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1773 - RAUL FIGUEIREDO

Filho de Raul Figueiredo “Tamanqueiro” e irmão mais velho de Manuel Filipe Figueiredo, antigo atleta do Benfica e do Torreense, Raul António Leandro de Figueiredo também viria a brilhar no futebol. Curiosamente, só com alguma idade é que o futuro defesa-central acabaria convencido a iniciar-se na modalidade. Primeiro, ao dar seguimento à sugestão de um velho amigo do pai, tentaria o Benfica. Ao falhar nos testes, passados uns tempos, por insistência do patrão da altura, viria a prestar provas no Belenenses. Mais uma vez ficaria aquém do esperado e só numa segunda tentativa haveria de conseguir ser aprovado pelos responsáveis técnicos dos “Azuis”.
Com a entrada nas “escolas” do Belenenses a acontecer em 1945, Raul Figueiredo teria na temporada de 1948/49 a derradeira campanha como júnior. Depois viria a passagem pelos “reservas” e ainda na época de 1949/50, no âmbito de uma digressão pela Alemanha, a estreia pelo conjunto principal. No entanto, apesar de aferido como um elemento de enorme potencial, o jogador, durante alguns anos, apenas conseguiria conquistar um lugar na equipa de secundária dos homens da “Cruz de Cristo”. A mudança de paradigma, com a primeira aparição, numa partida oficial da equipa de honra a acontecer pela mão de Fernando Vaz, começaria a despontar apenas em 1952/53. Ainda assim, a titularidade só viria a assumi-la na época seguinte e numa altura em que Feliciano já começava a aproximar-se do final da ligação ao clube lisboeta.
Daí em diante Raul Figueiredo passaria a figurar como um das figuras centrais nas metas traçadas pelo grupo de trabalho. Um dos momentos que viria a marcar a sua carreira acabaria por ser o Campeonato Nacional de 1954/55, perdido nos instantes finais da prova – “Foi a quatro minutos do fim, Di Pace cometeu falta a meio campo: Travassos marcou o «livre» para Mokuna. Avancei para o congolês e ele rematou contra a minha perna direita, ressaltando a bola para o lado de Martins, que estava desmarcado, pois Pires, na ânsia de me ajudar, deixara-o em liberdade. O Martins estava em «off-side», mas como a bola me batera na perna, estava em jogo quando rematou e fez o tento… Nem quero pensar na mágoa que senti… Foi tremendo!”*
Outro desses episódios surgiria, já com Raul Figueiredo a capitanear a equipa, na inauguração do Estádio do Restelo, a 23 de Setembro de 1956. Também entraria nesse rol de importância, apesar da sua ausência na final, a vitória na Taça de Portugal de 1959/60. No entanto, pelo meio de tantos momentos inolvidáveis, as 3 internacionalizações alcanças por Portugal tomariam outro peso na edificação da sua carreira. Tido como um intérprete incansável, de invejável estampa física, bom no jogo aéreo e com capacidade para controlar a bola com ambos os pés, o defesa-central teria, a 3 de Junho de 1959, a primeira partida disputada com as cores lusas. Depois de já ter sido convocado, sem entrar em campo, para os trabalhos da equipa “B” e até ter representado a selecção de Lisboa, o “amigável” frente à Escócia, durante o qual seria conduzido por José Maria Antunes, daria início a um trajecto que, ainda no decorrer do mesmo ano civil, dar-lhe-ia, no âmbito do apuramento para o Europeu de 1960, mais duas partidas frente à Republica Democrática da Alemanha.
Por fim, com termo da sua carreira como futebolista a acontecer no encerramento das provas agendadas para a temporada de 1959/60, falta assinalar os números a consagrar uma caminhada dedicada, em exclusivo, ao Belenenses e no espraiar da qual, num total de 11 épocas enquanto sénior, o defesa-central participaria em 126 jogos oficiais.

*retirado da entrevista publicada na revista “Crónica Desportiva nº25”, a 29/09/1957

1691 - RAUL MOREIRA

Com a formação terminada ao serviço do Carcavelos, seria também no emblema da Linha de Cascais que Raul Francisco dos Santos Moreira, na campanha de 1952/53, chegaria a sénior. Mesmo ao representar uma equipa modesta, a verdade é que os seus desempenhos seriam suficientes para justificar a mudança para um dos maiores emblemas lusos da altura. No Belenenses a partir da temporada de 1953/54, o jovem jogador ainda teria de esperar mais uma época para chegar à equipa principal e esse objectivo, no decorrer do Campeonato Nacional a dar a 2ª posição aos “Azuis” na 1ª divisão de 1954/55, cumprir-se-ia com a chamada do técnico Fernando Riera.
Tendo também actuado a médio, seria como defesa que Raul Moreira mereceria os mais rasgados elogios. Aferido como um intérprete rápido e com uma boa leitura de jogo, a temporada de 1955/56 serviria para consagrá-lo como uma das grandes figuras a actuar nas provas lusas. A justificação para tal acréscimo de valor viria, essencialmente, com as chamadas às selecções. Começaria, na referida época, pela equipa “militar”. Nesse contexto competitivo, o ponto alto, através da chamada de Ribeiro dos Reis e com Otto Glória como treinador de campo, vivê-lo-ia, com presença na final do certame, na vitória portuguesa na edição de 1958 do Torneio Internacional Militar. Representaria igualmente o conjunto “B”, com a estreia, frente a um agregado do Sarre (região pertencente à Republica Federal da Alemanha), a acontecer a 3 de Junho de 1956. Posteriormente, a 16 de Junho de 1957, emergiria finalmente a oportunidade de vestir a principal “camisola das quinas” e, pela mão de Tavares Silva, num particular forasteiro frente ao Brasil, alcançaria 1 internacionalização “A”.
Voltando ao cenário clubístico, a temporada de 1955/56 serviria também para cimentar Raul Moreira como um dos titulares do Belenenses. Tal estatuto cimentá-lo-ia como um dos principais esteios da equipa lisboeta na luta pelos lugares cimeiros das competições de índole interno. Curiosamente, seria numa altura em que já tinha deixado de ser hegemónico nas escolhas dos técnicos que o defesa seria chamado, por Otto Glória, a disputar a final da Taça de Portugal. No duelo frente ao Sporting, esgrimida a contenda no Estádio Nacional, o jogador faria parte do “onze” inicial, daria um enorme contributo para a vitória dos “Azuis” por 2-1 e sairia do Jamor com o troféu correspondente à conquista da edição de 1959/60 da “Prova Rainha”.
Com a ligação de 8 anos ao Belenenses a terminar no final das provas agendadas para 1960/61, Raul Moreira acabaria por prosseguir a caminhada competitiva com outras cores. Depois do Restelo, sem sair da 1ª divisão, seguir-se-ia o Estádio Mário Duarte, a descida de escalão nessa época de estreia pelo Beira-mar e, na disputa do 2º escalão, outra campanha passada em Aveiro. Por fim, em definitivo afastado dos palcos principais do futebol português, apareceriam o regresso a Lisboa, para representar o Atlético, e o fim da carreira de futebolista, após envergar as insígnias do União de Lamas de 1965/66.

1572 - CARLOS SILVA

Sobre Carlos Silva é fácil saber que a única chamada à principal selecção lusa ocorreria a 1 de Dezembro de 1929. Nessa partida disputada em San Siro, chamado à contenda frente à Itália por Almiro Maia de Loureiro, o guardião partilharia o relvado com José Silva, seu colega no União Lisboa. Num conjunto também composto por António Pinho, Augusto Silva, Pepe, Valdemar Mota ou Vítor Silva, Portugal sairia de Milão esmagado por 6-1. Ainda assim, o momento seria grato para o atleta, que passaria a acrescentar 1 internacionalização ao currículo pessoal.
Existe ainda outro episódio, por ser importante nas provas lusas, do qual também é simples achar diversos registos. Refiro-me à final do Campeonato de Portugal de 1928/29, em que o União Lisboa, com Carlos Silva no “onze”, sairia do Campo da Palhavã derrotado pelo Belenenses. No entanto, ao querer aprofundar mais aquele que terá sido o percurso clubístico do guarda-redes, tendo em contas as dificuldades em descobrir referências, coevas ou não, acerca do futebol dos anos de 1920 e 1930, a verdade é que a informação encontrada é pouca. Ainda assim, tais dados não são impossíveis de achar. Com essa ideia em mente, embrenhei-me em algumas publicações que fui encontrando. O resultado, ao não ser totalmente satisfatório, ainda assim permitiu-me dar mais alguma cor à caminhada do referido atleta e deu-me a possibilidade de deixar-vos uma singela “rapsódia” desses passos.

  • Ilustração Portuguesa (Edição semanal do Jornal O Século) – 27/10/1923; Vitória FC 4; União Lisboa 2 – Estádio do Campo Grande; Campeonato Lisboa (2ª divisão) – Alinhamento do “União: Guarda-rêde, Carlos Silva; defesas, João Duarte e Claro Duarte; medios, J. Maria Rodrigues, Antonio Flores e Antonio dos Santos; avançados, Mario Pereira, Liberto dos Santos, Julio Filipe, José Alves e José Nunes”.
  • Stadium; 30/11/1932 – União Lisboa 4; Sacavenense 1 – Campo de Santo Amaro; 4ª jornada do Campeonato de Lisboa – “Uma jogada perigosa: Carlos Silva salva um «goal», que um seu companheiro de clube pretendia enfiar-lhe…” (legenda a foto).
  • Diário de Lisboa; 08/01/1933 – União Lisboa 2; Carcavelinhos 0 – Campo de Santo Amaro; 6ª jornada do Campeonato de Lisboa – “As duas «equipes» jogaram bem e os dois guarda-redes – Carlos Silva, do União, e Francisco Lopes, do Carcavelinhos – tiveram esplendidas intervenções.
  • Diário de Lisboa; 12/02/1933 – União Lisboa 0; Sporting 3 – Campo de Santo Amro; 9ª jornada do Campeonato de Lisboa – “O primeiro tempo terminou por 1 a 0, a favor do Sporting, tendo o «goal» sido marcado, a 2 minutos do intervalo, por intervenção de Gralho que aproveitou com oportunidade e um belo «shoot» um centro de Mendes. Carlos Silva não teve possibilidades de defesa”.
  • Diário de Lisboa; 19/02/1933 – Benfica 4; União Lisboa 0 – Campo das Amoreiras; 10ª jornada do Campeonato de Lisboa – “No último quarto de hora Xavier, numa jogada pessoal, e com sucessivos «driblings», logrou levar a bola até às redes de Carlos Silva, que defendeu”.
  • Stadium, 22/03/1933 – Carcavelinhos 2; União Lisboa 1 – Campo da Tapadinha; 12ª jornada do Campeonato de Lisboa – “Almeida, Viriato e Carlos Silva, foram os únicos que tentaram sobreviver à «catástofre» mas no final do encontro também desnortearam um tanto”.
  • Diário de Lisboa; 30/04/1933 – Sporting 3; União Lisboa 1 – Estádio do Campo Grande; 14ª jornada do Campeonato de Lisboa – “O Sporting esteve pouco tempo na situação de vencido e empatou aos 5 minutos, por intermédio de Valadas, depois de grande confusão em frente de Carlos Silva”.
  • Diário de Lisboa; 11/05/1933 – União Lisboa 0; Belenenses 3  – Campo de Santo Amaro; 18ª jornada do Campeonato Lisboa – “O «goal» do Belenenses, feito contra a toada do jogo, foi marcado aos 15 minutos de jogo. Heitor, sozinho, realizou um «sprint», e à entrada grande área fez um remate de fácil defesa. Mesmo assim, Carlos Silva deixou-se bater inexplicavelmente”.

Com certeza que, nesta compilação, terão reparado numa particularidade, a qual é alheia a minha vontade e pesquisa. É verdade, pouco mais consegui do que alguns registos referentes à edição de 1932/33 do Campeonato de Lisboa! Todavia, para concluir este texto, falta referir que existem fontes a asseverar a participação de Carlos Silva nas provas agendadas para as épocas de 1928/29, 1929/30 e 1934/35.

1569 - ARTUR DYSON

Depois de cirandar pelas categorias inferiores, Artur Dyson estrear-se-ia no conjunto principal do Benfica a 27 de Outubro de 1929. Até aqui tudo parece ser consensual. No entanto, é como consequência do referido dia que surge a primeira “polémica” na carreira do guardião. Ora, o atleta terá nascido a 9 de Janeiro de 1912 ou, segundo outras fontes, a 11 de Janeiro de 1911*. Fiando-nos na data inicialmente apresentada e a mais comumente veiculada, o jogador continua a ser o guarda-redes mais novo de sempre a envergar as cores da primeira equipa dos “Encarnados”. Porém, se atendermos como verdadeira a referência seguinte, então esse recorde, quebrado 14 de Outubro de 2017, será de Mile Svilar.
Controvérsias à parte, a verdade é que Artur Dyson, lançado pelo treinador Arthur John numa partida frente ao União Lisboa, depressa viria a ser aferido como uma das grandes promessas do desporto luso. Indivíduo de enorme elasticidade, justificada a excelente condição física pela afincada prática de natação e de pólo aquático, o guarda-redes assumiria facilmente a titularidade no Benfica. Já como elemento habitual no “onze” das “Águias”, o jovem atleta seria chamado aos trabalhos da Federação Portuguesa de Futebol. Arrolado por Tavares da Silva a uma peleja frente à Bélgica, o encontro, marcado a 31 de Maio de 1931 no Lumiar, encetaria uma caminhada que, já na condição de membro integrante do plantel do Sporting, ainda somaria outras 3 internacionalizações “A”.
Tal como destapado no parágrafo anterior, Artur Dyson, após ajudar o Benfica, com presença em ambas as finais, à conquista de 2 Campeonatos de Portugal, passaria a representar o Sporting. Nos “Leões” a partir da temporada de 1931/32, onde voltaria a trabalhar sob a intendência de Arthur John, o guardião, contratado com o intuito de preparar a sucessão de Cipriano Santos, rapidamente assumiria uma posição de destaque no plantel dos “Verde e Brancos”. Contudo, o atleta, conhecido pelo temperamento impertinente, começaria rapidamente a acumular os mais variados celeumas. No rol desses alaridos, por entre uma agressão a um jornalista, as declarações públicas contra os estágios da equipa e ainda as “birras” com a perda da titularidade, o guardião passaria também a ser apontado pela falta de concentração revelada durante o desenrolar das partidas. Aliás, seriam essas distracções que levariam os colegas de posição a tomar-lhe o lugar. Ainda assim, a sua contribuição resultaria num bom rol de títulos para o emblema “alfacinha” e nas 6 temporadas leoninas auxiliaria à vitória em 3 Campeonatos de Lisboa e em 1 Campeonato de Portugal.
Apesar das qualidades reconhecidas, a presença no plantel leonino de João Azevedo faria com que Artur Dyson perdesse a preponderância de anos anteriores. Tal ocaso chegaria a uma tal severidade que o guarda-redes, no decorrer da campanha de 1936/37, não haveria de contabilizar qualquer partida oficial. Seguir-se-ia, ainda no futebol, uma época integrado no plantel de 1937/38 do Belenenses, onde, mais uma vez, haveria de arranjar umas quantas altercações. Depois, resultado da inegável paixão pelo desporto, surgiria a carreira de árbitro internacional de Hóquei em Patins, a qual duraria até aos 55 anos de idade.

*retirado de https://www.sportingcanal.com/?p=1010 (especial atenção para os comentários à publicação)

1378 - MIGUEL ARCANJO

Revelado pelo Sporting de Benguela, Miguel Arcanjo, com pouco mais do que a maioridade atingida, em Junho de 1951 haveria de embarcar em direcção a Portugal, com o destino a apontá-lo ao FC Porto. No entanto, aquilo que era um sonho prestes a concretizar-se, tomaria os contornos de um susto enorme. Durante a longa viagem de barco, o defesa viria a sofrer uma infecção na vista esquerda, o que acabaria por atrapalhar a sua integração desportiva. Alertados para o facto, os responsáveis pelo emblema portuense depressa agarrariam o assunto com as próprias mãos e acabaria por ser o Doutor Abílio Urgel Horta, oftalmologista e Presidente dos “Azuis e Brancos”, a comandar a difícil recuperação do jovem praticante que, só por sorte não perdeu a visão.
Com o fim do recobro, ainda assim Miguel Arcanjo não teria grandes facilidades nos primeiros anos a trabalhar com o FC Porto. Inicialmente integrado na equipa de “reservas”, só na temporada de 1953/54 é que o defesa conseguiria estrear-se pelo conjunto principal. Por essa altura treinado por Cândido de Oliveira e, na época seguinte, por Fernando Vaz, só com a entrada para o comando técnico de Dorival Yustrich, é que seria dada a oportunidade ao atleta para ocupar, com bastante regularidade, um lugar como titular. A partir dessa temporada de 1955/56, ao lado de colegas como Virgílio ou Osvaldo Cambalacho, o jogador passaria a ser tido como um dos pilares dos “Dragões” e a estabilidade que daria ao sector mais recuado da equipa logo traria resultados, com o FC Porto a conquistar a “dobradinha”.
No que diz respeito a títulos, Miguel Arcanjo, ao serviço do FC Porto, ainda ajudaria a conquistar outro Campeonato Nacional e mais 1 Taça de Portugal. Porém, o maior prémio viria com as chamadas às diferentes selecções portuguesas. Tendo integrado o conjunto militar, pelo qual venceria o Campeonato Europeu de 1958, e também o conjunto “b”, a sua estreia com a principal “camisola das quinas” dar-se-ia a 26 de Maio de 1957. Aferido como um elemento de surpreendente recorte técnico, característica pouco usual para alguém da sua posição, as qualidade apresentadas dentro de campo levariam Tavares Silva a chamá-lo para uma partida da Fase de Qualificação para o Campeonato do Mundo organizado na Suécia. Depois dessa vitória por 3-0 frente à Itália, o defesa continuaria a ser arrolado às pelejas lusas e arrecadaria, no cômputo da sua caminhada futebolística, 9 internacionalizações “A”.
Voltando àquilo que foi o seu percurso com o FC Porto, houve outros momentos, sendo os mesmos de fulcral importância no erigir da história do clube, que não poderia deixar de referir. Um deles, como resultado de uma, das já aludida nos parágrafos anteriores, vitórias no Campeonato Nacional, seria a estreia, tanto da colectividade nortenha, como a de Miguel Arcanjo, nas competições sob a intendência da UEFA. Nesse capítulo, na sequência do triunfo naquela que é a principal prova do calendário futebolístico português, viriam as partidas frente ao Athletic Bilbao. Com o defesa a ser chamado ao “onze” em ambas as mãos, infelizmente para os “Azuis e Brancos”, a eliminatória referente à edição de 1956/57 da Taça dos Clubes Campeões Europeus não correria de feição e a agremiação basca ganharia o embate ibérico.

1358 - MORATO

Dividiria o percurso formativo entre o Charneca e o Sporting, mas seria ao serviço dos “Leões” que António Henriques Morato, no decorrer da temporada de 1956/57, acabaria por dar o salto para as competições seniores. Inicialmente a jogar pela equipa de “reservas”, o defesa-central, que também podia posicionar-se em lugares do sector intermediário, passaria os dois anos seguintes, ao da saída das “escolas” leoninas, longe das cogitações da categoria principal. Já na campanha de 1958/59, a história mudaria e a referida época, com o uruguaio Enrique Fernandez e, após a saída deste, com Mário Imbelloni no comando técnico da agremiação lisboeta, daria a estreia ao jogador no escalão máximo do futebol português.
As épocas seguintes, principalmente a partir de 1960/61, revelariam Morato como um dos grandes esteios do sector mais recuado do Sporting Clube de Portugal. Ao mostrar-se como um elemento deveras regular e, sem grandes exuberâncias técnicas, como um futebolista bastante fiável, o atleta, titularíssimo durante duas temporadas, acabaria por ser um dos grandes nomes associados à conquista do Campeonato Nacional de 1961/62. Paralelamente às exibições feitas com a camisola listada verde e branca, surgiriam também as oportunidades com o equipamento dado às pelejas da selecção nacional. Nesse contexto, depois de, a 8 de Dezembro de 1960, ter representado a equipa “B” lusa, a Fase de Apuramento para o Mundial de 1962 dar-lhe-ia a chance de entrar em campo pelo conjunto principal. A partida, sob o comando técnico de Fernando Peyroteo, seria jogada a 8 de Outubro de 1961 e resultaria numa derrota forasteira frente ao Luxemburgo.
Depois desse tempo, intervalo que viria a tornar-se no período áureo da sua carreira desportiva, a presença no plantel do internacional português Lúcio, levaria Morato a perder a titularidade. Como resultado dessa mudança, o defesa-central, sem grande espaço no Sporting, cederia o destino à ideia de um empréstimo. Com a passagem, na campanha de 1963/64, pelo Vitória Futebol Clube a devolvê-lo às presenças habituais no “onze”, o grande revés da experiência vivida pelo atleta no emblema sediado na cidade de Setúbal, prender-se-ia com o facto de o jogador ter passado ao lado da época que encaminharia os “Leões” até à conquista da Taça dos Vencedores das Taças.
Morato, na época de 1964/65, ainda voltaria a integrar o plantel do Sporting. Contudo, tal como na campanha que precederia a sua ida até à margem norte do Rio Sado, o regresso não devolveria o jogador aos números de campanhas transactas. Mais uma vez, mas dessa feita a título definitivo, o defesa tomaria a decisão de deixar Alvalade para prosseguir a carreira noutras paragens. Seguir-se-ia, ainda na 1ª divisão, o Lusitano de Évora. Depois do ano cumprido no emblema alentejano, surgem algumas dúvidas sobre a sua carreira. Com fontes a dar o atleta, em 1966/67, no Barreirense e outras dá-lo como futebolista da CUF, a única certeza viria com o seu retorno à capital, para, nas disputas do patamar secundário, competir a temporada de 1967/68 ao serviço do Oriental.

1342 - RIBEIRO DOS REIS

Começaria na prática do futebol ainda como aluno da Casa Pia. No entanto, a sua paixão pelo desporto e em particular pelo “jogo da bola” encaminhá-lo-ia na direcção do Benfica. Agradados com as suas habilidades, os responsáveis pelo emblema lisboeta integrá-lo-iam nas camadas inferiores do clube. Na época seguinte, a de 1914/15, seria promovido à categoria principal, onde daria continuidade à ligação à modalidade.
Como futebolista, em paralelo com as participações vitoriosas no atletismo benfiquista, António Ribeiro dos Reis destacar-se-ia como um avançado-centro rápido e, acima de tudo, bastante lutador. A faceta abnegada mantê-lo-ia ligado ao clube para o resto da vida. Nas actividades de jogador, nas quais participou até à campanha de 1924/25, ajudaria as “Águias” a conquistarem 4 Campeonatos de Lisboa e 2 edições da “alfacinha” Taça de Honra. Ainda como praticante, representaria Portugal, a 18 de Dezembro de 1921, na primeira peleja internacional. Multifacetado no desporto, tal como na vida, no contexto da partida disputada, frente à Espanha, no madrileno Estádio Manzaranes, acabaria a cumprir diversos papéis. Depois de entrar em campo e desempenhar as funções de atacante, seria também dele a cobertura jornalística para o “Sport de Lisboa”. Para terminar, no banquete de encerramento do evento e com a laringite do dirigente luso responsável pelas exéquias finais, seria dele a responsabilidade de ler o discurso oficial da União Portuguesa de Futebol.
Para além das actividades como atleta, Ribeiro dos Reis desempenharia outras funções no futebol. Como dirigente, também ao serviço do Benfica, cumpriria vários exercícios. Na arbitragem, como profundo conhecer das normas, destacar-se-ia como o primeiro português a integrar a Comissão de Regras da FIFA e, em tom de curiosidade, a fazer parte da promoção da lei a proibir o uso das meias para baixo. Porém, a sua faceta de maior destaque na modalidade, levá-lo-ia às experiências enquanto treinador. Nesse campo representaria o Benfica, tal como a equipa nacional portuguesa. Pelos “Encarnados”, seria responsável por um diverso número de glórias, nas quais mereceriam relevo as vitórias no Campeonato de Lisboa de 1932/33 e na Taça de Portugal de 1952/53. Já à frente das cores lusas, estrearia diversas “tradições”. Nesse sentido, seria o primeiro a trabalhar, sozinho, como seleccionador; seria o primeiro, numa partida frente à Itália, a encaminhar Portugal para uma vitória internacional; seria o primeiro, na condição de técnico, a participar num jogo de qualificação para o Mundial.
Também como jornalista, o nome de Ribeiro dos Reis acabaria por merecer os maiores louvores. Para além dos trabalhos feitos para o periódico referido no segundo parágrafo deste texto, a sua ligação à imprensa desportiva viria a fazer-se também através da colaboração com o jornal “Os Sports”. Claro está, é impossível de esquecer a importância naquela que é uma das publicações de maior tradição em Portugal e, ao lado de Cândido de Oliveira e de Vicente de Melo, a 29 de Janeiro de 1945, fundaria “A Bola”.
Em paralelo à existência no desporto, anos tão pródigos quanto os dedicados ao futebol, António Ribeiro dos Reis enveredaria pela carreira militar que, por altura da sua reforma, o tinha como Tenente-Coronel. Para além do aludido, é impossível esquecer as condecorações recebidas durante a vida, como são exemplo a Ordem Militar de São Bento de Assis, a entrega da comenda em nome da mesma Ordem ou, já a título póstumo, o agraciamento com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

1318 - ALBANO

Dividiria a formação entre o emblema da terra natal e o Barreirense. Terminadas as etapas nas camadas jovens, Albano voltaria ao Seixal na temporada de 1941/42, onde daria os primeiros passos no universo sénior. Encetadas as actividades na equipa principal da colectividade sediada na Margem Sul do Rio Tejo, nem o facto de o clube estar afastado dos principais palcos do desporto nacional impediria que as qualidades do “pequeno” atacante começassem a chamar a atenção. Ainda que dono de uma estampa pouco impressionante, a verdade é que a habilidade com bola nos pés servira, em grandes doses, para superar qualquer inferioridade física. Aferido como um grande promessa, um par épocas sobre o aludido regresso tornar-se-iam suficientes para que uma enorme oportunidade surgisse na carreira do jogador e no seu encalço surgiria um dos maiores nomes do futebol luso.
Contratado pelo Sporting para reforçar o plantel de 1943/44, Albano entraria no Estádio do Lumiar ao lado do irmão, também adquirido ao Seixal, o avançado Manuel Narciso Pereira. Ainda a alguns anos de estar completa a linha ofensiva que ficaria conhecida como os “Cinco Violinos”, o jovem extremo-esquerdo conquistaria um lugar de destaque no esquema táctico idealizado pelo treinador Joseph Szabo. O acréscimo de qualidade trazido pela sua inclusão no grupo de trabalho leonino, logo começaria a dar frutos e o jogador, na campanha da chegada aos “Verde e Brancos”, tornar-se-ia num dos principais intérpretes da conquista da principal prova portuguesa. Nesse contexto de vitórias, os anos vindouros seriam de igual importância para a glória colectiva. Com o clube a dominar o cenário futebolístico nacional, o jogador, nos 14 anos de ligação ao “Leões”, rechearia o palmarés com 8 Campeonatos Nacionais, 4 Taças de Portugal, 1 Taça Império e 3 Campeonatos de Lisboa.
Curiosamente, apesar da rápida ascensão de Albano com as cores do Sporting, a chegada do atacante à selecção nacional portuguesa ainda demoraria alguns anos. A estreia, sob a alçada de Tavares Silva, aconteceria num embate frente à Suíça, a 05 de Janeiro de 1947. A partida frente aos helvéticos, num empate 2-2 desenrodilhado no Estádio Nacional, para além da curiosidade de ter decorrido sob uma forte chuvada, abriria ao jogador uma boa série de partidas com a “camisola das quinas”. Nesse sentido, a somar ao jogo feito pelos “BB” lusos, o extremo canhoto arrecadaria para a caminhada competitiva um total de 15 internacionalizações feitas pelo principal conjunto da Federação Portuguesa de Futebol.
Muito apreciado entre os adeptos pela forma intrépida como avançava para cima de oponentes bem mais apetrechados fisicamente, os números que apresentaria ao longo da carreira ajudariam também a sublinhá-lo como um dos maiores nomes da história do Sporting Clube de Portugal. Os 335 jogos e os 161 golos concretizados ao serviço dos “Leões” transformar-se-iam em mais uma prova do valor do jogador. Outras facetas igualmente admiráveis acabariam por ser o bom humor e a humildade patente em vários aspectos da vida do atleta. No que diz respeito à modéstia, um dos melhores exemplos dessa qualidade emergiria já bem perto do fim da sua carreira e, mesmo sendo um nome consagrado do desporto português, Albano, já pouco utilizado na equipa principal, não mostraria qualquer vergonha em jogar pelas “reservas” do emblema lisboeta.

1310 - VASQUES

Com 17 anos apenas, numa altura em que já trabalhava nas oficinas da empresa, Manuel Vasques subiria à equipa principal de futebol da CUF. Mesmo afastado das disputas primodivisionárias, o jovem praticante, pelo virtuosismo com a bola nos pés, começaria a despertar a cobiça de outros emblemas. Após a estreia com as cores do conjunto barreirense na temporada de 1943/44, bastariam outras duas campanhas para que o cerco tomasse contornos de efectividade. Da margem norte do Rio Tejo surgiriam ecos do interesse do Atlético e também do Benfica. Chegaria a treinar com as “Águias” e a receber da agremiação “encarnada” uma proposta de contrato. No entanto, a conselho de Soeiro, antiga estrela leonina e o seu tio, o avançado rejeitaria a oferta e pouco tempo depois seria apresentado como atleta do Sporting Clube de Portugal.
Entraria no emblema lisboeta em paralelo com Travassos. Os dois novos elementos passariam a fazer companhia a Peyroteo, Jesus Correia e Albano, com quem viriam a compor a linha atacante que ficaria conhecida como os “Cinco Violinos”. Mesmo sem grande experiência competitiva, o avançado natural do Barreiro rapidamente conseguiria convencer o treinador Robert Kelly a dar-lhe um lugar no “onze”. Integrado no plantel edificado para a campanha de 1946/47, a sua entrada serviria para alimentar a hegemonia dos “Leões” no panorama futebolístico português. A provar o poderio do Sporting, os títulos chegariam em catadupa e o palmarés pessoal de Vasques depressa começaria a encher-se de glórias. Nesse sentido, o atacante seria peça fulcral na estratégia leonina e que encaminharia os de “verde e brancos” à conquista de 8 Campeonatos Nacionais, 2 Taças de Portugal, 1 Campeonato de Lisboa e 1 Taça de Honra da AFL.
Surpreendentemente, nem só de louvores viveria a sua carreira. Muitas vezes acusado de inconstância exibicional, apontado por ficar aleado do jogo por largos períodos de tempo e de evitar grandes choques físicos, ainda assim, os números alcançados em 13 temporadas como atleta do Sporting, serviriam para vincá-lo como um dos maiores nomes do desporto português. Nesse somatório de algarismos, destacar-se-ia a sua habilidade finalizadora. Ao posicionar-se preferencialmente como interior-direito e, por essa razão, maior parte das vezes longe das zonas de conclusão, Vasques, que podia jogar em todas as posições da linha ofensiva, conseguiria colorir a caminhada de “Leão” ao peito com 226 remates certeiros, em 349 partidas oficiais*. Desse brilhante rol, que faz do avançado o 3º maior goleador da história sportinguista, há que destacar os 28 golos marcados durante o Campeonato Nacional de 1950/51 e que levariam o atacante a vencer a corrida para Melhor Marcador da prova.
Também por Portugal, Vasques desenharia o seu caminho. Com a partida inicial pela selecção a surgir no dia 21 de Março de 1948, o “particular” frente à Espanha serviria de arranque para um honroso trajecto feito com as cores lusas. Escolhido por Virgílio Paula para o “onze” a entrar em Chamartín, a peleja disputada em Madrid, numa altura em que os desafios entre equipas nacionais não eram assim tão frequentes, transformar-se-ia no primeiro de 26 jogos feitos pelo seu país. Curiosamente, do trajecto internacional do avançado emergiria outra peculiaridade. Incontornavelmente marcado pelo rumo cumprido enquanto parte integrante dos já referidos “Cinco Violinos”, a verdade é que apenas em 2 ocasiões a famosa linha atacante do Sporting surgiria em simultâneo a envergar a “camisola das quinas”.
Por falar em singularidades, existem mais umas quantas associadas à senda desportiva de Vasques. Uma delas, numa altura em que o avançado atravessava uma situação financeira algo apertada, prender-se-ia com mais uma tentativa do Benfica em desviar o atleta. Porém, como resposta ao “namoro” das “Águias”, o Presidente Ribeiro Ferreira duplicaria o ordenado ao jogador e ajudá-lo-ia a custear o arranque de um negócio de electrodomésticos, aberto em parceria com Travassos.
Antes de terminar a carreira, após deixar o Sporting no final da temporada de 1958/59, Vasques ainda vestiria a camisola do Atlético. Já mais tarde, voltaria a ligar-se ao emblema leonino, não na área desportiva, mas como responsável pelo quiosque do Estádio de Alvalade.

*números obtidos em https://www.sporting.pt, no artigo publicado a 29/07/2016

1132 - MÁRIO CAMPOS

Com o objectivo de continuar os estudos sem largar a prática do futebol, Mário Campos, seguindo a peugada do irmão Vítor, deixaria Torres Vedras para seguir viagem até Coimbra. Ao trocar as “escolas” do Torreense pelos juniores da Académica, o médio daria seguimento à sua caminhada desportiva ao mesmo tempo que, no Curso de Medicina, manteria pojante a vida estudantil. Logo na temporada de chegada às camadas jovens da “Briosa”, a de 1965/66, os bons desempenhos levá-lo-iam a ser convocado à equipa sénior. Na referida chamada, correspondendo essa partida à sua estreia na 1ª divisão, brindaria a aposta do treinador Mário Wilson com um golo. Já na época seguinte passaria a trabalhar em definitivo com o grupo principal e não tardaria muito até conseguir afirmar-se como um dos grandes símbolos da mística estudantil.
Ao personificar a figura do “doutor- futebolista”, Mário Campos, aos poucos, começaria a conquistar o seu lugar na equipa conimbricense. Pela campanha de 1967/68, a sua terceira com as cores da Académica, já o centrocampista era visto como uma das importantes peças do grupo de trabalho. Essa crescente preponderância, em muito contribuiria para os sucessos do colectivo. Depois de ajudar ao 2º lugar na tabela classificativa do Campeonato Nacional de 1966/67 e, ainda no mesmo ano, à chegada à final da Taça de Portugal, as campanhas seguintes trariam outros momentos de orgulho às hostes estudantis.
Na edição de 1968/69 da Taça das Cidades com Feira, na eliminatória frente ao Lyon, dar-se-ia a estreia do médio nas competições continentais. No segmento terminal da mesma temporada, outra presença no derradeiro desafio da Taça de Portugal. Aliás, essa disputa ficaria para história. No seguimento dos protestos estudantis vividos em Coimbra, a equipa de futebol, com Mário Campos listado no “onze” inicial, entraria no Estádio do Nacional com as capas do traje académico aos ombros e em claro apoio aos protestos contra a opressão perpetrada pelo regime totalitarista de Marcello Caetano. Já na campanha subsequente, resultado da referida presença no Jamor, a inolvidável caminhada até aos quartos-de-final da Taça das Taças, com a “Briosa” a cair aos pés dos ingleses do Manchester City.
Por razão do já relatado, e como aqui também foi destapado, Mário Campos passaria a ser visto como um dos grandes símbolos da história da Académica. Os números, com as 12 temporadas passadas nas margens do Mondego a servirem de prova, ajudariam a sublinhá-lo como um dos nomes mais importantes da colectividade, nas décadas de 60 e 70. Como tal, a braçadeira de “capitão” transformar-se-ia num justo prémio. Recompensa pelo excelso trabalho realizado em campo, seriam também as chamadas às diferentes selecções nacionais. Com 2 convocatórias pelos sub-21 de Portugal a abrilhantarem o currículo do jogador, destaque para a sua internacionalização “A” conseguida, sob a alçada de José Maria Antunes, num “particular” em Wembley, frente à congénere inglesa.
Com a sua carreira a manter-se ligada à Académica até à temporada de 1976/77, realce ainda para a sua passagem pela União de Leira. Na “Cidade do Lis”, e já a disputar a 2ª divisão, poria um ponto final ao trajecto enquanto futebolista, passando a dedicar-se às actividades médicas, nas quais chegaria a Director do Serviço de Nefrologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

1128 - DAVID JÚLIO

Filho de um antigo jogador de futebol, David Julius conseguiria do pai não só o mesmo nome, como as primeiras chuteiras e o óbvio gosto pela modalidade. Mesmo enfrentando a resistência da mãe, que tudo faria para impedir o rebento de seguir tal paixão, a verdade é que todo o esforço feito nesse sentido seria infrutífero e o Gold Fields transformar-se-ia no primeiro emblema do jovem praticante.
Com o desaparecimento do referido clube, o médio ingressaria no Blue Haway. Ao caracterizar-se por um atleta de enorme robustez, resistência e com uma técnica apuradíssima, rapidamente conseguiria ser chamado à selecção Joanesburgo. Com as cores da sua terra natal, acabaria por ir jogar contra a congénere da Cidade do Cabo. Contudo, a partida, mais do que correr mal, terminaria em enorme polémica. Com o conjunto do nordeste da África do Sul a ser humilhado, logo foi levantado um inquérito à paupérrima exibição. O relatório iria apontar o dedo a alguns dos seus colegas de clube. Conclusão: atletas irradiados, clube suspenso e os restantes jogadores libertados das obrigações com a castigada agremiação.
Com a necessidade de encontrar uma solução para a carreira, surgiria a oportunidade de, ao lado de outros futebolistas, criar uma nova colectividade. O Yorkshires, apesar da recente fundação, depressa tomaria uma grandeza incrível e, logo no ano de estreia, sagrar-se-ia campeão no “regional” do Transvaal. Com David Julius a pautar-se como um dos elementos de maior destaque na nova equipa, as chamadas à selecção de Joanesburgo continuariam a surgir com naturalidade. Na sequência de um desses momentos, dessa feita no âmbito de um torneio entre as diferentes regiões do país, as exibições do centrocampista levá-lo-iam à equipa nacional. Pela África do Sul vincaria a sua valia. Entre 4 internacionalizações e como prémio da exemplar postura revelada dentro de campo, o médio chegaria a envergar a braçadeira de “capitão”.
No galgar das diferentes etapas do seu percurso competitivo, a selecção de Joanesburgo iria, mais uma vez, desempenhar um papel de enorme importância. Numa digressão em Moçambique, o atleta seria observado por alguém com ligações ao Belenenses. Depois de uma resposta positiva à pergunta sobre uma hipotética transferência para o emblema lisboeta, o acidental “olheiro” entraria em contacto com os da “Cruz de Cristo”. Para grande espanto, de Portugal viria a indicação que não havia interesse algum na contratação do jogador. Com a surpreendente recusa, seria a mesma pessoa a indicá-lo ao Sporting de Lourenço Marques que, em Fevereiro de 1957, abriria as portas ao craque sul-africano.
Com as exibições a destaca-lo dos demais colegas de equipa, em Junho de 1957 dar-se-ia a sua transferência para o Sporting Clube de Portugal. Em Alvalade depressa alcançaria um lugar no “onze” titular. As suas qualidades, aliadas a uma polivalência que dava David Julius apto para desempenhar funções na defesa ou em várias posições do sector intermediário, fariam dele um importante elemento no conjunto leonino. Como um dos mais chamados à equipa inicial, o atleta, logo na temporada de chegada, ajudaria à vitória no Campeonato Nacional. Seguir-se-iam no seu e no palmarés do clube, o Campeonato de 1961/62, a Taça de Portugal do ano seguinte e, para terminar, a inolvidável conquista da edição de 1963/64 da Taça dos Vencedores das Taças.
Pelo meio, obtida a nacionalidade portuguesa, o jogador, rebaptizado como David Júlio, passaria a envergar a “camisola das quinas”. A par do seu colega no Sporting, o defesa Lúcio, o médio transformar-se-ia no primeiro atleta naturalizado a jogar pela equipa nacional lusa. Sob a alçada de José Maria Antunes estrear-se-ia num amigável frente à República Federal da Alemanha. Depois de encetar caminho por Portugal na partida disputada a 27 de Abril de 1960, seguir-se-iam outras chamadas que, até 1962, iriam colorir a sua carreira com mais 4 internacionalizações.
Na metade inicial da 7 época ao serviço dos “Leões”, o médio decidir-se-ia pela saída. Com o derradeiro jogo de verde e branco a ser disputado em Novembro de 1963, o futebolista partiria em direcção aos Estados Unidos da América. Nem mesmo ao fixar-se do outro lado do Atlântico, David Júlio deixaria esmorecer a paixão pelo futebol e, já na condição de treinador-jogador, representaria ainda o Philadelphia Ukrainians.

PS: existem referências, que não consegui confirmar, da sua passagem pelos sul-africanos do Hearts FC.

1034 - JOSÉ MARIA GRALHA

Seria impossível não ligar a carreira desportiva de José Maria Gralha aos tempos da fundação do Casa Pia Atlético Clube. No entanto, não seria só como atleta dos “Gansos” que o avançado ficaria associado ao pioneirismo do futebol português. Também na selecção portuguesa, e logo por duas razões distintas, o jogador conseguiria gravar o seu nome na história da equipa nacional.
Vamos por partes. Aquando do nascimento do, também conhecido por, Ateneu Casapiano, José Maria Gralha apareceria logo como um dos atletas da linha da frente. Nesse sentido, e com a fundação do emblema lisboeta a acontecer a 3 de Julho de 1920, o início das actividades futebolísticas ficaria marcado por alguns desafios de cariz amigável. Naquela que acabaria por tornar-se na primeira peleja, o Casa Pia defrontaria a colectividade de onde tinham saído a grande maioria dos seus fundadores, o Benfica. Agendada a partida a 3 de Outubro, o avançado entraria de início no jogo disputado no Campo da Palhavã, contribuindo assim para a vitória por 2-1.
Com arranque dos “Gansos” nas competições oficiais, nomeadamente no Campeonato de Lisboa, José Maria Gralha veria a sua fama ainda mais fortalecida. Apesar da tenra idade – o atleta tinha apenas 15 anos aquando da fundação do clube – a sua habilidade dentro de campo torná-lo-ia num dos nomes inquestionáveis do “onze” inicial. Nesse sentido, a sua presença no conjunto casapiano seria deveras importante para o que viria a tornar-se numa época brilhante.
Mesmo sem grande experiência colectiva, o Casa Pia, por razão da qualidade individual dos seus praticantes, acabaria por triunfar na edição de 1920/21 do “regional” lisboeta. Ganharia igualmente, na disputa entre os vencedores do Norte e do Sul, a Taça 27 de Julho. Já a temporada imediata, e na sequência dos sucessos alcançados, continuaria a trazer novos desafios ao recém-formado conjunto. Com José Maria Gralha a merecer também honras de destaque, o clube continuaria a ser chamado para participar em digressões pelo estrangeiro. Ora, por força das razões já descritas, o capítulo seguinte na carreira do avançado a poucos surpreenderia. Com a União Portuguesa de Futebol, percursora da Federação Portuguesa de Futebol, criada a 31 de Março de 1914, a marcação do primeiro jogo surgiria para 18 de Dezembro de 1921. Para Espanha seguiria uma comitiva onde estariam presentes os melhores futebolistas lusos. Em Madrid, o atacante dos “Gansos” seria um dos elementos escalonados para a 1ª equipa de Portugal. A curiosidade desse episódio é que os seus 16 anos, 9 meses e 4 dias fariam do atacante, até aos dias de hoje, no jogador mais novo de sempre a actuar com a “camisola das quinas”.
Outra particularidade da sua carreira desportiva seria a inclusão numa digressão do FC Porto. Coisa estranha para o futebol actual, a prática era normal entre os emblemas da altura, aquando das viagens pelo estrangeiro. Assim, ao lado dos seus colegas no Casa Pia, Cândido de Oliveira e Augusto Gomes, José Maria Gralha haveria de vestir de azul e branco. Em Dezembro de 1922, o avançado partiria para Sevilha, para, já após a passagem de ano, disputar mais um par de partidas em Gibraltar.

998 - MIGUEL LOURENÇO

Consta, em alguns registos, que terá chegado ao Benfica vindo do modesto Atlético de Reguengos. Tendo como certa essa transferência, a verdade é que Miguel Lourenço não terá deixado intimidar-se pela diferente grandeza das duas colectividades. Já ao serviço das “Águias”, o extremo, mesmo sem ser titular absoluto, conseguiria mostrar boas qualidades. Bastante utilizado nessa temporada de 1939/40, o atacante, nas duas campanhas seguintes, começaria a perder algum espaço. Ainda assim, o seu contributo serviria para que os “Encarnados” vencessem alguns títulos. Nesses 3 anos em que jogaria pela categoria principal, o atleta amealharia 1 Campeonato de Lisboa, 1 Taça de Portugal e, mesmo sem nunca ter sido chamado a jogo, faria parte do grupo que venceria o Campeonato Nacional de 1941/42.
Depois de um hiato de 2 anos, cujo seu paradeiro não consegui apurar, Miguel Lourenço aparece nos quadros do Estoril-Praia. A partir dessa temporada de 1944/45 e até ao fim da sua carreira como futebolista, o extremo passaria a envergar o amarelo dos da Linha de Cascais. Porém, e ao contrário daquilo que poderíamos concluir, a mudança de clube acabaria por não ser um revés na caminhada desportiva do atacante. Aliás, a sua passagem pelos “Canarinhos”, muito mais do que manter o atleta a disputar a 1ª divisão, serviria para que conseguisse atingir o patamar internacional.
Com as cores de Portugal, incluindo uma partida pelos “BB”, o avançado jogaria em 3 diferentes ocasiões. Tendo, pela mão do seleccionador Tavares da Silva, feito a estreia em Junho de 1946, Miguel Lourenço só voltaria a representar os “AA” do nosso país passados quase 3 anos. Depois da vitória por 3-1 no particular frente à República da Irlanda, o extremo regressaria aos trabalhos da principal equipa nacional em Fevereiro de 1949. No desafio frente à congénere italiana, e já sob a alçada de Armando Sampaio, a ajuda do atacante não evitaria a derrota por 4-1. No entanto, na ficha de jogo ficaria inscrito o seu nome, como o autor do golo português.
Apesar de não ser um dos grandes ícones do desporto nacional, a conclusão a que facilmente podem chegar, é que Miguel Lourenço conseguiu edificar uma carreira muito acima da média. Tendo chegado a internacional, também os seus números no Campeonato são de relevo. Com 10 temporadas disputadas no escalão máximo do futebol português, os registos do extremo leva-nos para a sua presença em mais de uma centena e meia de contendas. Também nos remates certeiros, os números são espantosos. Se tivermos em conta que a sua posição não era a que mais favorecia a marcação de golos, os 84 tentos, só naquela que é a principal prova nacional, também é uma marca de respeito.

911 - ALBINO

Seria no Sport Lisboa e Tortosendo (actual Sport Benfica e Tortosendo) que Francisco Albino teria o primeiro contacto com o futebol e com as cores da sua paixão. O “encarnado” acompanhá-lo-ia pela vida fora e a mudança da sua família para a capital, serviria para alimentar, ainda mais, esse furor. Tendo o bairro de Campolide como nova morada, a proximidade ao Estádio das Amoreiras seria a desculpa perfeita para assistir a todos os jogos e treinos daquele que era o emblema do seu coração. Ainda adolescente, e com a bênção do treinador Arthur John, entra para as camadas jovens das “Águias”. Entre essa temporada de 1929/30 e a de 1932/33, subiria pelas diferentes categorias do clube. Em Dezembro de 1932 é chamado à estreia no “onze” principal e, daí em diante, tornar-se numa das principais figuras do Benfica.
Apesar de franzino, a vontade que mostrava dentro de campo transformá-lo-ia num exemplo para todos os colegas. Mesmo não sendo um poço de técnica e virtuosismo, a verdade é que a sua entrega haveria de mantê-lo como um dos favoritos de treinadores e adeptos. No meio-campo, fosse à direita ou no centro, o atleta tornar-se-ia num dos indiscutíveis do Benfica. Entre o final dos anos 30 e a década de 40, e numa altura em que o Sporting era a maior potência do futebol português, Albino acabaria por personificar a luta, a resistência e o querer afrontar essa hegemonia “verde e branca”.
A imagem criada à sua volta, torná-lo-ia num dos estandartes do clube “alfacinha”. Conquistado esse estatuto, foi com normalidade que Albino recebeu a primeira chamada à “Equipa das Quinas”. A 5 de Maio de 1935, sob a alçada de Cândido de Oliveira, entraria de início num particular frente à Espanha. Depois desse amigável disputado no Estádio do Lumiar, o médio voltaria a representar as cores de Portugal por mais 9 vezes. Apesar de ser um jogador de referência no panorama nacional e de estar no pico da sua carreira, a verdade é que, depois de 1939, o jogador preferiu não mais vestir a camisola da selecção. A razão? Só uma! A saída do treinador que o tinha levado à estreia.
Continuou de “Águia” ao peito e durante anos a fio, num cômputo de 13 temporadas na primeira equipa, ajudou à “mística” do clube. Foi também parte importante de relevantes conquistas. Nesse campo, foi pilar na vitória em 2 Campeonatos de Lisboa, 1 Campeonato de Portugal, 3 Taças de Portugal e 6 Campeonatos Nacionais (incluídos 3 Campeonatos da Liga). Todavia, os melhores momentos da sua vida desportiva viriam com outro tipo de louvores. A braçadeira de capitão, que tantas vezes envergou, seria um deles. Entretanto viriam as condecorações. Eleito Sócio de Mérito do Benfica (1938), laureado com a Águia de Prata (1940) e com a Medalha de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol, todos esses prémios seriam reflexo do valor que deu ao desporto nacional.
Em Maio de 1945 o Benfica organizaria, muito mais do que uma festa de despedida, um jogo em homenagem à sua postura e entrega. Essa dedicação ficaria bem explícita num dos pormenores mais caricatos da sua carreira. Impossível nos dias que correm, Albino e os dirigentes “Encarnados” nunca teriam qualquer necessidade em assinar um contrato. Todavia, esse facto não diminuiria a vontade do jogador em ver reconhecido, monetariamente, o esforço posto em campo. Aliás, o médio ficaria conhecido pela sua famosa frase “Quando é que vem o tempero”, referindo-se aos prémios de jogo!

901 - JESUS CORREIA

Ainda antes de chegar ao mais alto nível, já Jesus Correia dividia a sua existência entre duas paixões. Futebol e hóquei em patins eram as modalidades que prendiam a sua atenção. Ao mesmo tempo que brilhava como patinador do Paço de Arcos, também noutras associações daquela localidade jogava à bola. Foi então que um ultimato fê-lo optar pela disciplina dos ringues. Contudo, o jovem praticante jamais esqueceria esse segundo amor e anos mais tarde, no Belenenses, haveria tentar a sua sorte. Curiosamente, dizem que por conta da sua tenra idade, seria recusado. Augusto Silva, antiga estrela da “Cruz de Cristo”, dir-lhe-ia para voltar no ano seguinte. Tarde demais. O atacante não regressaria às Salésias e quem acabaria por ganhar com tudo isso seria outro dos “grandes” de Lisboa.
Quem não o deixaria escapar seria Joseph Szabo. Avisado para o seu excelente potencial, o treinador do Sporting faria tudo para o juntar ao plantel leonino. Claro está que havia ainda a questão do vínculo ao Paço de Arcos. Apesar da relutância em libertar o atleta, a pressão para que tal acontecesse, levaria a que o emblema da “Linha de Cascais” convocasse uma assembleia para deliberar sobre o assunto. É então que tudo fica decidido e, em paralelo com o hóquei, Jesus Correia passa a representar o futebol “Verde e Branco”.
Em Alvalade não demoraria muito até que o jogador conseguisse afirmar-se como um dos elementos mais importantes do conjunto. Com velocidade, excelente técnica e uma, igualmente boa, capacidade finalizadora, Jesus Correia tanto servia para o eixo do ataque, como na extrema-direita do campo. Logo na segunda campanha, com Peyroteo a ocupar a posição de ponta-de-lança, conseguiria um lugar na ala destra dos afamados “Cinco Violinos”. Ainda antes de conquistar a titularidade, sendo suplente de Adolfo Mourão, o atacante começaria a juntar os primeiros títulos ao seu palmarés. Aliás, durante as 10 temporadas que passaria de “Leão” ao peito, os troféus seriam uma constante. Campeão Nacional por 7 vezes, juntaria ainda ao seu currículo 2 Taças de Portugal e 2 “Regionais” de Lisboa.
Também no Hóquei o seu sucesso foi incrível. Pertencendo a uma das melhores equipas de sempre do Paço de Arcos, Jesus Correia começaria por amealhar diversos títulos nacionais. Pela selecção o seu êxito ainda foi maior. Para além dos títulos europeus, o atleta ajudaria Portugal a conquistar 6 Campeonatos do Mundo. Aliás, seria na antevisão de um desses certames que estalaria a guerra entra as duas federações em que estava inscrito. Com mais um torneio à vista, a Federação Portuguesa de Patinagem pede à Direcção Geral dos Desportos para que cancelasse a sua licença de futebolista. O pedido é recusado. Todavia, a contenda faz com que o Sporting exija ao jogador a sua exclusividade. O que ninguém da direcção leonina devia estar à espera, é que o atleta escolhesse a modalidade dos ringues. Assim foi e, sem completar 30 anos de idade, o avançado deixa o futebol.
Apesar do abandono precoce na temporada de 1952/53, o legado deixado por Jesus Correia foi enorme. Para a memória ficarão os 6 remates certeiros conseguidos frente ao Atlético de Madrid, em plena capital espanhola. Também no plano nacional, os seus golos seriam de enorme importância. Com a camisola do Sporting conseguiria, só em partidas oficiais, concretizar mais de 150. Um deles, no entanto, haveria de o lançar para o coração de todos os sportinguintas. Numa altura em que ainda procurava cimentar o seu lugar na equipa, o golo conseguido na final da Taça de Portugal de 1944/45 elevá-lo-ia à condição de estrela do clube.
Alguns anos mais tarde ainda voltaria a envergar as cores de outro emblema. Na temporada de 1955/56, pela CUF do Barreiro, Jesus Correia ainda faria algumas partidas. Contudo, a verdade é que o Hóquei era sua maior paixão. Na modalidade ainda abraçaria as tarefas de treinador. Nessas funções e comandando o seleccionado português, conseguiria juntar ao seu já rico palmarés, mais 2 títulos de Campeão Mundial.

843 - VICENTE

Vicente ou, se preferirem, Vicente Lucas nasceu como o irmão mais novo de Matateu. No seu sangue também corria o gosto pelo futebol e, tal como o avançado, seria o 1º de Maio que o lançaria para o estrelato. Da moçambicana Lourenço Marques, hoje Maputo, sairia igualmente em direcção a Lisboa. Chegava como uma estrela e a multidão que o esperava à saída do barco assim o afiançava. Os adeptos do Belenenses, ajudados pela imprensa portuguesa, apelidaram-no de “Matateu II”. Todavia, o jovem atleta tratou logo de sublinhar as diferenças. E assim era: tanto na privacidade das suas casas, como em campo, os dois eram homens bem distintos.
Posicionava-se, preferencialmente, em tarefas defensivas. Contudo, e contrariamente a tantos colegas de posição, Vicente não era desprovido de técnica. Apesar de ser enorme nos desarmes, gigante nas marcações, a bola, uma vez a seus pés, era bem tratada. Era também evidente a sua inteligência. O posicionamento em campo denunciava-o como alguém entendedor da dinâmica de jogo. O momento exacto em que atacava os lances era um corolário dessa sua sabedoria. Ainda assim, havia mais! Esse mais, essa modéstia, essa abnegação posta em tudo o que fazia, tornaram-no num bom exemplo. Por tudo isso vingou no seu clube; por tudo isso vingou desde que pôs os pés nas Salésias até à sua despedida, já em pleno Estádio do Restelo.
Com o Belenenses venceria a Taça de Portugal de 1959/60 e 2 Taças de Honra da AF Lisboa. No entanto, seria de “quinas ao peito” que o médio defensivo alcançaria maior sucesso. A sua estreia pela principal selecção portuguesa, ele que também vestiu as cores da equipa “militar” e “B”, dar-se-ia em Junho de 1959. Depois desse particular frente à Escócia, vitória por 1-0 com um golo do irmão, o seu nome passaria a ser presença habitual nas convocatórias. As 20 internacionalizações que, durante 7 anos, conseguiria alcançar, confirmá-lo-iam como um dos melhores intérpretes do futebol luso.
Ainda nessas caminhadas com Portugal disputaria o Mundial de 1966. Em Inglaterra, muito mais do que ajudar a equipa a atingir o 3º posto, Vicente transformar-se-ia numa das estrelas do certame. Frente ao Brasil, ainda na fase de grupos, caber-lhe-ia a ingrata tarefa de marcar Pelé. Não ficou intimidado. Aliás, já noutras ocasiões tinha sido entregue ao médio a mesma responsabilidade. Em todas elas a empreitada seria cumprida com excelsa competência – “Ele tinha qualquer coisa comigo que não me podia ver, o que sucedeu desde a primeira da meia dúzia de vezes em que nos defrontámos. A verdade é que mesmo com a bola dominada eu chegava e desarmava-o sem lhe tocar. Não sei como, não sei explicar. Era assim (…). Eu tinha um jeito especial para antecipar as coisas que ele fazia. Nas primeiras vezes, a malta dizia-me. «Vicente, o Pelé vai dar cabo de ti». Eu respondia que isso não me interessava e jogava apenas o que sabia”*.
Apesar de ter pouco mais de 30 anos de idade, após o Campeonato do Mundo a carreira de Vicente precipitar-se-ia para o fim. Em Outubro de 1966 vê-se envolvido num acidente de viação, onde perderia uma vista. A mazela deixada pelo desastre, impediria o jogador de prosseguir a sua vida como futebolista profissional. Depois de abandonar os relvados, o antigo internacional manter-se-ia ligado à modalidade. Como treinador principal o seu percurso ficaria marcado pela discrição. As suas experiências nessas funções quedar-se-iam por emblemas mais modestos. Nessa caminhada, também ficaria ligado aos quadros técnicos do Belenenses. Tanto nas camadas jovens, como nas tarefas de adjunto ou, como aconteceria na temporada de 1981/82, como interino, o seu trabalho seria marcado pela seriedade com que sempre enfrentou todos os desafios.

*adaptado da entrevista publicada em www.record.pt, a 26.11.2015

767 - ROGÉRIO de CARVALHO

Tendo deixado os estudos após concluir a 4ª classe, Rogério de Carvalho começa a trabalhar no Grémio das Carnes, no Rossio. Alguns anos mais tarde, e tendo como colega Fernando Peyroteo, foi por ele convidado para jogar uma partida de futebol entre os funcionários. O atleta do Sporting ficaria de tal maneira impressionado que, na sequência do desafio, dirige-se ao jovem jogador e convida-o a participar num treino do seu clube. Todavia, o dia das provas não correria de feição. Haveria dizer-se que os outros jogadores o tinham “sabotado”; haveria dizer-se que, durante o tal treino, ninguém lhe passou a bola; haveria dizer-se que ao saber do interesse do clube do seu coração, nem pensou duas vezes e preferiu o Benfica.
A sua estreia com a camisola das “Águias” aconteceria no Outono de 1942, mas numa altura em que a sua carreira já contava com alguns anos. No Chelas FC, onde o seu irmão Armindo França era a estrela do conjunto, Rogério de Carvalho tinha a fama de futebolista de fino recorte. Com uma técnica de excelência, rápido, ágil e com habilidade para o golo, o avançado era conhecido pela maneira subtil como tratava a bola. Por essa razão, o técnico Janos Biri daria ao jovem atleta uma oportunidade no “onze” inicial. Começando como extremo direito e, já mais para o fim dessa temporada, mudando-se para a ponta oposta, o atacante não decepcionaria. Aliás, ao apontar um golo na final da Taça de Portugal de 1942/43, seria fulcral na conquista da primeira “dobradinha” do futebol benfiquista.
Curiosamente, foi na disputa da Taça de Portugal que Rogério de Carvalho estabeleceu um recorde. Os 15 golos que conseguiria concretizar nas 8 finais que disputou, fazem dele o atleta com mais remates certeiros nesses desafios. Claro está que a sua carreira não se resume a esse pormenor. A sua qualidade era tal que, passados 5 anos após a sua entrada no Benfica, e numa altura em que já tinha feito a estreia pela selecção nacional, do outro lado do Oceano surge uma nova proposta – “Um dia entra-me um tipo todo aprumado no ‘Grémio’ e diz que quer conversar comigo. Eu topei-lhe logo a pinta: fatinho branco, bem engomado, bigodinho… era brasileiro. «Oi, seu Rogério, eu venho do Botafogo, conhece?» Conheço, conheço. «Nós queremos contratar um jogador estrangeiro, e você é o cara». Disse-lhe que não. E ele voltou lá, duas ou três vezes, e quando me ofereceu cinco mil cruzeiros – uma fortuna!, que você nem faz ideia – de ordenado, casa em Copacabana, e tudo pago, não pensei duas vezes e fui.”*.
Pela primeira vez, um futebolista português atravessava o Atlântico para envergar a camisola de um emblema brasileiro. Num clube onde o craque maior era o internacional “canarinho” Heleno de Freitas, a estrela “lusa” adaptar-se-ia facilmente. Todavia, com a sua esposa gravida, o desejo de que o seu filho nascesse em Portugal, fá-lo-ia voltar a Lisboa. Depois desses meses no estrangeiro, é em Março de 1948 que Rogério de Carvalho veste novamente a camisola dos “Encarnados”.
Não muito tempo após o seu regresso, a contratação de Ted Smith daria um novo sentido ao seu desempenho. Entendo que as suas capacidades serviriam melhor noutra posição, o técnico inglês adapta-o a interior-esquerdo. É já nesse lugar que em 1950, o atleta ajuda o Benfica à conquista do seu primeiro título internacional. Em pleno Estádio Nacional, frente aos franceses do Bordeaux, as “Águias” são forçadas a uma finalíssima. Nesse derradeiro encontro, e depois de um segundo prolongamento, os portugueses lá conseguem bater os gauleses e, pelas mãos de Rogério de Carvalho, é erguido o almejado troféu.
A chegada de outro mítico treinador vai, mais uma vez, alterar o rumo da sua carreira. Com a vinda de Otto Glória, o Benfica torna-se num clube profissional. A exigência desse novo paradigma, com treinos duas vezes ao dia, impossibilitaria Rogério de Carvalho de compatibilizar a sua actividade profissional, com a prática do desporto. Sabendo que como vendedor de automóveis iria receber mais dinheiro, o atacante decide deixar o clube para dar continuidade à sua carreira noutro emblema.
É no Oriental, clube fundado pela junção do Chelas FC com outras duas colectividades, que o avançado passa os derradeiros anos como futebolista. Nessas 4 temporadas, para além de ajudar o clube a voltar à 1ª divisão, o antigo atleta do Benfica viveria um momento caricato. Aquando do reencontro com as “Águias”, o atleta afirmar-se-ia incapaz de defrontar o antigo clube. Os seus colegas, perante tal recusa, diriam que, assim sendo, também eles não entrariam em campo. Perante tal prenúncio, o avançado não teve outro remédio: cedeu e disputou o encontro.
Rogério “Pipi”, alcunha ganha pelo seu aspecto sempre aprumado, terminaria a carreira no final da temporada de 1957/58. Apesar de ter posto um ponto final ao seu percurso federativo, o antigo internacional continuaria adepto e praticante de diversas actividades desportivas. Um bom exemplo dessa dedicação, foi a admiração que manteve pelo ténis. Muito para além do futebol, foi nos “courts” da modalidade que, daí em diante, passou a distrair-se e a exercitar o corpo.

 
*retirado do artigo de Tiago Palma, em www.observador.pt, publicado a 30/05/2015

758 - CÂNDIDO de OLIVEIRA

Tendo ficado órfão ainda em tenra idade, Cândido de Oliveira entra para a Casa Pia. Na secular instituição, destacando-se no “jogo da bola”, aprimora o seu gosto pelo desporto. Na sequência dessa paixão, já em 1914, ingressa no Benfica. Parte integrante da equipa de futebol, o avançado chega a praticar atletismo e luta greco-romana. No entanto, é nos “campos” que merece os maiores louvores. Ajuda o clube a vencer os Campeonatos de Lisboa de 1915/16 e 1916/17 e a Taça de Honra de 1919/20.
Sendo um confesso benfiquista, chegando a herdar a braçadeira de Cosme Damião, Cândido de Oliveira tinha outro sonho. O desejo de criar um clube com antigos casapianos, levá-lo-ia a deixar as “Águias”. Em 1920 funda os “Gansos” e, logo na temporada de estreia, o grupo consegue vencer o “regional” lisboeta. Poucos meses depois, a 18 de Dezembro de 1921, dá-se outro momento alto na sua carreira. Para disputar aquele que seria o desafio de estreia da selecção “lusa”, Portugal desloca-se a Madrid. Frente à Espanha, num “onze” que contaria com 4 atletas do Casa Pia Atlético Clube, a escolha para “capitão” recairia na sua pessoa.
Apesar de contar apenas com 1 internacionalização, Cândido de Oliveira haveria de transformar-se numa das maiores figuras do futebol português. Entre outros papéis, o de treinador foi o que mais contribuiu para esse estatuto. Tendo passado grande parte desse percurso ao serviço da selecção, foi ele que comandou a primeira participação da “Equipa das Quinas” num certame internacional. Em Amesterdão, nos Jogos Olímpicos de 1928, o conjunto “luso” cairia nos quartos-de-final. Ainda que longe das medalhas, a participação de Portugal deixaria os adeptos muito orgulhosos. À chegada ao nosso país, milhares de pessoas esperariam pela comitiva e o técnico haveria de ser um dos mais ovacionados.
Nas referidas funções, Cândido de Oliveira também passaria por Belenenses, FC Porto, Académica e, como o primeiro treinador português no Brasil, pelo Flamengo. No entanto, seria ao serviço do Sporting que conseguiria os seus maiores feitos. Numa altura em que imperavam os “Cinco Violinos”, a sua estreia coincidiria com a vitória na Taça de Portugal de 1945/46. Contudo, o seu título mais famoso seria o Nacional de 1948/49. Num Campeonato que estava muito disputado, a deslocação à “casa” do Benfica revelava-se de importância fulcral. Nas vésperas dessa jornada, disputada no Campo de Jogos das Amoreiras, da direcção leonina surge a acusação que o treinador estaria a congeminar a vitória dos rivais. A verdade é que o jogo terminaria com a vitória do Sporting, por 1-4. No rescaldo da partida, e ainda nos balneários, o técnico apresenta a demissão. Passados uns dias, o dirigente que o acusou bate à porta de sua casa. Apresenta as desculpas e informa-o da sua própria renúncia. Então, pede-lhe para repensar a sua decisão. Cândido de Oliveira concorda, mas com uma condição. Também o dirigente teria de voltar atrás. Assim aconteceu e, depois das pazes feitas, regressariam os dois ao Sporting.
Muito para além do percurso feito nos campos de futebol, também fora deles a sua vida mereceu grande destaque. Com um carácter marcadamente bondoso, ficou conhecido por ajudar muita gente. Um bom exemplo aconteceria aquando do convite para orientar o Belenenses. Chamado a substituir Artur José Pereira, afastado por motivos de doença, Cândido de Oliveira abdicaria do seu pagamento. Exigiu, então, que o salário revertesse a favor do antigo treinador e fundador do clube.
Outra história curiosa prende-se com o seu envolvimento na 2ª Guerra Mundial. Tendo uma posição privilegiada dentro dos CTT, onde era funcionário desde os 19 anos, os Serviços Secretos Britânicos acabariam por pedir a sua colaboração. Na eminência que estava uma invasão alemã a Portugal, os ingleses, sem dar conhecimento ao Estado Português, incumbem-no de montar uma rede de comunicações e resistência. A PVDE (precursora da PIDE) acabaria por descobrir tais planos e Cândido de Oliveira seria preso. Diz-se que António Roquete, antigo futebolista internacional, velho protegido do treinador e, por essa altura, agente da “Polícia Política”, teria tido grande peso na sua detenção e posterior espancamento.
Traído por alguém que tinha como próximo, acabaria deportado para o campo de concentração do Tarrafal. Já com o desfecho da contenda a pender, cada vez mais, para os “Aliados”, Salazar dá instruções para a sua libertação. O Estado Novo concede-lhe o perdão. Oferecem-lhe também nova integração nos Correios, a qual recusaria. É então que, neste cenário, tem uma ideia que mudaria o cenário do desporto em Portugal. Tendo sido um dos pioneiros do jornalismo desportivo português, colaborando em publicações como “O Século”, “Stadium” ou “Diário de Notícias”, decide criar um novo periódico. A 2 de Janeiro de 1945, tendo a seu lado Ribeiro dos Reis e Vicente Melo, funda o jornal “A Bola”.

748 - JOÃO de OLIVEIRA

Sem que muita informação esteja disponível sobre o antigo jogador, há, no entanto, um episódio que, estando João de Oliveira envolvido, ficou na história do futebol português.
Para a temporada de 1929/30, numa altura em que o Benfica, por ordem de mais uma grave crise, há muito andava afastado dos títulos, as prestações no Campeonato de Lisboa renovavam as esperanças de jogadores e adeptos do clube. Apesar de terem perdido os embates com o Sporting, as duas vitórias frente ao Belenenses faziam com que as “Águias” ainda estivessem na corrida pelo título “alfacinha”. É então que, a 9 de Março de 1930, o sonho começa a desabar. Para a 12ª jornada, o Benfica visitava o Casa Pia. Com 18 minutos decorridos, já a equipa da casa conseguia adiantar-se no marcador. Os “Encarnados” ainda empatam o jogo. No entanto, alguns lances polémicos precipitam a partida para um desfecho pouco pacífico. Primeiro, há o golo mal anulado aos visitantes; depois, o choque entre dois adversários. É nisto que João de Oliveira acode o seu colega, envolvendo-se numa cena de pancadaria com o futebolista casapiano. A desordem rapidamente toma maiores proporções. Dentro e fora de campo, a polícia é chamada a intervir e, no meio de tamanha confusão, João de Oliveira agride o árbitro.
Pelo meio de uma série de diferentes castigos, a punição do atleta benfiquista é exemplar. Os 8 meses de suspensão fazem com que os protestos subam de tom. As diferentes manifestações e a ameaça de abandono de todas as competições surtem algum efeito. Sem que, no desfecho do “regional” de Lisboa, consigam alguma coisa alterar, os benfiquistas vêem a pena de João de Oliveira beneficiar de uma amnistia. O perdão faria com que o jogador ainda pudesse disputar o Campeonato de Portugal. Ironicamente, o regresso do atleta aconteceria frente ao Casa Pia. O encontro, a 2ª mão dos oitavos-de-final da prova, acabaria empatado. Ainda assim, o Benfica venceria a eliminatória e a presença de João de Oliveira seria um grande trunfo na caminhada do clube até à final da competição.
Após a vitória no referido Campeonato de Portugal, que marcaria o seu primeiro título, a carreira do jogador sofre um pequeno empurrão. A preponderância que João de Oliveira tinha no meio-campo benfiquista haveria de reflectir-se nas convocatórias para a Selecção Nacional. Por Portugal, numa altura em que os jogos internacionais escasseavam, um “amigável” frente à Itália, serviria para o atleta fazer a estreia com as cores do país. No Campo do Ameal, a 12 de Abril de 1931, a “Equipa das Quinas” perderia por 0-2. Mesmo assim, e apesar da derrota, o jogo embelezaria o currículo de João de Oliveira que, a partir daí, passava a envergar o estatuto de internacional.
O final dessa época acabaria por dar novo troféu ao Benfica. Com João de Oliveira em plano de destaque, o clube alcança, mais uma vez, a final do Campeonato de Portugal. Desta feita frente ao FC Porto, o clube lisboeta consegue mais uma vitória. O atleta benfiquista acabaria a temporada em plano de destaque, tendo sido o futebolista que, ao lado do seu colega Pedro Ferreira, mais partidas disputaria no cômputo das diferentes provas de 1930/31.

699 - MARIANO AMARO

É difícil ler algo sobre Mariano Amaro onde não venha referida a sua imagem de “alfacinha” boémio. Curiosamente, esse seu lado, nunca negado pelo mesmo, jamais haveria de servir de desculpa para que, no treino do dia seguinte, o seu afinco fosse menor. Essa sua entrega, constante durante todos os seus anos como futebolista, acabaria por servir de modelo a todos os seus colegas. Já o seu carácter generoso e, em muitas outras facetas, exemplar, fariam dele capitão e dos um dos mais amados no Belenenses.
Tendo começado a prática do futebol na colectividade lisboeta, o Sport Adicense, Mariano Amaro apareceria nas Salésias já perto de completar os 20 anos de idade. Sendo um extremo-esquerdo de origem, Artur José Pereira, no intuito de conhecer melhor as suas habilidades, decide experimentá-lo nas mais diversas posições. Guarda-redes, defesa ou avançado, por todos os lugares do campo haveria de passar. No entanto, acabaria por ser no miolo do terreno que mais se destacaria e onde, durante quase década e meia, faria carreira.
Sendo um dos ícones da história belenense, a este seu estatuto não é indiferente o facto de ter jogado durante os “anos de ouro” do clube. Mariano Amaro, pelos títulos conquistados, fará sempre parte das memórias do emblema da “Cruz de Cristo”. Todavia, recordá-lo apenas pelo Campeonato Nacional de 1945/46, pela Taça de Portugal de 1941/42 ou, até, pelos 2 Campeonatos de Lisboa que ajudaria a vencer (1943/44; 1945/46) seria, no mínimo, redutor. Para fazer justiça às suas qualidades de Homem e desportista, há que contar muito mais. Há que relatar a fidelidade que sempre mostrou ao clube; há que contar a os gestos que, mesmo tendo em conta os riscos que corria, não deixou de ter.
É verdade, Mariano Amaro, resultado das suas qualidades com futebolista, poderia ter tido uma vida mais confortável. Ainda assim, o aspecto financeiro, na hora de tomar a decisão, seria o que menos haveria de pesar. Quando o FC Porto o assediou, quando o Sporting o quis juntar ao seu plantel, ou, aquando do convite de Scopelli para jogar na Argentina, a resposta haveria de ser sempre a mesma – “Devo muitos favores ao meu clube, favores, creia, que muito dificilmente se pagam!”*.
Na selecção também haveria de ser grande. A estreia aconteceria a 28 de Novembro de 1937. Esse Espanha – Portugal que, por via da guerra civil no país vizinho, não seria reconhecido pela FIFA, acabaria por ser a primeira das suas 19 internacionalizações. Contudo, e apesar da importância de tal marca, seria outro duelo ibérico que ficaria na memória de todos. Desta feita jogado em Lisboa, no estádio do seu Belenenses, a contenda haveria de começar com um protesto. Na altura da saudação olímpica, eufemismo para “de extrema-direita”, 3 jogadores recusar-se-iam a tal cumprimento. Artur Quaresma, José Simões e Mariano Amaro seriam os protagonistas do referido “incidente” protocolar. Quaresma haveria de manter as mão atrás das costas, enquanto que os outros dois, ainda mais afoitos, ergueriam o braço direito, mas de punho cerrado.
Talvez os excessos que cometeu, na grande parte do seu percurso, não o tenham importunado muito. No lado direito do meio-campo, a naturalidade com que abordava todos os lances, impressionava até os mais habilidosos. Já a mestria dos seus passes ou a maneira excepcional como lia todo o jogo, eram apenas a confirmação do seu talento. Mas a falta de moderação que levava fora dos estádios, acabaria mesmo por pôr um fim à sua carreira. Já depois de, uns anos antes, ter sido obrigado a parar por detectadas insuficiências cardíacas, em 1948, na sequência de um episódio de cariz pulmonar, ser-lhe-ia diagnosticada tuberculose.
Ainda prometeria a todos que voltaria a jogar. Todavia, o regresso que tanto desejava, acabaria por nunca acontecer. Ao futebol continuaria ligado, mas já nas funções de treinador. No desempenho de tais tarefas, ficaria longe dos sucessos alcançados como praticante. Passou por diversos emblemas. Ainda assim, o tempo despendido aos comandos de Belenenses, “O Elvas”, Torreense, Oriental, Ac. Viseu, Sp. Covilhã ou Vitória de Guimarães, seriam apenas modestos contributos, por parte de alguém que muito já tinha dado ao futebol português.

*retirado da entrevista à revista “Stadium”, em 22 de Junho de 1938