era parte integrante do melhor sector defensivo da altura. As “Torres de Belém”, como ficariam conhecidos Feliciano, Vasco e Serafim, acabariam por ser a base do maior sucesso da história do clube. Afrontando a hegemonia dos habituais candidatos, o Belenenses conseguiria ultrapassar Benfica, Sporting e FC Porto, acabando por erguer o troféu de campeões.
Como uma das figuras dos êxitos do Belenenses, Feliciano acabaria também por tornar-se, a nível nacional, num dos futebolistas de maior destaque. As constantes chamadas à selecção portuguesa seriam, disso mesmo, a prova. No entanto, ainda mais extraordinário, seriam os convites que passaria a receber. O primeiro, acabaria por chegar pela mão do mítico Zamora. O guarda-redes espanhol, numa altura em que os jogadores “lusos” rareavam no estrangeiro, proporia a Feliciano a passagem para o Celta de Vigo. A proposta incluía um contrato bem apetecível. Ainda assim, a resposta seria negativa. Depois, ao que consta, seguir-se-ia a vez do Vasco da Gama e, mais uma vez, o atleta negar-se-ia a uma mudança
Feliciano e o Belenenses terminariam a sua ligação no final da época de 1953/54. Numa altura em que o atleta já entrava nos derradeiros anos da sua carreira, o convite do Desportivo de Chaves fá-lo-ia mudar-se para Trás-Os-Montes. No emblema flaviense, emprestaria os seus conhecimentos sobre a modalidade e desempenharia as funções de treinador-jogador.
Também nos “bancos” a carreira de António Feliciano seria recheada de bons momentos. Com ligação ao Desportivo de Chaves, por onde ainda passaria mais algumas vezes, seria no FC Porto que viveria grande parte dos seus anos como treinador. Com uma pequena presença, interina, no plantel principal dos “Dragões”, o seu papel na “formação” do clube seria de enorme importância. Tendo visto reconhecido o mérito do seu trabalho, há que destacar, na lista de jogadores que passaram pela sua alçada, os nomes de Fernando Gomes ou Rodolfo Reis.

 
*retirado de “100 figuras do futebol português”, Jornal “A Bola”

684 - BALTAZAR

Com o início de carreira feito no clube da sua cidade natal, o Atlético Goianense, Baltazar destacar-se-ia quando, em 1978, e com apenas 19 anos de idade, consegue sagrar-se o Melhor Marcador do Campeonato Goiano.
Tal feito, levaria a que o Grêmio tratasse da sua mudança para o Rio Grande do Sul. Já na cidade de Porto Alegre, o papel que o atacante teria na ascensão do clube seria bastante importante. Com muitos golos da sua “conta pessoal”, Baltazar acabaria por ser fulcral na conquista dos “estaduais” de 1979 e 1980. Conseguindo, por duas vezes, ser o melhor marcador da referida prova, as suas prestações no “Brasileirão” acabariam por ser, igualmente, relevantes. O grande momento acabaria por acontecer na final de 1981. Nessa derradeira etapa, jogada em duas partidas, Baltazar acabaria por ficar na história. Tendo falhado uma grande penalidade na primeira mão, o golo que haveria de concretizar na visita à casa do São Paulo, daria o primeiro título nacional ao Grêmio – “Eu fico admirado com quantas pessoas eu encontro na rua e se lembram desse gol. Realmente ele foi muito marcante, pelas circunstâncias, pelo estádio do Morumbi, por estar jogando contra o São Paulo”*.
Durante esses anos, mais especificamente em 1980, Baltazar faria a sua estreia pela selecção brasileira. Curiosamente, e apesar de tido como um dos melhores avançados “canarinhos”, o atacante passaria mais de 8 anos sem receber uma única convocatória. Seria necessário conquistar um “Pichichi”, nome do troféu atribuído ao melhor marcador da “La Liga”, para este que voltasse a merecer tal chamada!
Ora, seria já como jogador do Atlético de Madrid, que voltaria a vestir a camisola do seu país. Tendo, desde a sua saída do Grêmio, representado clubes como Flamengo (campeão brasileiro em 1983), Palmeiras e Botafogo, Baltazar chega a Espanha na temporada de 1985/86. No Celta de Vigo, e mesmo com uma despromoção pelo meio, o ponta-de-lança brasileiro confirma a sua habilidade goleadora. Esse trajecto acaba por levá-lo aos “Colchoneros” e à companhia de um dos grandes astros do futebol “luso” – “Acusavam o Futre de ser egoísta. Mentira. Marquei 35 golos às custas dele”**. Ora, esses 35 remates certeiros, dariam a Baltazar, muito mais do que o título de Melhor Marcador de 1988/89, o empurrão necessário para o pôr de volta à selecção brasileira. Com o “Escrete”, participaria e acabaria por vencer a Copa América de 1989.
Com a chegada de Bernd Schuster ao emblema madrileno, e com as vagas para estrangeiros todas ocupadas, Baltazar acabaria por ser o preterido. É então que, seguindo a sugestão de Paulo Futre, o atleta decide mudar de rumo e viaja para Portugal. Tendo chegado já numa fase tardia, o avançado, para além do normal período de adaptação, seria confrontado com a concorrência de atletas como Kostadinov, Madjer ou Domingos. Com tudo isso, a experiência no FC Porto (1990/91) acabaria por não ser a melhor. Um ano passado após a sua chegada e o internacional brasileiro estava de partida e com algumas más memórias do treinador – “O Artur Jorge era distante, sisudo, muito rigoroso. Um disciplinador. Não quero exagerar, mas acho que nunca falou comigo. Isso também contribuiu para o meu desconforto”***.
Tendo ainda envergado as cores dos franceses do Rennes, Baltazar regressaria ao Brasil, já na fase descendente da sua carreira. Depois de uma passagem pelo Goiás, o fim da sua actividade como futebolista acabaria por acontecer no Japão e ao serviço do Kyoto Purple Sanga.


*retirado da reportagem feita para o programa “Jogos para Sempre”, em www.globosporte.com, a 12/08/2012
**retirado da reportagem de Pedro Jorge da Cunha, em www.maisfutebol.iol.pt, a 30/09/2013
*** retirado da reportagem de Pedro Jorge da Cunha, em www.maisfutebol.iol.pt, a 01/10/2013

589 - PATALINO

Foi um fenómeno do futebol nos anos 40 e 50, a par de outros nomes como Rogério Carvalho ou Peyroteo. Então, se foi assim tão prodigioso, porque quase ninguém o conhece???!!!
A história de Patalino é bastante peculiar e de uma paixão estranha aos dias de hoje. É Elvas, a sua cidade natal, que acaba por marcar a sua vida. Nela, dá os primeiros chutos na bola e seria também aí que atingiria o estrelato!
Já depois de ter vestido as camisolas do Sporting Elvense e do Clube de Futebol "Os Elvenses", aceita o convite para representar o Sport Lisboa e Elvas. A sucursal do Benfica, e, por esses tempos, a maior potência do Distrito de Portalegre, haveria de ser a sua porta de entrada para o futebol de alta competição. É, então, pela mão das "Águias" alentejanas, e após um curto empréstimo as Lanifícios de Portalegre, que Patalino chega à 1ª Divisão.
Nessa temporada de 1945/46, onde o seu nome era ainda uma incógnita, as suas qualidades iriam alterar o seu estatuto. De um porte físico imponente e com capacidades bem acima dos demais companheiros da modalidade, Patalino era um atacante rápido, possante e com um bom poder de elevação. Essas suas características faziam dele um avançado-centro de alto gabarito. O seu forte remate, a boa técnica ou até o jogo de cabeça, eram uma graça para quem o via jogar. Os golos, muitos, acabariam por o pôr lado-a-lado com grandes astros da altura.
É já com as cores do "O Elvas", clube nascido da fusão entre o Sport Lisboa e Elvas e Sporting de Elvas, que Patalino, em Maio de 1949, faz a sua estreia pela Selecção Nacional. Por essa altura, já o avançado era um nome consensual nos meios desportivos. Este sucesso, aliado à sua posição dentro de campo, projectava-o como o natural sucessor de outro grande nome do futebol lusitano. Ora, tanto para o Sporting, como com a "Camisola das Quinas", Patalino era o preferido para suceder a Peyroteo.
Mas, tal como agora, a imprensa da altura era pródiga em especulações. Muito se falou sobre a tal “sucessão” e, infundadamente, sobre as disputas entre ambos os atletas - "Eu e o Fernando [Peyroteo] somos bons amigos! Todas as rivalidades existentes entre nós são derivadas da imaginação, por vezes «maliciosa», de alguns jornalistas... Inclusivamente houve um que, interpretando mal as minhas palavras, declarou ao grande público que eu estava convencido que, se jogasse entre 2 interiores da categoria de Vasques e Travassos, já seria há muito tempo o melhor avançado-centro português!"*.
Apesar da muita tinta gasta no anúncio da passagem de testemunho, a verdade é que a transferência para os "Leões" nunca ocorreria. Patalino jamais haveria de se mudar... nem para o Sporting, nem para o Benfica, nem sequer para nenhum dos emblemas estrangeiros (Bordeaux; Atletico de Madrid; Sevilla; Real Madrid) que, igualmente, o assediariam. Estranho?!!! Sim!!! Mas a recusa do jogador era simples. Prendia-se, como o próprio chegaria a confessar, com "uma questão sentimental"; prendia-se com a vontade de nunca abandonar Elvas!
No entanto, o divórcio entre a cidade e o atleta, acabaria mesmo por acontecer. Com "O Elvas" relegado para o escalão secundário, e com o clube a mostrar sérias dificuldades para regressar aos patamares maiores do nosso futebol, Patalino acabaria por aceitar o convite de outro primodivisionário. O novo capítulo da carreira do internacional português, não o levaria para muito longe. Em Évora, agora com as cores do Lusitano, Patalino passaria as próximas temporadas.
Numa equipa recheada de bons jogadores, casos dos internacionais José Pedro e Dinis Vital, Patalino saberia conquistar o seu lugar. A jogar a extremo, ou como a ponta-de-lança, rapidamente se tornaria num dos elementos chave do “onze” eborense. A prova da sua relevância ficaria demonstrada a cada jornada disputada. No entanto, há jogos que perduram na memória. Um deles seria a deslocação do Lusitano à "Cidade Invicta". Essa partida, a contar para a Taça de Portugal, ficaria marcada pelo eliminação do FC Porto (0-2), com as assistências para golo, a serem ambas da autoria de Patalino.
O ano de 1956 marca o seu afastamento dos palcos maiores do nosso futebol. Longe das luzes da ribalta, o avançado começou a vogar por clubes dos escalões secundários. Esse seu périplo levá-lo-ia a representar o FC Serpa, o Luso do Barreiro e, numa carreira que perduraria para além dos 40 anos, a terminar no Arrentela.


* Publicado na Revista "Flama"; artigo de João J. Xara

505 - EMÍDIO GRAÇA

Por razão da "Lei de Opção" que, quase, impossibilitava um atleta movimentar-se de um clube para outro; porque o mediatismo era uma coisa de grandeza diferente; ou, simplesmente, por causa de serem outros os tempos, Emídio Graça poderá ter passado ao lado de uma carreira sensacional!
É verdade! Médio de pendor mais ofensivo, diz quem o viu em campo que a sua maneira de ler o jogo, de o pautar e construir, juntamente com uma técnica que zombaria de muitos "craques" actuais, faziam dele um fora-de-série.
No Vitória de Setúbal, numa altura em que os "homens do Sado" eram um sério afronto à hegemonia dos "Grandes", começou por demonstrar todas as suas habilidades. Foram vários anos em que a sua presença no meio campo sadino era, mais que uma constante, uma certeza de qualidade. Boas, foram as campanhas do Vitória sob a sua batuta. Nesses anos 50, um dos pontos altos da história do jogador terá sido a presença na final da Taça de Portugal de 1953/54. Do Estádio Nacional do Jamor siaria derrotado. Contudo, a sua exibição, e a dos seus companheiros, acabaria por convencer os adeptos. É verdade que no regresso à sua cidade, o tão desejado troféu não vinha na bagagem da comitiva. Mas o esforço demonstrado pelos atletas merecia um pouco mais. Foi então que um grupo de associados decide-se por uma pequena gratificação. Manda fazer a "Taça Recompensa" e, como sinal do seu agradecimento, oferece-a à equipa.
Ora, as temporadas que se seguiriam, também seriam de igual proveito para o centrocampista. É certo, os títulos não apareceram. No entanto, existem outras formas de reconhecimento que, de igual modo, consagram a carreira de um desportista. Uma delas, garantidamente, são as convocatórias para a selecção. Neste campo, Emídio Graça foi presença habitual entre 1955 e 1958. A sua estreia dar-se-ia em Glasgow, frente à congénere escocesa. Os 3 anos que se seguiram trouxeram ao atleta mais 11 internacionalizações, onde, só por uma questão de mesquinhez, poderei dizer que faltou um golo.
Incrivelmente, o seu afastamento da "Equipa das Quinas" dar-se-ia, em coincidência, com aquilo que poderemos considerar como o catapultar da sua vida profissional. Numa altura em que no futebol "luso", emigrantes era algo muito raro, Emídio Graça conseguiria cativar um emblema estrangeiro. 1000 contos, dizem, foi a quantia necessária para convencer os dirigentes do Vitória de Setúbal sobre a sua desvinculação. De seguida, rumou à Andaluzia para assinar contrato.
Já como jogador do Sevilla, impôs-se com a mesma paixão que sempre pôs no trato da bola. Titular, jogaria pelos "Rojiblancos" quase todas as partidas da temporada de 1958/59. Ainda assim, por razões que não consegui apurar, a sua passagem por Espanha foi curta. É verdade que a dita época, para a sua equipa, seria marcada pela atribulação e por várias "chicotadas psicológicas". Ainda assim, 3 treinadores e a despromoção evitada apenas ao "cair do pano", acabam por não justificar o seu prematuro regresso a Portugal.
No Verão de 1959 Emídio Graça volta a envergar a camisola listada do Vitória. Ao seu lado, tinha agora no plantel alguém da família. Numa espécie de sucessão, Emídio foi passando, nestes que seriam os últimos anos da sua carreira, a batuta do meio campo ao seu irmão mais novo. Jaime Graça, esse que se deu a conhecer ao mundo na campanha dos "Magriços", seria um fiel depositário da sua magia. Aliás o final da carreira de Emídio Graça, sempre no seu amado Vitória de Setúbal, coincidiria com mais uma presença na final da Taça de Portugal (1964/65). Desta feita, frente ao Benfica, os "Sadinos" sairiam vencedores. 3-1 seria o resultado da partida, e Emídio Graça, no derradeiro instante da sua carreira, veria o seu irmão na tribuna do Jamor, a erguer o troféu.

468 - CARVALHO

Nascido no Barreiro, foi nos clubes da sua cidade natal que Joaquim Carvalho começou na prática do futebol. Primeiro nas camadas jovens do Operário e, já com idade de sénior, no Luso, o guarda-redes logo deu nas vistas com exibições de gabarito superior. Estando ali um potencial jogador de classe, logo outros emblemas vieram a sondá-lo para uma possível transferência. Na linha da frente partiu o Benfica, mas, incrivelmente, o jovem atleta, nos treinos a que seria chamado, acabou por não agradar aos responsáveis técnicos das "Águias", regressando à Margem Sul do Rio Tejo. Claro está, sendo um praticante de tanta qualidade, as oportunidades para catapultar a carreira voltaram a surgir e a verdadeira chance apareceu, num particular frente ao Sporting, por ocasião do aniversário do emblema barreirense que representava.
Foi desse modo, contava Carvalho com 21 anos de idade, que, no Verão de 1958, chegou a Alvalade um guardião destemido, muito seguro entre os postes e com um físico imponente. Apesar dos incontestáveis predicados, a sua vida nos primeiros tempos de "verde e branco" não foi tão fácil quanto, à partida, era suposto. Ainda assim, logo na partida de arranque desse Campeonato Nacional de 1958/59, ronda disputada frente ao FC Barreirense, o guarda-redes conseguiu a estrear-se como titular. De seguida, como parte do “onze” do Sporting, ainda fez mais uma jornada. Porém, a partir desse momento, a defesa das redes leoninas acabou entregue a Octávio de Sá e o lugar à baliza só o voltou a agarrar passadas algumas épocas.
Coincidência, ou não, a temporada de 1961/62, campanha onde veio a assumir-se como um pilar dos “Leões, deu-lhe o primeiro título de campeão. Repetiu o feito por mais duas vezes – 1965/66 e 1969/70 – e venceu, também, a Taça de Portugal de 1962/63. Contudo, o troféu que mais marcou a sua carreira foi, sem qualquer sombra de dúvida, a edição de 1963/64 da Taça dos Vencedores das Taças. Pode dizer-se que Carvalho acabou como um dos principais obreiros dessa monumental campanha europeia. Todavia, se o facto de ter sido totalista na prova já é um bom testemunho da importância tida no referido sucesso colectivo, a sua presença em campo representou, para todos os colegas, muito mais do que a habilidade desportiva. Como é sabido, Carvalho sempre foi um Homem de convicções fortes, conhecido pelo carácter determinado e pela valentia. Um dos episódios contado a esse respeito passou-se no jogo que deu a vitória na competição. Nesse desafio da finalíssima, frente ao MTK de Budapeste, Pérides, num lance disputado a meio campo, acabou a encolher-se na luta pela bola. O resultado seria uma jogada perigosíssima dos húngaros e, para que o médio perdesse os nervos, um par de estalos dados pelo próprio guarda-redes!
Outro episódio, demonstrativo da sua forte personalidade e vontade de dizer sempre o que pensava, ocorreu já no Mundial de 1966. Em Inglaterra, o jogo de arranque para Portugal foi frente à Bulgária. Carvalho constou no alinhamento inicial. O pior é que, na partida seguinte, o seu nome veio a ser substituído pelo de José Pereira. O guardião, indignado com a situação ocorrida, acusou o seleccionador Manuel da Luz Afonso de ser anti sportinguista e acabou, pela própria vontade, por abandonar a selecção nacional, logo após o dito certame.
Polémicas à parte, Carvalho, por todos os episódios aqui relatados, e por muito mais, conseguiu tornar-se numa figura mítica do futebol português. Entre os "Leões", as suas 13 temporadas como jogador, mais umas quantas como treinador de guarda-redes, empurram-no para a categoria dos notáveis, acabando por, em 2011, ser distinguido com o Prémio Stromp.

311 - FERNANDO CABRITA

Após chegar à primeira categoria do Esperança de Lagos ainda em idade de juvenil, as suas qualidades futebolísticas rapidamente fizeram com que o Olhanense, à altura a maior potência algarvia da modalidade, levasse o atleta de 17 anos para as suas fileiras.
Com um enorme potencial, o crescimento do atleta não ficou pela referida transferência. Com o calendário a assinalar 11 de Março de 1945, contava 20 anos de idade, o avançado-centro foi chamado à estreia na selecção nacional. Contam os anais da modalidade que nesse encontro contra a Espanha, uma “partida” foi pregada ao jovem debutante! Como prenda pela internacionalização, ofereceram-lhe umas chuteiras novas que, ao fim de 90 minutos e muitas correrias com o calçado de cabedal ainda rijo, resultaram nuns pés completamente dilacerados. O mais curioso do episódio prendeu-se com o facto do seu treinador no emblema algarvio, ao prever a situação, ter viajado até Lisboa, carregando consigo o par que Fernando Cabrita normalmente utilizava. Porém, já à porta do balneário, o técnico foi impedido de entregar as botas ao jogador e não conseguiu evitar a maldade feita ao seu discípulo.
O ano de 1945 acabou por ser inesquecível para o jogador. Para além da primeira chamada à selecção portuguesa, Fernando Cabrita, ao serviço do Olhanense, chegou ao derradeiro desafio da Taça de Portugal. É certo que os algarvios saíram derrotados de contenda. Ainda assim, a fama do avançado manteve-se inabalável, com o assédio dos “grandes” da capital a acicatar-se. Recusou sair do Algarve. Todavia, em 1951, na sequência da despromoção do seu clube, decidiu arriscar-se por outras paragens e o destino levou-o às provas gaulesas e ao Angers. Em França viveu mais um episódio caricato. Frente ao Nantes, o defesa-central da sua equipa chegou ao intervalo com a “cabeça em água”. Ao confessar-se incompetente para segurar o avançado van Green, viu o treinador pedir a Fernando Cabrita para recuar no terreno de jogo e ocupar a posição no sector mais recuado. O resultado da alteração foi o melhor e o “pesadelo” holandês não voltou a tocar na bola!
O regresso do avançado a Portugal deu-se duas épocas depois da partida para França e o clube escolhido para continuar a carreira foi o Sporting da Covilhã. Influenciados ou não pela contratação, a verdade é que os "Leões da Serra" encetaram um trajecto em ascensão nas provas nacionais, com o ponto mais alto dessa caminhada a ser atingido em 1957, na final da Taça de Portugal.
Depois de “pendurar as botas”, Fernando Cabrita arriscou a carreira de treinador. Tão ou mais meritório do que a sua vida nos relvados, o percurso que fez à frente de vários clubes construiu-se de sucessos. Destacaram-se o Campeonato Nacional de 1967/68 em que, como "interino" na maior parte das jornadas da referida época, venceu a prova ao serviço do Benfica. Claro. É impossível esquecer a participação no Euro 84, onde, ao lado de Toni, José Augusto e António Morais, fez parte da famosa Comissão Técnica e onde levou a selecção portuguesa a atingir as meias-finais do torneio disputado em França.

271 - AUGUSTO SILVA

O “Leão de Amesterdão”, como ficou conhecido após a sua presença na cidade holandesa por altura dos Jogos Olímpicos de 1928, deveu a alcunha às prestações aguerridas, durante o certame internacional. Tais foram as exibições, que uma das suas míticas jogadas é, ainda hoje, recordada. O aludido lance ocorreu na segunda partida frente à Jugoslávia, quando, ao fim dos 90 minutos regulamentares de jogo, tudo estava empatado e ninguém parecia ter energia suficiente para continuar a partida. Como um verdadeiro guerreiro, Augusto Silva decidiu pegar no desafio e resolvê-lo. Agarrou na bola ainda bem longe da linha de baliza contrária. Destemido, avançou para cima dos adversários. Passou um, passou outro e passou por todos aqueles que no caminho da demanda vitoriosa se cruzaram. Já mais perto do objectivo, aplicou um indefensável e certeiro remate e ajudou Portugal a qualificar-se para a ronda seguinte.
Esta história pode ter sido, ao longo dos tempos, exaltada com algum romantismo. Porém, diz-nos a verdade que os potentes chutos foram sempre os seus lances predilectos. Diz-se que, com Augusto Silva, as bolas não chegavam a tocar no chão; diz-se que ele não perdia tempo e, quando ainda vinham no ar, aplicava-lhes um valente pontapé, marcando, desse modo, muitos golos. Maior valor assume essa faceta goleadora quando temos em consideração que o atleta jogou a médio-centro. Foi pelo espírito de liderança, que, durante anos, capitaneou o Belenenses; foi esse sentido a impeli-lo nos momentos mais aflitivos para mais perto do ataque. Outro bom exemplo de entrega revelou-o na final do Campeonato de Portugal de 1932. Mesmo retirado dois anos antes, foi incapaz de virar as costas aos "Azuis do Restelo". Nesse dia tão importante, o seu emblema estava a perder por 4-1 frente ao FC Porto. Nos derradeiros 15 minutos do encontro, o centrocampista decidiu avançar no terreno e posicionar-se como ponta-de-lança. O resultado? Um “hat-trick” e a resolução do troféu adiada para a finalíssima.
Acabou por não vencer essa edição da competição. Contudo, nos anos precedentes já tinha arrecadado 3 Campeonatos de Portugal e outros tantos “Regionais alfacinhas”. Aliás, não foi só como jogador que Augusto Silva fez as suas conquistas! É que na temporada de 1945/46, quando o Belenenses triunfou pela primeira e única vez no Campeonato Nacional, era ele o treinador da equipa.

198 - FANECA

A 27 de Abril de 1935, em Montemor-o-Novo, nasceu Fernando Salvador Faneca. Tal como muitos dos alentejanos seus conterrâneos, ao procurar fugir às agruras da vida no interior, cedo migrou em direcção à Grande Lisboa. Atrás de novas oportunidades e ao escolher o Barreiro para assentar arraiais, uma das portas que primeiro viu abrir-se foi a do Futebol Clube Barreirense. Ainda com idade de juvenil, sensivelmente 16 anos, pela primeira vez envergou o listado alvirrubro da histórica camisola da Margem Sul. O passo seguinte foram 19 anos, 17 dos quais na equipa principal, em que Faneca não conheceu, nas “andanças da bola”, nenhuma outra cor.
Só o facto de ter sido tão fiel ao Barreirense, por si só, é suficiente para pôr o jogador no rol dos notáveis do clube. A verdade é que o carinho que os adeptos têm por ele, vai para além do número de anos dessa relação. É por isso que, ainda hoje, a sua identidade é sinónimo de entrega e de dedicação. Por essa mesma razão, bem distante daquilo que era o homem fora do campo, Faneca tinha a fama de ser rijo e implacável nas acções defensivas. No entanto, muito mais do que temido pelos atacantes adversários, era, acima de tudo, um atleta respeitado e um nome que ocupou, nas palestras que antecediam as partidas, os habituais cuidados dos treinadores oponentes.
Durante tantos anos acompanhou o Barreirense nos bons, como nos maus momentos. Caminhou ao lado do emblema nas 8 temporadas consecutivas em que, nos anos de 1950, esteve na 1ª Divisão. De seguida, foi incapaz de largar o clube nas descidas e subidas que caracterizaram a década de 1960. Por fim, envergou a braçadeira de “capitão” e foi um dos principais intérpretes da 4ª posição no Campeonato Nacional de 1969/70 e na resultante ida às competições europeias do ano seguinte.
Já com 35 terminou a sua ligação contratual com o clube. Contudo, a vontade de praticar a modalidade estava longe de ter chegado ao fim e, reflexo da sua tenacidade, prolongou a carreira, entre o Luso do Barreiro e o Vasco da Gama de Sines, até aos 41 anos de idade.
Apesar da separação que marcou os seus últimos anos como futebolista, soube-se sempre a quem pertencia o seu coração. Era normal, já depois de “penduradas as botas”, encontrá-lo sentado nas bancadas a assistir aos encontros do Barreirense. Dizem também que, no dia em que deitaram abaixo o saudoso Estádio D. Manuel de Melo, não conteve a emoção e as lágrimas correram-lhe face abaixo.

194 - VITAL

Existem instantes capazes de mudar o rumo de uma vida. Assim aconteceu com Dinis Vital, médio nos escalões de formação da equipa da sua terra, o Grandolense, quando o habitual guarda-redes não compareceu a um jogo. Como já adivinharam, o elemento escolhido para substituir o faltoso foi aquele que, passados alguns anos e sem abandonar o referido conjunto alentejano, conseguiu estrear-se como sénior!
A rapidez de reflexos, a frieza e a valentia que, com apenas 18 anos, levaram o jovem praticante à categoria principal do emblema de Grândola, transformaram-se nas qualidades que, volvida apenas uma temporada, fizeram do guardião um dos reforços do Lusitano de Évora. Contratado para a temporada de 1951/52, o salto dado por Vital, enorme, fê-lo transitar das “distritais” para a 2ª divisão. No entanto, aquilo que, para muitos, teria sido um passo arrebatador, para o jogador foi encarado com uma naturalidade espantosa. A prova disso chegou com o Campeonato já a meio, pois, ao começar pelas “reservas”, acabou por destronar o habitual titular, Manuel Martelo.
A sua integração no alinhamento inicial, ainda na época de chegada ao Campo Estrela, teve um papel deveras importante no fortalecimento do “onze” e na subida do Lusitano ao principal escalão do futebol luso. O resto é fácil de contar! Foram 14 temporadas consecutivas na 1ª divisão, a defender o listado “verde e branco” dos eborenses. Durante esse período, por conta do estilo felino, ficou conhecido como “El Tigre de Évora”. Conseguiu também o maior prémio para qualquer desportista e recebeu a convocatória para representar a formação principal de Portugal. O encontro aconteceu a 16 de Maio de 1959, em Genebra, contra a congénere suíça. Nisso de internacionalizações, apesar do jogo referido ter sido a única chamada à selecção “A”, pelo seu país também vestiu as camisolas do conjunto “B” e da equipa “Militar”. Aliás, por esta última teve a honra de sagrar-se campeão mundial.
A ligação de Vital ao emblema da “Cidade de Diana” só terminou em 1966 e com a descida de divisão dos alentejanos. Rumou, então, à foz do Rio Sado e a Setúbal. No Vitória Futebol Clube, ao lado de nomes como Conceição, José Maria, Jacinto João, entre outros, brindou os últimos anos da carreira com momentos de enorme nível, como serve de exemplo a conquista da Taça de Portugal de 1966/67. Já o fim da caminhada como futebolista, passou-o ao serviço do Juventude de Évora e, depois, na condição de treinador-jogador, com as cores do União de Montemor.
Ao aproveitar a fase de transição, que incluiu o regresso ao Juventude de Évora, Vital, com o Dinis a figurar, em definitivo, à frente do apelido, continuou a vida de técnico. Nessa senda passou, maioritariamente, pelos escalões secundários. Contudo, ao comando do Farense, o antigo guarda-redes ainda conseguiu uma experimentar a 1ª Divisão.

126 - CRUZ

Apesar de ter começado com o “verde e branco” do Sporting Clube da Liberdade, emblema de Campolide, seria o “vermelho” que acabaria por colorir a sua maior devoção desportiva.
Com 16 anos, e depois de descoberto pelas “Águias”, Fernando Cruz mudar-se-ia para o “Lar do Jogador”. Depois de 3 temporadas a habituar-se ao peso da camisola do Benfica, a revolução perpetrada por Béla Guttmann encontrá-lo-ia preparado para a responsabilidade de subir à equipa principal. No sector mais recuado ou meio-campo, principalmente no lado esquerdo do rectângulo de jogo, a sua competência rapidamente faria com que passasse a assumir um papel preponderante na manobra táctica do treinador húngaro. Num conjunto cheio de brilhantes executantes, o jovem jogador não deixaria intimidar-se. A bola não o atrapalhava. A ela entregava-se com a dureza típica dos defesas da sua época, mas ao contrário de muitos dos seus colegas de posição, era um intérprete de técnica evoluída.
As inúmeras metas ultrapassadas durante a sua carreira, depressa tornariam o mérito de um lugar no “onze”, numa normal farda de trabalho. Seria, no entanto, na sequência da titularidade conquistada bem cedo que medrariam toda uma série de êxitos. Na caminhada como futebolista, ao lado de Coluna e José Augusto, tornar-se-ia num dos 3 atletas que participariam em todas as 5 finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus que o Benfica disputaria durante a década de 60. Às vitórias nas edições de 1961 e 1962 da referida competição, juntar-se-ia a glória de vencer 8 Campeonatos e 3 Taças de Portugal. Ainda assim, o tempo haveria de delimitar a sua vivência de “encarnado”. Depois de 11 anos como sénior, a sua paixão pelas “Águias” assumir-se-ia ainda mais na altura de tomar uma decisão para o resto da carreira. Quando chegou a dispensa, ao saber que seria incapaz de jogar contra o seu clube, recusaria todos os convites endereçados por emblemas portugueses e acabaria por vestir as cores dos franceses do Paris Saint-Germain.
Também a selecção faria parte do seu percurso. Chamado por Manuel da Luz Afonso, viajaria com os "Magriços" para Inglaterra. Mesmo sem ter sido utilizado pelo treinador Otto Glória, Cruz inscreveria o seu nome no rol de atletas que conquistariam para Portugal o 3º lugar no Mundial de 1966.

124 - GERMANO

Só chegou ao Benfica aos 27 anos. Na bagagem trazia a experiência de 9 temporadas nos seniores do Atlético. Ainda ao serviço do emblema de Alcântara, bairro onde nasceu, uma doença quase que hipotecava a sua carreira. Em 1956, atacado no sistema respiratório, passou por um internato tão prolongado que pôs-se em causa a sua continuidade no futebol. Porém, e quando tudo parecia fugir-lhe por entre os dedos, tenaz, venceu a maleita e regressou aos campos mesmo a tempo de ingressar no clube da “Luz”.
A sua primeira época no Benfica não poderia ter corrido melhor. Em 1960/61, a sua estreia coincidiu com a vitória na Taça dos Clubes Campeões Europeus. Para a referida conquista, muito contribuíram as suas exibições. À custa delas viria a ser considerado um dos melhores defesas-centrais do Mundo. Sem dúvida, Germano era completo. O atleta aliava a sua bravura a um bom domínio de bola e a uma capacidade de passe bem acima da média. Essas suas características fizeram dele um dos jogadores mais elegantes e de maior importância nas glórias benfiquistas.
Conquistou os principais títulos da sua carreira, nas duas primeiras épocas ao serviço das “Águias”. Mas há outro momento na sua caminhada com o Benfica, que muitos ainda recordam. Na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1965, disputada frente ao Inter de Milão, Costa Pereira acabou por sair de campo lesionado. Numa altura em que as substituições ainda não faziam parte do futebol, Germano, reflectindo toda a sua abnegação, coragem e sentido de liderança, recuou no campo e, mesmo aleijado, continuou a partida na defesa das redes. Não ganhou o jogo, mas naquele desafio, sob a sua guarda, a baliza dos “Encarnados” não seria mais violada.
Foi esse seu crer, a maneira como assumia os riscos, que acabou por conferir ao defesa, na única partida que disputou no Mundial de 1966, o direito de envergar a braçadeira de capitão da selecção nacional. Todavia, muito para além da uma atitude exemplar dentro do campo, Germano também primou pela sua postura fora dele. Na sua vida privada, Germano soube privilegiar a cultura e os livros, acabando por, dessa maneira, conseguir destacar-se das demais estrelas de que foi colega.