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1801 - LÚCIO

Nascido no Brasil, mas com filiação portuguesa, Lúcio Soares desde cedo mostraria fortes aptidões para a prática do futebol. Depois de uma fase inicial, ainda com estatuto de amador, durante a qual representaria agremiações como o Estrelinha do Reduto, o Minas Atlético Clube de Manhumirim ou Fluvasan de Manhuaçu, a mudança para o Rio de Janeiro levá-lo-ia a encetar um percurso profissional. Primeiramente ao serviço da Portuguesa da Ilha do Governador, onde ficaria até ao ingresso no América (RJ), seria no último emblema mencionado, onde chegaria a ser treinado por Dorival Yustrich, que o defesa-central, depois de uma digressão europeia, chamaria a atenção do Sporting.
Com a mudança para Alvalade a ocorrer na temporada de 1959/60, Lúcio, ainda sob a batuta de Fernando Vaz, conseguiria logo fixar-se no “onze” dos “Leões”. A preponderância demonstrada nos desenhos tácticos da equipa, onde o forte pontapé e a exímia habilidade para a marcação de livres directos constituiriam motivo de grande destaque ao longo da sua carreira, levá-lo-iam a ser cogitado para a equipa nacional. Chamado por José Maria Antunes aos trabalhos da principal selecção portuguesa, o defesa-central estrear-se-ia com a “camisola das quinas”, a 27 de Abril de 1960. Com o arranque da caminhada internacional a dar-se num particular frente à Republica Federal da Alemanha, esse jogo, que teria como treinador de campo Otto Glória, serviria de arranque a uma caminhada que, com algum tempo de intervalo, teria continuidade cerca de um ano e meio depois. Tal reatamento empurrá-lo-ia para mais disputas com as cores lusas e o jogador embelezaria o currículo com um total de 5 partidas feitas ao serviço de Portugal e, como revelado no encetar dessa aventura, com um enorme sentido de brio – “Nem me pergunte se isso me dá prazer. Estou feliz e honrado mas sei que não sou o único. Lá longe, numa casinha em Niterói [arredores do Rio de Janeiro], onde deixei parte do meu coração, um homem e uma mulher devem ter chorado de alegria e de orgulho quando souberam que o seu filho fora chamado para defender as cores de Portugal. Nasci no Brasil, sim, mas sou português de direito e de sangue. Sabe, é que eu não sou estrangeiro, não”*.
Não só do trajecto internacional, no qual viria a tornar-se, a par de David Júlio, num dos primeiros naturalizados a representar Portugal, viveria a caminhada competitiva de Lúcio. Também no Sporting, o atleta saberia constituir-se como uma figura de referência no panorama desportivo da colectividade “alfacinha”. Curiosamente, após uma época de arranque bem auspiciosa, o defesa-central, numa segunda campanha, orientado pelo argentino Alfredo González, viria a perder a visibilidade alcançada de início. A importância desportiva viria a recuperá-la não muito tempo depois. Já restituído à titularidade, Lúcio transformar-se-ia num dos pilares de várias conquistas. O Campeonato Nacional de 1961/62 emergiria como o primeiro desses triunfos colectivos. Também a Taça de Portugal viria a enriquecer o seu palmarés. Na final de 1962/63, época em que mais vezes seria chamado a campo pelo Sporting, o jogador seria um dos escolhidos, por Juca, para defrontar o Vitória Sport Clube e, no Estádio Nacional do Jamor, um golo seu ajudaria à vitória por 4-0.
Outro importante triunfo alcançado enquanto membro do Sporting, seria a Taça dos Vencedores das Taças de 1963/64. Curiosamente, seria este importante marco que, tempos depois, levaria ao fim da ligação do jogador com os “Verde e Brancos”. A história conta-se depressa e no rescaldo da 1ª mão dos quartos-de-final da prova, derrota forasteira, por 4-1, frente ao Manchester United, o jogador, resultado de uma fraca exibição, acabaria acusado, pelos colegas de equipa, de uma enorme falta de compromisso. Após o tamanho desentendimento, o defesa-central ver-se-ia afastado da titularidade, substituído por Alexandre Baptista nas tarefas do sector mais recuado e com o termo da aludida temporada a trazer-lhe o fim da experiência enquanto atleta dos “Leões”.
Regressado ao Brasil, Lúcio ainda daria muito ao futebol. Contratado em 1964 pelo Flamengo da Varginha, o defesa-central, em 1967 regressaria, por pouco tempo, à Portuguesa do Rio de Janeiro. Por fim, voltaria ao emblema referido no começo deste parágrafo e após também exercer as funções de treinador-jogador, o final da sua carreira surgiria com o termo das provas agendadas para a campanha de 1971.

*retirado do artigo de Rui Miguel Tovar, publicado a 19/04/2021, em https://www.contacto.lu/

1733 - COUCEIRO

Apesar de natural de Tentúgal, Bento Silva Soares Couceiro haveria de ter no Sporting o termo do percurso formativo. Também no que diz respeito ao encetar da caminhada sénior, seria no emblema lisboeta que o jogador, inicialmente avançado para mais tarde passar a posicionar-se como defesa, daria os primeiros passos. Porém, nessa temporada de 1951/52, o jovem atleta apenas conseguiria um lugar no conjunto de “reservas”. A época seguinte, com o intuito de ganhar mais estaleca competitiva, passá-la-ia, na disputa da 2ª divisão, ao serviço do Luso do Barreiro. De regresso ao plantel dos “Leões”, a verdade é que a sorte alcançada na campanha de 1953/54 não seria diferente da obtida na experiência anterior e sem lugar na equipa principal, os empréstimos seguintes cumpri-los-ia na Serra da Estrela.
A chegada ao Sporting da Covilhã em 1954/55 daria a oportunidade a Couceiro de fazer a estreia no escalão máximo do futebol português. Treinado por János Szabó, depressa o defesa conseguiria assegurar um lugar na canhota do sector mais recuado. A preponderância conquistada com a titularidade, faria do jogador um dos pilares daquela que viria a ser a melhor posição de sempre dos “Serranos”. Com a agremiação beirã a terminar o Campeonato Nacional de 1955/56 no 5º posto da tabela classificativa, a importância desse feito, lado-a-lado com as suas excelentes prestações, assegurar-lhe-iam o regresso a Lisboa. No entanto, a temporada de 1956/57 resultaria em números bem aquém do esperado e o atleta poucas vezes apareceria em campo pelos “Verde e Brancos”.
Já a título definitivo, Couceiro voltaria à “Capital dos Lanifícios” para, na temporada de 1957/58, passar a integrar o plantel dos “Leões da Serra”. De novo a jogar em casa no Estádio José dos Santos Pinto, o defesa apanharia o clube afastado do convívio com os “grandes”. Ainda assim, a disputa do escalão secundário seria de pouca dura para a colectividade. Campeões da 2ª divisão, a campanha de 1958/59 marcaria o regresso dos homens da Beira Baixa à prova de maior monta no calendário luso de futebol. A mencionada subida de patamar permitiria ao jogador, ao consagrar-se como uma das grandes figuras do “onze” idealizado pelos diferentes treinadores, somar ao currículo outras 4 épocas primodivisionárias. Tal registo permitir-lhe-ia sublinhar o seu nome – ainda hoje o registo é válido – como um dos atletas com mais presenças no degrau máximo, pelo Sporting da Covilhã. Ainda assim, esse não seria o maior reconhecimento dado ao atleta. Nesse sentido, a braçadeira de capitão, entregue à sua responsabilidade, tornar-se-ia num dos maiores prémios concedidos à sua carreira. Por fim, sinal também do seu valor, falta referir a chamada, ao lado de José Rita e de Fernando Cabrita, aos treinos da selecção nacional, pela qual, infelizmente, nunca chegaria a entrar em campo.
Após mais um par de épocas a representar o Sporting da Covilhã, anos cumpridos novamente na 2ª divisão, Couceiro deixaria os “Leões da Serra” para, em 1964/65, como atleta e também como treinador, passar a envergar as divisas do Gouveia. Por fim, segundo algumas fontes, informação que não consegui confirmar, Couceiro, como técnico, ainda teria experiências à frente de colectividades como a AD Fornos de Algodres, Mangualde, Académico de Viseu e AD Guarda.

1678 - IAÚCA

Beira-Mar, Desportivo de Benguela e Sporting de Catumbela seriam os clubes que, na Angola dos primeiros anos da sua caminhada competitiva, lançariam para o estrelato o avançado António Fernandes, popularizado pelo apelido Iaúca – “Herdei a alcunha do meu avô e gosto muito dela. Mas não se escreve Yaúca, escreve-se Iaúca, com I, tal como ele escrevia”*.
Como um atleta veloz, com um bom drible e com um enorme sentido goleador, a fama de Iaúca depressa começaria a despertar os interesses dos maiores emblemas da metrópole. Nessa corrida pelos seus préstimos, à frente apareceria o Sporting. Depois, com uma proposta mais tentadora, viriam as “Águias” e finalmente surgiria o emblema que conseguiria convencer o atleta a deixar a família – “Se não fosse a rápida interferência do capitão Soares da Cunha eu tinha ingressado no Benfica. Felizmente acabei por ir para o Belenenses. E digo felizmente, porque sinto orgulho no meu clube e encontrei nele uma camaradagem e um espírito de solidariedade que me impressionou profundamente”**.
Curiosamente, não consegui descortinar, de forma segura, a época da chegada do avançado à agremiação “alfacinha”. Há fontes a garantirem-nos a entrada de Iaúca na temporada de 1957/58. Por outro lado, não parece haver qualquer tipo de dúvida quanto à participação do jogador, pelos “Azuis”, nas provas agendadas para 1958/59. Aquilo que aparenta ser igualmente certo é dizer-se do enorme impacto que a sua contracção haveria de ter nos esquemas tácticos do Belenenses. Nesse sentido, num plantel a contar, só para o sector ofensivo, com Matateu, Dimas, Martinho ou Tonho, o avançado, que podia exibir-se no centro ou nas pontas do ataque, depressa convenceria Fernando Vaz da mais-valia da sua titularidade.
Como um dos membros mais importantes do “onze” do Belenenses, a projecção de Iaúca levá-lo-ia, com naturalidade, a ser chamado às pelejas da selecção nacional. O avançado que, durante a caminhada competitiva, também envergaria as divisas dos “esperanças” e do conjunto “B”, teria a estreia com a principal “camisola das quinas” a 11 de Novembro de 1959. Após essa partida frente a França, chamado ao desafio gaulês por José Maria Antunes, o atacante continuaria nos planos de Portugal. Apesar de apenas ter voltado a representar o agregado luso sensivelmente 1 ano e 4 meses depois, o atleta, na segunda aparição, brindaria o Luxemburgo com um “hat-trick”. Daí em diante e com maior regularidade, o avançado somaria mais jogos e conseguiria, para o currículo, um total de 10 internacionalizações “A”.
A preponderância nos desempenhos colectivos do Belenenses levá-lo-ia a viver momentos de enorme importância para o clube. O primeiro desses feitos viria com a edição de 1959/60 da Taça de Portugal, na qual, chamado por Otto Glória, marcaria presença na final disputada no Jamor e ajudaria, frente ao Sporting, à vitória dos “Azuis”. Mais à frente, emergiria o arranque dos homens do Restelo nas competições de índole continental. Nessa estreia, alcançada no âmbito da Taça das Cidades com Feira de 1961/62, Iaúca entraria em campo em ambas as mãos frente ao Hibernian. Já na época seguinte, na disputa da mesma prova, o avançado participaria na ronda com o FC Barcelona e contribuiria para os dois inesquecíveis empates conseguidos frente aos “Culés”.
Com a cotação a subir acentuadamente, Iaúca, no reavivar de um “namoro” antigo, encetaria negociações com o Benfica, com vista à sua mudança para a Luz. Depois do pagamento de bem mais de 2000 contos, à altura o recorde português para uma transferência, o jogador chegaria às “Águias” para integrar o plantel de 1963/64. Nesse primeira época com os “Encarnados”, mesmo no seio de tantas estrelas, o jogador manter-se-ia como uma figura influente. Todavia, daí em diante, o avançado quase desapareceria das intenções tácticas dos diferentes treinadores e no final da temporada de 1967/68, com o palmarés recheado pelas conquistas de 4 Campeonatos Nacionais e de outra Taça de Portugal, o atacante daria um novo rumo à carreira.
À procura de outros desafios, Iaúca, acompanhado por Germano, Santana e Melo, seria apresentado, na campanha de 1968/69, como reforço do Salgueiros. No emblema da cidade do Porto ainda jogaria na época seguinte. Depois viria a passagem pela América do Norte, onde, nas épocas de 1969 e de 1970, ao lado de Matateu e de Uria, integraria os planteis do First Portuguese vencedores das referidas edições da Canadian National Soccer League. Finalmente, o regresso a Portugal, para representar o Famalicão de 1970/71.

*retirado do artigo de Afonso de Melo, publicado a 31/03/2021, em https://ionline.sapo.pt
**retirado da revista “Ídolos do Desporto – 2ª série, nº3”, publicada a 31 de Outubro de 1959

1632 - CARAÇA

António Joaquim Caraça começaria no futebol, na temporada de 1949/50, ao serviço dos juniores do Juventude de Évora. Com um brilhante trajecto no Campeonato Nacional da categoria, campanha a levar o emblema alentejano até às meias-finais, as prestações do jovem ponta-de-lança alimentariam a cobiça de outras agremiações. CUF, Lusitano de Évora, Vitória Futebol Clube e Benfica surgiriam como os principais interessados na sua contratação. Porém, seriam as “Águias” a convencer o avançado a mudar de camisola e o jogador, a partir da época de 1950/51, passaria a envergar as divisas dos “Encarnados”.
No Benfica, na campanha de estreia, Caraça passaria a dividir o tempo entre os juniores e as reservas. Já a temporada de 1951/52, num grupo inicialmente orientado por Ted Smith e depois por Cândido Tavares, corresponderia à época de arranque no seu trajecto enquanto futebolista sénior. No entanto, apesar da inegável qualidade, sublinhada pelo poderio físico, pela astúcia e pela mobilidade dentro da grande-área, o avançado-centro apenas viria a mostrar-se nas “reservas” e em jogos amigáveis. Tal ocaso, provocado essencialmente pela presença de José Águas, levá-lo-ia a mudar-se para o Minho e, acompanhado na viagem por José da Costa e Cesário, seria apresentado como reforço do plantel de 1952/53 do Vitória Sport Clube.
Na “Cidade Berço”, numa campanha que até começaria sob a intendência do magiar Sándor Peics, Caraça voltaria a trabalhar com Cândido Tavares. Ao integrar-se, com distinção, no esquema táctico da colectividade sediada em Guimarães, o ponta-de-lança rapidamente passaria a ser tida como uma das principais figuras do clube. Nessa temporada de entrada no Campo da Amorosa, o atleta, para além de totalista no Campeonato Nacional da 1ª divisão, viria igualmente a consagrar-se como o goleador máximo da equipa. Também a época seguinte seria de grande relevo e, mais uma vez, o jogador conseguiria ser o melhor marcador do Vitória Sport Clube.
Já aferido como um dos grandes atacantes a disputar as provas lusas, Caraça envolver-se-ia numa polémica transferência. Cobiçado pelo Lusitano de Évora, o avançado-centro, na pré-época de 1954/55, acabaria por não marcar presença no arranque dos trabalhos do Vitória Sport Clube. Sem qualquer autorização, por parte da agremiação minhota, para que negociasse uma possível mudança, seria através de um emprego oferecido na Câmara Municipal de Évora que o ponta-de-lança forçaria a desvinculação com os “Conquistadores”. Apesar dos protestos, o regresso à sua cidade natal dar-se-ia mesmo e seria de verde e branco que o jogador prosseguiria a caminhada no futebol.
Ao ingressar no Lusitano de Évora em 1954/55, Caraça voltaria a trabalhar com Cândido Tavares. Com a colectividade alentejana a viver os anos de ouro da sua história, o atacante, quase sempre como titular, manter-se-ia na disputa do escalão máximo e acabaria a participar em momentos de grande importância para o clube eborense. Nesse campo, destaque para o 5º lugar alcançado como o fim do Campeonato Nacional de 1956/57, melhor classificação de sempre para o listado verde e branco, ou as meias-finais atingidas na edição de 1958/59 da Taça de Portugal.
Para além dos capítulos já aludidos, a passagem de Caraça pelo Campo Estrela traria à caminhada competitiva do ponta-de-lança outros focos de interesse. Um deles seriam as 11 campanhas primodivisionárias vividas com o emblema alentejano. Ora, tamanha quantidade de temporadas resultariam num número igualmente elevado de partidas disputadas, pelos “Giraldos”, naquele que é o patamar maior do futebol luso. Nessa longa senda, que viria a terminar com o fecho das provas agendadas para 1964/65, o jogador disputaria 221 jornadas na 1ª divisão e tornar-se-ia no 5º atleta do Lusitano de Évora com mais desafios cumpridos no contexto da principal prova do futebol português.

1354 - CRISPIM

Apesar de ter completado uma boa parte da formação com as cores do Sporting, seria já como atleta da Académica que o avançado terminaria o percurso nas camadas jovens. Paralelamente, a caminhada feita pelo atacante nas equipas à guarda da Federação Portuguesa de Futebol dividir-se-ia entre o tempo do atleta em Lisboa e a posterior chegada a Coimbra. Com a “camisola das quinas”, num total de 10 internacionalizações, o extremo participaria, por duas vezes, no Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Depois da presença no certame de 1960, o destaque acabaria por ir para a edição do ano seguinte, organizada em Portugal. Num grupo seleccionado por David Sequerra e treinado por José Maria Pedroto e ao lado de nomes como Simões, Serafim, Peres, Carriço, Oliveira Duarte entre outros que viriam a brilhar no desporto luso, Crispim assumiria um papel de grande destaque. Para além de entrar em campo em todas as pelejas, teria também a responsabilidade de envergar a braçadeira de capitão e haveria, concluída a final no Estádio da Luz, de ser ele a erguer o troféu entregue pela vitória na competição.
No que ao percurso clubístico diz respeito, Crispim passaria a trilhar um percurso louvável. Com a carreira sénior dedicada exclusivamente à Académica, o extremo depressa assumiria um papel de grande relevância no plantel da “Briosa”. Depois da estreia na equipa principal a acontecer na temporada de 1961/62 e sob a alçada do treinador Alberto Gomes, a maneira como viria a contribuir para os sucessos colectivos empurrá-lo-ia para a galeria de notáveis do emblema conimbricense. Nesse campo, é impossível esquecer aquelas que terão sido, provavelmente, algumas das melhores campanhas realizadas pelos “Estudantes”. Assim, na época de 1966/67, o atacante tornar-se-ia num dos pilares do 2º posto conseguido ao termo do Campeonato Nacional. Também na Taça de Portugal, ainda nesse ano, o avançado mostraria a sua importância e, com a equipa a marcar presença na final agendada para o Estádio Nacional do Jamor, acabaria arrolado, por Mário Wilson, para o “onze” que, infelizmente para os de Coimbra, não conseguiria derrotar o Vitória Futebol Clube.
Mesmo um pouco tapado pelos outros colegas de balneário, Crispim também faria parte do plantel de 1968/69 que, mais uma vez, atingiria a final Taça de Portugal e que, frente ao Olympique de Lyon, marcaria a estreia da Académica nas competições continentais. Porém, o número mais impressionante da sua carreira desportiva, a revelar uma enorme dedicação à agremiação estudantil, seria dado pelos 30 anos de entrega ao clube. Depois de 10 temporadas, todas primodivisionárias, com a camisola negra, o antigo avançado passaria a dedicar-se às tarefas de treinador. Numa caminhada passada maioritariamente aos comandos das camadas jovens da “Briosa”, onde chegaria a orientar, a exemplo, Sérgio Conceição, o destaque maior acabaria por ir para as campanhas em que seria chamado, como técnico-principal, a comandar a equipa sénior do Calhabé.

1273 - FRANÇA

Descoberto pelo Sporting ainda em idade adolescente, António dos Santos França deixaria Angola no início da segunda metade da década de 1950, para integrar a equipa de juniores dos “Leões”. Aferido como um atleta promissor, depois da campanha anterior a jogar pelas “reservas” leoninas, o médio chegaria à equipa principal na temporada de 1958/59. Estrear-se-ia na 1ª divisão pela mão do treinador uruguaio Enrique Fernández. No entanto, a presença de atletas como David Júlio ou Fernando Mendes não daria à evolução do jovem futebolista muitas oportunidades. Sem espaço no plantel “verde e branco”, o termo da época de 1959/60 conduzi-lo-ia ao fim da ligação com o emblema lisboeta e traria à sua vida a cidade de Coimbra.
Os dois anos passados na Académica seriam suficientes para pô-lo não na história do futebol da “Briosa”, mas nos anais da pátria natal. Apesar de conseguir destacar-se como um médio de boa técnica e com qualidades suficientes para alimentar uma carreira desportiva de excelência, os interesses de França levá-lo-iam noutro sentido. Membro do MPLA na clandestinidade, as manifestações estudantis em Coimbra fariam com que a PIDE começasse a monitorizar, de forma mais apertada, todos os seus movimentos. Juntamente com Chipenda, José Júlio e Araújo, seus colegas de equipa e também militantes nas lutas pela independência das antigas colonias portuguesas, escaparia ao apertado cerco montado pela polícia política e, à “boleia” de uma traineira algarvia, conseguiria fugir para África.
Ao transformar-se numa importante figura da luta pela libertação de Angola, França, que passaria a ser conhecido como Ndalu, entraria numa fase da vida bastante peculiar. Antes ainda da independência da sua nação, seria enviado para Cuba, como bolseiro, para estudar agronomia no  Instituto Superior de Ciências Agropecuárias de Havana. Com a travessia do Atlântico, ajudaria também à consolidação da emblemática revolução e, como reconhecimento pelo seu envolvimento, ser-lhe-ia concedida a nacionalidade cubana. Esse passo, após regressar à actividade futebolística ao serviço de agremiações sediadas na referida ilha antilhana, levaria o médio a aceitar o convite da selecção e a tornar-se internacional pelo país liderado por Fidel Castro.
De regresso à pátria-mãe, principalmente depois da independência, António França Ndalu transformar-se-ia num dos nomes mais importantes do contexto político e militar daquele país africano. Ao assumir altos cargos nos destinos internos da nação angolana, também conseguiria destacar-se como um prestigiado diplomata. Nesse sentido, para além dos papéis em diferentes contextos negociais, como é exemplo o badalado Acordo de Bicesse, o apelidado “General dos generais” tornar-se-ia no primeiro embaixador de Angola nos Estados Unidos da América.
Sem nunca conseguir deixar de lado a paixão pelo futebol, França seria um dos principais impulsionadores da fundação do Clube Desportivo 1º de Agosto e acabaria por tornar-se no primeiro Presidente da colectividade ligada ao Exército de Angola. Noutro sentido, de volta ao emblema leonino, faria parte da Comissão de Honra do Centenário do Sporting Clube de Portugal.

1257 - HUMBERTO FERNANDES

Saído dos escalões formativos do Sport Lisboa e Benfica, Humberto Fernandes transitaria para o patamar sénior na temporada de 1957/58. Tido como um defesa seguro e dotado de uma técnica não tão usual para os futebolistas da sua posição, o atleta, inicialmente inserido na equipa de “reservas”, chegaria ao conjunto principal das “Águias”, lançado pelo treinador Otto Glória, na campanha de 1958/59.
Essa partida a contar para o Campeonato Nacional acabaria por não ter continuidade. Aliás, a sua carreira, aferida aos olhos de hoje, erguer-se-ia numa caminhada bem peculiar. Apesar de, como sénior, ter cumprido mais de uma década de “Águia” ao peito, a verdade é que Humberto Fernandes raramente sairia da sombra de outros colegas. Mesmo tendo em conta um total de partidas oficiais disputadas pelo Benfica pouco condizente com o já referido número de temporadas passadas na “Luz”, também não é menos certo dizer-se que tamanha dedicação traria ao palmarés do jogador um importantíssimo rol de títulos.
Com 6 Campeonatos Nacionais e 4 Taças de Portugal a embelezarem o seu currículo, a ajuda dada em ambas as mãos da eliminatória frente ao Áustria de Viena, dar-lhe-ia a honra de figurar na lista de vencedores da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1961/62. Todavia, para além das distinções relatadas no início deste parágrafo, o atleta participaria ainda em diversos momentos de monta. Mesmo não tendo conseguido auxiliar o clube na conquista de nenhuma das edições, Humberto Fernandes entraria em campo nas duas participações do Benfica na Taça Intercontinental. Já esses jogos frente ao Peñarol e ao Santos, não seriam as únicas finais disputadas pelo jogador. No contexto de desafios decisivos, mais uma vez assombrados os momentos pelas derrotas dos “Encarnados”, o defesa também seria chamado à ficha de jogo contra o Inter de Milão e o Manchester United, respectivamente nas participações do emblema português nas derradeiras partidas da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1962/63 e de 1967/68.
Sem nunca ter marcado um único golo em jogos oficiais pelas “Águias”, as 88 partidas feitas nesses preceitos, também seriam um parco número para quem tanto tempo dedicou ao mesmo clube. Ainda assim, é incontornável continuar a frisar que Humberto Fernandes teve a capacidade de, anos a fio, alimentar um lugar em diferentes grupos de trabalho que, ao disputarem as maiores provas a nível mundial, escreveram com letras de ouro as mais importantes páginas da história desportiva do futebol benfiquista.
Reconhecida sua entrega e tido como um grande exemplo para todos os colegas, o atleta acabaria por envergar no seu braço a faixa de “capitão”. Com tudo o que já foi dito, ainda assim, a sua ligação ao Benfica também haveria de conhecer o fim. Ao deixar os “Encarnados” com o terminar da temporada de 1969/70, Humberto ainda prolongaria a caminhada futebolística por mais uns anos. Para além da passagem pelo Estrela de Portalegre, onde voltaria a trabalhar ao lado de Mário Coluna, há registos que veiculam, sem que tenha conseguido confirmar fidedignamente as fontes, a sua posterior ligação ao Sport Lisboa e Cartaxo.

1216 - OLIVEIRA DUARTE

Ao crescer nas “escolas” do Sporting, Oliveira Duarte cedo começaria a destacar-se como um jogador de capacidades superiores. A servir de aferição à qualidade demonstrada nos jovens conjuntos “leoninos”, surgiria a chamada por parte de David Sequerra à, agora denominada, equipa de sub-18 da Federação Portuguesa de Futebol. Ao envergar a “camisola das quinas”, com José Maria Pedroto como treinador de campo, o avançado marcaria presença em todas as partidas do Torneio Internacional de Juniores de 1961. O extremo canhoto destacar-se-ia como um dos titulares lusos e, com isso, tornar-se-ia num dos principais elementos da conquista lusa no certame organizado em Portugal.
Na temporada seguinte à da vitória aludida no parágrafo anterior, Oliveira Duarte seria chamado aos trabalhos da equipa principal do Sporting. A estreia, numa partida a contar para a Taça de Portugal frente ao Oriental, traria também ao currículo do jovem atleta o primeiro golo sénior. No entanto, apesar de um arranque auspicioso, as poucas partidas disputadas nessa época de 1961/62, levá-lo-ia a pensar no futuro de maneira diferente. Com outras ambições para além do sucesso desportivo, o atacante, com os estudos em mente, decidiria prosseguir a carreira futebolística na cidade de Coimbra. Na Académica, sem largar a 1ª divisão, entraria em 1962/63. Ao reencontrar-se com José Maria Pedroto e, mais tarde, ao trabalhar sob a alçada de Mário Wilson, o atacante realizaria campanhas de muito bom nível. As avaliações feitas ao seu desempenho, levariam os responsáveis do Sporting a assegurá-lo como um reforço seguro e o verão de 1965 marcaria o seu retorno a Alvalade.
Depois da titularidade assumida com as cores da “Briosa”, no regresso a Lisboa, Oliveira Duarte continuaria a merecer um lugar no “onze” inicial. A preponderância assumida durante a temporada de 1965/66, transformá-lo-ia numa das principais figuras do Sporting na conquista do Campeonato Nacional dessa época. Por razão do título vencido, chegaria a estar pré-convocado para o Mundial de 1966, mas, no momento de compor a comitiva final, seria preterido por outros atletas. Conseguiria, alguns meses depois do certame realizado em Inglaterra e da chamada à equipa “B” de Portugal, merecer a primeira internacionalização “A”. Com a dupla Manuel de Luz Afonso e Otto Glória ainda à frente da selecção nacional, a 13 de Novembro de 1966, numa partida de qualificação para o Euro 68, o extremo-esquerdo entraria em campo frente à Suécia.
Numa altura em que já era visto como um dos grandes nomes a actuar em Portugal, o Serviço Militar Obrigatório e o destacamento para a Guerra Colonial, levá-lo-ia até África. Em Angola, em paralelo com os deveres marciais, Oliveira Duarte passaria a envergar a camisola do Sporting de Luanda. De volta às lides do “Leão” “alfacinha” na temporada de 1968/69, o atacante daria de caras com a presença de atletas em franca afirmação. A competição levada a cabo pela integração no plantel de elementos como Dinis, empurraria o atacante para uma linha de opções secundárias. Com a falta de partidas disputadas, a “Cidade dos Estudantes”, a Académica de Coimbra e a conclusão do Curso em Agronomia, passariam a figurar no seu horizonte como o caminho a seguir. Pela “Briosa” jogaria as 3 últimas épocas da carreira, pondo, em 1973, fim à caminhada como atleta. Anos mais tarde, ao integrar a “entourage” de João Amado de Freitas, regressaria ao emblema “Verde e Branco” para ocupar o lugar de Director do Departamento de Futebol.

892 - JORGE HUMBERTO

Era ainda um aluno do liceu quando, na Académica do Mindelo, começa a dar os primeiros chutos na bola. A vontade de continuar os estudos e a ilusão de poder construir um futuro no futebol, levá-lo-ia a querer mudar-se para Coimbra. Juntamente com dois amigos, tal como ele de famílias modestas, decidem ir falar com o Governador de Cabo Verde e pedir ajuda. O auxílio chegaria na forma de bolsa que, a dividir pelos três rapazes, tinha duração de apenas 6 meses.
Mesmo com tão escasso recurso, os amigos não pensaram duas vezes. Viajam para Portugal e, aí chegados, dão forma aos seus sonhos. Todavia, para Jorge Humberto havia algo mais a perseguir. Feitas provas na “Briosa”, a velocidade que apresentava em campo, a força física e a facilidade com acertava nas balizas adversárias abrir-lhe-iam um lugar nos juniores da equipa conimbricense. Já no campo académico, a dúvida entre Engenharia e Medicina depressa desapareceria. O atleta decidir-se-ia por atacar a vida de médico e, entre os livros e as chuteiras, lá ia alinhavando o seu futuro.
Pertencendo a uma das mais brilhantes gerações da Académica de Coimbra, onde a figura do atleta-estudante era a alma da equipa, Jorge Humberto chega à primeira categoria. Maló, Manuel António, os irmãos Mário e Vítor Campos ou Artur Jorge seriam alguns dos nomes que o acompanhariam nessa aventura. Em 1956/57, Cândido de Oliveira dá-lhe a oportunidade de fazer a estreia pela equipa principal. Contudo, o azar bate-lhe à porta e a grave lesão contraída nesse jogo chega a pôr a sua carreira em causa. Recupera. Ainda volta aos juniores, mas a sua qualidade, de tão inegável que era, não o afastaria por muito mais tempo dos grandes palcos do futebol.
Já no rescaldo da temporada de 1960/61, e em plena época de exames, Jorge Humberto recebe um telefonema estranho. Do outro lado da linha, convidando-o a juntar-se ao Inter de Milão, apresentava-se o treinador Helenio Herrera. Acreditando tratar-se de uma partida, o avançado desligaria a primeira chamada. Perante a insistência de quem ligava, foi então que o jogador decide pedir que asseverassem a veracidade de tal conversa, com o envio de um telegrama. A confirmação chegaria pouco tempo depois e a surpresa daria lugar a um sentimento arrebatador.
Em Milão, para onde viajaria a fim de jogar uma partida amigável, o avançado causaria boa impressão. Os golos marcados ao Spartak assegurar-lhe-iam um lugar no meio de atletas como Sandro Mazzola, Giacinto Facchetti ou Lorenzo Buffon. Mesmo tendo características que agradavam ao já referido técnico argentino, a verdade é que a limitação de dois estrangeiros imposta pela liga italiana, influenciaria a afirmação do atacante. Com o espanhol Luis Suárez e o inglês Gerry Hitchens à sua frente, Jorge Humberto poucas oportunidades conseguiria durante a temporada passada com as cores “Nerazzurri”. Seguir-se-iam dois anos no Vicenza. Todavia, a vontade de terminar o curso de medicina sobrepor-se-ia à proposta para continuar no “calcio”, acabando o atleta por regressar a Portugal.
Depois de 2 mais épocas na Académica, a decisão de pôr um ponto final na carreira de futebolista precipitar-se-ia com o surgimento de uma grave lesão. Nesse mesmo de 1966, termina também o curso. Depois veio o destacamento para a guerra em Angola e o adiar de mais um sonho. Essa meta, a da especialização em Pediatria, conclui-la-ia passados alguns anos. Desde então, essa tem sido a sua ocupação, a qual, nos anos 80, levá-lo-ia a mudar-se para Macau.